Mostrar mensagens com a etiqueta Ricardo Araújo Pereira. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Ricardo Araújo Pereira. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Livros (lidos ou em vias disso)

"(...) A águia ouviu o relato do falcão sobre a necessidade de introduzir as artes e as ciências na herdade e não compreendeu de imediato. Pôs-se a grasnar e a raspar com as unhas, e os seus olhos, como seixos polidos, tornavam-se lustrosos ao sol.

Nunca tinha lido nenhum jornal; não se interessava nem por Baba-Iagá, nem por bruxas, e sobre o rouxinol somente tinha ouvido uma coisa: era um pássaro pequeno e não valia a pena sujar o bico por sua causa.

- Se calhar nem sabes que o Bonaparte morreu - disse o falcão.

- Quem é esse Bonaparte?

- Aí está. Não te faria mal saberes isso. Os convidados vão chegar, conversar e dizer: <<Isso ocorreu nos tempos de Bonaparte>>, e tu vais simplesmente pestanejar. Não é bom.

O mocho foi convocado para a assembleia e acabou por confirmar a necessidade de introdução das ciências e das artes entre a criadagem, pois com elas até as águias têm uma vida mais divertida - e atribuem inclusive um certo estatuto. A aprendizagem é luz e a ignorância são trevas. Cada um é capaz de encher o papo e dormir, mas quando chega a altura de resolver o <<Voava um bando de gansos ...>>, quem será capaz de responder? Antigamente, acontecia que os senhores de terras sábios trocavam dois analfabetos por um instruído: significa que nisso havia proveito. Olhem para o lugre: é todo ele ciência, sendo até capaz de trazer o baldinho com a água, mas quanto dinheiro não cobra por isso!

- A mim, apelidaram-me de sábio porque consigo ver na escuridão - disse o mocho. - E tu és capaz de olhar para o sol horas a fio sem pestanejar, mas sobre ti dizem: <<A águia é ágil mas papalva.>>

- Bem, não tenho nada a opor às ciências! grasnou a águia.

Dito e feito. No dia seguinte, na casa da águia começou a Idade de Ouro entre a criadagem. Os estorninhos aprendiam de cor o hino As ciências alimentam os jovens, os codornizões e os mergulhões afinavam as trombetas, os papagaios aprendiam novos truques. Os corvos foram obrigados a um imposto novo chamado <<educativo>>; para os jovens falcões e açores organizou-se o corpo de cadetes; para as corujas, os mochos e os bufos inaugurou-se a academia de ciiance e, a propósito, foram comprados Ásbuka-Kopéika para os corvos. Finalmente, o estorninho mais velho foi nomeado poeta, sob o nome de Vassili Kirilych Trediakovski, e ordenaram-lhe que se preparasse para competir com o rouxinol no dia seguinte.

Então, chegou o dia ansiado. Os recrutas foram colocados diante da águia e ordenaram-lhes que se vangloriassem.

O dom-fafe teve o maior sucesso. Em vez de uma saudação, recitou um folhetim satírico de conteúdo tão superficial que até a águia julgou ter compreendido. O dom-fafe declarou que se devia viver bem e a águia confirmou: <<Exaltamente!>> Disse que só lhe interessava que as suas vendas a retalho corressem de feição, e quanto ao resto pouco lhe importava, e a águia confirmou: <<Exaltamente!>> Acrescentou ainda que os criados vivem melhor do que o proprietário, porque o proprietário tem de pensar em tudo, enquanto os criados não têm nenhuma preocupação com o seu amo, e a águia confirmou: <<Exaltamente!>> Disse que, antigamente, quando tinha vergonha, o dinheiro não lhe chegava para comprar calças, e agora que não lhe sobra um pingo de vergonha, anda com dois pares de calças ao mesmo tempo, e a águia confirmou: <<Exaltamente!>> Por fim, o dom-fafe tornou-se enfadonho. (...)"

A águia-mecenas
Mikhaíl Saltykóv-Shchedrín (1884)
Antologia de contos satíricos e humorísticos russos
Colecção de Ricardo Araújo Pereira
Tinta da China (2025)

sexta-feira, 14 de novembro de 2025

Convívio

Não concordo muito com a proliferação dos "Dias" disto e daquilo, por razões várias, uma das quais tem a ver com a banalização de tudo e de nada. Porém, hoje é o Dia Mundial da Diabetes e esta moléstia, por si só, justifica que me dobre e me renda à evidência da necessidade de estarmos atentos ao problema. Muitos especialistas consideram que a Diabetes se está a tornar um caso preocupante de saúde pública, a juntar a muitos outros que por aí andam.

A pouca experiência diz-me que não é uma doença "fácil", pela cobardia de que faz uso, não se mostrando e dando poucos sinais de alerta. Para agravar, os portadores dominam a arte da dificuldade em conviver com "é melhor não" perante gulodices apetecíveis e de recordações infinitas.

São demasiados hidratos, bolos nem pensar, que não os há sem açúcar, chocolate, só do negro e poucochinho, três peças de fruta diárias já é demais, um cacho de uvas, longe, bem longe, meia dúzia de figos moscatel, um crime, uma tangerina e já vais com sorte, legumes, legumes.

Valha-nos o RAP que, como sempre, demonstra no seu último livro de crónicas - Mundo, pára quieto - , que "rir é o melhor remédio".

Tentemos ceder apenas a esta tentação ... 

segunda-feira, 27 de outubro de 2025

Livros (lidos ou em vias disso)

"(...) O problema e a razão pela qual esta atitude causa tanta estranheza, é que o coração tem um prestígio inexplicável. Ora, o coração, recordo, é uma bomba hidráulica. Uma aborrecida, burocrática, e fabril bomba hidráulica. Suga sangue por um lado, esguicha sangue pelo outro. Não sente nada, não ama coisa nenhuma. É um músculo. No entanto, exerce sobre as pessoas um fascínio incompreensível. Sobretudo em comparação com o cérebro, que tem muito má fama. O coração é sempre santo, o cérebro é sempre diabólico. Às vezes, alguém diz <<agora eu vou falar do coração>>, como se fosse uma coisa boa. Eu respondo sempre: <<Não, obrigado. Fala do cérebro, que eu prefiro.>> Falar do coração, normalmente, significa exprimir sentimentos inalterados pelo raciocínio. Ou seja, é dizer coisas sem pensar. É uma opção muito comum em quem devia ter preparado um discurso mas não esteve para se dar ao trabalho. Transforma a preguiça e a falta de consideração pelos outros em <<honestidade>> e <<franqueza>> (uma operação bastante indecente que o coração patrocina a toda a hora) e fala de improviso. Eu desconfio demasiado dos meus sentimentos para os exprimir dessa maneira. De vez em quando sinto coisas que, pensando bem, são absurdas. Mas é curioso que o coração nunca tem culpa. Há sempre uma maneira de atribuir a responsabilidade dos sentimentos desagradáveis ao cérebro. <<Sim, ele disse isso, mas estava de cabeça quente.>> A culpa é do cérebro. O coração é sempre puro. Comigo não contam para esta mistificação. (...)"

Coisa que não edifica nem destrói - Vol. II
Ricardo Araújo Pereira

sábado, 6 de outubro de 2018

Livros (lidos ou em vias disso)

Ler, dizia-se hoje em Óbidos, é uma actividade que exige um trabalho enorme do nosso cérebro. Esse trabalho é, na maioria das vezes, completamente inglório, por não se conseguir opinião igual nos leitores e, muito menos, que ela seja coincidente com a do respectivo autor. E, lugar comum, o mesmo livro provoca reacção diferente na mesma pessoa se lido (relido) em tempos diferentes.
Deixem-se as coisas sérias e as opiniões mais ou menos filosóficas e veja-se como é possível escrever verdades tão duras com um humor genial.

LUTA DE CLASSES VOCABULAR

"Certas palavras têm mais prestígio do que outras. A palavra desfalque olha de cima para a palavra roubo - e, por isso, o elegante autor de um desfalque distingue-se de um vulgar ladrão. As sentenças judiciais costumam ser bem mais pesadas para o segundo, por pouco que ele roube, do que para o primeiro, por mais que ele desfalque. Ora, a minha vida decorre inteiramente num universo lexical desprovido de prestígio. Tirando fugazes momentos em que, no entender de certos operadores de telemarketing, eu sou um cavalheiro, na esmagadora maioria do tempo eu sou um gajo. Todas as palavras usadas para me descrever a mim e ao meu mundo são triviais. Por exemplo, na última ceia, Nosso Senhor Jesus Cristo bebeu por um Graal. Nunca me aconteceu. Os meus amigos e eu, quando jantamos, bebemos sempre por copos. Nunca vamos tomar uns grais. São sempre vulgares - e, por vezes, plásticos - copos. Muito provavelmente, também não terei um solene leito de morte. Como é óbvio, durmo numa cama. Devo morrer lá. Outro exemplo: nos livros, as personagens retiram-se com muita frequência para os seus aposentos. Eu vou para o meu quarto. Quando os meus pais (quando eu era pequeno), ou a minha mulher (agora) me põem de castigo, é para o quarto que me mandam.
Sucede que as palavras determinam a qualidade das coisas. Às vezes vou a um desses novos restaurantes em que os pratos levam dez linhas a descrever. No meu tempo não era assim. Os pratos eram designados por uma palavra só. Feijoada. Chanfana. Cozido. Hoje sinto que me falta formação académica para almoçar lascas de bacalhau em azeite a baixa temperatura sobre cama de puré de grão de bico e espinafres baby com redução de balsâmico, alho e ervas finas. E, quando a comida chega à mesa, descubro sempre que desfrutei mais da descrição do que sua ingestão. As palavras são mais ricas do que a comida, mais suculentas do que a comida, mais saborosas do que a comida. E, neste tipo de restaurante, normalmente as palavras são mais do que a comida. O discurso sobre a comida é melhor do que a comida, faz a comida melhor do que ela é. Na minha vida isso é impossível. Palavras cruelmente banais descrevem a minha evidente banalidade. Não hei-de falecer no meu leito de morte após uma noite de graais. Vou morrer na cama depois de ter estado nos copos. E já será uma sorte."

Estar vivo aleija
Ricardo Araújo Pereira

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Cavaco versus La Palice

A Visão, que mudou esta semana de direcção mas continua na senda da qualidade, abre com (mais) uma extraordinária crónica familiar de António Lobo Antunes e finaliza com a habitual Boca do Inferno, de Ricardo Araújo Pereira. O título é "Introdução ao estudo da cavacada" e, num texto hilariante e inteligente, RAP discorre sobre as lapalissadas em contraste com as cavacadas, a propósito da confirmação aritmética de que 19 menos 1 são 18.
Numa semana em que, profissionalmente, deixei de ser o que fui mais de 40 anos para não saber aquilo que sou numa simples tramitação legal, sabe bem ao ego ler um texto deste nível.

"O pobre senhor de La Palice nunca terá proferido uma lapalissada. O que se passa é que o seu epitáfio dizia qualquer coisa como: <> Alguém tresleu maldosamente a palavra <<envie>> (inveja) e tomou-a por <<en vie>>, o que transformava o epitáfio no seguinte truísmo: <<Aqui jazz o senhor de La Palice, que se não estivesse morto estaria ainda vivo.>> Cavaco não tem a desculpa do epitáfio. Há, neste momento, um razoável consenso entre especialistas no sentido de considerar que o Presidente se encontra ainda vivo. As cavacadas distinguem-se, por isso, das lapalissadas, na medida em que o seu autor é verdadeiramente responsável por elas. A cavacada é genuína, ao passo que a lapalissada não passa de um logro. A cavacada é a única que reúne condições, designadamente ao nível da certificação e da origem demarcada, para se candidatar a património imaterial da UNESCO, e no entanto, é diariamente ultrapassada pela lapalissada em popularidade e prestígio. Talvez as coisas estejam a mudar. Esta semana, Cavaco Silva disse: <> Estive a fazer contas e obtive o mesmo resultado. Esta cavacada não é, porém, uma cavacada qualquer. Trata-se de uma banalidade que banaliza, o que constitui uma inovação na história das platitudes. Uma coisa é dizer: <<O Carlinhos tem 19 maçãs. Se perder uma fica com 18 maçãs.>> É apenas uma banalidade. Mas, se a maçã que o Carlinhos perder conseguir bichar as outras 18 maçãs, ou transformar as outras 18 maçãs em maçãs mais pequeninas, ou em 17 maçãs, a mera aritmética não consegue explicar a catástrofe que se abaterá sobre a fruteira do Carlinhos.
É possível que se torne mais claro o efeito da fria utilização de uma subtracção simples para descrever perdas na zona euro se a aplicarmos, digamos, num velório. Imagino que Cavaco se aproxime de um familiar enlutado e diga: <<Soube que um dos seus progenitores morreu. De acordo com as minhas contas, ainda lhe sobra um.>> 
É verdade, mas acaba por confortar pouco. Proferida a cavacada, o Presidente acrescentou ainda: <<Eu penso que o euro não vai fracassar.>> Uma vez que se trata do mesmo vidente que profetizou que os portugueses podiam confiar no BES, gostaria de comunicar ao sector bancário que, a partir deste momento, estou comprador de dólares."