Mostrar mensagens com a etiqueta Ricardo Araújo Pereira. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Ricardo Araújo Pereira. Mostrar todas as mensagens

sábado, 6 de outubro de 2018

Livros (lidos ou em vias disso)

Ler, dizia-se hoje em Óbidos, é uma actividade que exige um trabalho enorme do nosso cérebro. Esse trabalho é, na maioria das vezes, completamente inglório, por não se conseguir opinião igual nos leitores e, muito menos, que ela seja coincidente com a do respectivo autor. E, lugar comum, o mesmo livro provoca reacção diferente na mesma pessoa se lido (relido) em tempos diferentes.
Deixem-se as coisas sérias e as opiniões mais ou menos filosóficas e veja-se como é possível escrever verdades tão duras com um humor genial.

LUTA DE CLASSES VOCABULAR

"Certas palavras têm mais prestígio do que outras. A palavra desfalque olha de cima para a palavra roubo - e, por isso, o elegante autor de um desfalque distingue-se de um vulgar ladrão. As sentenças judiciais costumam ser bem mais pesadas para o segundo, por pouco que ele roube, do que para o primeiro, por mais que ele desfalque. Ora, a minha vida decorre inteiramente num universo lexical desprovido de prestígio. Tirando fugazes momentos em que, no entender de certos operadores de telemarketing, eu sou um cavalheiro, na esmagadora maioria do tempo eu sou um gajo. Todas as palavras usadas para me descrever a mim e ao meu mundo são triviais. Por exemplo, na última ceia, Nosso Senhor Jesus Cristo bebeu por um Graal. Nunca me aconteceu. Os meus amigos e eu, quando jantamos, bebemos sempre por copos. Nunca vamos tomar uns grais. São sempre vulgares - e, por vezes, plásticos - copos. Muito provavelmente, também não terei um solene leito de morte. Como é óbvio, durmo numa cama. Devo morrer lá. Outro exemplo: nos livros, as personagens retiram-se com muita frequência para os seus aposentos. Eu vou para o meu quarto. Quando os meus pais (quando eu era pequeno), ou a minha mulher (agora) me põem de castigo, é para o quarto que me mandam.
Sucede que as palavras determinam a qualidade das coisas. Às vezes vou a um desses novos restaurantes em que os pratos levam dez linhas a descrever. No meu tempo não era assim. Os pratos eram designados por uma palavra só. Feijoada. Chanfana. Cozido. Hoje sinto que me falta formação académica para almoçar lascas de bacalhau em azeite a baixa temperatura sobre cama de puré de grão de bico e espinafres baby com redução de balsâmico, alho e ervas finas. E, quando a comida chega à mesa, descubro sempre que desfrutei mais da descrição do que sua ingestão. As palavras são mais ricas do que a comida, mais suculentas do que a comida, mais saborosas do que a comida. E, neste tipo de restaurante, normalmente as palavras são mais do que a comida. O discurso sobre a comida é melhor do que a comida, faz a comida melhor do que ela é. Na minha vida isso é impossível. Palavras cruelmente banais descrevem a minha evidente banalidade. Não hei-de falecer no meu leito de morte após uma noite de graais. Vou morrer na cama depois de ter estado nos copos. E já será uma sorte."

Ricardo Araújo Pereira
Estar vivo aleija

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Cavaco versus La Palice

A Visão, que mudou esta semana de direcção mas continua na senda da qualidade, abre com (mais) uma extraordinária crónica familiar de António Lobo Antunes e finaliza com a habitual Boca do Inferno, de Ricardo Araújo Pereira. O título é "Introdução ao estudo da cavacada" e, num texto hilariante e inteligente, RAP discorre sobre as lapalissadas em contraste com as cavacadas, a propósito da confirmação aritmética de que 19 menos 1 são 18.
Numa semana em que, profissionalmente, deixei de ser o que fui mais de 40 anos para não saber aquilo que sou numa simples tramitação legal, sabe bem ao ego ler um texto deste nível.

"O pobre senhor de La Palice nunca terá proferido uma lapalissada. O que se passa é que o seu epitáfio dizia qualquer coisa como: <> Alguém tresleu maldosamente a palavra <<envie>> (inveja) e tomou-a por <<en vie>>, o que transformava o epitáfio no seguinte truísmo: <<Aqui jazz o senhor de La Palice, que se não estivesse morto estaria ainda vivo.>> Cavaco não tem a desculpa do epitáfio. Há, neste momento, um razoável consenso entre especialistas no sentido de considerar que o Presidente se encontra ainda vivo. As cavacadas distinguem-se, por isso, das lapalissadas, na medida em que o seu autor é verdadeiramente responsável por elas. A cavacada é genuína, ao passo que a lapalissada não passa de um logro. A cavacada é a única que reúne condições, designadamente ao nível da certificação e da origem demarcada, para se candidatar a património imaterial da UNESCO, e no entanto, é diariamente ultrapassada pela lapalissada em popularidade e prestígio. Talvez as coisas estejam a mudar. Esta semana, Cavaco Silva disse: <> Estive a fazer contas e obtive o mesmo resultado. Esta cavacada não é, porém, uma cavacada qualquer. Trata-se de uma banalidade que banaliza, o que constitui uma inovação na história das platitudes. Uma coisa é dizer: <<O Carlinhos tem 19 maçãs. Se perder uma fica com 18 maçãs.>> É apenas uma banalidade. Mas, se a maçã que o Carlinhos perder conseguir bichar as outras 18 maçãs, ou transformar as outras 18 maçãs em maçãs mais pequeninas, ou em 17 maçãs, a mera aritmética não consegue explicar a catástrofe que se abaterá sobre a fruteira do Carlinhos.
É possível que se torne mais claro o efeito da fria utilização de uma subtracção simples para descrever perdas na zona euro se a aplicarmos, digamos, num velório. Imagino que Cavaco se aproxime de um familiar enlutado e diga: <<Soube que um dos seus progenitores morreu. De acordo com as minhas contas, ainda lhe sobra um.>> 
É verdade, mas acaba por confortar pouco. Proferida a cavacada, o Presidente acrescentou ainda: <<Eu penso que o euro não vai fracassar.>> Uma vez que se trata do mesmo vidente que profetizou que os portugueses podiam confiar no BES, gostaria de comunicar ao sector bancário que, a partir deste momento, estou comprador de dólares."