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sábado, 25 de junho de 2022

Palavras bonitas

REALIDADE

Sim, passava aqui frequentemente há vinte anos ...
Nada está mudado - ou, pelo menos, não dou por isso -
Nesta localidade da cidade ...

Há vinte anos! ...
O que era eu então? Ora, era outro ...
Há vinte anos, e as casas não sabem de nada ...
Vinte anos inúteis (e sei lá se o foram!
Sei eu o que é útil ou inútil?) ...
Vinte anos perdidos (mas o que seria ganhá-los?)

Tento reconstruir na minha imaginação
Quem eu era e como era quando por aqui passava
Há vinte anos ...
Não me lembro, não me posso lembrar.
O outro que aqui passava então
Se existisse hoje, talvez se lembrasse ...
Há tanta personagem de romance que conheço melhor por dentro
De que esse eu-mesmo que há vinte anos passava aqui!

Sim, o mistério do tempo.
Sim, o não se saber nada,
Sim, o termos todos nascido a bordo.
Sim, sim, tudo isso ou outra forma de o dizer...
Daquela janela do segundo-andar, ainda idêntica a si mesma,
Debruçava-se então uma rapariga mais velha do que eu, mais lembradamente de azul.

Hoje, se calhar, está o quê?
Podemos imaginar tudo do que nada sabemos.
Estou parado física e moralmente: não quero imaginar nada ...
Houve um dia em que subi esta rua pensando alegremente no futuro.
Pois Deus dá licença que o que não existe seja fortemente iluminado.

Hoje, descendo esta rua, nem no passado penso alegremente.
Quando muito, nem penso ...
Tenho a impressão que as duas figuras se cruzaram na rua, nem então nem agora.
Mas aqui mesmo, sem tempo a perturbar o cruzamento.
Olhámos indiferentemente um para o outro.
E eu o antigo lá subi a rua imaginando um futuro girassol.
E eu o moderno lá desci a rua não imaginando nada.

Talvez isso realmente se desse ...
Verdadeiramente se desse ...
Sim, carnalmente se desse ...
Sim, talvez ...

Obras completas de Fernando Pessoa
Poesias, de Álvaro de Campos
Edições Ática (1980)

domingo, 31 de janeiro de 2021

Palavras bonitas

Não, não é cansaço ...
É uma quantidade de desilusão
Que se me entranha na espécie de pensar,
É um domingo às avessas
Do sentimento,
Um feriado passado no abismo ...

Não, cansaço não é ...
É eu estar existindo
E também o mundo,
Com tudo aquilo que contém,
Com tudo aquilo que nele se desdobra
E afinal é a mesma coisa variada em cópias iguais.

Não. Cansaço porquê?
É uma sensação abstracta
Da vida concreta -
Qualquer coisa como um grito
Por dar,
Qualquer coisa como uma angústia
Por sofrer,
Ou por sofrer completamente,
Ou por sofrer como ...
Sim, ou por sofrer como ...
Isso mesmo, como ...

Como quê?
Se soubesse, não haveria em mim este falso cansaço.

(Ai cegos que cantam na rua,
Que formidável realejo
Que é a guitarra de um, e a viola do outro, e a voz dela!)

Porque oiço, vejo.
Confesso: é cansaço!

Obras completas de Fernando Pessoa
Poesias de Álvaro de Campos
Edições Ática (1980)

segunda-feira, 17 de agosto de 2020

Palavras bonitas

Ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra,
ao luar e ao sonho, na estrada deserta.
Sozinho guio, guio quase devagar, e um pouco
me parece, ou me forço um pouco para que me pareça,
que sigo por outra estrada, por outro sonho, por outro mundo,
que sigo sem haver Lisboa deixada ou Sintra a que ir ter,
que sigo, e que mais haverá em seguir senão não parar mas seguir?
Vou passar a noite a Sintra por não poder passá-la em Lisboa,
mas quando chegar a Sintra, terei pena de não ter ficado em Lisboa.
Sempre esta inquietação sem propósito, sem nexo, sem consequência,
Sempre, sempre, sempre,
esta angústia excessiva do espírito por coisa nenhuma,
na estrada de Sintra, ou na estrada do sonho, ou na estrada da vida ...
(...)

Poesias de Álvaro de Campos
Obras completas de Fernando Pessoa
Edições Ática (1980)