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quinta-feira, 14 de março de 2024

Livros (lidos ou em vias disso)

Surpresa!

Ao fim de tantos anos, descobri que, afinal, o apodo de Águas Mornas para os habitantes das Caldas da Rainha não é exclusivo. Há mais gente, pelo menos em Trás-os-Montes, que também é assim "catalogada".

Se dúvidas houvera, basta ler!

"(...) Este apaziguamento geral saltava tanto aos olhos que Soutelinho não podia escapar sem um apodo que o consagrasse. Como se sabe, raras são as povoações desta província nortenha sobre as quais não pese o fardo dum apodo. O apodo é uma alcunha que normalmente castiga um pecadilho, aleijão ou costume próprio das gentes do lugar. Mas enquanto a alcunha é individual, o apodo é colectivo. Há apodos e apodos. Algumas vezes nada têm de depreciativo, e são pacificamente aceites. Outras vezes, porém, os apodos são irritantes, porque nascem de um qualquer vício ou aleijão de que os habitantes padeçam e de que não gostem de ser lembrados.

Não é irritante o apodo das gentes de Soutelinho, que é Águas Mornas - e não sei que outra forma assentaria melhor aos seus modos cordatos do que Águas Mornas. Águas mornas estão longe do ponto de ebulição e por isso não escaldam ninguém, e não dão portanto azo a confrontos, litígios, guerras. Quando, noutra aldeia qualquer das redondezas, alguém quer intimidar alguém, diz-lhe com arreganho:

- Olha que eu não sou nenhum Águas Mornas, ouviste? (...)"

A.M.Pires Cabral
Um cão chamado Pardal

domingo, 2 de julho de 2023

Livros (lidos ou em vias disso)

A inscrição, desde o seu início, no Clube Tinta da China, tem-me proporcionado a leitura de muitos e bons livros antes de chegarem ao mercado normal. Surgem perto do final de cada mês, sem qualquer divulgação prévia, e o abrir da caixa, o desembrulhar - o livro vem cuidadosamente embrulhado -, a descoberta do segredo, proporcionam um misto de entusiasmo e curiosidade sempre intensos, que o guia de leitura ainda mais aguça. Depois, é acabar rapidamente o que se está lendo ou, até, suspender, para se iniciar a descoberta.

No final de Junho, a surpresa foi um novo livro de A.M.Pires Cabral, cuja leitura já vai a meio e que retrata a vida num quartel mais ou menos imaginado. A data da edição indicada é Agosto de 2023.

"(...) O Leitor deve ter reparado que na parte da história já contada veio a propósito falar mais que uma vez de alcunhas. Como ainda há muitas alcunhas por referir, talvez faça sentido introduzir aqui um parêntesis que, ao mesmo tempo que discorre sobre alcunhas, constitui um momento de descompressão que é bem-vindo, numa altura em que a história começa a ganhar intensidade, dramatismo e suspense.

<<Um regimento sem alcunhas é como um gato sem unhas>>, diz muitas vezes o Comandante do RA-7, quando vem a propósito. Aparentemente, quer ele dizer que as alcunhas são uma arma de defesa e ataque dum regimento, tal como as unhas o são dos gatos. Mas não se chega a perceber qual o fundamento da comparação e ele escusa-se a explicar. Talvez o Comandante quisesse antes significar que é tão natural haver alcunhas nos aquartelamentos militares como unhas nos gatos. Mas, cá para nós, o mais provável é que o aforismo encontrasse na rima a sua única razão de ser e que, além de rimarem, não há qualquer outro ponto de contacto entre unhas e alcunhas.

De qualquer maneira, o Comandante usa frequentemente o anexim. O Comandante, nos seus ócios, que não são muitos, gosta de reflectir sonolentamente sobre assuntos como este das alcunhas. Diz ele que pensar pequeno é um bom tirocínio para quando é preciso pensar grande.(...)"

O quartel ou as bochechas do general
A.M.Pires Cabral

P.S. - Ontem almocei com um grupo de amigos que, há mais de meio século, se apresentaram comigo, nuzinhos em pêlo, perante um conjunto de três oficiais do exército que a todos mandaram subir para a balança, anotaram os pesos, ordenaram o perfilar na craveira e registaram as alturas, questionaram sobre a existência de carta de condução e carimbaram um papel com a palavra "APTO". Já faltam "peças" no grupo, mas lembrei-me do livro porque, como nele, também todos tinham (e têm) alcunhas. 

quarta-feira, 21 de julho de 2021

Livros (lidos ou em vias disso)

(...) Numa vila sertaneja e tradicionalista como Trigais, por meados do século XX, não eram de esperar comportamentos de modernidade no interior das famílias, como por exemplo essa coisa de os filhos tratarem os pais por tu. Nada de americanices. Os pais são para ser tratados com respeito.

A família de Feliciano era uma família típica do meio. Ou seja, constituída por um pai que chefiava, ralhava, marcava rumos e garantia o sustento da família; uma mãe que se encarregava das tarefas domésticas, nas quais estava incluída a educação dos filhos; um filho e uma filha que reverenciavam e obedeciam aos pais.

Delfim Carvalhais, o pai, timoneiro da barca, passava o melhor do dia na loja a aviar a clientela, a pesar quilos de arroz na balança marca A. Pessoa, a partir o bacalhau às postas numa guilhotina própria para isso, a conferir a contabilidade rudimentar, a encomendar aos fabricantes produtos em falta, a aturar caixeiros-viajantes tagarelas, e às vezes, quando a freguesia rareava e o ócio se instalava, a dormitar ou a cismar na morte da bezerra, sentado do lado de dentro do balcão, com um rádio de pilhas roufenho, permanentemente sintonizado na Emissora Nacional, a despejar música e propaganda assolapada do regime. Se era Inverno, punha os pés sobre o estrado da braseira. Umas vezes por outras, ao cair da tarde, depois de fechadas as repartições públicas, apareciam três ou quatro compinchas desocupados e armava-se nas traseiras da loja uma mesa clandestina de abafa ou sete-e-meio, interrompido para Delfim atender algum freguês que entrasse. 

Nas férias escolares, Delfim gostava de levar o filho para a loja, esperançado em, dessa forma, despertar nele o gosto pelo comércio, porque seria o comércio, se outras oportunidades não surgissem, que lhe asseguraria um futuro desafogado. Quando o filho era já mais crescidinho, começou a encarregá-lo de tarefas proporcionadas à sua idade, força e entendimento, e no fim recompensava-o com meia dúzia de rebuçados peitorais.

A filha não, não a levava para a loja. Delfim tinha ideias muito arreigadas sobre o que pode e não pode fazer uma rapariga, o que parece bem e o que parece mal, e os perigos a que se expunha toda a mulher que não se guiasse por estes sábios preceitos. E tratava de separar devidamente as águas, isto é, as ocupações dos filhos. Por isso, Carlota ficava com a mãe em casa e instruía-se nas tarefas domésticas, ajudando a passar a ferro ou a cerzir alguma peça de roupa a precisar de conserto. E assim ia adquirindo as competências que devem exornar uma boa dona de casa. (...)

Feliciano
A.M.Pires Cabral
Tinta da China (MMXXI)