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domingo, 20 de novembro de 2022

Livros (lidos ou em vias disso)

"(...) Abençoada seja, pois, a juventude com sua beleza, sua inocência e sua roupa escassa, seus braços à mostra e suas pernas despidas, sem frio e sem calor, sem queixume e sem dor nenhuma. Depois daqueles cinco rapazes e três raparigas, a nova equipa foi ainda reforçada com a chegada de uma Margarida e uma Duriel, e a tunisina Maha, e todos em conjunto produzem alguma coisa de tal modo preciosa, que tudo mudou no Hotel Paraíso. Falo com as minhas três companheiras de mesa e elas sentem isso mesmo, que as paredes parecem mais lavadas, e no entanto sempre alguém as lavou com o mesmo Fabuloso Aroma do Bosque. E também o chão e as portas brilham com mais intensidade, mas toda a gente sabe que o motivo desta mudança reside no sorriso destas grandes crianças, mulheres e homens, que aqui chegaram e a quem apetece chamar netos e netas, filhos e filhas. Trazem o futuro com eles, e assim, à nossa volta, tudo recomeça, nada termina. Nada termina, diz a juventude. Um passarinho azul canta em cima da cabeça de cada um deles. Trinados. Alegria. Abençoados sejam estes jovens por nos trazerem consolação. Eu esperava por este momento, e ele chegou a tempo. Arrependo-me das minhas horas mesquinhas em que me deixei arrastar pela tristeza. Não tenho motivos. A alegria de ter estes jovens a passear pelos corredores desta casa deu-me uma força que eu julgava já não possuir, de tal modo que ontem consegui caminhar por mim só, entre a cama e a cómoda.

Agarrada ao tampo, fiquei durante uns instantes diante do espelho, em pé, e para espanto meu, vi o desenho da minha alma reproduzido nele. Já não são os meus traços nem os meus cabelos, mas é o meu carácter, alguma coisa que se desenha entre a risca dos lábios e o arco onde antes os olhos brilhavam. De azul. Disse para a minha imagem - Olá, ainda aí estás, Alberti? E apesar de me achar feia, ainda gostei de mim. Congratulei-me por existir. E mantive esse sentimento, quando ontem nos levaram até ao jardim na parte que olha para a barra do mar. Por cima do Hotel Paraíso, nuvens brancas como se fosse Agosto, nem um rasto de água. (...)"

Misericórdia
Lídia Jorge
D. Quixote (2022)

domingo, 11 de maio de 2014

Memoráveis

UM DIA

Um dia, os rapazes serão louvados.
Hão-de passar entre multidões floridas.
Levarão riso na boca e os braços levantados.

Um dia, os rapazes hão-de ser punidos.
Pelos males que hão-de vir dos quatro pontos cardeais.
Terão latrinas derramadas nos portais.

Um dia esses heróis serão esquecidos.
Os seus nomes alinhados entre conchas e espinhas.
Hão-de constar de uns livros nunca lidos.

Mas um dia, este dia, será o dia do idílio.
Os rapazes ainda não desistiram de soltar os braços dos escravos.
E os escravos ainda não renegaram a cor dos cravos.
Ainda estamos no princípio desse dia.

Francisco Pontais - Poeta

Lídia Jorge
Os Memoráveis