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quarta-feira, 13 de setembro de 2023

Natália Correia

Aos cinquenta e tal escreveu este soneto, para celebrar o seu aniversário.

Se ainda por cá estivesse, o que sairia da sua mão livre e irreverente, no dia em que completaria um século?

NO MEU ANIVERSÁRIO

Já por cinquenta e tal esta jangada
Do corpo em águas negras abrevia
De Aqueronte a outra margem; e corada
De moça fica a alma à rebelia

Da ruga pelo tempo concertada.
Pede bengala a reuma? Assim a Pítia
Pede o tripé que só nele sentada
Inala os fumos da Sabedoria.

Amigos que ao fortuito aniversário, 
Por édito do torto calendário,
Cinquenta e tal hortênsias me trazeis!

Pelos anos letais descendo as pernas,
Sobe a alma por louros às lanternas
Do canto que me furta a humanas leis.

O Sol nas Noites e o Luar nos Dias II
Natália Correia
Círculo de Leitores ( 1993)

quarta-feira, 26 de julho de 2023

Palavras bonitas

ARRÊT À VADUZ

Do verdenegro 
dos alpes sai
castiçal lerdo
o Liechtenstein

Como vidrilhos
que gargalhassem
no fim do mundo
uma louca valsa

o Liechtenstein
por capitosa
capital tem
uma espuma rosa

Buquê de montras
entre as maminhas
de uma teen-ager
Vaduz se aninha

Não é Vaduz
maior que um selo
suscita o sonho
e remetê-lo

para o século XX
nuvem de moscas
num sobrescrito
de riso às roscas

Para a noite grácil
que faz frufrús
ri o castelo
em altos us

Redige a lua
pena de pato
o príncipe que acha
o meu sapato

é só por isso
que este punhado
de margaritas
é principado

O Liechtenstein
do pouco o todo
tira de um cómico
chapéu de coco

Da liberdade
do que é escasso
o apocalipe
faz um terraço

para saudosas 
vistas deitar
ao mundo desse
último andar

A dor com que a
razão nos multa
filtra-a uma gota 
de violino fútil

Neste brinquedo
terei na mão
os vãos confins
da evasão?

O anjo do ocidente à entrada do ferro
Natália Correia

segunda-feira, 17 de abril de 2023

Livros (lidos ou em vias disso)

A leitura da biografia de Natália Correia - O dever de deslumbrar, de Filipa Martins - já leva dois terços e não está ainda concluída por ser interrompida por outros livros que se alcandoram e insinuam, fazendo lembrar tempos idos, quando a mesa de cabeceira tinha dois ou três a serem "consumidos" em simultâneo.

Ontem, fazendo mais uma pausa na vida de Natália, comecei um livro de um autor brasileiro, que não conhecia. O livro é designado, na tira da capa, como o "romance de estreia do escritor-prodígio da literatura brasileira contemporânea", o que, por si só, desperta a curiosidade e a vontade de começar.

Ainda vai no princípio mas já deu para notar que o malfadado Acordo Ortográfico só por aqui é obrigatório e que, como sempre pensei, a riqueza da língua está nas suas variantes e não na formatação obrigatória que alguns iluminados quiseram. E é tão saboroso encontrar palavras novas e ir à procura do seu significado. O livro até traz um glosário, que serve de marcador e auxilia na compreensão.

"(...) Ryan Giggs recebeu outra bola enfiada nas costas do lateral adversário, e com a perna esquerda acertou mais um cruzamento na cabeça de Chicharito Hernández.

- Tomar no cu, neguim. Só faz gol assim! - Douglas defendia as cores do Barcelona, e tava puto.

 - Chora, não, maluco. Vira logo essa porra aí e vamo pró jogo.

Já tava pra terminar a partida. Com esse gol, o terceiro do atacante mexicano, o placar marcava cinco pro Manchester United, time de Murilo, quatro pro Braça. Biel marolava com os dois enquanto apertava um baseado. Os amigos já tavam pra lá de Bagdá. Não que apostar uma dose de vodca a cada gol sofrido fosse novidade na casa, muito pelo contrário, já era um clássico entre eles. Mas naquela noite a porteira tava aberta. Pra se ter uma ideia, na última partida Murilo derrotou Biel por oito a seis, quer dizer, já entrou embrasado pro duelo com Douglas, seu maior rival no Bomba Patch. Isso sem contar o primeiro jogo, que terminou com o placard magro de um a um e foi pros penâltis. O que é sempre pior, porque obriga o jogador a beber várias doses, alternando com o adversário.

Na hora que sofreu o quinto gol, Douglas achou melhor deixar por isso mesmo. Se fossem pros penâltis do jeito que tavam, o bagulho ia ficar esquisito. O problema é que Murilo não consegue ganhar e ficar na moral. Ele tem que gastar os outros até o limite. E o pior de tudo, o que deixa Douglas mais bolado: só ganha com a mesma jogada.

Já nos acréscimos, Murilo gastava a onda quando Douglas, com sangue no olho, meteu uma bola na direita pro Messi. O craque argentino invadiu a área na diagonal, limpou dois adversários e bateu cruzado. O goleiro do United nem saiu na foto. Cinco a cinco no final do segundo tempo. (...)" 

Via Ápia
Geovani Martins
Companhia das Letras (2023)

quinta-feira, 16 de março de 2023

Partidas e chegadas

Passam hoje 49 anos sobre a partida dos militares do (então) Regimento de Infantaria 5 em direcção a Lisboa, numa viagem que não concretizaria os objectivos, culminaria com a prisão de todos os envolvidos, mas ficaria como prólogo do 25 de Abril, que surgiria daí a pouco mais de um mês.

Também hoje se registam os 30 anos da partida de Natália Correia, escritora de quem me habituei a gostar há muitos anos e cuja irreverência e forma de estar sempre apreciei, e muito.

Ao registo das duas partidas teria sempre de corresponder, pelo menos, uma chegada. E assim aconteceu. Não esperava que o rigor da editora fosse tanto, mas hoje, pouco antes da hora do almoço, o carteiro (não o que toca duas vezes, que este conhece os cantos à casa e sabe bem o que deve fazer quando, ao simples toque na campainha, não lhe aparece ninguém) tocou e, em conjunto com a Visão e a Gazeta, entregou o embrulho registado, esperado e mesmo a tempo de ser hoje começado.

O Dever de deslumbrar - Biografia de Natália Correia, é um livro escrito por Filipa Martins, que traz o dever de deslumbrar os seus leitores e transportar muitos detalhes de uma vida cheia que a grande escritora teve. Pena ter sido tão curta. São "só" 695 páginas que irão ser lidas, creio, num ápice e sempre com deleite.

terça-feira, 16 de março de 2021

Futuro

Faz hoje um ano que coloquei aqui o primeiro texto sobre o "bicho". Também passam hoje 47 anos do levantamento do "meu" RI5, que serviu de prólogo ao 25 de Abril. Uma poeta que muito admiro - Natália Correia - deixou-nos também neste dia, há 28 anos.

Porém, como a vida não é feita de passado e sim das portas abertas para o futuro, o meu neto GRANDE, que ainda não tem 15 anos, fez isto, apenas com um telemóvel.


E ainda há quem diga "no meu tempo" ...

sexta-feira, 4 de setembro de 2020

Palavras bonitas

DURANTE O DEBATE DA LEI CONTRA O ALCOOLISMO

Num país de beberrões
Em que reina o velho Baco
Se nos tiram os canjirões
Ficamos feitos num caco.

E querem os deputados
Com um ar de beatério
Que fiquemos desmamados
Quais anjos num baptistério.

Se o verde e o tinto são
As cores da nossa bandeira,
Ai, lá se vai a nação
Se acabar a bebedeira.

De abstemia não se faça
A lex neste plenário
Que o direito à vinhaça
Esse, é consuetudinário.

O sol nas noites e o luar nos dias II
Natália Correia
Círculo de Leitores (1993)

sábado, 4 de abril de 2020

Quotidiano

O sábado caminha para o fim, num início de fim de semana cinzento, como o dia a dia que vamos vivendo. Nuvens, alguns pingos de chuva e os números da nossa angústia, que chegaram pela hora do almoço, repetidos até à exaustão.
Amanhã teremos nova estatística oficial, agravada pela certa, e com mais um passo para o esgotamento de quem trabalha "de sol a sol" e de "noite a noite" para que os doentes sobrevivam e se curem.
Entretanto, ouviremos debates, divagações, certezas, dissertações, sobre a necessidade de conhecer o dia do fim com exactidão, talvez para ser possível programar o directo com antecedência, registando as opiniões sabedoras de "eu não vi, mas disseram-me".
Valha-nos a poesia, que lava o espírito e até serve de alimentação, como dizia a grande Natália Correia.

sexta-feira, 1 de março de 2019

Palavras bonitas

A NECESSÁRIA COMPLEXIDADE DA SEMENTE

Este mar que nos divide
constrói-se no pensamento
que tudo sabe mas finge
ser a paisagem que ignora
num porto que não atinge.

Unir o mar que divide
só com desentendimento:
almas opostas que ponho
na causa duma harmonia
se tem de nascer o sonho
para ter de haver poesia
e o que no sonho anuncia
muito mais do que nomeio.
A natureza a transpor-se
com dor sentida no meio.

Natália Correia
O sol nas nas noites e o luar nos dias
Círculo de Leitores (1993)

sexta-feira, 21 de março de 2014

Dia Mundial da Poesia

Dia do Mar
A minha esperança mora
no vento e nas sereias -
É o azul fantástico da aurora
E o lírio das areias

Sophia de Mello Breyner Andresen

Trova
Beira da serra da Estrela
Onde o sol finge de lua ...
Soturna e magra courela
Que lã de ovelhas debrua ...

Miguel Torga

Dá-me a tua mão por cima das horas.
Quero-te conciso.
Adão depois do paraíso
errando mais nítido à distância
onde te exalto porque te demoras.


Natália Correia

sábado, 16 de março de 2013

Efemérides e actualidade

Passam hoje 20 anos da morte de Natália Correia e 39 do "levantamento das Caldas", que precedeu o 25 de Abril.




AUTO-RETRATO

Espáduas brancas palpitantes:
asas no exílio dum corpo.
Os braços calhas cintilantes
para o comboio da alma.
E os olhos emigrantes
no navio da pálpebra
encalhado em renúncia ou cobardia.
Por vezes fêmea. Por vezes monja.
Conforme a noite. Conforme o dia.
Molusco. Esponja
embebida num filtro de magia.
Aranha de ouro
presa na teia dos seus ardis.
E aos pés um coração de louça
quebrado em jogos infantis.

Natália Correia
Poemas (1955)




quarta-feira, 21 de março de 2012

Palavras bonitas

P A I S A G E M

Passavam pelo ar aves repentinas,
O cheiro da terra era fundo e amargo,
E ao longe as cavalgadas do mar largo
Sacudiam na areia as suas crinas

Era o céu azul, o campo verde, a terra escura,
Era a carne das árvores elástica e dura,
Eram as gotas de sangue da resina
E as folhas em que a luz se descombina.

Eram os caminhos num ir lento,
Eram as mãos profundas do vento
Era o livre e luminoso chamamento
Da asa dos espaços fugitiva.

Eram os pinheirais onde o céu poisa,
Era o peso e era a cor de cada coisa,
A sua quietude, secretamente viva,
E a sua exaltação afirmativa.

Era a verdade e a força do mar largo,
Cuja voz, quando se quebra, sobe,
Era o regresso sem fim e a claridade
Das praias onde a direito o vento corre.

Poesia
Sophia de Mello Breyner Andresen
Caminho (2005)

F O L H I N H A

Murchou a flor aberta ao sol do tempo.
Assim tinha de ser, neste renovo
Quotidiano.
Outro ano,
Outra flor,
Outro perfume.
O gume
Do cansaço
Vai ceifando,
E o braço
Doutro sonho
Semeando.
É essa a eternidade:
A permanente rendição da vida.

Outro ano,
Outra flor,
Outro perfume,
E o lume
De não sei que ilusão a arder no cume
De não sei que expressão nunca atingida.

Orfeu Rebelde
Miguel Torga
Gráfica de Coimbra (1922)

R I C O C H E T E

Que margens têm os rios
Para além das suas margens?
Que viagens são navios?
Que navios são viagens?

Que contrário é uma estrela?
Que estrela é este contrário
De imaginarmos por vê-la
Tudo à volta imaginário?

Que paralelas partidas
Nos articulam os braços
Em formas interrompidas
Para encarnar um espaço?

Que rua vai dar ao tempo?
Que tempo vai dar à rua
Por onde o Firmamento
E a Terra se unem na lua?

Que palavra é o silêncio?
Que silêncio é esta voz
Que num soluço suspenso
Chora flores dentro de nós?

Que sereia é o poente,
Metade não sei de quê
A pentear-se com o pente
Do olhar finito que o vê?

Que medida é o tamanho
De estar sentado ou de pé?
Que contraste torna estranho
Um corpo à alma que é?

O Sol nas noites e o luar nos dias
Natália Correia
Círculo de Leitores (1993)

D U N A S

É o mar do deserto, ondulação
Sem fim das dunas,
Onde dormir, onde estender o corpo
Sobre outro corpo, o peito vasto,
As pernas finas, longas,
As nádegas rijas, colinas
Sucessivas onde o vento
Demora os dedos, e as cabras
Passam, e o pastor
Sonha oásis perto,
E o verde das palmeiras se levanta
Até à nossa boca, até à nossa alma
Com sede de outras dunas,
Onde o corpo do amor
Seja por fim um gole de água.

O sal da língua
Eugénio de Andrade
APEL (2001)

sábado, 13 de novembro de 2010

Palavras bonitas

MANHÃ CINZENTA

Ai madrugada pálida e sombria
em que deixei a terra dos meus pais ...
e aquele adeus que a voz do mar trazia
dum lenço branco, a acenar no cais ...

O meu veleiro - era de espuma fria -
levava-o o fervor dos vendavais.
À passagem gritavam-me: onde vais?
Mas só o meu veleiro respondia.

Cruzei o mar em direcções diferentes.
Por quantas terras fui, por quantas gentes,
nesta longa viagem que não finda.

Só uma estrada resta - mais nenhuma:
na Ilha que o passado envolve em bruma,
um lenço branco que me acena ainda ...

O sol nas noites e o luar nos dias
Natália Correia
Círculo de Leitores (1993)

sexta-feira, 21 de março de 2008

Palavras bonitas

No Dia Mundial da Poesia, a recordação da voz e das palavras de Natália Correia, declamando a sua Defesa do Poeta.

A gravação foi efectuada em Dezembro de 1968, num serão dedicado à poesia e realizado na casa de Amália.



"Ó subalimentados do sonho! A poesia é para comer ."

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2007

Palavras bonitas

Andam palavras na noite
Cansadas de me chamar.
Trago os meus lábios salgados
E algas no paladar.

Eu sou um grande oceano
Que só fala a voz do mar!
Mas já sinto o mar cansado
De pedir o luar ao céu
Que a noite não lhe quer dar!

O Sol nas noites e luar nos dias I
Natália Correia
Círculo de Leitores (1993)

quinta-feira, 22 de junho de 2006

Palavras bonitas

Assembleia da República - 5 de Abril de 1982. 

Após a intervenção de um deputado do CDS proclamando que "o acto sexual é para ter filhos", Natália Correia escreveu, num dos seus brilhantes repentismos, esta pérola, que mantém toda a actualidade.

O Diário de Lisboa, no dia seguinte, publicava desta maneira:

"O acto sexual é para ter filhos", disse, com toda a boçalidade, o deputado do CDS no debate anteontem sobre legalização do aborto. A resposta, em poema, que ontem fazia rir todas as bancadas parlamentares, veio de Natália Correia. Aqui fica:

Já que o coito - diz Morgado -
tem como fim cristalino,
preciso e imaculado
fazer menina ou menino;
e cada vez que o varão
sexual petisco manduca,
temos na procriação
prova de que houve truca-truca.
Sendo pai de um só rebento,
lógica é a conclusão
de que o viril instrumento
só usou - parca ração! -
uma vez. E se a função
faz o órgão - diz o ditado -
consumada essa excepção,
ficou capado o Morgado.

O Sol nas noites e o luar nos Dias II
Natália Correia
Círculo de Leitores (1993)