P A I S A G E M
Passavam pelo ar aves repentinas,
O cheiro da terra era fundo e amargo,
E ao longe as cavalgadas do mar largo
Sacudiam na areia as suas crinas
Era o céu azul, o campo verde, a terra escura,
Era a carne das árvores elástica e dura,
Eram as gotas de sangue da resina
E as folhas em que a luz se descombina.
Eram os caminhos num ir lento,
Eram as mãos profundas do vento
Era o livre e luminoso chamamento
Da asa dos espaços fugitiva.
Eram os pinheirais onde o céu poisa,
Era o peso e era a cor de cada coisa,
A sua quietude, secretamente viva,
E a sua exaltação afirmativa.
Era a verdade e a força do mar largo,
Cuja voz, quando se quebra, sobe,
Era o regresso sem fim e a claridade
Das praias onde a direito o vento corre.
Sophia de Mello Breyner Andresen
F O L H I N H A
Murchou a flor aberta ao sol do tempo.
Assim tinha de ser, neste renovo
Quotidiano.
Outro ano,
Outra flor,
Outro perfume.
O gume
Do cansaço
Vai ceifando,
E o braço
Doutro sonho
Semeando.
É essa a eternidade:
A permanente rendição da vida.
Outro ano,
Outra flor,
Outro perfume,
E o lume
De não sei que ilusão a arder no cume
De não sei que expressão nunca atingida.
Miguel Torga
R I C O C H E T E
Que margens têm os rios
Para além das suas margens?
Que viagens são navios?
Que navios são viagens?
Que contrário é uma estrela?
Que estrela é este contrário
De imaginarmos por vê-la
Tudo à volta imaginário?
Que paralelas partidas
Nos articulam os braços
Em formas interrompidas
Para encarnar um espaço?
Que rua vai dar ao tempo?
Que tempo vai dar à rua
Por onde o Firmamento
E a Terra se unem na lua?
Que palavra é o silêncio?
Que silêncio é esta voz
Que num soluço suspenso
Chora flores dentro de nós?
Que sereia é o poente,
Metade não sei de quê
A pentear-se com o pente
Do olhar finito que o vê?
Que medida é o tamanho
De estar sentado ou de pé?
Que contraste torna estranho
Um corpo à alma que é?
Natália Correia
D U N A S
É o mar do deserto, ondulação
Sem fim das dunas,
Onde dormir, onde estender o corpo
Sobre outro corpo, o peito vasto,
As pernas finas, longas,
As nádegas rijas, colinas
Sucessivas onde o vento
Demora os dedos, e as cabras
Passam, e o pastor
Sonha oásis perto,
E o verde das palmeiras se levanta
Até à nossa boca, até à nossa alma
Com sede de outras dunas,
Onde o corpo do amor
Seja por fim um gole de água.
Eugénio de Andrade