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segunda-feira, 7 de julho de 2025

Gostos não se discutem

Como facilmente percebe quem por aqui vai espreitando, sou um eclético ouvidor de música, sem quaisquer receios de manifestar preferências, mesmo que estas não sejam consensuais ou estejam na berra.

Ouço música de Cabo Verde há muitos anos! Como parece cada vez mais normal, a gaveta foi resgatar memórias antigas quando ouviu notícias sobre as comemorações dos 50 anos da independência daquela antiga colónia portuguesa.

Há mais ou menos sessenta anos convivi, durante alguns meses, com dois cabo-verdianos, um deles com idade para ser meu pai - cerca de 40 anos -, o outro um pouco mais velho do que eu: cantei-lhe os parabéns, com a voz bem desafinada, no dia em que fez 18 anos.

Ainda não se falava de Cesária Évora ou Tito Paris, muito menos de Tété Alhinho ou Sara Tavares. Adelino, o mais velho, e Cula, o jovem, ensinaram-me as diferenças entre a morna e a coladera e abriram-me a boca de espanto nas muitas vezes em que os ouvi tocar e cantar. Tocavam cavaquinho e daqueles dedos negros saíam ritmos frenéticos ou dolências mimosas, desconhecidos para mim e que me habituei a ouvir, calado e deliciado. O Cula fazia percussão com qualquer coisa, da caixa de sapatos ao tampo da mesa, do colchão ao prato da sopa virado ao contrário. 

Regressaram à sua terra e nunca mais deles ouvi falar ou tive qualquer notícia. Talvez já não pertençam ao mundo dos vivos. Vieram-me à memória e devo-lhes o ter aprendido a gostar da belíssima música cabo-verdiana, que continuo a ouvir regular e regaladamente.

sexta-feira, 26 de junho de 2020

Cabo Verde

Dos oito, dois eram pretos, nascidos em Cabo Verde, cada um em sua ilha, um em Santiago e o outro no Sal.
Não eram muito expressivos quando falavam das suas origens, parecendo até que tinham algum pudor em desvendar as condições de vida e as dificuldades que por lá existiam. Nunca puxavam esse assunto mas, por vezes, a conversa a isso obrigava e lá vinham as lamentações, os sacrifícios e as dificuldades.
O Adelino era o mais velho, teria por volta de quarenta anos, tinha uma careca acentuada e usava um bigode muito fino que lhe destacava o lábio grosso; o Cula, que ainda não tinha chegado aos vinte, possuía uma farta cabeleira, muito negra e encaracolada. Quando a boa disposição imperava, dizia, rindo-se, que tinha cabelo que sobrava e, quando o cortasse, ofereceria um bocado para colar na cabeça do Adelino, para ele voltar a novo.
Raro era conversarem sobre os seus familiares, mas os olhos ficavam brilhantes quando se falava no regresso e quando chegava a hora da música.
Os dois tocavam cavaquinho e cantavam mornas e coladeras para delícia dos que os ouviam. O Adelino nunca cantava sozinho. Deixava essa tarefa para o Cula, que tinha mais força na voz, fazendo coro quando a música o exigia. A concentração era total na música e os seus dedos dedilhavam o cavaquinho com uma velocidade e uma beleza que atraía ouvintes de outras salas, até que alguém vinha pôr cobro ao concerto e mandava toda a gente sossegar.
Sem nenhumas saudades desses tempos, restou apenas a lembrança daqueles dois amigos que muito me ajudaram e nunca mais vi, o gosto pela música de Cabo Verde e o ter aprendido, bem cedo, a diferença entre a morna e a coladera.