DEZ RÉIS DE ESPERANÇA
Se não fosse esta certezaque nem sei de onde me vem,não comia, nem bebia,nem falava com ninguém.Acocorava-me a um canto,no mais escuro que houvesse,punha os joelhos à bocae viesse o que viesse.Não fossem os olhos grandesdo ingénuo adolescente,a chuva das penas brancasa cair impertinente,aquele incógnito rosto,pintado em tons de aguarela,que sonha no frio encostoda vidraça da janela,não fosse a imensa piedadedos homens que não cresceram,que ouviram, viram, ouviram,viram, e não perceberam,essas máscaras selectas,antologia do espanto,flores sem caule, flutuandono pranto do desencanto,se não fosse a fome e a sededessa humanidade exangue,roía as unhas e os dedosaté os fazer em sangue.Poesias Completas (1956-1967)António GedeãoPortugália (1975)
Casa situada na cidade das Caldas da Rainha, "nascida" em 1976, numa rua sossegada, estreita e, desde Abril de 2009, com sentido único. Produção: dois frutos de alta qualidade que já vão garantindo o futuro da espécie com quatro novos, deliciosos. O blog é, tem sido ou pretendido ser uma catarse, o diário de adolescente que nunca escrevi, um repositório de estórias, uma visão do quotidiano, uma gaveta da memória.
terça-feira, 20 de janeiro de 2026
Palavras bonitas
sexta-feira, 28 de abril de 2023
Futuro
António Gedeão escreveu na sua "Pedra Filosofal" que o sonho comanda a vida e sempre que um homem sonha, o mundo pula e avança.
Abril abriu as portas ao sonho, criou expectativas para um futuro melhor, um homem novo, uma vida digna, uma abertura ao mundo, o derrubar de muros, o acesso ao saber, a visão crítica, a opinião sem rodeios nem receios.
O tempo vai esmorecendo a cor do céu, tornando o azul cada dia mais cinzento, trazendo à tona o se da dúvida, a incerteza da onda, a ambiguidade da água que cai sem cuidar da existência do chapéu de chuva.
Por muito que os dias passados influenciem e determinem o pensamento, parece ser fácil e correcto concluir que vivemos tempos novos como, quase de certeza, sempre aconteceu e isso não impediu, antes facilitou, a evolução do mundo e a sua melhoria indiscutível.
Espreitando pela janela do pessimismo, vemos a guerra, a inteligência artificial, a miséria de uns e a opulência de outros, as alarvidades dos doutos sabedores do óbvio, as eternas cabeças que tentam controlar e impôr o correcto, o bom, o moral, o devido. E que ambicionam uma sociedade acrítica, onde eles apareçam como únicos sabedores e salvadores.
Fechando essa janela e abrindo a porta do futuro, deparamos com gente de elevado nível, contestária nas ideias e com pensamento próprio, sem medo de exibir as suas diferenças, desenvolvendo o seu saber e não se encolhendo nas suas opiniões. O mundo será deles, por muito que custe aos que sobem o escadote e partem os degraus para tentar evitar que outros cheguem. Por muito que barafustem e pateiem, falem e gritem, não conseguirão manter o equilíbrio instável que a sofreguidão lhes dá e lhes irá provocar uma queda estrondosa.
O sonho comanda a vida!
terça-feira, 24 de maio de 2022
Contas trimestrais
Três meses são passados e "tudo como dantes, quartel-general em Abrantes". A guerra entrou na rotina dos noticiários e de todos nós, sem que se vislumbrem sinais de o seu fim estar próximo.
Comentários daqui, opiniões de acolá, certezas hoje, negações amanhã, cálculos sobre baixas e destruições, propaganda para consumidor externo ou interno, tanto faz. Tudo marcha ao som das trombetas de novos avanços, recuperações, tomadas.
Na certa, haverá muita gente a ganhar com as descargas mortíferas de qualquer dos lados, os mísseis de uns terão mais pontaria que os dos outros, os soldados de um lado serão mais corajosos nas trincheiras, os do outro mais afoitos nos caminhos, uns são assim, outros assado.
Os grandes tratadistas de "economês" fazem previsões, de ciência certa, como sempre, sobre o que vai acontecer ao PIB, à inflação e aos juros, e de como o mundo (leia-se, o Zé) vai sofrer as consequências.
Os que ouvem os mísseis, sentem as balas por cima, vêem as suas casas, e as suas vidas, destruídas, pensarão:
- Que mal fiz eu?
Faz parte da história. Sempre foi assim, sentenciarão os sábios que tudo dominam.
- Ainda não estão reunidas condições para se iniciarem as conversas para a paz. Lá chegaremos, sem pressas ...
Por aqui, vamos estando bem. Até vamos ser beneficiários líquidos, como bem disse o nosso Marcelo, que sabe disto a potes, é uma inteligência superior e tem muita dificuldade em estar calado.
Valha-nos a Pedra Filosofal, de António Gedeão, cantada por Manuel Freire, garantindo que:
... sempre que um homem sonha, o mundo pula e avança ...
quarta-feira, 1 de setembro de 2021
Palavras bonitas
DEZ RÉIS DE ESPERANÇA
Se não fosse esta certezaque nem sei de onde me vem,não comia, nem bebia,nem falava com ninguém.Acocorava-me a um canto,no mais escuro que houvesse,punha os joelhos à bocae viesse o que viesse.Não fossem os olhos grandesdo ingénuo adolescente,a chuva das penas brancasa cair impertinente,aquele incógnito rosto,pintado em tons de aguarela,que sonha no frio encostoda vidraça da janela,não fosse a imensa piedadedos homens que não cresceram,que ouviram, viram, ouviram,viram, e não perceberam,essas máscaras selectas,antologia do espanto,flores sem caule, flutuandono pranto do desencanto,se não fosse a fome e a sededessa humanidade exangue,roía as unhas e os dedosaté os fazer em sangue.Poesias Completas (1956-1967)António GedeãoPortugália (1975)
sábado, 3 de abril de 2021
Palavras bonitas
ANJO INCOLOR
Abri o livro na alturaem que o Anjo me sorriae em vez de mel prometiaamor, descanso e ternura.Falava como que a sós.E as palavras flutuavam.Eram pombas que poisavamno fio da sua voz.Escutei-o de olhos no chãocomo se fosse o culpado,como se o mundo enredadoestivesse na minha mão.Abri o peito e mostrei-lhea areia, a pedra britada,os planos da grande estradaonde o Anjo se ajoelhe.Ele fitou-me, de frente,de olhos frios como brasas.E abrindo e fechando as asasrasgou o céu, lentamente.Sobre a folha imaculadapor longo tempo nevou.Sentei-me à beira da estradamas o Anjo não voltou.Poesias Completas (1956-1967)António GedeãoPortugália (1975)
segunda-feira, 24 de agosto de 2020
Palavras bonitas
Não vou a Lisboa desde Fevereiro e é dessa ida a última vez que subi a Calçada do Carriche. Em tempos idos e com uma configuração muitíssimo mais apertada, era o caminho utilizado para entrar na capital indo do Oeste.
A memória tem destas coisas e a associação foi imediata com esta pérola, escrita há largos anos por um grande poeta, e sempre actual. Lisboa (e o mundo) ainda mantém muitas Luísas que, diariamente, sobem a calçada.
CALÇADA DE CARRICHE
sobe e não pode
que vai cansada.
sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015
Descobrimentos
O meu amigo VB, grande amante do mar (e da Foz do Arelho), fez-me chegar o "link" para este excelente documentário sobre as descobertas, realizado por António José de Almeida.
São quase 50 minutos com os descobrimentos portugueses, as caravelas, a "dilatação da fé e do império", as viagens "por mares nunca dantes navegados", a ousadia, a coragem, o saber, a vontade, a determinação da gesta que Camões cantou.
sábado, 2 de março de 2013
Palavras bonitas
Precisava de dar qualquer coisa a uma qualquer pessoa.
Uma qualquer pessoa que a recebesse
num jeito de tão sonâmbulo gosto
como se um grão de luz lhe percorresse
com um dedo tímido o oval do rosto.
Uma qualquer pessoa de quem me aproximasse
e em silêncio dissesse: é para si.
E uma qualquer pessoa, como um luar, nascesse,
e sem sorrir, sorrisse,
e sem tremer, tremesse,
tudo num jeito de tão sonâmbulo gosto
como se um grão de luz lhe percorresse
com um dedo tímido o oval do rosto.
Na minha mão estendida dar-lhe-ia
o gesto de a estender,
e uma qualquer pessoa entenderia
sem precisar de entender.
Se eu fosse o cego
que acena com a mão à beira do passeio,
esperaria em sossego,
sem receio.
Se eu fosse a pobre criatura
que estende a mão na rua à caridade,
aguardaria, sem amargura,
que por ali passasse a bondade.
Se eu fosse o operário
que não ganha o bastante para viver,
lutava pelo aumento do salário
e havia de vencer.
Mas eu não sou o cego,
nem o pobre,
nem o operário a quem não chega a féria.
Eu sou doutra miséria.
A minha fome não é de pão, nem de água a minha sede.
A minha mão estendida é tímida, não pede.
Dá.
Esta é a maior miséria que em todo o mundo há.
E eu que precisava tanto, tanto, de dar qualquer coisa
a uma qualquer pessoa!
E se ela agora viesse?
Se ela aparecesse aqui, agora, de repente,
se brotasse do chão, do tecto, das paredes,
se aparecesse aqui mesmo, olhando-me de frente,
toda lantejoulada de esperanças
como fazem as fadas nos contos das crianças?
Ai, se ela agora viesse!
Se ela agora viesse, bebê-la-ia de um trago,
sorvê-la-ia num hausto,
sequiosamente,
tumultuosamente,
numa secura aflita,
numa avidez sedenta,
sôfregamente,
como o ar se precipita
quando um espaço vazio se lhe apresenta.
Poesias Completas (1956-1967)
sexta-feira, 20 de agosto de 2010
Palavras bonitas
AI SILVINA, AI SILVININHA
Lindos olhos tem Silvina,
lindas mãos Silvina tem,
e a cintura de Silvina
é fina como o azevém.
Em Silvina tudo exala
um cheiro de coisa fina,
mas o que a nada se iguala
é a fala de Silvina.
A doce voz de Silvinaé como um colchão de penas,
é um fio de glicerina,
um vapor de águas serenas.
- Porque não cantas, Silvina?
Se a tua voz é tão doce
talvez cantada que fosse
mais doce que a glicerina.
Porque não cantas, Silvina?
- Não me apetece cantar
e muito menos para ti.Eu sou nova, tu és velho,já não és homem para mim.- Não me tentes, Silvininha,que eu já não te olho a direito.Sou como um ladrão escondidona azinhaga do teu peito.
- A azinhaga do meu peitocorre entre duas colinas.O ladrão do meu amortem pé leve e pernas finas.- Canta, canta, Silvininha,uma canção só para mim.Dar-te-ei um lençol de estrelas,uma enxerga de alecrim.
- Deixa o teu corpo estendidoà terra que o há-de comer.A tua cama é de pinho,teus lençóis de entristecer.- Canta, canta, Silvininha,como se fosse para mim.Dar-te-ei um escorpião de oirocom um aguilhão de marfim.
- Não quero o teu escorpião,nem de ouro nem de prata.Quero o meu amor trigueiroque é firme e não se desata.- Pois não cantes, Silvininha,se é essa a tua vontade.Canto eu, mesmo assim velho,que o cantar não tem idade.
Hás-de tu ser morta e fria,cem anos se passarão,já de ti ninguém se lembranem de quem te pôs a mão.Mas sempre há-de haver quem canteos versos desta canção:Ai Silvina, ai Silvininha,Amor do meu coração.
terça-feira, 10 de novembro de 2009
Palavras bonitas
IMPRESSÃO DIGITAL
Os meus olhos são uns olhos.
E é com esses olhos uns
que eu vejo no mundo escolhos
onde outros, com outros olhos,
não vêem escolhos nenhuns.
Quem diz escolhos diz flores.
De tudo o mesmo se diz.
Onde uns vêem luto e dores
uns outros descobrem cores
do mais formoso matiz.
Nas ruas ou nas estradas
onde passa tanta gente,
uns vêem pedras pisadas,
mas outros, gnomos e fadas
num halo resplandecente.
Inútil seguir vizinhos,
querer ser depois ou ser antes.
Cada um é seus caminhos.
Onde Sancho vê moinhos
D. Quixote vê gigantes.
Vê moinhos? São moinhos.
Vê gigantes? São gigantes.
sábado, 11 de abril de 2009
Palavras bonitas

MÁQUINA DO MUNDO
O Universo é feito essencialmente de coisa nenhuma.
Intervalos, distâncias, buracos, porosidade etérea.
Espaço vazio, em suma.
O resto é a matéria.
Daí, que este arrepio,
este chamá-lo e tê-lo, erguê-lo e defrontá-lo,
esta fresta da nada aberta no vazio,
deve ser um intervalo.
terça-feira, 1 de janeiro de 2008
Palavras bonitas
LÁGRIMA DE PRETAEncontrei uma pretaque estava a chorar,pedi-lhe uma lágrimapara a analisar.Recolhi a lágrimacom todo o cuidadonum tubo de ensaiobem esterelizado.Olhei-a de um lado,do outro e de frente:tinha um ar de gotamuito transparente.Mandei vir os ácidos,as bases e os sais,as drogas usadasem casos que tais.Ensaiei a frio,experimentei ao lume,de todas as vezesdeu-me o que é costume:nem sinais de negro,nem vestígios de ódio.Água (quase tudo)e cloreto de sódio.
quarta-feira, 6 de junho de 2007
Palavras bonitas

MOINHO SEM VELAS
Meu moinho abandonado,
meu refúgio de inocente,meu suspiro impertinente,
meu social transtornado.
Meu sussurro de oceano,meu ressoar de caverna,minha frígida cisterna,minha floresta de engano.
Minha toca de selvagem,meu antro de vagabundo,minha torre sobre o mundo,minha ponte de passagem.
Meu atributo coitado,meu tanger de hora serena,rolo de pedra morena,silêncio petrificado.
sábado, 16 de dezembro de 2006
Palavras bonitas
Hoje é dia de ser bom.
É dia de passar a mão pelo rosto das crianças,
de falar e de ouvir com mavioso tom,
de abraçar toda a gente e de oferecer lembranças.
É dia de pensar nos outros - coitadinhos - nos que
padecem,
de lhes darmos coragem para poderem continuar
a aceitar a sua miséria,
de perdoar aos nossos inimigos, mesmo aos que não
merecem,
de meditar sobre a nossa existência, tão efémera
e tão séria.
Comove tanta fraternidade universal.
É só abrir o rádio e logo um coro de anjos,
como se de anjos fosse,
numa toada doce,
de violas e banjos,
entoa gravemente um hino ao Criador.
E mal se extinguem os clamores plangentes,
a voz do locutor
anuncia o melhor dos detergentes.
De novo a melopeia inunda a Terra e o Céu
e as vozes crescem num fervor patético.
(Vossa Excelência verificou a hora exacta em que
o Menino Jesus nasceu?
Não seja estúpido! Compre imediatamente um relógio
de pulso antimagnético.)
Torna-se difícil caminhar nas preciosas ruas.
Toda a gente se acotovela, se multiplica em gestos,
Todos participam nas alegrias dos outros como se
e fazem adeuses aos bons amigos que
Nas lojas, na luxúria das montras e dos escaparates,
com subtis requintes de bom gosto e de engenhosa dinâmica,
cintilam, sob o intenso fluxo de milhares de quilovates,
as belas coisas inúteis de plástico, de metal, de vidro
e de cerâmica.
Os olhos acorrem, num alvoroço liquefeito,
ao chamamento voluptuoso dos brilhos e das cores.
É como se tudo aquilo nos dissesse directamente respeito,
como se o Céu olhasse para nós e nos cobrisse de bençãos
A Oratória de Bach embruxa a atmosfera do arruamento.
Adivinha-se uma roupagem diáfana a desembrulhar-se
E a gente, mesmo sem querer, entra no estabelecimento
e compra - louvado seja o Senhor! - o que nunca tinha
Mas a maior felicidade é a da gente pequena.
Naquela véspera santa
a sua comoção é tanta, tanta, tanta,
que nem dorme serena.
Cada menino
abre um olhinho
na noite incerta
para ver se a aurora
já está desperta.
De manhãzinha
salta da cama,
corre à cozinha
mesmo em pijama.
AH !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Na branda macieza
da matutina luz
aguarda-o a surpresa
do Menino Jesus
Jesus,
o doce Jesus,
o mesmo que nasceu na manjedoura,
veio pôr no sapatinho do Pedrinho
uma metralhadora.
Que alegria
reinou naquela casa em todo o santo dia!
O Pedrinho, estratégicamente escondido atrás das portas,
fuzilava tudo com devastadoras rajadas
e obrigava as criadas
a caírem no chão como se fossem mortas:
tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá.
Já está!
E fazia-as erguer para de novo matá-las.
E até mesmo a mamã e o sisudo papá
fingiam
que caíam
crivados de balas.
Dia de Confraternização Universal,
dia de Amor, de Paz, de Felicidade,
de Sonhos e Venturas.
É dia de Natal.
Paz na Terra aos Homens de Boa Vontade.
Glória a Deus nas Alturas.
quarta-feira, 27 de setembro de 2006
Palavras bonitas
FORMA DE INOCÊNCIA
Hei-de morrer inocente
exactamente
como nasci.
Sem nunca ter descoberto
o que há de falso ou de certo
no que vi.
Entre mim e a Evidência
paira uma névoa cinzenta.
Uma forma de inocência,
que apoquenta.
Mais que apoquenta:
enregela
como um gume
vertical.
E uma espécie de ciúme
de não poder ser igual.