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terça-feira, 15 de setembro de 2026

Livros (lidos ou em vias disso)

"(...) As noites de espectáculo inevitavelmente terminavam com a contagem das patacas e dos tostões amealhados, aferindo-se tanto o resultado dos ingressos como o das pilhagens, com o safardanas a enfardelar a pecúnia na rafada escarcela de que nunca se separava, nem quando a natureza o chamava a dobrar os joelhos atrás das moitas.

Todavia, a maior humilhação a que fui sujeito - mas também aquela que garantiu a minha liberdade - aconteceu no dia em que me pintaram os quartos traseiros de branco e me decoraram a cachola com uma vistosa armação de chifres, alardeando aos ingénuos que eu era espécime raro e extravagante, proveniente de longínquas latitudes, das profundidades da tundra lapónica: enfim, uma rena.

Não vale a pena nomear a terra onde tamanha vergonha ocorreu, que até aos dias de hoje semelhante enxovalho e infâmia permanecem vivos na memória do povo, mas a verdade é que a galhada que me tinham montado na cabeça, composta por materiais de qualidade inferior, logo na primeira saída à arena, com o calor das luzes, o ruge-ruge das lantejoulas e o gingar dos costados, fez com que as portentosas armações descaíssem para o lado, revelando o capcioso embuste.

Entre a assistência, à laia de macaréu, gerou-se gigantesco bruaá. No instante em que se aperceberam do logro, os labregos da aldeia sentiram que os estrangeiros buliam com as suas virtudes intelectuais e o calibre do seu entendimento, chafurdando-lhes com a honra e a inocência; num ape, armaram-se de varapaus, estadulhos e todo o tipo de cacetes a que conseguiram deitar a mão, e trataram de escorraçar a trupe de pilantras, mais as suas moscambilhas, para longe de tais arrabaldes. Nem uma granizada de armas de Santo Estevão faltou para rematar tal ópera bufa.

Aproveitei a bagunçada e escamugi-me daquele opróbrio a fim de reconquistar a liberdade e o amor-próprio. Não mais me tomariam por enxovedo das suas chuchadeiras.

Fortunas e adversidades de Luciano de Megera
Burro de muitos anos
D. Quixote (2026)

terça-feira, 7 de maio de 2024

Livros (lidos ou em vias disso)

A traição à pátria pode estar na ordem do dia de alguns mentecaptos, as origens de cada um, orientais ou rurais, e a história antiga (sempre mal contada), também.

Porém, a língua portuguesa, que une milhões de falantes por esse mundo fora, é sempre bela, riquíssima e cheia de novidades.

" (...) Na mesa da cozinha, Saturnino depositou o taleigo com as aves e gesticulou as suas explicações, descrevendo como o Rossio se achava apinhado de gente, cheio de animação, e que havia sido nas tendas dos comes e bebes que encontrara o Bezerra, na galhofa, a emborcar umas ginjinhas com os seus amigos caçadores; após pagar pelas perdizes, no regresso, vira também uma rapariga bonita e que por isso perdera a noção do tempo. Acerca da destemperada altercação com o fidalgote, nem uma palavra.

- Ah, meu magano, que andas de olho nas cachopas - comentou Fátima, com um sorriso maternal. - Vem daí, ajuda-me a depenar estas perdizes, que o trabalho tarda.

Vivia Domingos Rodrigues com desafogo numa residência de dois sobrados, provida de um pequeno horto murado e um poço de onde retirava água fresca e agradável. No quintal, com terra fácil de amanhar, cultivava-se toda a sorte de legumes de horta e ervas de cheiro a que tanto o mestre como Fátima amiúde recorriam para uso nas suas confecções. Por todo o lado renques de limoeiros e laranjeiras pejados de frutos proporcionavam sombra e uma aprazível fragância pelos ares. Contígua ao edifício principal, achava-se uma antiga estrebaria que em tempos o mestre de cozinha havia transformado para usufruto como oficina e laboratório, não somente para as suas experimentações alimentícias mas também a fim de promover as outras mais secretas, aquelas dedicadas à ciência da alquimia. Apresentava-se a oficina apetrechada com tudo o que fosse necessário para o bom ofício da cozinha, não faltando também o athanor ou forno dos alquimistas, um alambique, cadinhos, cantimploras e diversas retortas de formas variadas e feitios para cumprimento das funções da Arte Magna.

Não obstante as anteriores e infrutíferas tentativas de transmutar os metais, Domingos Rodrigues e João Curvo Semedo haviam compreendido que, através das propriedades e virtudes prodigiosas do ouro, poderiam almejar a prosseguir as suas experiências na fabricação do elixir da vida eterna. Sabiam que não seria tarefa fácil, antes árdua e espinhosa, com inúmeros contratempos, avanços e recuos, mas o caminho  encontrava-se traçado e seria construído com esforço, perseverança e paciência. Os dois amigos não aspiravam apenas à vida eterna, como também ambicionavam alcançar a cura das imperfeições do corpo, provocadas pela erosão dos tempos, aperfeiçoando-o, aprimorando-o, como algo puro, ligando-se assim de maneira inequívoca à Natureza, em comunhão com o Universo que tudo encerra.

Entendiam ambos, e de acordo com os seus herméticos estudos, que o corpo era somente e tão só um vaso de sangue, linfa, carne e ossos, um microcosmos, e que a eternidade seria o macrocosmos, a unidade perfeita de todos os átomos e partículas e a origem de todas as coisas do mundo. Através do elixir, aspiravam a conseguir o ígneo e primordial vínculo à matéria e à energia do divino, como um cordão umbilical, entre o corpo do homem e o Cosmos.(...) "

Os dias de Saturno
Paulo Moreiras

quinta-feira, 20 de janeiro de 2022

Livros (lidos ou em vias disso)

Uma editora nova, um autor desconhecido e a vontade, sempre presente, de desvendar e ser surpreendido. Comprei dois livros, de autores diferentes e a editora ainda me ofereceu um terceiro, de um outro escritor que também não conhecia.

Os contos que estão a ser lidos a grande velocidade são uma delícia e a prova provada de que o português é uma língua maravilhosa e não tem fim. Já perdi a conta às palavras que nunca tinha lido ou ouvido e para as quais foi inevitável o recurso ao dicionário.

"(...) No Bodo do Espírito Santo, manhã cedo, Calistra foi para a cozinha e preparou um cento daquelas maravilhantes guloseimas. Queria que todas as irmãs também fossem contagiadas por aquela paixão que o pastor lhe despertara.

Aparelharam-se as mesas no refeitório para receber os doces e as confeiteiras rivais. De um lado ficava a comitiva do Mosteiro de Estevães e diante o Convento de Sant'Ana. Nos topos as respectivas madres. Pouco depois, a irmã Francelina e a irmã Calistra começaram a colocar sobre a mesa as suas culinárias engenhosidades, cobertas com panos da mais fina cambraia, para que os olhos não começassem cobiçosos a sua avaliação.

Por fim, quando as travessas foram destapadas, logo as presentes perceberam a avultada diferença existente entre as iguarias apresentadas a julgamento. Irmã Francelina ostentava vários pudins de ovos, firmes, luzidios e morenos, com um tamanho superior aos pequenos, frágeis e modestos doces da irmã Calistra. Logo ali principiaram os alvitres e, olhando para Calistra, a madre Ermelinda carregou o sobrolho, revelando a desilusão e o desagrado que aquele cenário de hecatombe lhe provocava.

As irmãs de ambas as trincheiras deram início à gulosa contenda, degustando à vez um e outro pitéu e, todas à uma, renderam-se aos humildes e enjeitados doces de Calistra. Faltava, porém, o veredicto da abadessa de Estevães que, em êxtase, se deliciava a cada pequena dentada, lambisqueira,  entregue de corpo e alma ao culinário engenho de Calistra. Sumo pecado. 

Quando finalmente ditou a sua sentença ouviram-se vivas ao génio da irmã confeiteira de Sant'Ana. Conquistara a palma, pertenciam-lhe os louros.

- Como foi baptizado este pequeno prodígio?- questionou a abadessa do Mosteiro de Estevães. - Por muitos anos que viva nunca irei esquecer.

Calistra não o crismara ainda, não pensara nisso. Só o belo pastor tinha lugar no seu pensamento. 

- Brisas - disse, soluçando. - Brisas do Lis.

E assim, de um amor nunca declarado, nasceu esta especialidade culinária de Leiria, para benção do nosso corpo e leveza do espírito." 

O caminho do burro
Paulo Moreiras
Visgarolho (2021)