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quinta-feira, 16 de novembro de 2023

Percentagens

Era mais uma das habituais reuniões mensais, para análise dos resultados alcançados, em confrontação directa com os objectivos definidos para o ano em curso. Nelas, era apresentado um quadro com os resultados - o PowerPoint estava a dar os primeiros passos - e cada um comentava os seus, ensaiava justificações para o que ficara por realizar, enfatizava o que tinha acontecido de bom. O PowerPoint dava suporte visual e colorido, sendo o verde a esperança e a satisfação de todos.

Naquela reunião iriam, pela primeira vez, ser apresentados os resultados obtidos pelo contact center, contratado recentemente em outsourcing. O seu objectivo era contactar diariamente, via telefone, todos os clientes com prestações em atraso e assim, com a pressão, obter a regularização integral ou parcial do crédito vencido.

A conversa de apresentação foi novidade para todos e decorreu de forma eloquente, não deixando margem para dúvidas: são "sabões". O arrazoado foi extenso, as justificações, claras, a concretização definitiva e sem peias. O PowerPoint suportava os discursos e registava, a verde Bold, que havia sido conseguido sucesso em 99% dos telefonemas efectuados.

- Mas o valor do vencido não desceu ... murmurou-se à boca pequena, observação que, apesar de sussurrada, deve ter sido escutada ou imaginada no palco. A resposta, esclarecida, não tardou:

- A percentagem indicada diz respeito às chamadas atendidas. Se pagaram ou não, já não é connosco. 

segunda-feira, 5 de junho de 2023

Esforço e dedicação

Marcelo Rebelo de Sousa preocupado, como sempre, com o bem-estar de todos os portugueses, resolveu usar toda a sua influência e, num encontro fortuito e perfeitamente ocasional com os jornalistas, fez um veemente apelo à banca, pedindo um "esforçozinho" para que as taxas de juros dos depósitos sejam aumentadas. Podia ter feito uma chamada telefónica para os responsáveis máximos de cada banco, mas assim só gastou o "latim" uma vez e deu nota a toda a gente da sua preocupação.

A banca tremeu, reuniu, estudou, ponderou e decidiu, de imediato, o que não foi surpresa para ninguém: ficou tudo na mesma, mas tomaram boa nota das preocupações do PR. Quando precisarem de dinheiro, irão comprá-lo.

Entretanto, é expectável que o Presidente da República nomeie um grupo de trabalho que lhe forneça os elementos necessários às centenas de apelos que vai ter de fazer para que as grandes superfícies paguem mais aos agricultores, as gasolineiras vendam o combustível mais barato, os senhorios cobrem as rendas ao "preço da chuva", as construtoras diminuam o preço por metro quadrado, os táxis baixem as bandeiradas. 

Com um "esforçozinho" de todos, isto vai lá ...

quarta-feira, 11 de janeiro de 2023

Dinheiro

Circunstâncias que não vale a pena trazer, agora, à colação, determinaram a ida à Bordallo Pinheiro, com o intuito de adquirir uma peça para ofertar. Levando cartão ou dinheiro, não é possível sair daquela casa sem algo. Ontem, uma vez mais, a regra foi confirmada.

Espero que o destinatário da peça dela goste e que, sempre que a olhar, recorde a forma como tratou do meu assunto, sendo certo que não conseguirá, nessa recordação, chegar à infinita gratidão que lhe hei-de manter. Numa das peças miradas e remiradas, saltou a referência a um poema de João de Deus, que não conhecia nem consta dos escaparates cá de casa. Fui à "enciclopédia" virtual e de lá o transcrevo, mantendo toda a actualidade de ter sido escrito há 130 anos.

DINHEIRO

Dinheiro é tão bonito,
Tão bonito, o maganão!
Tem tanta graça o maldito,
Tem tanto chiste o ladrão!
O falar, fala de um modo ...
Todo elle, aquelle todo ...
E ellas acham-no tão guapo!
Velhinha ou moça que veja,
Por mais esquiva que seja,
Tlim!
Papo.

E a cegueira da justiça
Como elle a tira n'um ai!
Sem lhe tocar com a pinça;
É só dizer-lhe; Ahi vae ...
Operação melindrosa,
Que não é lá outra cousa;
Cataracta, tome conta!
Pois não faz mais do que isto,
Diz-me um juiz que o tem visto:
Tlim!
Prompta.

N'essas especies de exames
Que a gente faz em rapaz,
São milagres aos enxames
O que aquelle demo faz!
Sem saber nem patavina
De grammatica latina,
Quer-se a gente d'alli fóra?
Vae elle com taes fallinhas,
Taes gaifonas, taes coisinhas ...
Tlim!
Ora ...

Aquella physionomia
E labia que o demo tem!
Mas n'uma secretaria
Ahi é que é vel-o bem!
Quando elle de grande gala,
Entra o ministro na sala,
Aproveita a occasião:
«Conhece este amigo antigo?
- Oh meu tão antigo amigo!
(Tlim!)
Pois não!
 
Poesias lyricas completas
João de Deus
Imprensa Nacional (M DCCC XCIII)

segunda-feira, 21 de novembro de 2022

A tempo

Com o inverno instalado e o campeonato do mundo de futebol a começar, estão reunidas as condições para que as saídas sejam curtas e apenas quando estritamente necessárias.

A lareira já funciona, proporcionando uma temperatura que não é sequer comparável à que está lá fora, e, pelo menos por enquanto, a chuva não tem acesso ao interior. Tudo conjugado, há um convite ao borralho, ao sossego, à mandriice, à música, à leitura, tarefas extenuantes e exigentes, que deixam o pobre humano depauperado e contribuem para uma noite de sono sem sobressaltos.

Toda esta actividade faz com que se esfumem os ecos da guerra e da inflação. Não se perde tempo a ouvir a discussão do Orçamento nem se liga peva à capacidade literária do ex-governador do Banco de Portugal, que "pariu" um livro volumoso, com recurso a barriga de aluguer. Feitios ... vale mais tarde que nunca e, pelo interesse e destaque que a obra tem merecido nas parangonas, é "dinheiro em caixa", polémica para durar e entrada na história da literatura de cordel, com todo o respeito pelo género. Há sempre quem queira ficar na História pelo que diz que fez. Se não fez, a culpa não foi sua. Vontade tinha ...

Pensando bem, o livro chega a tempo de ainda assistir ao julgamento de Ricardo Salgado e, quem sabe, pode até servir para esclarecer as dúvidas que têm surgido e para fundamentar a sentença que, um dia, talvez seja proferida.

Tenho cá um palpite que o jornalista autor do livro poderia ter escrito o dobro das páginas, ou mais um volume, se tivesse pedido para consultar as actas da administração do Banco de Portugal da época. Lá deve estar tudo clarinho como água ... ou não.

sábado, 19 de novembro de 2022

Acentos

Entrou na agência com ar de quem não se sente à vontade, apesar do corpanzil, enorme, de que era dono. O nervosismo era evidente e chamou logo os holofotes da atenção de quem tinha obrigação de a prestar ao que se passava.

- Bom dia. Faça favor ...

- Abrir conta ... patrão mandou.

Foi-lhe indicado caminho para a secretária. Sentado, ficou mais tranquilo e, apesar de não dominar bem a língua, falou sempre em português e conseguiu fazer-se entender.

- Ucrânia. Estou Portugal dois anos. Patrão novo, mandou abrir conta, receber ordenado.

- Tem o passaporte e o cartão de contribuinte?

- Sim, claro.

Abriu a carteira, retirou os dois documentos e disse:

- Não ri ...

Não percebi. Julguei que tinha utilizado o verbo rir por engano. O atendimento tinha sido normal, sem excessos, sem qualquer motivo para risos. Adiante ...

Abri o passaporte. A foto correspondia e, logo abaixo, lá estavam o nome e o apelido, em ucraniano e em inglês. Os olhos, que não pescavam nada do ucraniano, saltaram de imediato para o inglês.

- Surname: Camara

- Name: Fode 

Registo feito, o banco ganhou mais um cliente, que se portou sempre bem enquanto por lá andei.

Eu, apesar de muitas vezes conversar com o homem, nunca consegui compreender a razão pela qual a falta de um acento circunflexo no apelido me haveria de provocar risota.  

sexta-feira, 23 de julho de 2021

Impressão ... digital

Em meados dos anos setenta do século passado, a actividade bancária e as pessoas que dela usufruíam não tinham nada a ver com a realidade de hoje. O dinheiro real circulava de mão em mão, uns com muito outros com pouco, como sempre. O cheque dava os primeiros passos para a universalização e era um meio de pagamento quase só usado pelas empresas, para efectuarem parte das suas liquidações, nomeadamente a fornecedores de outras bandas. O crédito em conta dos ordenados viria muito mais tarde e demorou bastante tempo a ser utilizado por toda a gente. Os funcionários públicos recebiam os seus vencimentos, em dinheiro vivo, nos respectivos serviços ou nas tesourarias de finanças.

Na Praça da República existiam apenas três agências bancárias (hoje parece que regredimos e voltaram, por enquanto, a existir de novo três): a do Banco de Portugal, que não estava aberta ao público e servia quase só para alimentar de dinheiro as instituições que dele careciam ou para receber em depósito o excesso de tesouraria de alguma; a Caixa Geral de Depósitos, virada para a poupança particular e para o crédito às entidades públicas, às grandes empresas e ao crédito bonificado à habitação, que dava os primeiros passos; e ainda o Banco Português do Atlântico, dedicado fundamentalmente às empresas, pequenas e médias e ao pequeno comércio. Havia mais três agências, noutros locais da cidade, e dois ou três correspondentes bancários, que quase só serviam de "caixa de correio" das letras que vinham à cobrança.

José, assim chamado para poupar no espaço, tinha vendido uns eucaliptos e o comprador passara-lhe um cheque para o respectivo pagamento. Indagou onde poderia transformar aquele papel em notas úteis e lá foi até ao BPA.

- Assine aqui.

Não sabia uma letra do tamanho de um comboio e, envergonhado, confessou-o.

- Não há problema. Tiramos-lhe a impressão digital.

Veio a caixa de madeira, com tampo de pedra, foi colocada a tinta, preta, alisada como rolo de borracha.

- Dê cá o dedo.

Rodou-se da esquerda para a direita e a "fotografia" do indicador direito foi colocada no verso daquele papel que, por estranho que parecesse, valia três contos de réis. O empregado anotou, na frente do cheque e em tamanho grande, o número da chapa que lhe atribuiu.

- Agora vá ali à caixa.

José subiu a Praça, entrou na Caixa, sentou-se e aguardou. Demora tanto! Se calhar estão a fazer as notas, pensou. Um dos empregados estranhou a presença daquele homem, ali sentado há tanto tempo. 

- Está à espera de alguém?

- Não. Estou a aguardar que me chamem para receber, respondeu, exibindo a chapa do BPA.

Desfez-se o equívoco, José desceu a Praça e entrou de novo na agência do Atlântico.

- Em vez de vir receber, foi passear?

- O seu colega mandou-me ir à caixa e eu fui ... lá acima.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

Bancos

A sala era enorme, verde, com portas brancas, de madeira, com vidro aos quadrados no centro. O chão estava coberto por vários tapetes de Arraiolos, com desenhos diferentes, dificultando a escolha do mais bonito. Uma lareira, acesa desde manhã bem cedo até à noite velha, garantia um ambiente acolhedor e sedutor. Por cima, na parede do fumeiro, um retrato a óleo da senhora, bem na altura dos olhos de quem entrava. Impunha respeito pelo tamanho e pela beleza. Os olhos azuis, do retrato e da dona, eram vivos e olhavam-nos de todo o lado, parecendo controlar tudo.

Entrar na sala implicava uma série de cuidados e exigia recato e reverência, aumentada ao extremo quando a senhora, ela própria, estava presente.

- Vossa Excelência dá-me licença, Senhora Dona M.T.?

- Entra, entra.

- Muito bom dia, minha senhora. Como está?

- Bem. O senhor foi ali. Espera um pouco que não demora.

Encostado, constrangido, envergonhado, sem saber onde colocar as mãos, o tempo de espera, uma eternidade. Olhadela rápida a tentar ler o título do livro, outra a apreciar o fumo do cigarro, seguro nas mãos cobertas por luvas de pelica, pretas, quase até ao cotovelo. A música tocava baixinho. Televisão, havia, mas não naquela sala. Ali era o sossego, o descanso, o relaxe, a conversa com as visitas, o local para as ordens, o salão nobre onde só se entrava, chamado.

Chegou, finalmente.

- Mandei chamar-te porque quero que vás ao banco e me tragas "xis". Não me apetece sair, com este frio. Aqui tens o cheque.

Ordem dada, missão a cumprir com brevidade. O cheque era ao portador e estava assinado no verso pelo senhor, tal como seria se fosse ele mesmo ao banco. O caixa, de pé e sempre a conversar, curioso por saber como estava o senhor e porque não tinha vindo, puxou do maço das notas e entregou-o.

- Não te esqueças de lhe apresentar os meus cumprimentos.

O Multibanco chegaria muitos anos depois, em 1985. Por essa altura, o caixa já só contava histórias no outro mundo e o banco, ainda no mesmo sítio, tinha mudado de nome.

Hoje, o banco já não existe. Resta o edifício, que é uma loja de roupa e pouco dinheiro vivo terá.

sexta-feira, 8 de abril de 2016

Quotidiano / Expresso

Um dia destes, como me parece que já por aqui escrevi, vou marcar uma entrevista com o Dr. Balsemão para lhe pedir um "agrado" pela publicidade que faço do seu (dele) Expresso, para além de ser seu leitor desde o número um, publicado no já longínquo ano de 1973.
Mas, honra lhe seja, o Expresso continua a merecer a minha preferência e a dar-me sempre razões para continuar a fidelidade. Agora, no online, dá "aulas", concisas e precisas, que são um encanto e, no caso concreto das duas que insiro abaixo, dizem muito a quem é (foi) "do ramo".