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segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

Palavras bonitas

AMEAÇAS

Ao longo da madrugada
escuta
vozes que a chamam

- Maria da Nazaré!
Ó filha da Galileia!

E ela salta da cama
fecha portas e janelas
corre as cortinas da casa

pés descalços na friagem
de percorrer o soalho
atrás das vozes que a atraem

a ameaçam, enchamam
enquanto o anjo não vem:

- Maria da Nazaré!
Ó filha da Galileia!

E ela já rodopia, rodando
sobre si mesma
à espera que elas se afastem

se desvaneçam e rasguem
se entorpeçam, apaguem
desguarneçam e deslacem

Mas logo elas se desdobram
tornando no chamamento:

- Maria da Nazaré!
Ó filha da Galileia!

Palavras vindas de quem
do outro lado do espaço
as marca com a friagem

da ira que se contém

Anunciações
Maria Teresa Horta
D. Quixote (2016)

terça-feira, 4 de fevereiro de 2025

Palavras bonitas

Partiu hoje uma das enormes, das quais já restam poucas.

A sua escrita há-de subsistir no tempo, lembrando outros tempos, negros, e buscando sempre um mundo novo, mais igual na diferença e, sobretudo, mais justo.

Maria Teresa Horta - 20.05.1937 / 04.02.2025

 

EXALTAÇÃO

Sou poeta, feiticeira
escrevo poesia

exaltada

pelo excesso da paixão
procuro a linguagem

Sou poetisa
Cassandra
conto histórias devastadas

invento verbos
e versos
ludibrio e reconstruo

vou em busca da gramática

Por entre temas e excessos
divido as orações
de freiras alumbradas

Sou poeta, pitonisa
moro na poesia

alada

não ganhei medo às fogueiras
apago-as com o regozijo
e o tumulto das palavras

Poesis
Maria Teresa Horta
D. Quixote (2017)

quarta-feira, 8 de março de 2023

Palavras bonitas

No Dia Internacional da Mulher, escritas por uma grande mulher a falar de sua avó, outra enorme mulher nos tempos em que ainda era mais difícil sê-lo.

REVOLUÇÃO FRANCESA

Andou
na revolução francesa
desassossegou o coração

Foi amiga daquelas
que gritaram
caminhou com elas

Pisou o mesmo chão

Esteve nas assembleias
revolucionárias
fizeram com o seu grito

Um imenso cordão

Maria Teresa Horta
Poemas para Leonor
D. Quixote (2012)

quinta-feira, 8 de setembro de 2022

Palavras bonitas

   CRUELDADES

Sou da condição
do voo
vivo no gume da faca

na própria ferida
da ferida
se o poema desacata

E se as palavras invento
visto-as com os punhais
e os espinhos do pensamento

Evito silvas e frestas
as crueldades fatais
retiro o selo do lacre

Misturo o muito e o mais

Paixão
Maria Teresa Horta
D. Quixote (2021)

domingo, 21 de agosto de 2022

Palavras bonitas

MULHER-POETISA

Pareces um mistério
intransponível

Alguém que se
esquivou 
ao seu preceito

Na recusa
de obedecer à vida

Ao quererem-te domada
e desse jeito
dócil  obediente  submissa

<<Impossível>> - respondeste
branda e esquiva

Sou mulher
Revoltosa
E poetisa

Poemas para Leonor
Maria Teresa Horta
D. Quixote (2012)

terça-feira, 8 de março de 2022

Dia Internacional da Mulher

CLAUSURA

Maria olha
a vida
trancada à sua frente

sem uma ranhura
ou fresta ou fenda
sem nenhuma abertura

- Eis a minha clausura ...
pensa

CRUELDADE

Mesmo na sombra
que toldou a sua vida
Maria nunca se turva

Frente à crueldade
- está ciente -
não se curva

Anunciações
Maria Teresa Horta
D. Quixote (2016)

quarta-feira, 24 de novembro de 2021

Palavras bonitas

DISFARCES

Eu sou o tigre dos versos
a raposa da saudade
o leopardo adverso
nele buscando o inverso

da escrita no seu disfarce

Eu sou o lince dos verbos
a pantera em sua arte
o desespero do falcão
a águia do vento norte

no desvario da razão

Estranhezas
Maria Teresa Horta
D.Quixote (2018)

terça-feira, 12 de outubro de 2021

Palavras bonitas

DESOBEDIÊNCIA

Por vezes vejo
Lilith
com sua saia de lã

e casaco de retrós

ou um vestido de noite
todo coberto de nós
que desata um por um

Por vezes vejo
Lilith
pé ante pé no porvir

desobedecendo
... a sorrir

Maria Teresa Horta
Estranhezas
D. Quixote(2018)

quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

Palavras bonitas

TRAJECTO NA ESCRITA

Vou entrançando
o traçado
do meu trajecto na escrita

Consulto os mapas da alma
o júbilo, a assombração
do coração a desdita

os atlas da insubmissão
as cartas dos oceanos
os versos, a alegoria

Vou navegando à bolina
por entre ventos contrários
e ondas enraivecidas

com a bússola da transgressão
os astrolábios dos dias
e as palavras da poesia

Vou atando e desatando
o destino e a desdita
misturando os nós dos mares

com o anelo da paixão
o alvoroço da vida
as dúvidas da harmonia

e a minha melancolia

Maria Teresa Horta
Estranhezas
D. Quixote - 2018


domingo, 4 de agosto de 2013

Palavras bonitas



PRESSÁGIO                                                              
                                 
Há um presságio de júbilo                                           
à sua beira, um tecido tecendo                                     
a trama do contrário                                                     

Uma réstia de mar                                                        
na sua esteira, uma espécie
de ardil em seu afago                                                                                            

Um modo                                                                     
Um todo                                                                       
Uma maneira                                                                

De misturar
o doce
com o amargo

ETERNIDADE

Regressava sempre
das viagens
como se voasse

A perder-se no dentro
de si mesma. Em busca
do mundo e da verdade

Firme, sedenta e libertária
na teima de encontrar a eternidade.

Maria Teresa Horta
Poemas para Leonor

domingo, 23 de junho de 2013

Palavras bonitas

POEMA

Deixo que venha
se aproxime ao de leve
pé ante pé até ao meu ouvido

Enquanto no peito o coração
estremece
e se apressa no sangue enfebrecido

Primeiro a floresta e em seguida
o bosque
mais bruma do que neve no tecido

Do poema que cresce e o papel absorve
verso a verso primeiro
em cada desabrigo

Toca então a torpeza e agacha-se
sagaz
um lobo faminto e recolhido

Ele trepa de manso e logo voraz
que da luz é a noz
e depois o ruído

Toma ágil o caminho
e em seguida o atalho
corre em alcateia ou fugindo sozinho

Na calada da noite desloca-se e traz
consigo o luar
com vestido de arminho

Sinto-o quando chega no arrepio
da pele, na vertigem selada
do pulso recolhido

À medida que escrevo
e o entorno no sonho
o dispo sem pressa e o deito comigo

Maria Teresa Horta

PS - Ontem a Universidade de Coimbra foi declarada Património da Humanidade pela Unesco e, nesta decisão, é toda a cultura portuguesa que é reconhecida. 

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Livros (lidos ou em vias disso)

Cheguei ao fim!

São 1054 páginas de um português adjectivado, substantivo, recheado de belíssimos e desusados vocábulos, num romance sobre a história da Marquesa de Alorna, poetisa, neta de Leonor de Távora.

Ao longo da viagem histórica e romanceada, visita-se e reflecte-se sobre o despotismo de Pombal, as intrigas da corte, o papel das mulheres, o luxo, a superficialidade, os amores, as traições, os casamentos de conveniência, a "loucura" da Rainha e o oportunismo do Príncipe, as baixezas de Pina Manique, a revolução francesa, os interesses dos Estados, a política (só para homens), a poesia e os poetas, numa descrição cativante e empolgante, que faz ressaltar sempre a ânsia do saber, os livros, os ideais, as ideias, as Luzes que comandam, mesmo que, aos olhos da grande maioria, surjam descabidas, sem nexo, sem interesse, importância ou justificação.

Um grande livro!

As luzes de Leonor
Maria Teresa Horta
D. Quixote (2011)