Há 80 anos, as tropas soviéticas libertaram os poucos judeus que haviam resistido à barbárie hitleriana.
Vamos lembrando, pedindo para não ser esquecido, desejando que não se repita mas ...
Casa situada na cidade das Caldas da Rainha, "nascida" em 1976, numa rua sossegada, estreita e, desde Abril de 2009, com sentido único. Produção: dois frutos de alta qualidade que já vão garantindo o futuro da espécie com quatro novos, deliciosos. O blog é, tem sido ou pretendido ser uma catarse, o diário de adolescente que nunca escrevi, um repositório de estórias, uma visão do quotidiano, uma gaveta da memória.
Há 80 anos, as tropas soviéticas libertaram os poucos judeus que haviam resistido à barbárie hitleriana.
Vamos lembrando, pedindo para não ser esquecido, desejando que não se repita mas ...
(...) Correr. Ao longo do arame farpado. Não lhe tocar. As lâmpadas estão no encarnado.
Passar outra vez pelo portão para entrar. A passagem é estreita. É preciso correr ainda mais depressa. Não importa as que caem, são espezinhadas.
Correr. Schneller. Correr.
Voltar outra vez para diante dos homens que tornam a encher o avental de terra.
Têm de fazê-lo depressa, estão a levar pancada. Pazadas bem cheias, batem-lhes, batem-nos.
Uma vez o avental cheio, pauladas. Schneller.
Correr para o portão, passar sob as correias e os chicotes, correr em cima da tábua que balança e se verga. Atenção à bengala do chefe SS na extremidade da tábua. Esvaziar o avental em cima de um ancinho, correr, atravessar o portão pela passagem cada vez mais estreita - é aí que os bastões se acumulam -, correr em direcção aos homens para voltar a apanhar duas pazadas de terra, correr para o portão, num circuito ininterrupto.
Querem fazer um jardim à entrada do campo.
Duas pazadas de terra até que não são muito pesadas. Mas vão-se tornando. Pesam mais e tornam o braço anquilosado. Atrevemo-nos a segurar mal os cantos do avental para deixar cair um bocado de terra. Se uma fúria vê, bate-nos. E, no entanto, fazêmo-lo, porque é peso de mais.
Há um francês. Aldrabamos e calculamos a corrida para ser ele a abastecer-nos. Tentamos trocar algumas palavras. Fala sem mexer os lábios, sem levantar os olhos, é assim que se aprende a falar na prisão. São precisas três voltas para uma frase.