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domingo, 13 de junho de 2021

Livros (lidos ou em vias disso)

(...) Manhãs, dias, tardes, noites, madrugadas, dias, semanas, meses, anos. O Língua e o padrinho iam e vinham. Um ensinava, outro aprendia. O que havia para ser dito era dito, o que não, observando bem, também estava dito à sua maneira. Não só o padrinho e a madrinha, mas toda a gente entendeu que o menino era reservado, firme, de poucos lamentos e de poucas respostas. Ele assumiu a sua condição de escravo com uma altivez inédita na plantação. Se cá veio para, assim inteiro e tão menino, é porque quis. Isto pensava toda a gente. E esse quis não era vontade, era coragem. De modo que todas as perguntas foram dadas por respondidas e o mistério passou a fazer parte do grande património das coisas que os escravos nunca disseram, nunca dizem e nunca dirão.

Manhãs que passaram

Cada criatura tem a sua hora do dia e da noite. Mesmo com a Lua e com o Sol isso acontece. Também há peixes que dormem de dia e há plantas que acordam de madrugada. Há pássaros que cantam com o sol e há arco-íris de estrelas. A hora das crianças é a do nascer do dia. Sentem um sono pesado e uma ansiedade de se levantar que não sabem o que fazer. Era nessa hora que havia mais trabalho para os escravos. O Língua rezava com o padrinho e a madrinha e ficava à espera da primeira conversa da manhã. (...)

Biografia do Língua
Mário Lúcio Sousa
D.Quixote (2015)

quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

Livros (lidos ou em vias disso)

Num ano tão difícil como foi o que agora está a acabar, é bom que não esqueçamos  de como éramos e o que tínhamos até Abril de 1974, evitando algumas tentações que por aí abundam e para as quais vão aparecendo algumas câmaras de eco.

Estou a acabar o último livro das leituras, muitas, que 2020 me ofereceu. Talvez ainda hoje ou, no máximo, amanhã, chegue à última página. Hei-de lembrar-me dele, com toda a certeza, e é de um autor que nem sequer conhecia. Conta a história dessa prisão sinistra que o Botas instalou em Cabo Verde, onde muitos sofreram, e morreram, às mãos de muitos "animais" sem um pingo de dignidade.

(...)Nessas coisas pensamos para não pensarmos noutras.

O ano de 1945 começou em Abril, logo seguiu para Agosto e terminou abruptamente em Outubro.

Em Abril chegou o noivo director, David Prates, um capitão com ar de tenista. Tem uma voz pausada e grave e tempo para escutar. Caminha devagar e fala com os presos olhando nos olhos. A primeira vez que ele entrou na nossa caserna, apressámo-nos a esconder debaixo da cama todas as nossas tralhas, um monte de cangalhada que os presos guardam com desmedido interesse. Eu tinha um pedaço de uma sola, dois pregos enferrujados, catorze botões, um chifre de cabra, metade de uma tesoura, uma moeda de 1886, um bico de biberão, seis pêlos de vassoura, uma mola, dois pedaços de papel de cimento, um osso, uma manga de camisa e um bocado de rapé.

Ele perguntou-nos:

- Porque não têm mantas?
- Virou trapo, respondemos. 
- E casacos?
- Virou farrapo.
- Prato?
- Furou.
- Colher?
- Quebrou.
- Botas?
- Acabaram.
- E? ...
- Nunca tivemos,  
respondemos em coro.

Ele ficou pensativo, pediu licença e saiu. No dia seguinte, ofereceu-nos um aparelhinho de rádio. Muito inteligente. A oferta do rádio não foi uma benfeitoria, mas, sim, uma forma raposa para entendermos a situação.

Pois, em Abril mesmo, ouvimos que Salazar decretou luto nacional pela morte de Mussolini e Hitler, num espaço de dois dias.

Em Agosto, escutámos pelo mesmo rádio a bomba atómica. E depois: "A Guerra acabou", alto e bom som.

Em Setembro, assistimos em directo às manifestações em Lisboa. Nunca imaginei que, na minha modesta condição de ainda vivo, sentiria os ombros a crescerem, a coluna a ficar erecta, e em mim um efémero direito a ter vaidade.

Em Outubro, escutámos o mais surpreendente comunicado do governo português, dizendo para todo o mundo que em Portugal não havia presos políticos. Alguém atirou o rádio contra a parede. Tenho as pilhas guardadas.

No mês em que nada quiseram que soubéssemos do mundo, aqui morreu, no dia 03 de Junho de 1945, Manuel da Costa, o nosso pedreiro de 58 anos de idade.(...)

O diabo foi meu padeiro
Mário Lúcio Sousa
Dom Quixote (2019)