ÂNSIA
Não me deixem tranquilonão me guardem sossegoeu quero a ânsia da ondao eterno rebentar da espumaAs horas são-me escassas:dai-me o tempoainda que o não mereçaque eu queroter outra vezidades que nunca tivepara ser sempreeu e a vidanesta dança desencontradacomo se de corpostivéssemos trocadopara morrer vivendoRaiz de orvalho e outros poemasMia CoutoCaminho (1999)
Casa situada na cidade das Caldas da Rainha, "nascida" em 1976, numa rua sossegada, estreita e, desde Abril de 2009, com sentido único. Produção: dois frutos de alta qualidade que já vão garantindo o futuro da espécie com quatro novos, deliciosos. O blog é, tem sido ou pretendido ser uma catarse, o diário de adolescente que nunca escrevi, um repositório de estórias, uma visão do quotidiano, uma gaveta da memória.
sábado, 19 de abril de 2025
Palavras bonitas
quarta-feira, 30 de outubro de 2024
Livros (lidos ou em vias disso)
"(...) Fala de Matias Kirimi
O padre não era branco. Mas, naquele momento, ele agia como se fosse um deles. E sempre que os brancos querem saber quem sou, levanto as mãos para que vejam que estou desarmado. Os meus braços são asas inúteis. Sou como as aves domésticas: nem o céu nem o chão me pertencem. Assim, de braços abertos e as mãos rendidas, os brancos acreditam que, mesmo que eu bata as asas, eles serão donos do meu voo.
Há pouco, quando saltei para o caminho, soletrei devagar o meu primeiro nome como se aquele <<Matias>> me tornasse menos preto. O padre sorriu, com altivez. Não fazia ideia de que lhe entregava a casca para salvar o fruto. Procedi assim porque há muito que estou avisado: é pelo nome que nos começam a roubar a alma. No momento seguinte, como eu já adivinhava, o padre perguntou pela minha tribo. O nome e a raça não bastavam. Nos tempos de hoje, disse eu, ninguém sabe quem é quem, nem de onde vem.
No final, o padre voltou ao assunto da cor da pele. Disse que eu era demasiado claro para ser um negro retinto. Respondi que não sabia responder. Ele que me dissesse de que raça eu era. Essa é a especialidade dos brancos: as raças. (...)"
sábado, 7 de novembro de 2020
Livros (lidos ou em vias disso)
Mais um livro que, chegado há dois dias, já anda em bolandas da sala para o quarto, do escritório para o WC, numa vertigem que acabará daqui a pouco tempo, imagino. É uma viagem ao antes e ao depois da independência de Moçambique, com a habitual qualidade de um grande autor - Mia Couto - que, há já muito tempo, detém um espaço importante cá em casa.
(...) Vou confessar uma coisa, senhor inspector: esse Sandro vinha muitas vezes confidenciar com as minhas filhas. Não gosto muito daquilo, o bairro comenta, o meu marido chateia-se e eu, francamente, tenho receio que a doença dele seja contagiosa e passe para as meninas e lá acabo por ficar sem netos. Um certo dia surpreendi Sandro fechado com o Jerónimo na cubata do empregado. Pensei logo numa coisa escabrosa. Escutei atrás da porta, os tipos conversavam em voz abafada. Mas depois lá concluí que falavam de política, inspector. E não era coisa boa. A conversa deles era pior do que um pecado da carne, está-me a entender, senhor inspector?
Talvez seja útil o senhor interrogar o meu empregado, o Jerónimo. Mas o inspector terá que vir amanhã durante o dia. É que ele não dorme aqui. Temos uma cubata nas traseiras, mas usamo-la como armazém. Não quero nenhum empregado dentro de casa depois do sol posto. A gente nunca sabe quem eles são e que companhias podem trazer a meio da noite. Nas tardes em que o trabalho se prolonga, este meu Jerónimo suplica que o deixemos dormir num canto qualquer. Tem medo de cruzar a cidade à noite. A caderneta indígena não o livra de ser apanhado pela polícia, nas rusgas noturnas. Diz que, se isso acontecer, o prendem e lhe batem. Resultado: o rapazito acaba dormindo no galinheiro. Toma banho de madrugada para não cheirar nem a catinga nem a estrume. Mas lava-se na praia, nas águas do mar. Não quero que nos gaste a água, esta malta não tem noção do que custam as coisas, para eles é só abrir a torneira. E o Jerónimo até prefere assim, pois diz que, no mar, se lava da sujidade do corpo e dos demónios da alma.(...)
Mia Couto
Caminho(Out.2020)
domingo, 18 de outubro de 2020
Palavras bonitas
(Lembrança roubada à minha filha)
Horário do fim
morre-se nadaquando chega a vezé só um solavancona estrada por onde já não vamosmorre-se tudoquando não é o justo momentoe não é nuncaesse momentoRaiz de orvalho e outros poemasMia CoutoEditorial Caminho (1999)
terça-feira, 5 de maio de 2020
Dia Mundial da Língua Portuguesa
segunda-feira, 27 de novembro de 2017
Livros lidos (ou em vias disso)
sábado, 14 de novembro de 2015
Livros (lidos ou em vias disso)
No ramos mais altos reuniam-se as fêmeas que amamentavam os filhotes. De tal modo se pareciam com pequenas pessoas que eu evitava enfrentá-las nos olhos para não fraquejar no meu intuito caçador. Aquele sentimento de compaixão foi-se avolumando à medida que em mim cresciam sonhos de maternidade. Até que, daquela vez, frente ao tronco que devia escalar, ganhei coragem para declarar:
- Desculpe, pai. Mas eu não volto lá em cima nunca mais.
O meu velhote admirou-se com a minha atitude. (...)
E ele, surpreendentemente, aceitou a minha recusa.
- Está com pena dos morcegos? Eu entendo, minha filha. E vou-lhe dizer por que percebo muito bem essa sua recusa.
E contou-me uma história antiga, que escutara dos seus avós. Naquele tempo, os morcegos cruzavam os céus com a vaidade de se acreditarem criaturas sem semelhança neste mundo. Certa vez, um morcego tombou ferido numa encruzilhada de caminhos. Passaram por ali os pássaros e disseram: olha, um dos nossos! Vamos ajudá-lo! E levaram-no para o reino dos pássaros. O rei das aves, porém, ao ver o morcego moribundo comentou: ele tem pelos e dentes, não é dos nossos, levem-no daqui para fora. E o pobre morcego foi depositado no lugar onde havia tombado. Passaram os ratos e disseram: olha, é um dos nossos, vamos salvá-lo! E conduziram-no à presença do rei dos ratos que proclamou: tem asas, não é dos nossos. Levem-no de volta! E conduziram o agonizante morcego para o fatídico entroncamento. E ali morreu, só e desamparado, aquele que quis pertencer a mais do que um mundo.
Era evidente a moralidade da fábula. Por isso estranhei a sua pergunta, no final:
- Entendeu, filha?
- Acho que sim.
- Duvido. Porque esta história não é sobre morcegos. É sobre você, Imani. Você e os mundos que se misturam dentro de si.
quinta-feira, 30 de agosto de 2012
Crise
terça-feira, 24 de junho de 2008
Ofertas
Correspondendo ao convite (mais um) da Loja 107, fui ouvir Mia Couto apresentar o seu novo romance.
terça-feira, 23 de maio de 2006
Palavras bonitas
" O silêncio não é a ausência da fala, é o dizer-se tudo sem nenhuma palavra. "
Mia Couto
O outro pé da sereia
Editorial Caminho