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segunda-feira, 25 de novembro de 2024

Livros (lidos ou em vias disso)

"(..) Ao terceiro dia os símbolos foram depostos em Elvas.

Durante a tarde de sábado as forças militares deitaram por terra o que ainda restava do regime recentemente derrubado. Muitas foram as pessoas que se juntaram na Praça D. Sancho II para assistir à  retirada da placa da fachada da sede da PIDE/DGS. Houve ovações aos militares e vivas a um Portugal livre. Antes disso, no interior do edifício, inventariou-se o espólio existente.

No Largo de São Martinho, a tarefa repetiu-se. Também o edifício da Legião Portuguesa viu ser retirada da fachada a placa que a mencionava, como se nunca tivesse existido ou quisesse esquecer-se a sua existência.

Na noite anterior a Praça D. Sancho II tinha sido pequena para receber todos os que quiseram dar largas à sua satisfação, à esperança adiada de ver cair o regime, de poder sonhar um Portugal diferente. Os jovens eram os mais entusiastas, mas havia homens e mulheres de todas as idades e credos, militares e civis, sob a égide da antiga Sé, vigia perene. Traziam cartazes e faixas onde se podia ler agradecimentos às Forças Armadas e palavras de insulto ao fascismo.

- Em vez de ódio e dor, queremos paz e amor.

- Viva M.F.A. 

- Viva Portugal.

Abril
Nuno Franco Pires
Visgarolho (2024)

quinta-feira, 20 de outubro de 2022

Livros (lidos ou em vias disso)

"(...) Clara encontrou a avó sentada na varanda, imersa nos seus pensamentos. Rodeavam-na vasos de plantas de que cuidava com dedicação e fotografias antigas que guardava numa caixa velha no fundo de uma gaveta, algumas com tanta idade como ela. Aninhou-se ao seu lado, Soledad devolveu-lhe um sorriso carinhoso. Passou os olhos pelas fotografias espalhadas sobre o banco, selecionando uma de família: a avó Sole, o irmão e os pais, Juan e Mercedes sentados em duas cadeiras, com os filhos um de cada lado. Formavam uma família bonita, as feições da mãe replicadas na filha Soledad e as do pai no filho Santiago. Unidos num sorriso, não podiam imaginar o que o futuro lhes reservava.

O retrato foi encomendado pelo pai. Juan quis imortalizar a harmonia familiar, como se adivinhasse a tempestade a aproximar-se. Combinou com o fotógrafo, vestiram-se a preceito e compareceram no dia e hora marcados. A moldura passou a fazer parte da decoração da casa, encimando o louceiro em frente à porta da rua. Foi dos poucos pertences que Mercedes trouxe consigo quando decidiram fugir para Elvas. Oitenta anos depois, Clara segurava nas mãos aquele pedaço de história.

Noutra fotografia, em tons sépia, reconheceu os traços do bisavô Juan rodeado de árvores de fruto em modos de trabalho, ao lado de outros homens, nenhum deles lhe era familiar. Dando a volta ao retrato leu "Monte do Loreto, Elvas, novembro de 1936", um mês antes do desaparecimento do homem. Deteve-se a amiudá-lo, bom seria se para além do aspecto físico as fotografias revelassem pensamentos, e fosse possível adivinhar nos olhos do bisavô o que o inquietava naquele momento. O que estaria a sentir? Haveria realmente outra mulher na sua vida? Tê-la-ia preferido, deixando para trás a mulher Mercedes e os dois filhos? Não fez perguntas, quis poupar a avó. (...)" 

Sombras da raia
Nuno Franco Pires
Visgarolho (2022)