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terça-feira, 10 de junho de 2025

10 de Junho

Ao ouvir, hoje, o resumo dos discursos de Lídia Jorge e Marcelo Rebelo de Sousa, no âmbito das comemorações do 10 de Junho, lembrei-me de um estudo que a minha filha me ofereceu e sobre o qual falei aqui, já lá vão uns anitos.

O estudo indica que, como qualquer português, tenho raízes que vão da Ásia, passam pela África, viajam pela Europa e "aterram" aqui, neste "jardim à beira-mar plantado". 

Se, ao invés de nos preocuparmos com as origens, a cor, a religião de cada um dos que por cá habitamos, muitos em condições miseráveis e vergonhosas, procurássemos colaborar na integração de todos, sem preconceitos, ódios, invejas e aproveitamentos vis, talvez conseguíssemos um Portugal maior e mais feliz.

"Ou fazendo que, mais que a de Medusa,
 A vista vossa tema o monte Atlante,
Ou rompendo nos campos de Ampelusa
Os muros de Marrocos e Trudante.
A minha já estimada e leda Musa
Fico que em todo o mundo de vós cante,
De sorte que Alexandro em vós se veja,
Sem à dita de Aquiles ter inveja."

Os Lusíadas
Canto X (final)
Luís de Camões

sábado, 20 de maio de 2023

Fama

A telenovela TAP versus computador surripiado, roubado, desviado, transviado, com gritaria, ameaças, diz que disse, seguranças e polícia à mistura, conhece uma curta pausa de fim-de-semana. Outros valores mais altos se alevantam e é fundamental concentrar energias no futebol, que está ao rubro e a dar audiências e vendas, antecipando-se que o Benfica será campeão se ganhar em Alvalade e o Porto perder com o Famalicão, o que garante a permanência de todos os olhos e ouvidos bem atentos.

Segunda-feira haverá novos episódios, com muitos Zandinga a fazer previsões e a afirmar certezas sobre quem prevaricou, se é roubo ou furto, ou se, afinal, é apenas uma brincadeira de garotos, que se poderia resolver com um par de estalos e nunca com dois socos, como parece ter sido ameaçado pelos dois principais actores.

Ambicionemos que o bom senso regresse ao local de onde nunca deveria ter saído e que, do acontecido, se tirem conclusões rápidas e se corrijam procedimentos. Talvez seja de ponderar a obrigação de frequência e aproveitamento na disciplina de "Serviço Público".

Entretanto e para que se habituem a trabalhar, talvez seja importante passarem os olhos pel'Os Lusíadas, não para lerem toda a obra mas fixando a atenção nas estrofes 95 e 97, do Canto IV.

Aprende-se sempre alguma coisa ...

95
Ó glória de mandar, ó vã cobiça
Desta vaidade, a quem chamamos Fama!
Ó fraudulento gosto, que se atiça
Cua aura popular, que honra se chama!
Que castigo tamanho e que justiça
Fazes no peito vão que muito te ama!
Que mortes, que perigos, que tormentas,
Que crueldades neles experimentas!

97
A que novos desastres determinas
De levar estes Reinos e esta gente?
Que perigos, que mortes lhes destinas,
Debaixo dalgum nome preminente?
Que promessas de reinos e de minas
De ouro, que lhe farás tão facilmente?
Que famas lhes prometerás? Que histórias?
Que triunfos? Que palmas? Que vitórias?

Os Lusíadas
Luís de Camões

sábado, 23 de julho de 2022

Actualização

Numa época em que o vocabulário é cada vez mais escasso e repetitivo, fica-se espantado quando se lê, algures, que Camões utilizou mais de nove mil palavras diferentes n'Os Lusíadas. Talvez Aquilino Ribeiro, Miguel Torga, José Saramago ou António Lobo Antunes tenham batido aquele número no conjunto da obra de cada um mas, num livro apenas, tenho dúvidas. Quando tiver tempo livre ou sem tarefa  distribuída, vou contar ...

Acresce que, na época, os pronomes utilizados para designar plural não revelavam as preocupações que hoje abundam e a necessidade imperiosa de referir claramente que elas e eles foram à festa num carro que não era seu e sim do seu pai e da sua mãe, que o haviam cedido à filha e ao filho para esta e este se deslocarem, com as amigas e os amigos, ao festival de verão onde iriam actuar as artistas e os artistas mais em voga nesta altura. Ela e ele tinham adquirido os bilhetes e as amigas e os amigos haviam comprado a tenda onde todas e todos dormiriam após uma noite em que elas e eles se divertiriam o suficiente para que esta saída ficasse bem marcada na memória de todas e de todos.

Se Camões vivesse hoje, Os Lusíadas teriam, estou convicto, mais palavras diferenciadas e versos bem mais adequados ao rigor que a ditadura da língua passou a determinar, com ou sem o malfadado Acordo. Corrigiria o verso "... e aqueles que por obras valerosas / se vão da lei da morte libertando ...", para o correspondente ao que hoje é considerado correcto, o que daria: e aquelas e aqueles que por obras valerosas ... se vão espantando com as novas necessidades do dia a dia.

quinta-feira, 10 de junho de 2021

Dia de Camões

José Mário Branco cantando um soneto de Camões, ao qual acrescentou um refrão para reforçar a ideia.

De manhã, aproveitando o feriado e porque já vamos com um terço de Junho cumprido, calcei os chinelos e fui até à Foz. O areal ainda se mantém com a sujidade do costume mas, lá ao fundo, na zona onde irão ser instaladas as barracas, uma máquina começa a endireitar a areia e a limpar as canas, os plásticos, as caixas de anzóis, as garrafas de cerveja, e muito outro lixo que continua a "nascer" na praia, seguramente de "geração espontânea".Passeio junto à Lagoa, a caminho do mar, aproveitando bem o ar puro que o vento transporta e sem ver o sol, que ainda dormita bem lá atrás das nuvens. Vem a onda, fraca, molha os pés, e ouve-se a voz do mar:

- Trouxeste o gin?

- Claro que não. Vinha dar um mergulho!

- Fizeste mal. Com este gelo que tenho dentro de mim, fazíamos um brinde ao Camões.

O melhor é continuar na areia, que o "frigorífico" está ligado no máximo ... 

P.S. - Soube-se hoje que a Câmara Municipal de Lisboa "bufou" a Moscovo os dados pessoais dos organizadores de uma manifestação levada a cabo no passado dia 23 de Janeiro. Apesar das desculpas públicas de Fernando Medina e da atribuição das culpas à burocracia, custa muito ouvir que, quase 50 anos depois de 1974, ainda haja no país quem ache normal "entalar" alguém em nome da BURROcracia.

sábado, 21 de novembro de 2020

Pandemia emergente

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, fez ontem uma comunicação ao país, apelando para a união na diversidade de opiniões, e para a compreensão do que é necessário todos fazermos para que os números da pandemia não aumentem de tal forma que o SNS sufoque. Na sua curta declaração, justificou a manutenção do estado de emergência, alertando de forma clara para o que está a surgir e o que pode chegar. 

Vivemos um momento no qual quem tem responsabilidades tem obrigações. De partidos a jornalistas, de governantes a opinadores, a hora é de ser mais cuidadoso, rigoroso e mobilizador, não cedendo ao facilitismo e à demagogia. Sintético e esclarecedor, crítico mas construtivo, transmitindo serenidade e esperança, se mais não fora pelo respeito que devem merecer os que partiram e aqueles que, nesta altura, quase esgotam os recursos dos hospitais.

Estamos em tempo de congregar atitudes em prol do bem comum, sem deixar de criticar quando a situação justifique, sempre com a perspectiva de ajudar a corrigir, antes que as vozes dos salvadores que por aí chegam se sobreponham às de quem acredita que só há futuro com a diversidade de opiniões e de ideias.

Talvez se justifique voltar a Camões e, nomeadamente, ao último verso da terceira estrofe do Canto I de Os Lusíadas, para não cansar muito. Se não o conseguirmos, corremos o risco de ver o país embarcar sem rumo, numa nau sem fundo e de a musa não cessar de cantar e continuar a apregoar os nossos (de)feitos.
(...)
Cessem do sábio Grego e do Troiano
As navegações grandes que fizeram:
Cale-se de Alexandre e de Trajano,
A fama das vitórias que tiveram,
Que eu canto o peito ilustre Lusitano,
A quem Neptuno e Marte obedeceram:
Cesse tudo o que a antiga Musa canta,
Que outro valor mais alto se alevanta.
(...)

segunda-feira, 20 de abril de 2020

Liberdade e Poesia

No final desta semana comemoram-se os 46 anos da revolução do 25 de Abril, que trouxe a todos, entre muitas outras coisas, a liberdade de expressão sem censuras e sem peias, mesmo para dizer asneiras e aldrabices. 
E porque, como dizia Sophia, "a poesia está na rua", esta semana será por aqui dedicada a uma colectânea de sonetos organizada por José Fanha e José Jorge Letria, e publicada pela já desaparecida editora Terramar, em 2002.

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
muda-se o ser, muda-se a confiança;
todo o mundo é composto de mudança,
tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
diferentes em tudo da esperança;
do mal ficam mágoas na lembrança,
e do bem - se algum houve - as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
que já coberto foi de neve fria,
e enfim converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia, 
outra mudança faz de mor espanto:
que não se muda já como soía.

Luís Vaz de Camões