POEMA DO HOMEM NOVONiels Armstrong pôs os pés na Luae a Humanidade inteira saudou neleo Homem NovoNo calendário da História sublinhou-secom espesso traço o memorável feito.Tudo nele era novo.Vestia quinze fatos sobrepostos.Primeiro, sobre a pele, cobrindo-a de alto a baixo,um colante poroso de rede tricotadapara ventilação e temperatura próprias.Logo após, outros fatos, e outros e mais outros,catorze no total,de película de nylone borracha sintética.Envolvendo o conjunto, do tronco até aos pés,na cabeça e nos braços,confusíssima trama de canaispara circulação dos fluidos necessários,da água e do oxigénio.A cobrir tudo, enfim, como um balão de vento,um envólucro soprado de tela de alumínio.Capacete de rosca, de especial fibra de vidro,auscultadores e microfones,e, nas mãos penduradas, tentáculos programados,luvas com luz nos dedos.Numa cama de rede, penduradada parede do módulo,na majestade augusta do silêncio,dormia o Homem Novo a caminho da Lua.Cá de longe, na Terra, num burburinho ansioso,bocas de espanto e olhos de humidade,todos se interpelavam e falavamdo Homem Novo,do Homem Novo,do Homem Novo.Sobre a Lua, Armstrong pôs finalmente os pés.Caminhava hesitante e cauteloso,pé aqui,pé ali,as pernas afastadas,os braços insuflados como balões pneumáticos,o tronco debruçado sobre o solo.Lá vai ele.Lá vai o Homem Novomedindo e calculando cada passo,puxando pelo corpo como bloco emperrado.Mais um passo.Mais outro.Num sobrehumano esforçolevanta a mão sapuda e qualquer coisa nela.Com redobrado alento avança mais um passo,e a Humanidade inteira,com o coração pequeno e ressequido,viu, com os olhos que a terra há-de comer,o Homem Novo espetar, no chão poeirento da Lua, a bandeira da sua Pátria,exactamente como faria o Homem Velho.Novos poemas póstumosAntónio GedeãoEdições João Sá da Costa (1998)
Casa situada na cidade das Caldas da Rainha, "nascida" em 1976, numa rua sossegada, estreita e, desde Abril de 2009, com sentido único. Produção: dois frutos de alta qualidade que já vão garantindo o futuro da espécie com quatro novos, deliciosos. O blog é, tem sido ou pretendido ser uma catarse, o diário de adolescente que nunca escrevi, um repositório de estórias, uma visão do quotidiano, uma gaveta da memória.
terça-feira, 12 de maio de 2026
Palavras bonitas
domingo, 19 de abril de 2026
Óbidos e os livros
Está a decorrer em Óbidos - termina hoje - mais um evento dedicado aos livros, desta vez com enfoque na literatura de viagens: o Latitudes - Literatura & Viajantes.
Ontem, aproveitando um pouco do pouco tempo livre, a visita a Óbidos aconteceu, no meio de muita, muita gente que quase não usufrui da beleza e do sossego da bela vila medieval, limitando-se a galgar a Rua Direita, beber uma ginginha em cálice de chocolate e comprar um "bonequinho" para o frigorífico.
Como em todos os festivais literários, não foi, nunca é, possível assistir a todas as conversas, eventos, apresentações, mas o tempo foi bem aproveitado. Em quatro locais diferentes, tão agradáveis quanto inesperados, o actor Pedro Lamares disse poesia como muito bem sabe e mostrou aos que o ouviram um conjunto de poetas que, entre muitos outros, marcam a qualidade da nossa poesia. E como a poesia ainda se torna mais bela quando é bem dita!
De Camões a Pessoa, passando por Al Berto, Nemésio, Herberto, O'Neill ou Natália, foi a esta última que coube o encerramento com dois poemas que fazem parte do "acervo" deste blogue: O coito do Morgado e A defesa do poeta.
domingo, 15 de março de 2026
Palavras bonitas
O meu amigo Lino Sebastião resolveu, agora que as suas Primaveras já ultrapassaram as oitenta, publicar em livro os poemas que lhe vão na alma, no coração e na memória.
Quatro livros já estão acessíveis a quem gosta de poesia e há mais na forja. A mim, que sou um privilegiado, chegam-me em mão mal saem da editora, oferecidos e com dedicatória para a posteridade.
Perdido de um tempo antigoFico submerso na saudade,Palavra que digoComo se em mim dissessePássaro, flor, eternidadeE todo o tempo contivesse,Nesse espaço,Inicial e puro,O côncavo maduroDe um abraço.Palavra a subir por mimOs caminhos pedregosos dos diasE feita clarimA anunciarO despertarDe antigas nostalgias.Do longe e da feridaLino Sebastião
sábado, 7 de março de 2026
Palavras bonitas
A minha irmã cumpre hoje a sétima capicua e, como eu ainda por cá não estava, no dia seguinte Torga publicou no seu Diário um poema a saudar a sua vinda ao mundo.
Coimbra, 8 de Março de 1949
DEPOIS DA CHUVA
Abre a janela e olha!Tudo o que vires é teu.A seiva que lutou em cada folha,E a fé que teve medo e se perdeu.Abre a janela e colhe!É o que quiser a tua mão atenta:Água barrenta,Água que molhe,Água que mate a sede ...Para que haja um sorriso na parede!Diário IVMiguel TorgaCoimbra (1973 - 3ª. Ed.)
Exactamente um mês depois, salvaguardando o excesso de optimismo que podia transparecer do primeiro, deixou-lhe um aviso para a vida que estava a iniciar ... e nem sequer a conhecia.
Coimbra, 7 de Abril de 1949
EXAME DE CONSCIÊNCIA
Por tudo passa o artista:Primeiro, pela alegriaDe se julgar criadorNo seio da natureza;Depois, por esta tristezaDe ver morrer o que fez,Sem ter nas mãos a certezaDe erguer o sonho outra vez.Diário VMiguel TorgaCoimbra (1974 - 3ª. Ed.)
segunda-feira, 2 de março de 2026
Palavras bonitas
Continua a parecer que foi ontem, mas já lá vão 22 anos. A capicua fica assinalada com a ligação poética entre o mês em que partiste e aquele em que me pariste.
ENTRE MARÇO E ABRILQue cheiro doce e fresco,por entre a chuva,me traz o sol,me traz o rosto,entre março e abril,o rosto que foi meu.o únicoque foi afago e festa e primavera?Oh cheiro puro e só da terra!Não das mimosas,que já tinham floridono meio dos pinheiros;não dos lilases,pois era cedo aindapara mostraremo coração às rosas;mas das tímidas, dóceis floresde cor difícil,entre limão e vinho,entre marfim e mel,abertas no canteiro junto ao tanque.Frésias,ó pura memóriade ter cantado -pálidas, fragrantes,entre chuva e sole chuva- que mãos vos colhem,agora que estão mortasas mãos que foram minhas?PoesiaEugénio de AndradeFundação Eugénio de Andrade(2000)
quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026
Palavras bonitas
COISAS
As coisas escondem-se nas coisasficam por baixo ou no fundoàs vezes umas nas outras.Escondem-se de quêas coisas?Delas próprias ou de quemtenta apanhá-las à mão?Os óculos fogem e escondem-seàs vezes nos próprios olhosrelógio nunca se sabetalvez debaixo da camaou na metáfora das horas.Telemóvel é conformeora fica em outro bolsoora está onde não está.O casaco no cabidede repente é invisívelda caneta já não falocai no buraco mais próximo.Cada coisa tem seus quêsseus recônditos refúgiossão tuas mas não as vêsestão contigo e não encontras.Coisas de coisasou de homem?Coisas que das mãos se somemcoisas em coisas escondidascoisas que são mais nossasquanto mais de nós perdidas.Balada do corsário dos sete maresManuel AlegreD. Quixote (2026)
terça-feira, 20 de janeiro de 2026
Palavras bonitas
DEZ RÉIS DE ESPERANÇA
Se não fosse esta certezaque nem sei de onde me vem,não comia, nem bebia,nem falava com ninguém.Acocorava-me a um canto,no mais escuro que houvesse,punha os joelhos à bocae viesse o que viesse.Não fossem os olhos grandesdo ingénuo adolescente,a chuva das penas brancasa cair impertinente,aquele incógnito rosto,pintado em tons de aguarela,que sonha no frio encostoda vidraça da janela,não fosse a imensa piedadedos homens que não cresceram,que ouviram, viram, ouviram,viram, e não perceberam,essas máscaras selectas,antologia do espanto,flores sem caule, flutuandono pranto do desencanto,se não fosse a fome e a sededessa humanidade exangue,roía as unhas e os dedosaté os fazer em sangue.Poesias Completas (1956-1967)António GedeãoPortugália (1975)
segunda-feira, 22 de dezembro de 2025
Palavras bonitas
AMEAÇASAo longo da madrugadaescutavozes que a chamam- Maria da Nazaré!Ó filha da Galileia!E ela salta da camafecha portas e janelascorre as cortinas da casapés descalços na friagemde percorrer o soalhoatrás das vozes que a atraema ameaçam, enchamamenquanto o anjo não vem:- Maria da Nazaré!Ó filha da Galileia!E ela já rodopia, rodandosobre si mesmaà espera que elas se afastemse desvaneçam e rasguemse entorpeçam, apaguemdesguarneçam e deslacemMas logo elas se desdobramtornando no chamamento:- Maria da Nazaré!Ó filha da Galileia!Palavras vindas de quemdo outro lado do espaçoas marca com a friagemda ira que se contémAnunciaçõesMaria Teresa HortaD. Quixote (2016)
sexta-feira, 12 de dezembro de 2025
Palavras bonitas
O risco que se risca e traça,Em riste traz o risco da ameaçaEm tudo o que por nós passa,Mesmo que rasteira e rasca a negaça,Rasante rasa a praçaE rafeira regouga de ranço na nossa taça.Marcante a marca que deixaMesmo no manco que manca e se queixa,Marcado na marosca que nele se enfeixa,Pelo mercador no mercado da ameixa,Marado na marada desta endecha.Girante o gesto que se gera movente,Gira girando na gente,Girafa de gorgomilo pendenteE garganta de gargalo de enchenteGestor e garante eloquente,Garboso e grande gerente,Garantia deste poema displicente.Meditação IrreverenteLino Sebastiãocordel d'prata (2025)
sábado, 8 de novembro de 2025
Palavras bonitas
QUADRILHA
João amava Teresa que amava Raimundoque amava Maria que amava Joaquim que amava Lilique não amava ninguém.João foi pra os Estados Unidos, Teresa para o convento,Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandesque não tinha entrado na história.Vai, Carlos!Carlos Drummond de AndradeTinta da China (2022)
terça-feira, 30 de setembro de 2025
Palavras bonitas (talvez actuais)
Ao Sr. José Ventura Montano(Rogando-lhe socorro para pagar as rendasdas casas em que o autor habitava)Demanda-me usurário senhorioDo já findo semestre a soma escassa,E enjoada de esperas, sei que traçaPôr-me em Janeiro a passear ao frio.Ele em tais casos tem mais brio,Que é homem pé-de-boi, vilão de raça.Já creio que mandado extrai e o passaÀ mão ganchosa de aguazil bravio.Tu, que detestas esta corja horrenda,Que deveu a ganância inútil suaPrimeiro ao chafariz, depois à tenda,O avaro alegra, que um semestre amua;Acode ao caro amigo, antes que aprendaDe cães vadios a dormir na rua.Obras escolhidasBocageCírculo de Leitores (1985)
quarta-feira, 17 de setembro de 2025
Palavras bonitas
O VALOR DO VENTO
Está hoje um dia de vento e eu gosto do ventoO vento tem entrado nos meus versos de todas as maneiras esó entram nos meus versos as coisas de que gostoO vento das árvores o vento dos cabeloso vento do inverno o vento do verãoO vento é o melhor veículo que conheçoSó ele traz o perfume das flores só ele traza música que jaz à beira-mar em agostoMas só hoje soube o verdadeiro valor do ventoO vento actualmente vale oitenta escudosPartiu-se o vidro grande da janela do meu quartoTodos os PoemasRuy BeloAssírio & Alvim (2000)
sábado, 23 de agosto de 2025
Palavras bonitas ...
... adequadas para o meu pai, que partiu há precisamente uma década.
VOZ
Era uma voz que doía,Mas ensinava.Descobria,Mal o seu timbre se ouviaNo silêncio que escutava.Paraísos, não havia.Purgatórios, não mostrava.Limbos, sim, é que diziaQue os sentia,Pesados de covardia,Lá na terra onde morava.E morava neste mundoAquela voz.Morava mesmo no fundoDum poço dentro de nós.LibertaçãoMiguel TorgaCoimbra (1978)
terça-feira, 29 de julho de 2025
Palavras bonitas
Elogio do sorvete
come sorvetes velha come sorvetesque a morte chega mais cedo do que pensasbem melhor será partires toda fresquinha por dentrocom tanto fogo aceso nas paredes de Maioalém disso ficas mais bonita (tu que já ésde novo uma criança) com a bolacha esguiaa arrefecer-te os dedos frios e a línguaa saltitar na palidez dos lábioscome sorvetes velha come sorvetes quetirando os chocolates do nosso tioFernando Pessoaos sorvetes são a melhor metafísicae tornam os dentes incrivelmente brancosPoesia reunidao pouco que sobrou de quase nadaManuel Alberto ValenteQuetzal (2015)
sábado, 5 de julho de 2025
Bom e expressivo
A roda dentada do tempo não avaria, nunca! E prossegue, inexorável, o seu afã de fazer crescer cada um, a velocidades bem diferentes aos olhos de cada qual.
O meu neto GRANDE faz hoje 19 anos, tantos quantos o avô tinha há 54, quando a tal roda quase lhe parecia que não andava e o tempo teimava em se deslocar a velocidade de caracol. Afinal, a rodinha revelou-se, aplicou-se, esmerou-se, foi trazendo cada dia atrás do outro e cada vez com mais velocidade. Pelo menos, assim parece!
BOM E EXPRESSIVO
Acaba mal o teu verso,mas fá-lo com um desígnio:é um mal que não é mal,é lutar contra o bonito.Vai-me a essas rimas quetão bem desfecham e quesão o pão de ló dos tolose torce-lhes o pescoço,tal como o outro pediase fizesse à eloquência,e se houver vossa excelênciaque grite: - Não é poesia!,diz-lhe que não, que não é,que é topada, lixa três,serração, vidro moído,papel que se rasga ou pe-dra que rola na pedra ...Mas também da rima <<em cheio>>poderás tirar partido,que a regra é não haver regra,a não ser a de cada um,com sua rima, seu ritmo,não fazer bom e bonito,mas fazer bom e expressivo ...Tomai lá do O'Neill!Alexandre O'NeillCírculo de Leitores (1986)
sábado, 28 de junho de 2025
Palavras bonitas
S. Martinho de Anta, 28 de Junho de 1986
REBATE
Tantas palavras que conheço agoraE malbaratoNo papel,Aqui onde só duas aprendiCom eterno sentido:Pai e Mãe!Mas ninguémFica fiel à infância.CrescemosE perdemosA inocênciaE a sua mágicaSabedoria.Adulto que porfiaNestas solfas de letras alinhadasE paralelas,Chego a ter pejo de as escrever.Que podem dizer elasQue valha a pena ler?Diário XIVMiguel TorgaCoimbra
segunda-feira, 23 de junho de 2025
Teatro ... da vida
Ver e ouvir a declamação deste lindo poema de Ruy Belo, integrado num grande espectáculo de teatro musicado, com encenação de Ricardo Pais e o título de Talvez ... Monsanto, foi um privilégio ao mesmo tempo arrepiante, comovente, excepcional, lindo.
Tudo brilhante! Dos actores aos músicos, da poesia à encenação, dos adufes ao contrabaixo, das vozes às interpretações, com um destaque especial para Luísa Cruz.
QUERO SÓ ISSO NEM ISSO QUERO
Quero uma mesa e pão sobre essa mesana toalha de linho nódoas de vinhoquero só isso nem isso queroQuero a casa de terra à minha voltacães altos na noite a minha mãe mais novaquero só isso nem isso queroQuero a casa do forno onde eu me escondia dos relâmpagose trovões quando um ferro no cesto garantia uma feliz cria à galinha chocadeiraquero só isso nem isso queroQuero de novo fundir ao lume os soldados de chumbo que no natal me punham no sapatinhoe tirar chouriço e toucinho do guarda-comidasquero só isso nem isso queroQuero fazer pequeninos adobes e construir casas pelo quintalver chegar o verão e comermos todos lá fora na varanda de tijoloquero só isso nem isso queroQuero uma aldeia umas pedras um rioumas quantas mulheres de joelhos brancos esfregando a roupa nas pedrasquero só isso nem isso queroQuero escrever fatais cartas de amor à rapariga dos meus oito anosrasgar essas cartas deixá-las pra sempre dentro do tronco oco da oliveiraquero só isso nem isso queroQuero umas cabras um pastor rico um pastor pobreo leite quente na teta o cabrito morto soprado e esfoladoquero só isso nem isso queroQuero a courela as perdizes no ovo a baba do cucolaranjas de orvalho no ano novo colhidas na árvorequero só isso nem isso queroQuero dois montes e um paul de malmequeres a cheia na primaveraa asma o ruído dos ralos as pernas sombrias das raparigasquero só isso nem isso queroQuero que voltem os que morreram os que emigrarammatar com eles o bicho com aguardente pela manhã antes da pegaquero só isso nem isso queroQuero ver ao vento o véu das noivas apanhar os confeitos nos casamentossaber pelos papéis dos registos o tempo da prenhez palavra misteriosaquero só isso nem isso queroQuero um pátio meu e da sombra e galinhas pedreses e árvoresuma mina de avencas uma horta uma sebe de cana umas casas caídasquero só isso nem isso queroQuero ajudar na rega do fim de tarde calcar os buracos das toupeirase dirigir com o sacho a água morna nos pés até aos regos do feijãoquero só isso nem isso queroQuero em dezembro o varejo final da azeitona o búzio a tocara azeitona a cair dos ramos nos panos de serapilheiraquero só isso nem isso queroQuero o meu pai de chapéu de chuva aberto nos dias de solo meu pai de manhãzinha a lavar-se e a explicar-nos latim e históriaquero só isso nem isso queroQuero nu em pelota entre todos tomar os banhos no marachãoos ninhos dos pássaros as andorinhas de asas escuras no céu azulquero só isso nem isso queroQuero o pátio da escola a roda das raparigas a cantar à volta do plátanoo primeiro sonho de amor as primeiras palavras gaguejadas trocadas com uma raparigaquero só isso nem isso queroQuero as feridas nos pés para poder sair à rua descalçoo pão com conduto entre os meninos pobres no recreioquero só isso nem isso queroQuero ir ao vale barco a malaquejo à marmeleiraroubar melões jogar ao murro ver nas festas o fogo presoquero só isso nem isso queroQue quero tanto que quero um mundo ou nem tanto só agora reparoquero morder para sempre a almofada quente e densa da terraquero só isso nem isso queroTodos os poemasRuy BeloAssírio & Alvim (2000)
terça-feira, 10 de junho de 2025
10 de Junho
O estudo indica que, como qualquer português, tenho raízes que vão da Ásia, passam pela África, viajam pela Europa e "aterram" aqui, neste "jardim à beira-mar plantado".
Se, ao invés de nos preocuparmos com as origens, a cor, a religião de cada um dos que por cá habitamos, muitos em condições miseráveis e vergonhosas, procurássemos colaborar na integração de todos, sem preconceitos, ódios, invejas e aproveitamentos vis, talvez conseguíssemos um Portugal maior e mais feliz.
"Ou fazendo que, mais que a de Medusa,A vista vossa tema o monte Atlante,Ou rompendo nos campos de AmpelusaOs muros de Marrocos e Trudante.A minha já estimada e leda MusaFico que em todo o mundo de vós cante,De sorte que Alexandro em vós se veja,Sem à dita de Aquiles ter inveja."Os LusíadasCanto X (final)Luís de Camões
sábado, 7 de junho de 2025
Palavras bonitas
No desvarioDo sonho me socorroE nele percorroO denso frioDa distância,Os delirantes lugares da demência,A delicada fragância,A seda e o brocadoDesenhando o fulgor e a fluorescênciaDo teu corpo semeadoDe azul e maresia ...Meu castelo de vento,Meu portento, Meu mar sulcadoE para sempre aradoDe louca fantasia! ...Pequena elegia em busca de MoadLino Sebastiãocordel d' prata (2025)
sábado, 19 de abril de 2025
Palavras bonitas
ÂNSIA
Não me deixem tranquilonão me guardem sossegoeu quero a ânsia da ondao eterno rebentar da espumaAs horas são-me escassas:dai-me o tempoainda que o não mereçaque eu queroter outra vezidades que nunca tivepara ser sempreeu e a vidanesta dança desencontradacomo se de corpostivéssemos trocadopara morrer vivendoRaiz de orvalho e outros poemasMia CoutoCaminho (1999)
