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quarta-feira, 19 de maio de 2021

Palavras bonitas

O FIDALGO E O LAVRADOR

É meia noute. No baile
Folga tudo e tudo dança.
Á mesm'hora o lavrador
No seu casebre descansa.

Uma hora. No palacio
Agora vae-se almoçar.
Na choupana o lavrador
Já terminou de jantar!

Dorme o fidalgo num leito
De pennas, sobressaltado.
Em taboas o lavrador
Repousa, mas socegado!

Poesia Completa
Mário de Sá-Carneiro
Tinta-da-China (MMXVII)

Mário de Sá-Carneiro nasceu no dia 19 de Maio de 1890 e faleceu em 26 de Abril de 1916.

Datou estes versos de 24 de Abril de 1903. Mudou muita coisa desde esse dia: a ortografia, o vocabulário, a vida ... mas ainda se mantêm muitas semelhanças. 

domingo, 16 de maio de 2021

Palavras bonitas

Em 1923, a poesia era rimada e a ortografia tinha diferenças substanciais para aquela que eu viria a aprender e mais ainda para a que, resultante do Acordo Ortográfico de 1990 e que não pratico, é hoje utilizada pelas novas gerações. 

O PALHAÇO

Anda-se a rir, a rir dentro de mim,
com as lividas faces desbotadas
um estranho palhaço de setim,
rasgando em dôr meu peito ás gargalhadas!

Sóbe aos meus olhos sempre a rir assim ...
espreitando as figuras malsinadas
que se não vestem nunca de arlequim,
mas que andam pela vida disfarçadas.

Na sombra dos meus cilios, embuscado,
ri, no meu olhar frio e desolado,
escondendo-se atonito e surpreso ...

E quando desce á triste moradia,
vem mais louco e soberbo de ironia
na irrisão dum sarcastico despreso!

Castelo de Sombras
Judith Teixeira
Imp. Libanio da Silva (MCMXXIII)

terça-feira, 20 de abril de 2021

Palavras bonitas

 MANIAS

O mundo é velha cena ensanguentada,
Coberta de remendos, picaresca;
A vida é chula farsa assobiada,
Ou selvagem tragédia romanesca.

Eu sei um bom rapaz - hoje uma ossada -
Que amava certa dama pedantesca,
Perversíssima, esquálida e chagada,
Mas cheia de jactância quixotesca.

Aos domingos a deia já rugosa
Concedia-lhe o braço, com preguiça
E o dengue, em atitude receosa,

Na sujeição canina mais submissa,
Levava na tremente mão nervosa
O livro com que a amante ia ouvir missa!

(Lisboa1874)
O livro de Cesário Verde
Cesário Verde
Editorial Minerva

sábado, 3 de abril de 2021

Palavras bonitas

ANJO INCOLOR 
 
Abri o livro na altura
em que o Anjo me sorria
e em vez de mel prometia
amor, descanso e ternura.

Falava como que a sós.
E as palavras flutuavam.
Eram pombas que poisavam
no fio da sua voz.

Escutei-o de olhos no chão
como se fosse o culpado,
como se o mundo enredado
estivesse na minha mão.

Abri o peito e mostrei-lhe
a areia, a pedra britada,
os planos da grande estrada
onde o Anjo se ajoelhe.

Ele fitou-me, de frente,
de olhos frios como brasas.
E abrindo e fechando as asas
rasgou o céu, lentamente.

Sobre a folha imaculada
por longo tempo nevou.
Sentei-me à beira da estrada
mas o Anjo não voltou.

Poesias Completas (1956-1967)
António Gedeão
Portugália (1975) 

segunda-feira, 1 de março de 2021

Palavras bonitas

 SERENATA DO ADOLESCENTE

Que doentia claridade
a que me invade e me obsidia,
durante a noite e à luz da tarde,
à luz da tarde, à luz do dia!
Que doentia aquela grade
de insone e ténue claridade,
sob a avançada gelosia!

Passo na rua e nada vejo
senão a luz, a luz e a grade, 
Ó lamparina do desejo,
porque ardes tu, até tão tarde?
E às vezes surge, entre a cortina,
aquela sombra vespertina
que me retém nesta ansiedade.

Se tens trint'anos? ou cinquenta?
Quis lá saber a tua idade!
Sei que em meus olhos se impacienta
fome de luz daquela grade!
Sei que sou novo, e que me odeio
porque me tarda - ante o teu seio -
queimar tão pobre mocidade!

Obra Poética
David Mourão-Ferreira
Editorial Presença (1997)

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

Palavras bonitas

CIRCULAMOS EMBOLSADOS

Circulamos embolsados
em automóveis de luxo

Nas portas surdas
os fechos
são linhas a níquel a traçar o limite
dos peões ocasionais

O espaldar desune
anula o solavanco
reduz a área exposta

Esguichos lavam
pára-brisas que a gargalhada abaula
Clareiam as estradas

Só o retrovisor
lembra o caminho andado
a um olho reflectindo
de quem guia

Trémulo o chassis
pressagia
as roturas
os sulcos dos freios
a divulgação do desastre

Mas real e criada
no bolso de Picasso
uma pomba de bico florido
suja por inocência os tejadilhos

A noite dividida
Sebastião Alba

domingo, 31 de janeiro de 2021

Palavras bonitas

Não, não é cansaço ...
É uma quantidade de desilusão
Que se me entranha na espécie de pensar,
É um domingo às avessas
Do sentimento,
Um feriado passado no abismo ...

Não, cansaço não é ...
É eu estar existindo
E também o mundo,
Com tudo aquilo que contém,
Com tudo aquilo que nele se desdobra
E afinal é a mesma coisa variada em cópias iguais.

Não. Cansaço porquê?
É uma sensação abstracta
Da vida concreta -
Qualquer coisa como um grito
Por dar,
Qualquer coisa como uma angústia
Por sofrer,
Ou por sofrer completamente,
Ou por sofrer como ...
Sim, ou por sofrer como ...
Isso mesmo, como ...

Como quê?
Se soubesse, não haveria em mim este falso cansaço.

(Ai cegos que cantam na rua,
Que formidável realejo
Que é a guitarra de um, e a viola do outro, e a voz dela!)

Porque oiço, vejo.
Confesso: é cansaço!

Obras completas de Fernando Pessoa
Poesias de Álvaro de Campos
Edições Ática (1980)

sexta-feira, 25 de dezembro de 2020

Palavras bonitas

NADA / NATAL

Este lume que já não nos aquece
Este medo do nada que nos contem
Esta névoa de nata em vez de neve
E a nossa vida cada vez mais ontem

Este Sol que não rompe sob os cactos
Estes mortos de novo hoje tão perto
É no búzio dos crânios exumados
que melhor nós ouvimos o deserto

Estas folhas de plátano  Estas mãos
que o fogo vai torcendo lentamente
Esta cinza no fim de uma oração
Este sino  Este céu sobrevivente

Mas soa a meia-noite  E logo o nada
deixa de estar em tudo como estava

Obra Poética
David Mourão-Ferreira
Editorial Presença (1997)

quinta-feira, 24 de dezembro de 2020

Palavras bonitas

ECLIPSE

Pela primeira vez
Não vieste ao poema,
Sol do eterno retorno
Da inspiração.
E foi esta prosaica desolação
Num quarto de hospital
A ouvir versos profanos
Na lembrança.
Pobre dessa fiança
Tutelar.
Sem te poder louvar
Devidamente,
Menino Jesus eternamente
Oculto e manifesto,
Aqui lavro o protesto
De poeta traído
Que descrê
Da própria vocação,
Perdida a graça da iluminação
De quem sonha o que vê.

Diário XVI (24/12/1991)
Miguel Torga
Gráfica de Coimbra (1995

quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

Palavras bonitas

CANÇÃO

Clara uma canção
Rente à noite calada
Cismo sem atenção
Com a alma velada

A vida encontrei-a
Tão desencontrada
Embora a lua cheia 
E a noite extasiada

A vida mostrou-se
Caminho de nada
Embora brilhasse
Lua sobre a estrada

Como se a beleza
Da lua ou do mar
Nada mais quisesse
Que o próprio brilhar

Por esta razão
Sem riso nem pranto
Neste sem sentido
Se rompe o encanto

Ilhas
Sophia de Mello Breyner Andresen
Caminho (2004)

terça-feira, 22 de dezembro de 2020

Palavras bonitas

ALGUMAS IMAGENS DO INVERNO

Chega mais cedo;
conheço-lhe os passos:
já muita vez aqueceu as mãos
ao lume das minhas.
Vai demorar-se;
sacudir a lama, remendar
os sapatos, tirar o sal
que se juntou em redor dos lábios.
Entre o silêncio e o falar
não há senão
espaço para anoitecer.
Tão pesadas, as folhas do ar.

Poesia
Eugénio de Andrade
Fundação Eugénio de Andrade (2000)

segunda-feira, 21 de dezembro de 2020

Palavras bonitas

 O JOGO DO CHINQUILHO

Renasce neste largo a minha infância
a minha vida tem aqui nova nascente
e jorra de repente com o ímpeto do início
O tempo não passou ou só a consciência
que provisoriamente sinto de voltar alguns anos atrás
a sensação que sei de reflectir sobre esse tempo
de ser um espectador de sucessivos sucedidos dias
de não viver apenas não viver sem sequer saber que vivo
num espaço demarcado onde as coisas e os homens
eram tanto que eram simplesmente
só essa consciência e sensação me fazem suspeitar
de que passou o tempo que nunca passou
O adro o fim da tarde o jogo do chinquilho
o ruído das malhas os paulitos
o sol poente sobre si redondo como simples
malha atirada por alguém pelo espaço do dia
e prestes a cair no mar como nas tábuas
o gesto perdulário e impensado de jogar
a malha como quem num gesto joga a vida
as silhuetas hirtas dos que assistem
de boné ou barrete na cabeça e mãos nos bolsos
tudo se passa aqui ali há trinta e cinco anos
como se aqui ninguém houvesse envelhecido
nem sofrido ou morrido ou suportado
toda a imensa fome requerida para produzir um rico
como se aqui ninguém tivesse demandado
longe de aqui o seu país noutros países
Tudo é o mesmo adro a mesma tarde o mesmo jogo
Até este café onde sentado olho e penso por olhar
é afinal o mesmo onde bebi a meias com meu pai
a primeira cerveja uma cerveja vinda
através do calor do dia de verão
nesse cesto de vime nesse poço mergulhado
É o mesmo o sabor que sempre sinto nesta boca
há muitos anos já mordendo o vinho o pão a vida
o sabor das mulheres das raparigas
inacessíveis sempre como um absoluto
sempre impossível tido no entanto por possível
o sabor da derrota ou o sabor da terra
sensível dia a dia nos meus dedos
e um dia susceptível de me encher a boca para sempre
Envelheci eu sei e só ganhei
o que perdi. Sou de uma adulta idade
E entretanto tudo a noite rodeou e o jogo acabou
e pelo céu do tempo houve um homem que passou
ou uma certa malha arremessada por acaso à vida
e viva na precária trajectória antes de caída.

Todos os Poemas
Rui Belo
Assírio & Alvim (2000)

domingo, 18 de outubro de 2020

Palavras bonitas

 (Lembrança roubada à minha filha)

Horário do fim 

morre-se nada
quando chega a vez

é só um solavanco
na estrada por onde já não vamos

morre-se tudo
quando não é o justo momento

e não é nunca
esse momento

Raiz de orvalho e outros poemas
Mia Couto
Editorial Caminho (1999)

quinta-feira, 8 de outubro de 2020

Memória

As memórias da infância e juventude são hoje bem mais claras do que aquilo que fiz de manhã. De acordo com o que dizem os estudiosos, é normal que o "computador" pessoal despreze o que aconteceu há pouco e privilegie aquilo que tem anos esquecidos, já não tem jeito nenhum, poucos se lembram e, para a grande maioria, é uma estucha perfeitamente dispensável. Também diz quem sabe que é comum fazer ligações entre o que acontece no momento e coisas passadas e arrumadas.

O Prémio Nobel da Literatura de 2020 foi hoje atribuído a uma poeta americana - LOUISE GLUCK - que não conhecia e continuo a não conhecer, por nunca ter lido nada por ela escrito. Talvez por ter sido escolhida a poesia, veio-me à memória, não a frase batida do Sérgio Godinho, mas a Balada da Neve, de Augusto Gil, que decorei há muitos, muitos anos e ainda permanece, vejam só, na primeira "gaveta do arquivo" memorial. E, diga-se de passagem, nesse tempo eu mal sabia o que era nevar e nunca tinha visto sequer uns farrapitos ...

BALADA DA NEVE

Batem leve, levemente,
Como quem chama por mim.
Será chuva? Será gente?
Gente não é, certamente
e a chuva não bate assim.
É talvez a ventania:
mas há pouco, há poucochinho,
nem uma agulha bulia
na quieta melancolia 
dos pinheiros do caminho ...
Quem bate, assim, levemente,
com tão estranha leveza, 
que mal se ouve, mal se sente?
Não é chuva, nem é gente,
nem é vento com certeza.
Fui ver. A neve caía 
do azul cinzento do céu,
branca e leve, branca e fria ...
- Há quanto tempo a não via!
E que saudades, Deus meu!
Olho-a através da vidraça.
Pôs tudo da cor do linho.
Passa gente e, quando passa,
os passos imprime e traça
na brancura do caminho ...
Fico olhando esses sinais
da pobre gente que avança,
e noto, por entre os mais,
os traços miniaturais
duns pezitos de criança ...
E descalcinhos, doridos ...
a neve deixa ainda vê-los,
primeiro, bem definidos,
depois, em sulcos compridos,
porque não podia erguê-los!...
Que quem já é pecador
sofra tormentos, enfim!
Mas as crianças, Senhor,
porque lhes dais tanta dor?!
Porque padecem assim?!...
E uma infinita tristeza,
uma funda turbação
entra em mim, fica em mim presa.
Cai neve na natureza
e cai no meu coração.

Augusto Gil (1873-1929)

sábado, 3 de outubro de 2020

Memória

Ontem, por força de um vídeo enviado, lembrei-me do jogo do pião e recordei-o, sozinho, no quintal cá de casa. Hoje, à custa de ter lido que "um corvo crocitava no alto de uma bela árvore", recordei-me da fala dos animais, que aprendi na primária. Já não recordava o autor nem me lembro de o seu nome ser referido, mas descobri tratar-se de um poeta que viveu entre 1839 e 1896 e se chamava Pedro Diniz.

A memória, velha, tem destas coisas.

VOZES DOS ANIMAIS

Palram pega e papagaio                           Muge a vaca, berra o touro;          
E cacareja a galinha;                                 Grasna a rã; ruge o leão;               
Os ternos pombos arrulham;                   O gato mia; uiva o lobo;               
Geme a rola inocentinha.                         Também uiva e ladra o cão.          

Relincha o nobre cavalo;                          Regouga a sagaz raposa;
Os elefantes dão urros;                             (Bichinho muito matreiro)
A tímida ovelha bale;                                Nos ramos cantam as aves;
Zurrar é próprio dos burros.                     Mas pia o mocho agoureiro.

Sabem as aves ligeiras                              O pardal, daninho aos campos,
O canto seu variar;                                    Não aprendeu a cantar;
Fazem às vezes gorjeios,                          Como os ratos e as doninhas,
Às vezes põem-se a chilrar.                      Apenas sabe chiar.

O negro corvo crocita;                             Chia a lebre; grasna o pato;           
Zune o mosquito enfadonho;                  Ouvem-se os porcos grunhir;        
A serpente no deserto                              Libando o suco das flores,            
Solta assobio medonho.                           Costuma a abelha zumbir.             

Bramam os tigres, as onças;                    A vitelinha dá berros;                          
Pia, pia o pintainho;                                 O cordeirinho, balidos:                        
Cucurica e canta o galo;                           O macaquinho dá guinchos;                
Late e gane o cachorrinho.                      A criancinha, vagidos.                       
                                                             
A fala foi dada ao homem, 
Rei dos outros animais.
Nos versos lidos acima,
Se encontram, em pobre rima,
As vozes dos principais.                                     

segunda-feira, 21 de setembro de 2020

Palavras bonitas ...

 NÓS

Foi quando em dois Verões, seguidamente, a Febre 
E a Cólera também andaram na cidade,
Que esta população, com um terror de lebre,
Fugiu da capital como da tempestade.

Ora, meu pai, depois das nossas vidas salvas,
(Até então nós só tivéramos sarampo)
Tanto nos viu crescer entre uns montões de malvas
Que ele ganhou por isso um grande amor ao campo!

Se acaso o conta, ainda a fronte se lhe enruga:
O que se ouvia sempre era o dobrar dos sinos;
Mesmo no nosso prédio, os outros inquilinos
Morreram todos. Nós salvámo-nos na fuga.

Na parte mercantil, foco da epidemia,
Um pânico! Nem um navio entrava a barra,
A alfândega parou, nenhuma loja abria,
E os turbulentos cais cessaram a algazarra.

Pela manhã, em vez dos trens dos baptizados,
Rodavam sem cessar as seges dos enterros.
Que triste a sucessão dos armazéns fechados!
Como um domingo inglês na "city", que desterros!
(...)
Cesário Verde
O Livro de Cesário Verde
Editorial Minerva

PS - Cesário Verde nasceu em 1855 e morreu em 1886

terça-feira, 15 de setembro de 2020

Bocage

Nasceu a 15 de Setembro de 1765. Chamava-se Manuel Maria Barbosa du Bocage, ficou conhecido como o Elmano Sadino e ainda hoje é recordado por inúmeras anedotas que se lhe atribuem, com ou sem razão. Foi um excelente poeta. Deixou vasta obra, que se lê sempre com muito agrado. Por força da evolução natural dos tempos e dos tempos que já foram, talvez não seja recordada com a atenção que lhe seria devida.

Fica aqui o seu retrato, com a ressalva de que, quando o li pela primeira vez, a moral e os bons costumes da época determinavam que o último verso fosse "Num dia em que se achou mais pachorrento" e não aquilo que o poeta escreveu.

Magro, de olhos azuis, carão moreno,
Bem servido de pés, meão na altura, 
Triste de faxa, o mesmo de figura,
Nariz alto no meio e não pequeno;

Incapaz de assistir num só terreno,
Mais propenso ao furor do que à ternura,
Bebendo em níveas mãos por taça escura
De zelos infernais letal veneno;

Devoto incensador de mil deidades,
(Digo de moças mil) num só momento;
Inimigo de hipócritas e de frades:

Eis Bocage, em quem luz algum talento;
Saíram dele mesmo estas verdades
Num dia em que se achou cagando ao vento.
Obras Escolhidas
Bocage
Círculo de Leitores (1985)

sexta-feira, 4 de setembro de 2020

Palavras bonitas

DURANTE O DEBATE DA LEI CONTRA O ALCOOLISMO

Num país de beberrões
Em que reina o velho Baco
Se nos tiram os canjirões
Ficamos feitos num caco.

E querem os deputados
Com um ar de beatério
Que fiquemos desmamados
Quais anjos num baptistério.

Se o verde e o tinto são
As cores da nossa bandeira,
Ai, lá se vai a nação
Se acabar a bebedeira.

De abstemia não se faça
A lex neste plenário
Que o direito à vinhaça
Esse, é consuetudinário.

O sol nas noites e o luar nos dias II
Natália Correia
Círculo de Leitores (1993)

segunda-feira, 24 de agosto de 2020

Palavras bonitas

Não vou a Lisboa desde Fevereiro e é dessa ida a última vez que subi a Calçada do Carriche. Em tempos idos e com uma configuração muitíssimo mais apertada, era o caminho utilizado para entrar na capital indo do Oeste.

A memória tem destas coisas e a associação foi imediata com esta pérola, escrita há largos anos por um grande poeta, e sempre actual. Lisboa (e o mundo) ainda mantém muitas Luísas que, diariamente, sobem a calçada.

CALÇADA DE CARRICHE

Luísa sobe,
sobe a calçada,
sobe e não pode
que vai cansada.
Sobe, Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Saiu de casa
de madrugada;
regressa a casa
é já noite fechada.
Na mão grosseira,
de pele queimada, 
leva a lancheira
desengonçada.
Anda Luísa,
Luísa sobe
sobe que sobe
sobe a calçada.

Luísa é nova, 
desenxovalhada,
tem perna gorda,
bem torneada.
Ferve-lhe o sangue
de afogueada;
saltam-lhe os peitos
na caminhada.
Anda Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Passam magalas,
rapaziada, 
palpam-lhe as coxas,
não dá por nada.
Anda Luísa, 
Luísa sobe,
sobe que sobe, 
sobe a calçada.

Chegou a casa
não disse nada.
Pegou na filha,
deu-lhe a mamada;
bebeu da sopa
numa golada;
lavou a loiça,
varreu a escada;
deu jeito à casa
desarranjada;
coseu a roupa
já remendada;
despiu-se à pressa,
desinteressada;
caiu na cama
de uma assentada;
chegou o homem,
viu-a deitada;
serviu-se dela,
não deu por nada.
Anda Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe, 
sobe a calçada.

Na manhã débil,
sem alvorada,
salta da cama, 
desembestada;
puxa da filha,
dá-lhe a mamada;
veste-se à pressa,
desengonçada;
anda, ciranda,
desaustinada;
range o soalho
a cada passada;
salta para a rua,
corre açodada,
galga o passeio,
desce a calçada,
chega à oficina
à hora marcada,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga;
toca a sineta
na hora aprazada,
corre à cantina,
volta à toada,
puxa que puxa,
larga que larga, 
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga.
Regressa a casa
é já noite fechada.
Luísa arqueja
pela calçada.
Anda Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe, 
sobe a calçada,
sobe que sobe,
sobe a calçada,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Anda Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Poesias completas
António Gedeão
Portugália (1975)