FOLHINHA
Murchou a flor aberta ao sol do tempo.Assim tinha de ser, neste renovoQuotidiano.Outro ano,Outra flor,Outro perfume.O gumeDo cansaçoVai ceifando,E o braçoDoutro sonhoSemeando.É essa a eternidade:A permanente rendição da vida.Outro ano,Outra flor,Outro perfume,E o lumeDe não sei que ilusão a arder no cumeDe não sei que expressão nunca atingida.Orfeu RebeldeMiguel TorgaCoimbra (1992)
Casa situada na cidade das Caldas da Rainha, "nascida" em 1976, numa rua sossegada, estreita e, desde Abril de 2009, com sentido único. Produção: dois frutos de alta qualidade que já vão garantindo o futuro da espécie com quatro novos, deliciosos. O blog é, tem sido ou pretendido ser uma catarse, o diário de adolescente que nunca escrevi, um repositório de estórias, uma visão do quotidiano, uma gaveta da memória.
sexta-feira, 23 de outubro de 2026
Palavras bonitas
domingo, 23 de agosto de 2026
Palavras bonitas
Apesar de parecer que foi ontem, o tempo determina que hoje se completa a primeira capicua da partida do meu pai.
TEMPOTempo - definição da angústia.Pudesse ao menos eu agrilhoar-teAo coração pulsátil dum poema!Era o devir eterno em harmonia.Mas foges das vogais, como a frescuraDa tinta com que escrevo.Fica apenas a tua negra sombra:- O passado,Amargura maior, fotografada.Tempo ...E não haver nada,Ninguém,Uma alma penadaQue estrangule a ampulheta de uma vez!Que realize o crime e a perfeiçãoDe cortar aquele fio movediçoDe areiaQue nenhum tecelãoÉ capaz de tecer na sua teia!Cântico do HomemMiguel TorgaCoimbra (1974)
quarta-feira, 29 de julho de 2026
Palavras bonitas
Há um dizer ainda não dito,Uma mensagem secreta que não se cala,Um escondido e encriptado segredoNo voo das aves num voo aflitoE no arrastar da voz na minha falaComo pio crente rezando o credo.Um sinal, um novo astro no firmamento,Augúrios que sempre estão presentesQuando se esperam tempestades e inquietações,Um esquivo felino deslizando lentoPor dentro do silêncio e noites quentesE abafantes angústias de todos os Verões.E o dizer que dizer precisoÉ um dizer cercado de urgências,Antes que no pântano reste lodo apenasE se dissolva de vez o eco desse risoE os negros corvos com asas de demênciasEscorrendo vivas das negras penas.Onde ondeiam as ondinasLino Sebastiãocordel d'prata (2026)
quinta-feira, 16 de julho de 2026
Palavras bonitas
Depois das 7as montras são mais íntimasA vergonha de não comprarnão existee a tristeza de não teré só nossaE a luztorna mais beloe mais útilcada objectopoemas quotidianosantónio reisTinta da China (2017)
domingo, 5 de julho de 2026
Duas dezenas
Como o tempo passa ...
Há vinte anos, nasceu o meu neto primeiro de quatro na escala da idade, única que produz algumas diferenças. Enorme, forte, antevendo o tamanho que o passar dos dias viria a confirmar.
Nasceu grande, cresceu bem e vai continuar a ser enorme, por muitos e bons anos, dos quais eu ainda quero ver mais uns quantos.
A vida há-de sorrir-lhe, porque o merece, e ser clara como a água da sua predilecção, e também generosa, copiando uma das suas muitas qualidades.
Parabéns meu neto GRANDE!
Mostrai-me as anémonas, as medusas e os coraisDo fundo do mar.Eu nasci há um instante.
quarta-feira, 24 de junho de 2026
Amanhã é um novo dia!
São 14 anos, a idade das confusões, dos anseios, da exigência, dos projectos, dos porquês, da afirmação da personalidade que se deseja bem vincada, com espírito crítico e respeito pelos outros, como tem sido até aqui e vai continuar, disso tenho a certeza.
O aniversariante de hoje - o meu DUDU- está bem longe, lá nos "confins" de um mundo em ebulição, com guerras "à porta" e uma cultura bem diferente, que lhe trouxe vivências e conhecimentos que não mais esquecerá. Porém e felizmente, o mundo é cada vez mais pequenino, e amanhã já receberá aquele abraço apertado, assim que assomar à rampa do aeroporto. Estarei a aguardá-lo(s), deliciado, emocionado, exultante, sem palavras, para o(s) ver e sentir, com a certeza de que, aqui, no conforto da frescura do Oeste, apesar de tudo, "tá-se" melhor!
ERA O TEMPO
Era o tempo das amizades visionáriasEntregues à sombra à luz à penumbraE ao rumor mais secreto das ramagensEra o tempo extático das luasQuando a noite se azulava fabulosa e lentaEra o tempo do múltiplo desejo e da paixãoOs dias como harpas ressoavamEra o tempo de oiro das praias luzidiasQuando a fome de tudo se acendia.O búzio de Cós e outros poemasSophia de Mello Breyner AndresenCaminho (2004)
terça-feira, 12 de maio de 2026
Palavras bonitas
POEMA DO HOMEM NOVONiels Armstrong pôs os pés na Luae a Humanidade inteira saudou neleo Homem NovoNo calendário da História sublinhou-secom espesso traço o memorável feito.Tudo nele era novo.Vestia quinze fatos sobrepostos.Primeiro, sobre a pele, cobrindo-a de alto a baixo,um colante poroso de rede tricotadapara ventilação e temperatura próprias.Logo após, outros fatos, e outros e mais outros,catorze no total,de película de nylone borracha sintética.Envolvendo o conjunto, do tronco até aos pés,na cabeça e nos braços,confusíssima trama de canaispara circulação dos fluidos necessários,da água e do oxigénio.A cobrir tudo, enfim, como um balão de vento,um envólucro soprado de tela de alumínio.Capacete de rosca, de especial fibra de vidro,auscultadores e microfones,e, nas mãos penduradas, tentáculos programados,luvas com luz nos dedos.Numa cama de rede, penduradada parede do módulo,na majestade augusta do silêncio,dormia o Homem Novo a caminho da Lua.Cá de longe, na Terra, num burburinho ansioso,bocas de espanto e olhos de humidade,todos se interpelavam e falavamdo Homem Novo,do Homem Novo,do Homem Novo.Sobre a Lua, Armstrong pôs finalmente os pés.Caminhava hesitante e cauteloso,pé aqui,pé ali,as pernas afastadas,os braços insuflados como balões pneumáticos,o tronco debruçado sobre o solo.Lá vai ele.Lá vai o Homem Novomedindo e calculando cada passo,puxando pelo corpo como bloco emperrado.Mais um passo.Mais outro.Num sobrehumano esforçolevanta a mão sapuda e qualquer coisa nela.Com redobrado alento avança mais um passo,e a Humanidade inteira,com o coração pequeno e ressequido,viu, com os olhos que a terra há-de comer,o Homem Novo espetar, no chão poeirento da Lua, a bandeira da sua Pátria,exactamente como faria o Homem Velho.Novos poemas póstumosAntónio GedeãoEdições João Sá da Costa (1998)
domingo, 19 de abril de 2026
Óbidos e os livros
Está a decorrer em Óbidos - termina hoje - mais um evento dedicado aos livros, desta vez com enfoque na literatura de viagens: o Latitudes - Literatura & Viajantes.
Ontem, aproveitando um pouco do pouco tempo livre, a visita a Óbidos aconteceu, no meio de muita, muita gente que quase não usufrui da beleza e do sossego da bela vila medieval, limitando-se a galgar a Rua Direita, beber uma ginginha em cálice de chocolate e comprar um "bonequinho" para o frigorífico.
Como em todos os festivais literários, não foi, nunca é, possível assistir a todas as conversas, eventos, apresentações, mas o tempo foi bem aproveitado. Em quatro locais diferentes, tão agradáveis quanto inesperados, o actor Pedro Lamares disse poesia como muito bem sabe e mostrou aos que o ouviram um conjunto de poetas que, entre muitos outros, marcam a qualidade da nossa poesia. E como a poesia ainda se torna mais bela quando é bem dita!
De Camões a Pessoa, passando por Al Berto, Nemésio, Herberto, O'Neill ou Natália, foi a esta última que coube o encerramento com dois poemas que fazem parte do "acervo" deste blogue: O coito do Morgado e A defesa do poeta.
domingo, 15 de março de 2026
Palavras bonitas
O meu amigo Lino Sebastião resolveu, agora que as suas Primaveras já ultrapassaram as oitenta, publicar em livro os poemas que lhe vão na alma, no coração e na memória.
Quatro livros já estão acessíveis a quem gosta de poesia e há mais na forja. A mim, que sou um privilegiado, chegam-me em mão mal saem da editora, oferecidos e com dedicatória para a posteridade.
Perdido de um tempo antigoFico submerso na saudade,Palavra que digoComo se em mim dissessePássaro, flor, eternidadeE todo o tempo contivesse,Nesse espaço,Inicial e puro,O côncavo maduroDe um abraço.Palavra a subir por mimOs caminhos pedregosos dos diasE feita clarimA anunciarO despertarDe antigas nostalgias.Do longe e da feridaLino Sebastião
sábado, 7 de março de 2026
Palavras bonitas
A minha irmã cumpre hoje a sétima capicua e, como eu ainda por cá não estava, no dia seguinte Torga publicou no seu Diário um poema a saudar a sua vinda ao mundo.
Coimbra, 8 de Março de 1949
DEPOIS DA CHUVA
Abre a janela e olha!Tudo o que vires é teu.A seiva que lutou em cada folha,E a fé que teve medo e se perdeu.Abre a janela e colhe!É o que quiser a tua mão atenta:Água barrenta,Água que molhe,Água que mate a sede ...Para que haja um sorriso na parede!Diário IVMiguel TorgaCoimbra (1973 - 3ª. Ed.)
Exactamente um mês depois, salvaguardando o excesso de optimismo que podia transparecer do primeiro, deixou-lhe um aviso para a vida que estava a iniciar ... e nem sequer a conhecia.
Coimbra, 7 de Abril de 1949
EXAME DE CONSCIÊNCIA
Por tudo passa o artista:Primeiro, pela alegriaDe se julgar criadorNo seio da natureza;Depois, por esta tristezaDe ver morrer o que fez,Sem ter nas mãos a certezaDe erguer o sonho outra vez.Diário VMiguel TorgaCoimbra (1974 - 3ª. Ed.)
segunda-feira, 2 de março de 2026
Palavras bonitas
Continua a parecer que foi ontem, mas já lá vão 22 anos. A capicua fica assinalada com a ligação poética entre o mês em que partiste e aquele em que me pariste.
ENTRE MARÇO E ABRILQue cheiro doce e fresco,por entre a chuva,me traz o sol,me traz o rosto,entre março e abril,o rosto que foi meu.o únicoque foi afago e festa e primavera?Oh cheiro puro e só da terra!Não das mimosas,que já tinham floridono meio dos pinheiros;não dos lilases,pois era cedo aindapara mostraremo coração às rosas;mas das tímidas, dóceis floresde cor difícil,entre limão e vinho,entre marfim e mel,abertas no canteiro junto ao tanque.Frésias,ó pura memóriade ter cantado -pálidas, fragrantes,entre chuva e sole chuva- que mãos vos colhem,agora que estão mortasas mãos que foram minhas?PoesiaEugénio de AndradeFundação Eugénio de Andrade(2000)
quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026
Palavras bonitas
COISAS
As coisas escondem-se nas coisasficam por baixo ou no fundoàs vezes umas nas outras.Escondem-se de quêas coisas?Delas próprias ou de quemtenta apanhá-las à mão?Os óculos fogem e escondem-seàs vezes nos próprios olhosrelógio nunca se sabetalvez debaixo da camaou na metáfora das horas.Telemóvel é conformeora fica em outro bolsoora está onde não está.O casaco no cabidede repente é invisívelda caneta já não falocai no buraco mais próximo.Cada coisa tem seus quêsseus recônditos refúgiossão tuas mas não as vêsestão contigo e não encontras.Coisas de coisasou de homem?Coisas que das mãos se somemcoisas em coisas escondidascoisas que são mais nossasquanto mais de nós perdidas.Balada do corsário dos sete maresManuel AlegreD. Quixote (2026)
terça-feira, 20 de janeiro de 2026
Palavras bonitas
DEZ RÉIS DE ESPERANÇA
Se não fosse esta certezaque nem sei de onde me vem,não comia, nem bebia,nem falava com ninguém.Acocorava-me a um canto,no mais escuro que houvesse,punha os joelhos à bocae viesse o que viesse.Não fossem os olhos grandesdo ingénuo adolescente,a chuva das penas brancasa cair impertinente,aquele incógnito rosto,pintado em tons de aguarela,que sonha no frio encostoda vidraça da janela,não fosse a imensa piedadedos homens que não cresceram,que ouviram, viram, ouviram,viram, e não perceberam,essas máscaras selectas,antologia do espanto,flores sem caule, flutuandono pranto do desencanto,se não fosse a fome e a sededessa humanidade exangue,roía as unhas e os dedosaté os fazer em sangue.Poesias Completas (1956-1967)António GedeãoPortugália (1975)
segunda-feira, 22 de dezembro de 2025
Palavras bonitas
AMEAÇASAo longo da madrugadaescutavozes que a chamam- Maria da Nazaré!Ó filha da Galileia!E ela salta da camafecha portas e janelascorre as cortinas da casapés descalços na friagemde percorrer o soalhoatrás das vozes que a atraema ameaçam, enchamamenquanto o anjo não vem:- Maria da Nazaré!Ó filha da Galileia!E ela já rodopia, rodandosobre si mesmaà espera que elas se afastemse desvaneçam e rasguemse entorpeçam, apaguemdesguarneçam e deslacemMas logo elas se desdobramtornando no chamamento:- Maria da Nazaré!Ó filha da Galileia!Palavras vindas de quemdo outro lado do espaçoas marca com a friagemda ira que se contémAnunciaçõesMaria Teresa HortaD. Quixote (2016)
sexta-feira, 12 de dezembro de 2025
Palavras bonitas
O risco que se risca e traça,Em riste traz o risco da ameaçaEm tudo o que por nós passa,Mesmo que rasteira e rasca a negaça,Rasante rasa a praçaE rafeira regouga de ranço na nossa taça.Marcante a marca que deixaMesmo no manco que manca e se queixa,Marcado na marosca que nele se enfeixa,Pelo mercador no mercado da ameixa,Marado na marada desta endecha.Girante o gesto que se gera movente,Gira girando na gente,Girafa de gorgomilo pendenteE garganta de gargalo de enchenteGestor e garante eloquente,Garboso e grande gerente,Garantia deste poema displicente.Meditação IrreverenteLino Sebastiãocordel d'prata (2025)
sábado, 8 de novembro de 2025
Palavras bonitas
QUADRILHA
João amava Teresa que amava Raimundoque amava Maria que amava Joaquim que amava Lilique não amava ninguém.João foi pra os Estados Unidos, Teresa para o convento,Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandesque não tinha entrado na história.Vai, Carlos!Carlos Drummond de AndradeTinta da China (2022)
terça-feira, 30 de setembro de 2025
Palavras bonitas (talvez actuais)
Ao Sr. José Ventura Montano(Rogando-lhe socorro para pagar as rendasdas casas em que o autor habitava)Demanda-me usurário senhorioDo já findo semestre a soma escassa,E enjoada de esperas, sei que traçaPôr-me em Janeiro a passear ao frio.Ele em tais casos tem mais brio,Que é homem pé-de-boi, vilão de raça.Já creio que mandado extrai e o passaÀ mão ganchosa de aguazil bravio.Tu, que detestas esta corja horrenda,Que deveu a ganância inútil suaPrimeiro ao chafariz, depois à tenda,O avaro alegra, que um semestre amua;Acode ao caro amigo, antes que aprendaDe cães vadios a dormir na rua.Obras escolhidasBocageCírculo de Leitores (1985)
quarta-feira, 17 de setembro de 2025
Palavras bonitas
O VALOR DO VENTO
Está hoje um dia de vento e eu gosto do ventoO vento tem entrado nos meus versos de todas as maneiras esó entram nos meus versos as coisas de que gostoO vento das árvores o vento dos cabeloso vento do inverno o vento do verãoO vento é o melhor veículo que conheçoSó ele traz o perfume das flores só ele traza música que jaz à beira-mar em agostoMas só hoje soube o verdadeiro valor do ventoO vento actualmente vale oitenta escudosPartiu-se o vidro grande da janela do meu quartoTodos os PoemasRuy BeloAssírio & Alvim (2000)
sábado, 23 de agosto de 2025
Palavras bonitas ...
... adequadas para o meu pai, que partiu há precisamente uma década.
VOZ
Era uma voz que doía,Mas ensinava.Descobria,Mal o seu timbre se ouviaNo silêncio que escutava.Paraísos, não havia.Purgatórios, não mostrava.Limbos, sim, é que diziaQue os sentia,Pesados de covardia,Lá na terra onde morava.E morava neste mundoAquela voz.Morava mesmo no fundoDum poço dentro de nós.LibertaçãoMiguel TorgaCoimbra (1978)
terça-feira, 29 de julho de 2025
Palavras bonitas
Elogio do sorvete
come sorvetes velha come sorvetesque a morte chega mais cedo do que pensasbem melhor será partires toda fresquinha por dentrocom tanto fogo aceso nas paredes de Maioalém disso ficas mais bonita (tu que já ésde novo uma criança) com a bolacha esguiaa arrefecer-te os dedos frios e a línguaa saltitar na palidez dos lábioscome sorvetes velha come sorvetes quetirando os chocolates do nosso tioFernando Pessoaos sorvetes são a melhor metafísicae tornam os dentes incrivelmente brancosPoesia reunidao pouco que sobrou de quase nadaManuel Alberto ValenteQuetzal (2015)