quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Palavras bonitas

(Passam hoje 2 anos sobre a partida do meu pai.)

PERENIDADE

Nada no mundo se repete.
Nenhuma hora é igual à que passou.
Cada fruto que vem cria e promete
Uma doçura que ninguém provou.

Mas a vida deseja
Em cada recomeço o mesmo fim.
E a borboleta, mal desperta, adeja
Pelas ruas floridas do jardim.

Homem novo que vens, olha a beleza!
Olha a graça que o teu instinto pede.
Tira da natureza
O luxo eterno que ela te concede.

Miguel Torga 
Libertação
Coimbra (4ªEdição)

terça-feira, 22 de agosto de 2017

Cidadania

Leio, no JL que me chegou há poucos dias, crónicas de Anabela Mota Ribeiro e de Kalaf Epalanga sobre o Festival Literário Internacional de Paraty. Em ambas é referida e exaltada a intervenção de uma Professora - Diva Guimarães - no espaço reservado ao público presente numa das mesas daquele Festival.
A forma como ambos adjectivam, nessas crónicas, a D. Diva, "obrigou-me" a ir "à pesca". Encontrei, sem grande esforço, um exemplo de coragem, de cidadania, de alerta, de chamamento, de força, contra as injustiças que já foram, as que se mantêm e as que irão continuar, se a grande maioria não se capacitar que o mundo é de todos e para todos, e não de "meia dúzia" de iluminados que traçam os caminhos para os outros e as grandes vias para eles próprios.
Uma intervenção que excedeu, em muito, as expectativas que me tinham sido criadas.

sábado, 12 de agosto de 2017

Livros lidos (ou em vias disso)

Numa altura em que, um anormal norte americano, de madeixas lacadas e dedinho apontado, qual boneco animado, e outro anormal, norte coreano, sem madeixas e de cabelo rapado, qual boneco articulado, disputam o primeiro lugar no campeonato da asneira e da fanfarronice, sabe bem ler:

"(...) A sua autoridade era de uma eficácia sem limites e, para quem visse, era ainda acentuada por, tantas vezes, o coronel ter flores no cabelo. Em certas ocasiões era ele que as punha atrás da orelha, mas noutras alturas eram as próprias flores que procuravam o cabelo do coronel. A flor e a autoridade, uma aparente contradição, acentuavam-se mutuamente e mostravam que a lei, o rigor e o poder devem ser acompanhados pela beleza estética e pela sensibilidade.
     O mordomo, por seu lado, não se mostrava consternado com a situação nem com o nervosismo de Kopecky e, ao sair da sala, ainda repetiu:
     - Que cheiro a chucrute!
     O coronel, mesmo reconhecendo a utilidade das armas, nunca as teria em casa como faziam os outros oficiais seus amigos, que tinham as paredes enfeitadas com pistolas e espingardas. Uma arma nunca poderá ser um objecto de decoração. As paredes são coisas que servem a nossa intimidade e impedem o frio, mantêm o calor, mas também são o esqueleto da cultura: é nas paredes que estão as estantes dos livros e os quadros pendurados. Wilhelm, o filho do coronel Moller, dizia mesmo que essa era a função principal de uma parede: servir a cultura. Para o frio há casacos. (...)

Afonso Cruz
O pintor debaixo do lava-loiças
Editorial Caminho