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domingo, 17 de julho de 2022

Helicicultura

Na sua velocidade de caracol segue, atento, tudo quanto à sua volta se passa, com atenção precisa e tentando ter rapidez na acção. Os "corninhos" são as antenas de radar, sempre sintonizadas, e que lhe permitem fugir, à velocidade estonteante de caracol, dos obstáculos, encolher-se na casca quando o perigo se aproxima, observar a paisagem com amplitude completa, aproveitando bem as vistas interessantes, o que nem sempre acontece.

O caracol aproveita tudo e tenta usufruir, ao máximo, do que lhe é oferecido à vista, sem encargos nem regras, a não ser a que o obriga a estar atento às pisadelas, às desfeitas, às vinganças, a tudo o que a vida que o rodeia lhe proporciona, por mais que se esforce a ser-lhe indiferente. Não abre portas para atropelar os outros, sejam eles animais esquisitos, caracóis ou lesmas. Todos têm direito à vida que querem, gostam ou podem. As portas podem sempre abrir-se mas as correntes de ar deviam apenas constipar quem as abriu.

Apesar de todo o cuidado, de a pisadela o poder poupar e ser como o totoloto, que só sai aos outros, tem consciência que o mais provável é terminar num qualquer grelhador ou fogueira, ou refogado num tacho bem temperado. Para conseguir passar "por entre os intervalos da chuva" e resistir, tem de ser persistente, cuidadoso, paciente e, sobretudo, afortunado.

Qual a diferença entre a vida do caracol e a de qualquer outro animal? Responda quem souber, que eu não estou para aí virado.

terça-feira, 15 de dezembro de 2020

Caracóis

O jardim é a melhor sala da casa. Não tem janelas, nem portas, nem estores, nem correntes de ar, bibelots que se possam partir, telefone a tocar, televisão a noticiar, toalhas para pendurar, chão que se possa sujar, cadeiras fora do lugar, mesa por levantar, nada. Tudo é natural.

E mesmo quando chove, faz calor ou frio, a "sala" convida a olhar e, como dizia Saramago, "se olhares, vê e se vires, repara". Faço-o habitualmente e tento reparar, para descortinar o "presente" dos gatos que não puxam o autoclismo apenas por não o encontrarem, e para perceber a evolução das flores, para mondar uma ou outra erva que, sem princípios, ocupa indevidamente espaços que lhe não são destinados.

Espreito os seres vivos que por lá se movimentam e dele fazem casa. Não me refiro aos pássaros, nem às abelhas, muito menos aos gatos. Estes são visitantes, não habitantes. Os caracóis, as lesmas, os bichos-de-conta, estes sim, são usufrutuários permanentes e não pagam qualquer renda ou foro, utilizando tudo, sem quaisquer restrições. Os caracóis fascinam-me. Por debaixo daquela indolência que todos conhecemos estão uns seres que executam na perfeição todas as tarefas a que se dispõem, com um planeamento que deverá fazer inveja a muita gente. Tão depressa estão a saborear as folhas das strelitzia, como provam o hibisco, esburacam as folhas das roseiras, da glicínia, da buganvília e de tudo quanto aparece no seu caminho. Quando se sentem cansados ou saciados, "hibernam" numa boa sesta subindo por uma qualquer parede ou estacionando nas pedras de uma janela.

Não consigo perceber como se deslocam tão depressa e percorrem tudo, mas o defeito é meu, que já não enxergo o que devia.