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sábado, 30 de agosto de 2025

Comboios

Há cinquenta anos que não ando de comboio, nem mesmo uma só voltinha para recordar tempos idos e viagens intermináveis, da capital do Oeste para a "cidade grande" e vice-versa. Grandes leituras e, também, enormes sonecas, nas quase três horas de caminho.

Talvez a electrificação da linha do Oeste e a consequente melhoria dos comboios e dos tempos de viagem ainda me apanhem em condições de voltar a usar um meio de transporte que as autoestradas, as vistas curtas e os interesses rodoviários tornaram obsoleto. Portugal é a excepção europeia no que à utilização dos caminhos de ferro diz respeito.

E a que propósito me lembrei eu, hoje, do comboio?

Vi por aí, numa dessas notícias "telefónicas" que chegam depressa e desaparecem logo, uma referência a Lobão da Beira, localidade do concelho de Tondela, distrito de Viseu. Associei a localidade a um cliente para quem, nos meus primórdios profissionais, despachei, via CP, muitos molhos de bacelos que o estimado senhor estava a plantar naquela localidade. Durante três ou quatro anos, já não recordo bem, o telefone fixo tocava e a encomenda surgia, sempre acompanhada pelo convite para visitar as vinhas plantadas, quando calhasse passar por Lobão. Se a visita nunca aconteceu, como me fui lembrar disto agora?

Associação de ideias ou idiotice?

quinta-feira, 29 de maio de 2025

Prova real

Estava um calor "de ananases", talvez parecido com o que se sentiu, e ainda se sente, no dia de hoje. Sem nuvens no céu nem a nortada oestina tão familiar, pareceria que se estava em pleno Alentejo. Havia necessidade de uma deslocação à outra quinta, para resolver um qualquer problema cuja origem já não recordo. Devia ser importante. O patrão, habitualmente, decidia sem se deslocar lá.

O exame de condução tinha sido realizado com êxito e o documento, em cartolina avermelhada, havia chegado poucos dias antes. A notícia tinha sido transmitida, com ênfase, a quem de direito. A receptividade foi a habitual: sem comentários.

- Hoje levas tu o carro.

Já tinha pegado no Peugeot 504 algumas vezes, mas apenas para pequenas arrumações, na garagem ou na procura da sombra, com a conivência do motorista da casa. Isso ele não sabia e não era eu que lhe iria dizer. Ainda se zangava e alterava a decisão que havia tomado. "Patrão manda, marinheiro faz ... "

É fácil de entender que os nervos eram muitos e imenso o medo de falhar. O Peugeot era, na época, uma "bomba" topo de gama, privilégio de quem tinha grandes posses. Espaçoso, de um verde claro discreto, estofos muito macios, em pele, espaço para copo e garrafa no meio, rádio e leitor de cassetes "cartucho". Até chauffage tinha ...

O patrão instalou-se no lugar do pendura, escolheu a música, clássica, como sempre, e a viagem iniciou-se rumo ao Negrelho. Vidros todos abertos, para que o ar circulasse e diminuísse um pouco o desconforto causado pela tal temperatura nada habitual na região.

O braço esquerdo apoiou-se na janela, deixando que os dedos dessa mão apoiassem o volante. O trabalho era todo executado pela mão direita, que guiava e engrenava as cinco mudanças, dando aquele ar importante de quem sabe bem o que faz e não está nada constrangido.

O trânsito era residual e a viagem correu bem, com o "motorista" a sentir-se "inchado" com o desempenho.

- Não estás mal! Mas olha que o braço é para o volante, não para a janela.

quarta-feira, 9 de abril de 2025

Água

Em Abril, águas mil!

Amanhã, de acordo com as previsões do IPMA, haverá mais. E quão necessária ela é e sempre foi, todos o sabemos. Má, má, é a que muita gente mete ...

Era um mentiroso compulsivo. Mesmo quando a estória era verdadeira, contada pela sua língua tinha sempre um pontinho da sua lavra, inventado ao momento e debitado com o ar mais sério do mundo.

A "plateia" conhecia-o bem e sabia o que a casa gastava. Dava-lhe uns minutos de atenção, durante os quais ele esticava o peito, olhando bem lá ao fundo, no infinito, onde a paisagem lhe abria o cérebro. As estórias eram sempre corriqueiras, mas ele entusiasmava-se e ocupava o "tempo de antena" sem largar o "microfone".

- E não querem saber o que aconteceu ontem quando ...

- Já na semana passada, o Fulano tinha feito ... 

A paciência começava a esgotar-se nos ouvintes. Todos sabiam que ele exultava com aqueles discursos e, tirando isso, não era "mau diabo", mas ... já chegava. Um, mais descarado, começava a arregaçar as calças e a exibir as canelas nuas.

- 'Tás a gozar? Não acreditas? Olha qu'eu não minto ...

- Todos sabemos que, mais ponto menos traço, tu dizes sempre a verdade. Porém, "cautela e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém". E, assim, a água que estás a meter só me molha os sapatos e as meias!!! 

sábado, 15 de março de 2025

Aperitivos

O espumante, branco, era bruto e fabricado na adega onde iria decorrer o evento. Há já dois dias que havia sido colocado no gelo, em grandes alguidares, para que se mantivesse fresco. Ali não havia frigorífico e as visitas eram importantes (a fina flor da alta sociedade). Estavam muito habituadas ao champagne francês. Não se podia correr o risco de não gostarem do nosso.

Na semana anterior, tinha havido uma grande festa citadina em Cascais e o "campo" não podia ficar mal. Tinha sido escolhida a adega, para recrear um ambiente rural que a maior parte desconhecia.

Os aperitivos - pinhões, tremoços e pevides - despertariam a sede para que o espumante lavasse bem a goela e criasse as condições óptimas de degustação do repasto.

- Não vais lá almoçar, claro, mas queria que lá estivesses com o Peugeot. Pode ser necessário vir à quinta buscar alguma coisa que falte.

Tudo tratado e (bem) planeado. As cozinheiras cuidavam das panelas e dos tachos, o cheirinho aguçava o apetite, antevia-se o sucesso. Havia canja, coelho, galinha, porco, cabrito, borrego, vitela, feijão branco e verde, ervilhas, batatinhas no forno e fritas, jaquinzinhos, bolinhos de bacalhau, rissóis de camarão e muitos outros pitéus que a memória já limpou. Só o cheiro saciava o apetite.

Os criados, vestidos de um branco imaculado e com o lacinho preto ao pescoço, iam servindo o espumante e repondo os aperitivos nos pratos, até ser dada ordem para os convivas se sentarem nas mesas. Os lugares tinham sido previamente estabelecidos e escolhidos de acordo com regras bem definidas. Casais separados, muito cuidado com alguns "ódios de estimação", de forma a tornar o ambiente descontraído e sem mácula.

- Preciso que vás à quinta levar uma senhora. Está muito mal disposta. A C. vai contigo e tu ajudas a levá-la para um quarto.

Com alguma dificuldade, a senhora foi deitada no banco de trás. Sossegadinha, gemia, soluçava, tossia, vomitava para um saco que a C. segurava. Não foi fácil levá-la até ao quarto e deitá-la na cama, mas lá ficou. Não deu pela viagem e nem fazia ideia onde estava. Baralhações ...

Só pode ter sido dos tremoços. Ou seria dos pinhões? As pevides quase de certeza que não, embora, por vezes, causem alguns embaraços estomacais e intestinais.

Uma coisa é certa: do espumante não foi! Era bruto ... mas de muito boa qualidade. 

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2025

Problema?!

Quem por cá anda há já bastante tempo, com um mínimo de atenção ao que o rodeia e com um pouco de memória, vai usufruindo de muitas coisas que já viu, já ouviu ou já leu noutras "eras".

Tem sido bem badalado nos últimos dias a ética ou a falta dela, o conflito de interesses, as "ajudinhas", os contratos de amigos e os amigos dos contratos, as cunhas e o compadrio sem que se vislumbre qualquer anormalidade e tudo sempre dentro da legalidade e com a máxima honestidade. Em síntese, acima de qualquer suspeita e clarinho como água ...

Há perto de sessenta anos, conheci um homem, na época já um velho empresário, que tinha sido motorista de um Ministério. Contava ele que, em determinada altura, o Botas proibiu os funcionários públicos de terem qualquer outra actividade.

- Ó senhor Ministro, logo agora que eu acabei de fazer a minha empresa, ainda por cima com dinheiro emprestado! Que vai ser de mim?

- Não te preocupes, António. A lei é só para os outros ... tu continuas aqui comigo, sem problemas.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2025

Eça no Panteão

Era o tempo das Bibliotecas Itinerantes, serviço extraordinário com que a Fundação Gulbenkian levou livros a todos os recantos de Portugal. Já lá vão sessenta anos, ou mais.

Fui "cliente" da carrinha durante bastante tempo e, enquanto isso, foi de lá que trouxe a maior parte dos livros que li. O senhor da carrinha, motorista e bibliotecário, deve ter achado piada ao miúdo que, mensalmente, a ele se dirigia entregando os livros do mês anterior e levando mais dois ou três para o seguinte.

- Já leste tanto que hoje vou dar-te uma surpresa. Lês, não comentas e devolves no próximo mês.

Dobrou-se e, lá de baixo, retirou um livro com uma cinta vermelha. Juntou ao outro que tinha sido escolhido e entregou-me os dois. Não me lembro do que escolhi mas nunca mais me esqueci daquele que o senhor da carrinha elegeu, com um sorriso malandreco.

Devo ter lido "A Relíquia" em dois ou três dias e nunca mais esqueci o livro e a forma como a ele tive acesso. Quando pude, foi dos primeiros (terá sido o primeiro?) que comprei.

Hoje, os restos mortais de Eça de Queiroz foram trasladados para o Panteão Nacional, com a pompa que o grande escritor merece. Fica por lá a fazer companhia a grandes escritores - Sophia, Aquilino - e a outras personalidades portuguesas de relevo.

Por aqui, de vez em quando e sempre com deleite, passo os olhos por alguma das suas grandes obras. E concluo sempre: Eça escreve tão bem!

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"... Estava salvo! Rapidamente, ajoelhei à beira do caixote, cravei o formão na fenda da tampa, alcei o martelo em triunfo ...

- Teodorico! Filho! - berrou a titi, arrepiada, como se eu fosse martelar a carne viva do Senhor.

- Não há receio, titi! Aprendi em Jerusalém a manejar estas coisinhas de Deus! ...

Despregada a tábua fina, alvejou a camada de algodão. Ergui-a com terna reverência: e ante os olhos extáticos surgiu o sacratíssimo embrulho de papel pardo, com o seu nastrinho vermelho.

- Ai que perfume! Ai! ai, que eu morro! - suspirou a titi a esvair-se de gosto beato, com o branco do olho aparecendo por sobre o negro dos óculos.

Ergui-me, rubro de orgulho:

- É à minha querida titi, só a ela, que compete, pela sua muita virtude, desembrulhar o pacotinho! ...

Acordando do seu langor, trémula e pálida, mas com a gravidade de um pontífice, a titi tomou o embrulho, fez mesura aos santos, colocou-o sobre o altar; devotamente desatou o nó do nastro vermelho; depois, com o cuidado de quem teme magoar um corpo divino, foi desfazendo uma a uma as dobras do papel pardo ... Uma brancura de linho apareceu ...

A titi segurou-a nas pontas dos dedos, repuxou-a bruscamente - e sobre a ara, por entre os santos, em cima das camélias, aos pés da cruz - espalhou-se, com laços e rendas, a camisa de dormir da Mary!

A Relíquia
Eça de Queiroz
Livros do Brasil

sexta-feira, 27 de dezembro de 2024

Martelos

O telhado ia sendo feito, a pouco e pouco, devagar, com todo o cuidado. Estar lá em cima sem qualquer protecção (o tempo dos capacetes e dos outros cuidados ainda não tinha chegado), exigia todas as cautelas, apesar da experiência ser grande e de ser "apenas" o sótão de uma casa térrea.

As vigas principais já tinham sido colocadas e a tarefa, agora, era pregar as ripas que viriam a ser o suporte principal das telhas. Trabalho delicado, exigente e rigoroso. Não podia haver falhas, que as telhas não eram maleáveis.

O servente tinha pavor do mestre pedreiro, mas tentava não o demonstrar. Procurava cumprir todas as ordens, sem manifestar qualquer desagrado, muito menos fazer comentários. Podia sair-lhe caro e manter o emprego era essencial para a sobrevivência.

- O "Jaquim" é o servente que eu gosto. Faz o que lhe digo e nunca abre a boca. Respeitinho.

Os pregos utilizados nas ripas eram bem mais pequenos do que aqueles que tinham servido para pregar as vigas. Os martelos utilizados por pedreiro e servente eram os mesmos e bem grandes. O cuidado para acertar na cabeça do prego e não na dos dedos era mais do que necessário, era imperioso. A cabeça dos dedos sofria e a dos pregos torcia-se, impedindo que eles cumprissem a função.

- Ó "Jaquim", tem tento no trabalho. Mais vale acertares nos dedos do que torceres os pregos. Olha que são caros!

A observação do mestre não teve qualquer resposta, como era uso mas, apesar da atenção, primeiro prego martelado, primeiro torcido.

- Eu avisei-te, "Jaquim". Dá atenção ao trabalho, com a cabeça bem assente e sem pensares no resto.

O segundo teve a mesma sorte e o mestre pedreiro não resistiu:

- Vai buscar uma pá ...

O "Jaquim", cumpridor, desceu a escada e dirigiu-se à arrecadação. Agarrou na primeira pá que encontrou e subiu a escada.

- Aqui tem, senhor João.

- És mesmo parvo. Então tu achas que se pode martelar um prego com uma pá?

Lá poder não pode mas, às vezes, até dava um jeitão e os dedos não se queixavam.

sexta-feira, 29 de novembro de 2024

Responsabilidade

Talvez princípios dos anos oitenta do século passado ou até finais da década de setenta. O funcionamento da Banca estava longe, muito longe, daquilo em que se viria a tornar, quer na forma quer no conteúdo. Os computadores estavam a dar os primeiros passos e tudo passava pelos olhos e pela esferográfica que preenchia e assinava.

O senhor H. era um cliente conhecido de todos pela sua arrogância, considerando-se com direitos especiais face à sua categoria e capacidade, e sempre disponível para abrir a porta do gabinete do gerente, queixando-se do atendimento de algum ou de ter sido preterido em favor de alguém menos "importante", ainda que chegado primeiro.

Naquele dia, trazia os cupões da Obrigações FIP, para receber os juros pagos semestralmente pelo Estado. As obrigações FIP - Fundo de Investimento Público eram tituladas por folhas enormes, impressas na Casa da Moeda, que exibiam na parte inferior os cupões que eram cortados em cada semestre e apresentados a pagamento. Também semestralmente, o Estado sorteava os números das obrigações que pretendia (ou podia) liquidar antecipadamente e reembolsava o capital de algumas delas. A vida máxima podia ir até aos dez anos e muitas permaneciam "vivas" até final. Ditavam o reembolso a evolução das taxas de juro e a disponibilidade do erário público.

 - Quero receber estes juros, disse o senhor H., sem nenhum cumprimento, o que ninguém estranhava.

Entregou o montinho e dirigiu-se ao gabinete para cumprimentar o "poder".

- Dá licença, senhor N.?

- Diga, diga ... 

- O senhor H. traz uma obrigação que foi sorteada há seis meses. Já não podemos pagar estes juros.

 Ninguém me disse nada. São uns incompetentes! 

A voz já estava alterada e as faces ruborizadas.

- Quero receber o capital e os juros dos seis meses.

O gerente garantiu de imediato a satisfação da exigência.

- Fique descansado, senhor H.. A sua conta será creditada hoje pelo valor total.

E foi. Os arquivos foram visitados e identificados os dois distraídos que tinham aposto a sua assinatura no documento de pagamento, sem cuidarem, primeiro, de verificar a lista das obrigações sorteadas. A espada caiu sobre as duas cabeças ...

- Vocês sabem muito bem ... o cliente tem sempre razão e a responsabilidade é toda vossa.

Nesse dia, cerca de um quarto do ordenado mensal de cada um dos "malandros" distraídos foi parar à conta do senhor H. que, naturalmente, nunca agradeceu nem isso fazia parte do seu vocabulário.

segunda-feira, 11 de novembro de 2024

Higiene

As recentes eleições nos Estados Unidos têm feito correr muita tinta e o seu resultado vai trazer consequências, gravosas, para todo o mundo, diz o meu "eu" comentador e observador atento.

Ainda não perdi as esperanças de, um dia, ir conhecer esse gigante que manda e tenta controlar todo o mundo e onde, por estranho que possa parecer, o "poupinha" vai voltar à presidência. 

Sendo um país tão grande e tão diverso tem, contudo, a bandeira mais higiénica do mundo, de acordo com o saber do Carlinhos, essa "enciclopédia" infinita dos ditos acertados e certeiros.

- Sabes qual é a bandeira mais higiénica do mundo?

- Nem imagino ... deve ser a que foi lavada há menos tempo!

- Nada disso. É a dos Estados Unidos da América.

- E porquê?

- Porque tem cinquenta estrelas e nove de cada dez estrelas usam "Lux"; e nas riscas vermelhas contém "hexaclorofene" que torna o hálito puro e fresco. 

A publicidade cria coisas que nem o tempo faz esquecer. 

domingo, 23 de junho de 2024

Partida

Encontrei-a, sem abrigo, completamente desorientada no cemitério, para onde voara sabe-se lá vinda de onde. Deixou-se apanhar sem qualquer dificuldade e permaneceu cá em casa vários anos. Até hoje ...

Cantava logo pela madrugada e sempre que eu me aproximava do seu poiso artificial. Ontem foi a última vez que lhe peguei, lhe fiz festinhas, com as quais ela, como sempre, se deliciou. Limpei a gaiola, coloquei comida e enchi o "copo" da água.

Não devo ter fechado bem a porta que, durante a noite, se abriu. Um predador, gatinho de estimação da vizinhança mas sempre guardador atento do que por aqui se passa, deitou-lhe a luva com garras e degustou-a completamente. De manhã, apenas sobravam algumas penas a comprovar o crime.

A rolinha já não cantou hoje de manhã nem sussurrou o "põe-te na rua".

Partiu e não deixou, nem terá, substituto. 

quarta-feira, 22 de maio de 2024

Dureza

Pesa quase quarenta quilos, de acordo com as especificações técnicas que o acompanham, num panfleto em várias línguas, para servir toda a gente. A embalagem deve dar-lhe, pelo menos, mais cinco quilitos. O destino é um primeiro andar, alto, cujo acesso se faz subindo quatro lances de escada ou utilizando um dos elevadores.

A campainha toca. 

- Venho entrêgá o forno!

O trinco eléctrico cumpre a sua função e abre a porta. O vídeo mostra um homem maduro - talvez quarentão - a colocar qualquer coisa que a impeça de fechar. Sai do ângulo de visão. Regressa daí a pouco, alcachinado, com uma caixa, enorme, às costas. Não ouço o elevador e desconfio. Será que vem pelas escadas, penso. E veio mesmo. Sem qualquer ajuda. Chega exausto.

- Me ajude só a equilibrar o forno. Vou-me abaixando, divagar. Lhe agradeço.

- Podia ter vindo no elevador.

- Pois ... mas era difícil tirar o forno das costas sozinho. E pensava ser um só lance ... custou pra caramba!

Forno colocado no sítio, a assinatura e a despedida, com pressa, que há muitas entregas e a tarde só agora começou. Simpático, como são (quase) todos os brasileiros, desejou saúde e agradeceu.

Se tivesse um ordenado proporcional ao esforço, ganharia uma fortuna ... Talvez seja um daqueles que ainda não conseguiu obter o papel da AIMA. Não perguntei. Não deu tempo para conversa de "chacha". Ainda assim, estava lá bem claro "um sorriso de orelha a orelha"!

sábado, 11 de maio de 2024

Sapateiro

A habilidade no manuseamento da sovela garantia que a sola das botas ficava bem cozida à parte de cima. Era a garantia de que, por ali, a bota jamais se desfaria, fosse a sola um bocado de pneu de tractor bem aparado ou um naco de couro melhor curtido. As mãos determinavam a excelência do trabalho, por todos reconhecida.

Depois da sovela, e as mãos, terem executado o trabalho, a forma do sapateiro, instalada em cima do banco e bem segura pelos joelhos, e a precisão do martelo de bola, concluíam a peça, apta, a partir daí, para calcorrear léguas ou trabalhar muitas jeiras.

O avental e a proeminência da barriguinha eram os distintivos do velho artesão. O copinho de três que molhava a goela a meio da manhã, garantia a boa disposição e ajudava a actualizar a conversa da coscuvilhice.

O produto final não era barato, mas a qualidade, essa, estava mais que provada e garantida.

- Podes pagar quando quiseres ou ires pagando. Tu é que sabes!

Nem sempre havia botas novas para executar. Colocar meias-solas garantia a sobrevivência do sapateiro, da família ... e dos sapatos.

Tudo no tempo em que as sapatilhas se chamavam alpargatas.

segunda-feira, 29 de abril de 2024

Espectáculo

O espectáculo começou cinco minutos depois da hora prevista. Do meu lado direito, o telemóvel permanecia numa das mãos do dono, enquanto a outra (um dedo apenas) ia dedilhando uma mensagem longuíssima, talvez a contar o que se estava a passar em palco e a beleza das músicas de há meio século, com "vestes" actuais. A lentidão da escrita era confrangedora. Vieram-me à ideia as recentes definições de Marcelo e concluí que, afinal, a sua sapiência é infinita: uma personagem que tão mal dedilha no aparelho e tão pouco liga ao que se passa no palco, só pode ser alguém pouco habituado à cidade, talvez até rural, lá das berças, das entranhas do Portugal profundo. Tinha descido à civilização e só poderia estar a contar o seu deslumbramento.

Do lado esquerdo, dois lugares vazios. Alguém que tinha comprado bilhetes - a sala estava esgotada - e, à última da hora e por algum imponderável, não tinha podido comparecer. Conclusão apressada: cerca de uma hora depois, surgem dois personagens, com os papelinhos bem visíveis nas mãos, caminhando com dificuldade, prejudicando a visibilidade de quem chegou a horas, e ocupam os dois lugares até aí livres. Devagarinho, um deles "saca" do aparelho que também serve para telefonar, e inicia o registo, para a posteridade, para os amigos e para as redes, do que se passa no palco. A lentidão com que movimenta a "câmara" e o atraso na chegada levam-me a concluir, talvez de forma apressada, que o "filmador" só pode ser oriental ou com raízes desses lados, tal como o nosso Presidente descreveu.

Acabou! Enquanto aplaudo os artistas que me proporcionaram um grande espectáculo, dou por mim a pensar que cada vez sei menos e me acho mais deslocado.

quinta-feira, 18 de janeiro de 2024

Fractura

O campo era de saibro, a bola, de borracha, com um bom tamanho e de qualidade bem diferente, para melhor, do que aquelas com que era habitual jogar. O futebol era tolerado, quando não coincidia com as aulas de ginástica, ministradas no mesmo espaço. Ginásio era, ainda, coisa de sonhadores ...

Faltava um para as duas equipas se equilibrarem. Em número, claro.

- Puto, queres jogar?

Eram maiores, não conhecia nenhum. Era o primeiro ano naquela escola, ainda desconhecida e os colegas da turma não tinham chegado da hora do almoço. A vontade de ingressar nos "grandes" era imensa.

- Claro!

O almoço tinha sido na cantina e já havia terminado há algum tempo. A aula próxima iria acontecer às três e meia. Podia participar sem problemas, desde que tivesse cuidado com os trambolhões e com o calçado.

O jogo começou e cedo se viu que a equipa da qual fazia parte era bem melhor do que a outra. Os golos sucediam-se e os "trambolhos" não apanhavam uma. Um passe longo, o "puto" apanha-a e corre para a baliza. Ia ser mais um golo, mas este era especial. O defesa foi fintado e não gostou da acção do "puto". Correu, estendeu a "pata"  com violência e a queda foi inevitável. 

- Tem o braço virado ao contrário, ouviu-se.

Veio o contínuo, chamou mais alguém, as dores apertavam, os olhos humedeciam.

- Vamos levá-lo ao hospital. Deve ter o braço partido.

E estava. O médico nem precisou de radiografia. Estendeu as mãos ...

- Ora deixa lá ver

... puxou com força e colocou-o no sítio.

- Já não dói, pois não? Agora vamos pôr gesso e fica novo.

Devem ter sido dois meses. O gesso foi retirado, cortado com uma tesoura enorme que se distraiu e picou a pele, pouco antes das férias do Natal. O resto do primeiro período das aulas de Ginástica teve menos um aluno ...

Foi a primeira fractura de uma série de três que o braço esquerdo exibe no currículo!

quinta-feira, 4 de janeiro de 2024

Calor em tempo frio

O tempo era, ainda, o das escrituras serem um acto solene, num Cartório Notarial estatal, com hora marcada e presença sem atrasos da parte de quem era parte, com uma única excepção - o Notário. Era ainda o tempo das escrituras manuscritas pelo próprio Notário ou dactilografadas pelo Ajudante, na máquina de escrever Messa.

Sentados à volta de uma mesa, grande, com cadeiras bem desconfortáveis e na ordem pela qual outorgavam, os intervenientes aguardavam a chegada do Notário, que iria ocupar a cadeira, maior e com almofada, situada no topo. A primeira tarefa do Notário era verificar os documentos de identificação dos intervenientes não seus conhecidos, após o que iniciava a leitura do texto, não sem antes recomendar que o interrompessem se alguma coisa não compreendessem ou estivesse incorrecta. No final, após a menção das eventuais rasuras, a ordem prévia determinada para sentar, servia para que a última folha fosse passando e recolhendo a assinatura de cada um. A assinatura do Notário encerraria, depois de inutilizar todos os espaços em branco.

Naquele dia, era mais uma escritura de compra, venda e empréstimo, estando presentes: o casal comprador, os pais, fiadores, o administrador da empresa vendedora da fracção e o representante do Banco. Estava muito calor lá fora e o ar condicionado do Cartório ainda não passava de miragem. O representante da empresa vendedora vinha atrasado, muito acalorado e ainda deve ter ficado mais quente quando se sentou, a aguardar, com o Ajudante a dar-lhe sinal do atraso. A camisa vinha aberta até ao cinto, com o peito, peludo, à mostra e um ar de machão importante, ciente de que os seus poderes até podiam criar janelas de fresquidão ...

A Notária entrou, passou os olhos por todos e nem se sentou.

- Vá vestir-se em condições. Isto não é a praia. Lá para fora!

Enfiado, saiu. Deve ter ido ao carro ou ao escritório. Regressou pouco tempo depois. A camisa vinha abotoada até acima e um casaquinho compunha o ramalhete.

A escritura fez-se sem mais comentários e o homem, pelo menos naquelas em que, a seguir, comigo participou, apresentou-se sempre de camisa, gravata e casaquinho ... abotoado, não fosse o diabo tecê-las! 

quinta-feira, 16 de novembro de 2023

Percentagens

Era mais uma das habituais reuniões mensais, para análise dos resultados alcançados, em confrontação directa com os objectivos definidos para o ano em curso. Nelas, era apresentado um quadro com os resultados - o PowerPoint estava a dar os primeiros passos - e cada um comentava os seus, ensaiava justificações para o que ficara por realizar, enfatizava o que tinha acontecido de bom. O PowerPoint dava suporte visual e colorido, sendo o verde a esperança e a satisfação de todos.

Naquela reunião iriam, pela primeira vez, ser apresentados os resultados obtidos pelo contact center, contratado recentemente em outsourcing. O seu objectivo era contactar diariamente, via telefone, todos os clientes com prestações em atraso e assim, com a pressão, obter a regularização integral ou parcial do crédito vencido.

A conversa de apresentação foi novidade para todos e decorreu de forma eloquente, não deixando margem para dúvidas: são "sabões". O arrazoado foi extenso, as justificações, claras, a concretização definitiva e sem peias. O PowerPoint suportava os discursos e registava, a verde Bold, que havia sido conseguido sucesso em 99% dos telefonemas efectuados.

- Mas o valor do vencido não desceu ... murmurou-se à boca pequena, observação que, apesar de sussurrada, deve ter sido escutada ou imaginada no palco. A resposta, esclarecida, não tardou:

- A percentagem indicada diz respeito às chamadas atendidas. Se pagaram ou não, já não é connosco. 

quarta-feira, 19 de abril de 2023

Figos

A figueira é uma árvore que se pode ver em todas as regiões do país, embora o seu fruto não tenha a mesma qualidade em todos os sítios. Há zonas onde o figo, seja moscatel ou pingo-de-mel, é doce, fresco, muito saboroso. Outras há em que é bem melhor saboreá-lo passado ou seco, para que as papilas gustativas não sofram nenhuma desilusão. 

Todos são produzidos por árvores que, tendo por particularidade a ausência de flor, desenvolvem o seu verde em cômoros, pequenos espaços, no meio de outras, com cereal semeado em volta, dispensando as habituais tarefas de cuidar, da poda à pulverização, do adubo ao remexer da terra. Estão lá e pronto. Cumprem a sua função de dar figos a quem deles gosta e de servir de poiso aos pássaros.

Na minha juventude, aprendia-se e dizia-se, quando acontecia uma qualquer queda, que se tinha plantado uma figueira no local onde se dera o trambolhão.

- Vai com atenção e vê lá se a figueira que aí plantaste já deu figos ...

Ontem, António Costa plantou uma figueira na visita que fez aos hipermercados, à procura do IVA 0%. Cedeu ao popularucho, ao chamamento das câmaras e dos microfones, aos mirones opinativos ou deslumbrados com a imagem, numa arruada perfeitamente escusada e que talvez se devesse ter estendido às mercearias de bairro. Seria a festa completa e a queda bem mais eloquente.

Daqui a uns tempos, alguém lhe irá perguntar se a figueira plantada já deu figos ou se a estrada está arranjada para dar passagem aos pretendentes sabões ...

domingo, 16 de abril de 2023

Pendura

O encontro tinha sido combinado por uma razão qualquer que já caiu na gaveta do esquecimento. Devia tratar-se de alguma comemoração importante ou de discussão de um assunto premente para os três. Nessa altura, não havia telemóveis e muito menos grupos de conversa fiada. Foi decidido: no final daquele dia (quarta-feira ?), juntar-nos-íamos em Óbidos, antes de regressarmos a casa. O local era uma tasca bem perto do local de trabalho do L., que gabava muito os petiscos feitos pela dona e estava convencido de que iríamos gostar. Juntava-se o útil ao agradável, por as ocupações dos três dificultarem a cavaqueira de que tanto gostávamos.

A estrada que nos trazia de Peniche não era, ainda, o IP de hoje e era difícil fazer o trajecto em menos de meia hora. Ficou acordado que tentaríamos chegar por volta das seis, embora fosse difícil fazer previsões num trabalho que tinha muito de surpresa e nada de desligar a máquina quando chegava a hora. E as horas a mais ficavam sempre ausentes da folha de pagamento ...

Devemos ter cumprido o horário previsto e o carro levou-nos mesmo até à porta da tasca. Ainda era permitida a circulação automóvel na vila, embora a entrada na porta da dita requeresse alguma perícia. O L. já estava sentado à mesa, num reservado que a senhora da tasca nos facultou, para que o repasto fosse mais recatado e sem necessidade de cumprimentos constantes. Os três eram conhecidos na zona, sendo o L. o que mais gente cumprimentava. 

Quando entrámos, um personagem desconhecido acompanhou-nos, com grande descontracção e tomou lugar de imediato na mesa. Deduzimos que seria algum amigo do L., que não conhecíamos e que ele teria convidado. Comemos, bebemos, como se os quatro se conhecessem perfeitamente há muito. Quando nos preparávamos para iniciar a "importante" conversa, o "amigo" despediu-se:

- Tenho de ir. Já estou atrasado e a minha mulher fica preocupada. Obrigado e até à próxima.

 - É teu colega?, perguntámos ao L.

 - Não. Entrou convosco. Pensei que era vosso amigo.

- É preciso ter lata ...

Estava descoberto. A barriguinha dele já ia cheia, à borla. Dividimos a conta por três, embora tivessem sido quatro a morfar e o pendura talvez o que mais enfardou.

Trinta anos depois, o L. já partiu há muito, a recordação mantém-se fresca e o pendura continua por identificar.

sábado, 18 de março de 2023

Lembranças

A carreira de tiro estava situada a cerca de cinco quilómetros do quartel e a ela se chegava a pé, após um percurso deliberadamente escolhido, bem sinuoso e por caminhos que nem as cabras utilizavam. Se, nessa época, já existissem estas modernices dos relógios que contam passos e dão distâncias, surgiriam caminhadas de, pelo menos, o dobro.

Naquele dia, o treino era de tiro de G-3, individual e deitado. Dez garbosos recrutas deitavam-se frente aos alvos e, à voz de comando, puxavam o gatilho. No final, cada alvo era analisado e pontuado, contribuindo para a classificação final que iria determinar a ordem de mobilização para a guerra colonial, presente todos os dias como destino. Ao segundo tiro, a G-3 encravou e a bala não saiu. A aflição foi grande e o braço levantado pediu ajuda ao Tenente que comandava a instrução de tiro, conhecido como muito rígido, talvez por passar todo o dia fechado naquela espelunca onde só se disparava. Com a pressa de resolver o problema, o corpo rodou e a G-3 deixou de estar  apontada ao alvo e acompanhou o movimento.

A vardascada foi lesta e o correctivo verbal, recheado de vernáculo e bem alto, para todos ouvirem, soou de imediato.

- Ninguém aqui se pode esquecer que a nossa arma só faz fogo em frente ... Cada um de nós é parte de um todo e tem de ter isso presente em cada momento. Levanta o braço mas mantém a posição. Não esquecer isto, seus ...

As forças militares têm regras próprias e os "plenários" devem fazer-se antes da aprovação da ordem de operações. Depois, é executar o melhor possível e de forma a que corra bem para todos. Na operação não há discussão. 

Acabado o serviço militar obrigatório de triste memória para os que o tiveram de suportar, quem não quer, não pode ou não sabe ser assim, tem a porta da rua que é a serventia da casa, podendo escolher ser canoísta do Mondego ou mariscador de berbigão, mas não mais membro da tripulação de um NRP.

sexta-feira, 17 de março de 2023

Carapaus

A vizinha tinha entrado sem ser convidada, como era costume. Os seus olhos não saíam da frigideira e o nariz parecia extasiado, se é que o apêndice que nos divide a face também tem emoções.

- Ora viva! Gosta de carapauzinhos fritos, de um dia para o outro?

A pergunta foi oportuna e surtiu um efeito trapalhão na resposta.

- Adivinhou. Adoro carapauzinhos fritos, sempre. Quanto mais pequenos, melhor, e bem fritinhos, para ser possível comer tudo, espinhas incluídas.

A compostura foi recuperada num ápice e os olhos riram-se, diante da perspectiva do petisco adorado e ainda por cima de borla.

- Ainda bem. Passe por cá amanhã, que eu estou a fritá-los agora.

A mulher fritava os carapaus adquiridos logo pela manhã. A peixeira, que percorria a aldeia com a canastra na cabeça sempre coberta pelo lenço enorme e bem ornamentado de cores e flores diversas, raramente trazia os carapauzinhos indicados para fritar. Era claro que o peixe comprado era pouco para a prole e, por isso, não era muito indicada a hospitalidade e a partilha. A prole era grande, adorava aqueles peixinhos pequenos, acompanhados de um arroz de tomate saboroso, como sempre.

A habilidade da linguagem transmitiu o recado, sem hostilizar nem criar qualquer sentimento de recusa. Como todos sabem, os carapaus fritos ainda podem ficar melhores no dia seguinte ... quando sobram.

O problema é que nunca sobram ... são tão pequeninos e óptimos.