Para "alimentar" a hipocrisia e o desconhecimento do que se passa para as bandas de Odemira.
Se procurarem (não é necessário lupa nem inquéritos), encontrarão mais "odemiras" por esse país fora.
Casa situada na cidade das Caldas da Rainha, "nascida" em 1976, numa rua sossegada, estreita e, desde Abril de 2009, com sentido único. Produção: dois frutos de alta qualidade que já vão garantindo o futuro da espécie com quatro novos, deliciosos. O blog é, tem sido ou pretendido ser uma catarse, o diário de adolescente que nunca escrevi, um repositório de estórias, uma visão do quotidiano, uma gaveta da memória.
Para "alimentar" a hipocrisia e o desconhecimento do que se passa para as bandas de Odemira.
Se procurarem (não é necessário lupa nem inquéritos), encontrarão mais "odemiras" por esse país fora.
Com toda a gente perplexa, com investigações a arrancarem de imediato, requisição civil de habitações da zona e cerca sanitária em duas freguesias, a região de Odemira vive momentos difíceis, que geram pasmo e a admiração de muita gente, daqueles para quem Portugal é Lisboa e a capital, o Rossio.
As explorações agrícolas da zona são trabalhadas, nesta época do ano, por milhares de estrangeiros, na maior parte contratados por um "habilidoso" que os instala, lhes fornece comida e dormida e lhes paga uma "justa" remuneração. É um empresário de seres humanos, com três preocupações fundamentais: fornecer mão de obra às explorações agrícolas que dela necessitam, arranjar emprego para quem dele precisa, e conseguir um "lucrozito" para si próprio, o que ninguém pode levar a mal. Como os trabalhadores são muitos e não há casas nem hotéis para os alojar, o diligente empresário vira-se e lá arranja uns cómodos, "bons e baratos", que aquela malta não é muito exigente.
E, por estranho que possa parecer, a situação, repetida há vários anos, não era conhecida de ninguém e surpreendeu toda a gente. Até as autoridades, tão pressurosas a controlar trânsitos e confinamentos, desconheciam, pelos vistos, onde eram alojados (e em que condições) milhares de trabalhadores que por ali apareciam.
Já percebi. O número de habitantes da zona é de tal modo elevado que mais dez ou quinze mil pessoas passam perfeitamente despercebidas a toda a gente.
A morada era um carro, velho, coberto por uns panos grandes, seguros por elásticos, que se encontrava estacionado junto a um, também velho, pinheiro manso.
Vieram as obras de requalificação das ruas e aquela foi uma das contempladas, decerto por fazer parte do plano previsto, reforçado agora por ter passado a ser um dos principais acessos ao enorme restaurante Mcdonalds, que por ali se instalou recentemente.
Abandonou o poiso e acomodou-se a algumas centenas de metros, agora numa carrinha grande, mais nova e mais discreta. Mesmo assim, havia um pano por cima para assegurar, julgo, algum conforto, e fazer de cortina ao "quarto", protegendo as intimidades. Aqui, ainda mantinha a vista para o restaurante e, de lá, também era visível.
Partiu de novo, obrigado ou convidado a sair. Não o descortinei durante alguns dias e pensei que alguém lhe tinha resolvido o problema e arranjado um espaço para habitar. Surgiu-me hoje, de novo, num outro local, sem vista para o restaurante mas com porta para a rua e para o trânsito.
A carrinha está bem estacionada, não podendo ser legalmente removida nem multada. O "inquilino" por lá vive, sem quaisquer condições de salubridade e higiene.
Será teimosia do próprio ou toda a gente assobia para o lado, como eu?
Dou, não dou? O dilema surge sempre e nunca sei o que fazer. A negativa, agora, prevalece quase sempre, porque deixei de andar com dinheiro no bolso, notas ou moedas. Facilita a decisão, mas deixa-me sempre constrangido e com um peso, grande, de culpa.
Nestes anos todos, a andar e a conhecer mais ou menos bem tantos sítios, encontrei muita gente com necessidade real e também deparei com alguns que o faziam por vício, fingindo maleitas ou defeitos que não tinham, para depois irem depositar uns cobres na sua conta mais ou menos recheada.
A pergunta surge-me sempre: não há forma de eliminar esta praga? Não há vacina que ponha cobro a esta miséria? E aparecem sempre inúmeras respostas que nem vale a pena enumerar. A verdade é que se mantêm muitos seres humanos a estender a mão, sérios ou fingidos, pouco importa.
Não quero acreditar que o melhor seja não olhar, não ver nem reparar porque, como diz o ditado, penas que não se vêem não se sentem.