O VALOR DO VENTO
Está hoje um dia de vento e eu gosto do ventoO vento tem entrado nos meus versos de todas as maneiras esó entram nos meus versos as coisas de que gostoO vento das árvores o vento dos cabeloso vento do inverno o vento do verãoO vento é o melhor veículo que conheçoSó ele traz o perfume das flores só ele traza música que jaz à beira-mar em agostoMas só hoje soube o verdadeiro valor do ventoO vento actualmente vale oitenta escudosPartiu-se o vidro grande da janela do meu quartoTodos os PoemasRuy BeloAssírio & Alvim (2000)
Casa situada na cidade das Caldas da Rainha, "nascida" em 1976, numa rua sossegada, estreita e, desde Abril de 2009, com sentido único. Produção: dois frutos de alta qualidade que já vão garantindo o futuro da espécie com quatro novos, deliciosos. O blog é, tem sido ou pretendido ser uma catarse, o diário de adolescente que nunca escrevi, um repositório de estórias, uma visão do quotidiano, uma gaveta da memória.
quarta-feira, 17 de setembro de 2025
Palavras bonitas
segunda-feira, 23 de junho de 2025
Teatro ... da vida
Ver e ouvir a declamação deste lindo poema de Ruy Belo, integrado num grande espectáculo de teatro musicado, com encenação de Ricardo Pais e o título de Talvez ... Monsanto, foi um privilégio ao mesmo tempo arrepiante, comovente, excepcional, lindo.
Tudo brilhante! Dos actores aos músicos, da poesia à encenação, dos adufes ao contrabaixo, das vozes às interpretações, com um destaque especial para Luísa Cruz.
QUERO SÓ ISSO NEM ISSO QUERO
Quero uma mesa e pão sobre essa mesana toalha de linho nódoas de vinhoquero só isso nem isso queroQuero a casa de terra à minha voltacães altos na noite a minha mãe mais novaquero só isso nem isso queroQuero a casa do forno onde eu me escondia dos relâmpagose trovões quando um ferro no cesto garantia uma feliz cria à galinha chocadeiraquero só isso nem isso queroQuero de novo fundir ao lume os soldados de chumbo que no natal me punham no sapatinhoe tirar chouriço e toucinho do guarda-comidasquero só isso nem isso queroQuero fazer pequeninos adobes e construir casas pelo quintalver chegar o verão e comermos todos lá fora na varanda de tijoloquero só isso nem isso queroQuero uma aldeia umas pedras um rioumas quantas mulheres de joelhos brancos esfregando a roupa nas pedrasquero só isso nem isso queroQuero escrever fatais cartas de amor à rapariga dos meus oito anosrasgar essas cartas deixá-las pra sempre dentro do tronco oco da oliveiraquero só isso nem isso queroQuero umas cabras um pastor rico um pastor pobreo leite quente na teta o cabrito morto soprado e esfoladoquero só isso nem isso queroQuero a courela as perdizes no ovo a baba do cucolaranjas de orvalho no ano novo colhidas na árvorequero só isso nem isso queroQuero dois montes e um paul de malmequeres a cheia na primaveraa asma o ruído dos ralos as pernas sombrias das raparigasquero só isso nem isso queroQuero que voltem os que morreram os que emigrarammatar com eles o bicho com aguardente pela manhã antes da pegaquero só isso nem isso queroQuero ver ao vento o véu das noivas apanhar os confeitos nos casamentossaber pelos papéis dos registos o tempo da prenhez palavra misteriosaquero só isso nem isso queroQuero um pátio meu e da sombra e galinhas pedreses e árvoresuma mina de avencas uma horta uma sebe de cana umas casas caídasquero só isso nem isso queroQuero ajudar na rega do fim de tarde calcar os buracos das toupeirase dirigir com o sacho a água morna nos pés até aos regos do feijãoquero só isso nem isso queroQuero em dezembro o varejo final da azeitona o búzio a tocara azeitona a cair dos ramos nos panos de serapilheiraquero só isso nem isso queroQuero o meu pai de chapéu de chuva aberto nos dias de solo meu pai de manhãzinha a lavar-se e a explicar-nos latim e históriaquero só isso nem isso queroQuero nu em pelota entre todos tomar os banhos no marachãoos ninhos dos pássaros as andorinhas de asas escuras no céu azulquero só isso nem isso queroQuero o pátio da escola a roda das raparigas a cantar à volta do plátanoo primeiro sonho de amor as primeiras palavras gaguejadas trocadas com uma raparigaquero só isso nem isso queroQuero as feridas nos pés para poder sair à rua descalçoo pão com conduto entre os meninos pobres no recreioquero só isso nem isso queroQuero ir ao vale barco a malaquejo à marmeleiraroubar melões jogar ao murro ver nas festas o fogo presoquero só isso nem isso queroQue quero tanto que quero um mundo ou nem tanto só agora reparoquero morder para sempre a almofada quente e densa da terraquero só isso nem isso queroTodos os poemasRuy BeloAssírio & Alvim (2000)
terça-feira, 4 de abril de 2023
Palavras bonitas
VARIAÇÕES SOBRE "O JOGADOR DO PIÃO"
Faz rodar o pião redondo tudo em voltaAtira a primavera e recupera o verãoTerras e tempos - tudo assume esse piãoque rodopia e rouba o chão à folha soltaRasga o espaço num gesto ríspido de vidaReergue o braço a prumo arrisca - nessa rodapossível da maçã ao muro - a infância todaTudo é redondo e torna ao ponto de partidaO sol a sombra a cal os pássaros os péso adro a pedra o frio os plátanos ... Quem és?Voltas? rodas? regressas? rodopias? - NadaMão do breve pião, levanta ao céu a enxadaPassa o proprietário e já não reconhecetalvez o operário inútil sob a messeTodos os PoemasRuy BeloAssírio & Alvim (2000)
segunda-feira, 21 de dezembro de 2020
Palavras bonitas
O JOGO DO CHINQUILHO
quarta-feira, 1 de setembro de 2010
Palavras bonitas
Para o meu filho, que hoje faz 29 anos.
À CHEGADA DOS DIAS GRANDES
Da luva lentamente aliviada
a minha mão procura a primavera
Nas pétalas não poisa já geada
e o dia é já maior do que ontem era
Não temo mesmo aquilo que temera
se antes viesse: chuva ou trovoada
É este o deus que o meu peito venera
Sinto-me ser eu que não era nada
A primavera é o meu país
saio à rua sento-me no chão
e abro os braços e deito raiz
e dá flores até a minha mão
Sei que foi isto que sem querer quis
e reconheço a minha condição.
segunda-feira, 1 de outubro de 2007
Palavras bonitas
E TUDO ERA POSSÍVELNa minha juventude antes de ter saídoda casa de meus pais disposto a viajareu conhecia já o rebentar do mardas páginas dos livros que já tinha lidoChegava o mês de maio era tudo floridoo rolo das manhãs punha-se a circulare era só ouvir o sonhador falarda vida como se ela houvesse acontecidoE tudo se passava numa outra vidae havia para as coisas sempre uma saídaQuando foi isso? Eu próprio não o sei dizerSó sei que tinha o poder duma criançaentre as coisas e mim havia vizinhançae tudo era possível era só querer.
domingo, 16 de julho de 2006
Palavras bonitas
O Portugal futuro é um país
aonde o puro pássaro é possível
e sobre o leito negro do asfalto da estrada
as profundas crianças desenharão a giz
esse peixe da infância que vem na enxurrada
e me parece que se chama sável
Mas desenhem elas o que desenharem
é essa a forma do meu país
e chamem elas o que lhe chamarem
Portugal será e lá serei feliz
Poderá ser pequeno como este
ter a oeste o mar e a Espanha a leste
tudo nele será novo desde os ramos à raiz
À sombra dos plátanos as crianças dançarão
e na avenida que houver à beira-mar
pode o tempo mudar será verão
Gostaria de ouvir as horas do relógio da matriz
mas isso era o passado e podia ser duro
edificar sobre ele o Portugal futuro