Mostrar mensagens com a etiqueta Sebastião Alba. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Sebastião Alba. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 7 de março de 2025

Contas

Por muito que ache que não deve, a minha irmã faz anos, de novo, hoje. Continua a não querer saber quantos nem aceita que outros façam as contas e divulguem o resultado. A matemática, para este efeito, é uma ciência sem importância e à qual não dá qualquer relevância. 
A poesia, sim: permanece sempre actual, seja escrita hoje, ontem ou amanhã. E nunca, mas nunca mesmo, tem necessidade de mencionar os anos que tem.

Perguntas quanto tempo deves rezar?
a papoila na encosta
é vermelha sempre.
 
A poesia em 2013 - Resumo 
José Tolentino de Mendonça 
FNAC (2014)

Podemos desligar o silêncio
que a oficina corrompe
e seguir com a multidão
Ou volver a nós reencontrando
as páginas ardidas
dia a dia
e com o mesmo ritmo colher o sol
como se fosse um fruto
que um estuar só nosso sazonou
Nós os que em breve desistimos
nós que nos reconduzimos
pela nossa mão ao que de nós se espera.

O ritmo do presságio
Sebastião Alba
Edições 70 (1981)

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

Palavras bonitas

CIRCULAMOS EMBOLSADOS

Circulamos embolsados
em automóveis de luxo

Nas portas surdas
os fechos
são linhas a níquel a traçar o limite
dos peões ocasionais

O espaldar desune
anula o solavanco
reduz a área exposta

Esguichos lavam
pára-brisas que a gargalhada abaula
Clareiam as estradas

Só o retrovisor
lembra o caminho andado
a um olho reflectindo
de quem guia

Trémulo o chassis
pressagia
as roturas
os sulcos dos freios
a divulgação do desastre

Mas real e criada
no bolso de Picasso
uma pomba de bico florido
suja por inocência os tejadilhos

A noite dividida
Sebastião Alba

domingo, 22 de outubro de 2006

Palavras bonitas

O Ritmo do presságio

A tinta das canetas
reflui de antipatia
e impregnadas, assíduas
cambam as borrachas
Não há fita de máquina
que o uso não esmague
o vaivém não ameace
de dessorar os textos
Mas a grafia nada diz
de pausas na cabeça
Vozes inarticuladas
adensam, durante elas
uma áfona tempestade
E nubladas carregam-se
as suspensões
encadeando em nós
o ritmo do presságio.

Sebastião Alba
A noite dividida
1996