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sábado, 17 de dezembro de 2011

Orçamento (II)

Afinal o défice de 2011 não vai ser de 5,9% (como tinha sido referido aqui), mas sim de uns fantásticos 4,5%, o que prova que os cálculos tinham sido rigorosos e que o que falhou foi a matemática ...
Nesta altura, os poucos leitores deste blog já comentam:
- Lá está ele com a ironia e a ocultar informação que toda a gente conhece. A redução verificada ficou a dever-se à transferência dos Fundos de Pensões da Banca, com a qual não contava quem fez as contas.
E têm toda a razão!
Ninguém contava que isto acontecesse, embora estivesse a ser negociado há mais de um ano...
E o mais extraordinário é que não só o défice baixa exactamente 1,4% como é possível utilizar metade do valor dos fundos para liquidar dívidas do Estado que, de outra forma, continuariam "no livro" ou no "segredo" da contabilidade do baú. 
Saiu o Euromilhões ao Estado, graças à benemerência dos Bancos que, cautelosamente, constituiram e provisionaram fundos para as pensões dos seus empregados no valor de 6 mil milhões de euros quando, afinal, só seriam necessários 3 mil milhões. 
Voltamos, aqui, ao problema da matemática, ciência inexacta e baseada em balelas. Os Bancos, cautelosos e benfeitores, admitiram que, apesar da esperança média de vida rondar os 75 anos, nos seus empregados, em resultado das boas condições de trabalho e dum horário laboral reduzido, aliadas a tarefas pouco ou nada desgastantes e sem qualquer pressão, essa esperança de vida atingiria os 150 anos e, em consequência, os fundos teriam de ser provisionados para acautelar esse futuro.
Estúpidos! Reduziram os  seus lucros, afectaram a sua liquidez, reduziram actividade, diminuíram os dividendos pagos aos accionistas, sem qualquer necessidade nem justificação. Pela certa, usaram uma "maquinazeca" de calcular em vez do Ipad do Gaspar.
Aí têm o resultado! Torçam a orelha, chorem sobre o leite derramado ... mas previnam-se: adquiram já um Ipad ou comprem um Gaspar. 

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Orçamento

Finalmente há Orçamento para 2012!
Aprovado por uns, abstido por outros, contrariado pelos restantes.
Orçamentada que está a crise, podemos dormir tranquilos, sem pesadelos, sem pessimismos, sem rancores, sem ódios, sem receios, sem palavras e ... com menos dinheiro.
A capacidade dos nossos governantes está orçamentada e determina 5,9% do PIB para o défice de 2012, o que nos transmite uma enorme tranquilidade e uma grande confiança, demonstrando à saciedade e à sociedade quão bons eles são em matemática e na arte de adivinhar: é que o défice não é de cerca de 6% nem de 5,85%, mas exactamente de 5,9%, número mágico obtido após uma árdua tarefa de projectar (não riam que não tem nada a ver com cinema e muito menos cómico) a produção global do país em 2012, desde as abóboras da horta do meu vizinho passando pelos carros da Auto Europa e pelas couves, os tomates, os morangos, as alfaces e os pêssegos que a Casa da Ginja irá produzir.
Só génios conseguem determinar com tanto rigor e precisão este PIB que, multiplicado por 5,9%, há-de ter como resultado o valor da diferença entre as despesas e as receitas do Estado.
Simples e elementar !!!

sábado, 16 de outubro de 2010

Inveja

Sou um invejoso!
Padeço de um mal muito comum no nosso país, que afecta muito mais portugueses do que a bactéria helicobacter, o cancro do colo do útero, a doença dos pézinhos, o reumático ou a rinite dos fenos. Porém, a minha inveja não provoca a reacção mais habitual de que os outros têm sempre o melhor carro, a mulher mais bonita e o melhor emprego apenas porque nasceram com o dito virado para a Lua ou foram bafejados com uma "sorte do caraças".
A minha inveja resulta daquilo que outros fizeram e que eu muito gostaria de ter sido, antes, capaz de conseguir. Esta semana, no Expresso, (não sou accionista) vêm insertos textos que me causaram um ataque do mal de que sofro, dos quais destaco algumas partes:
Henrique Monteiro - Sócrates, a fonte do problema
Aqui há um mês e meio, o Governo acusava o PSD de querer acabar com o Estado Social. Ontem, apresentou um Orçamento do Estado que o destrói. As coisas têm de ser vistas no real e não nos discursos - a retórica, a habilidade, a falsa promessa, a demagogia, o ataque soez (e lamento não me lembrar de mais palavras dizíveis) que então campearam eram injustificados.(...)
Nicolau Santos - Um sangrento massacre fiscal
Pode-se justificar com o estado de urgência em que se encontra o país, com a pressão dos mercados, com o aperto em matéria de financiamento em que se encontram os bancos e a República. Mas a proposta de lei sobre o Orçamento do Estado para 2011 só pode ser classificada como um saque brutal à bolsa dos contribuintes, um tsunami que arrasa toda a economia à sua passagem, uma bomba atómica que levará milhares de empresas a fechar as portas e milhões de cidadãos a passarem a viver bem pior a partir do próximo ano.
Além disso, é um Orçamento sem esperança.(...)

Miguel Sousa Tavares - A lição do Chile
Um a um, vou vendo sair os mineiros das profundezas do Atacama: duas madrugadas e grande parte de um dia de televisão sempre ligada, fascinado com essa extraordinária oportunidade de seguir em directo, a milhares de quilómetros, a extracção, corpo a corpo, de 33 condenados à morte de encontro à superfície, à luz e à vida. O mundo inteiro esteve, em diferentes fusos horários, preso desta transmissão televisiva planetária, que é daquelas que ficará para sempre na nossa memória, como as da chegada à Lua ou do início da Guerra do Iraque, em directo. A transmissão foi preparada ao pormenor e teve imagens inesquecíveis, como a da agulha progredindo num mostrador, da esquerda para a direita, à medida que a Fénix ia fazendo cada uma das suas ascensões ao longo dos 700 metros de túnel. Ou as fantásticas imagens recolhidas no interior do próprio abrigo, de onde a Fénix partia, desaparecendo no buraco perfurado na rocha para uma viagem que, de facto, tinha toda a carga simbólica e quase física de um parto.(...)