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sexta-feira, 21 de maio de 2021

Lirismo

Deram-me ganas de escrever sobre os direitos dos animais, que o PAN quer ver consagrados na Constituição da República; depois, pensei nas tragédias do Mediterrâneo, da Síria, da Palestina e de mais umas tantas que pululam por todo o mundo, sem direito a abordagem televisiva.

A seguir, o cérebro trouxe-me ao "écran" um caloteiro que, bem instalado lá pelo Brasil, se deu ao luxo de "gozar com quem trabalha". Senti-me nauseado, furibundo, arreliado, enervado, gozado, apalermado, aparvalhado, apatetado, e muitos outros adjectivos que surgiriam se continuasse.

Estás parvo ou quê? 

A resposta só pode ser "quê". Já não há parvoíce que me espante nem aldrabice que me comova ... e a culpa, claro, só pode ser minha.

terça-feira, 18 de maio de 2021

Tranquilidade

Hoje foi dia de ir ao "Baeta". O cabelo cresce, apesar da pandemia e, a partir de certa altura torna-se incomodativo, começa a enrolar-se, a custar a secar, enfim, a dizer, claramente, que está chegada a hora de voltar à tesoura do mestre, agora não da barbearia mas da Barber Shop, que apresenta na entrada a moderna rotativa led, azul e vermelha, indicando que está ao serviço de quem precisa.

Tempos houve em que a presença de vários clientes dava lugar à cavaqueira, aos comentários das notícias dos jornais, à anedota picante ou de salão, à piada política, ao tempo que "está que nem se percebe", aquelas coisas que os teimosos frequentadores se lembram bem e que o corona levou. Agora, não há jornais nem clientes. A conversa fica apenas no diálogo com o barbeiro, acompanhado do som de fundo do aparelho de televisão pendurado na parede. Falou-se do "nosso" Benfica (ele também pertence aos desiludidos deste ano) e da justeza do campeão, verde, como convém a um país que se pretende virado para a ecologia e para o crescimento sustentado.

Quando a conversa estava a esgotar e o cabelo quase cortado, o relógio da televisão marcou 17H00 e surgiu o noticiário, que repetiu, uma vez mais, a notícia do dia: os ingleses regressaram em força ao Algarve!

E, logo a seguir, o Ministro Cabrita tranquilizou as massas, numa exposição clara e assertiva para todos os deputados que foram hoje trabalhar à casa da democracia: os turistas vão ter de cumprir as regras impostas por Portugal, sob pena de ... levarem "tau-tau".

Fiquei tranquilo!

segunda-feira, 10 de maio de 2021

Dúvida primaveril

A Primavera está ensombrada, confinada, envergonhada, embalada, acinzentada e muito pouco azulada. Que estopada!

O chapéu-de-chuva riu-se, fez birrinha, não se abriu de imediato, criou algum nervosismo e deixou que os grossos pingos caíssem, com estrondo e desconforto, sobre os brancos cabelos cuja proprietária cabeça já se tinha convencido que o tempo da chuva era passado ou teria feito a emigração costumeira para o outro hemisfério.

- Está tão negro! Parece Inverno! Que inferno!

O vento sopra, não com a intensidade de Dezembro mas, ainda assim, criando desconforto nos braços e no peito, zonas desprotegidas por ausência do "capote invernal".

A dúvida, metódica, instala-se: Estará o Verão com receio do coronavírus?

quinta-feira, 6 de maio de 2021

Pela noite fora ...

Prossegue o "folhetim Odemira", apimentado com uma intervenção musculada da GNR, para transferir os trabalhadores dos tugúrios onde se encontravam para instalações condignas, situadas num empreendimento turístico, que foi objecto de requisição civil por parte do Governo.

Não tenho competência nem conhecimentos para apreciar a justeza da decisão governamental, e ainda menos, a sua legalidade. Sobre isso, aparecerão, como sempre, pelo menos duas opiniões acerrimamente defendidas por juristas, com argumentação sólida e alicerçada em  legislação tão clara e concisa que escapa ao comum dos mortais e exige intelecto de qualidade superior para ser entendida.

O que me desgosta é que as pessoas envolvidas (sim, são pessoas) tenham sido "raptadas" de noite e acompanhadas por um dispositivo policial que até incluía cães, parecendo que a transferência não era uma questão de justiça mas antes uma operação fora da lei, medrosa e envergonhada.

A calada da noite não é e não deve ser boa conselheira para a democracia e não prestigia nada quem a ordenou. 

sábado, 1 de maio de 2021

Lição

Tenho quase a certeza que já foi tema de "conversa" no blogue, mas não me dei ao trabalho de ir procurar em que altura isso aconteceu.

É cego, vive aqui perto e tem um cão-guia que o acompanha sempre. As obras, que decorrem nas ruas e não há meio de terem fim, tornam-lhe as passadas mais difíceis. O seu amigo e companheiro não o larga e condu-lo sempre pelo melhor caminho, sem se atrapalhar.

Como se tudo o que faz não fosse suficiente, hoje deu-me mais uma lição de vida e uma bofetada sem mão a tantos que por aí andam. O cão-guia, como qualquer ser vivo, precisou de fazer as suas necessidades e eu, um vulgar ser sem deficiência, não imagino como ele deu por isso. Mas deu! Esperou pacientemente que o "serviço" fosse executado; do bolso retirou um saco plástico preto e, "às apalpadelas", recolheu todo o produto resultante da função.

Não precisou de olhos. Bastou-lhe a educação e o respeito por si e pelos outros.

quinta-feira, 22 de abril de 2021

Dias

Não é sexta-feira e nem sequer estamos a treze, mas o trabalho nas obras de hoje não correu como se esperava e estava planeado. Quando parece que estão reunidas as condições para ser um "passeio", surge um obstáculo, pequeno, que não se mostrou antes e surge como que a dizer :

- Esqueceram-se de mim, aguentem. Como vêem, sou fundamental e vocês não me valorizaram.

É a vida! Acontece muito. Desvaloriza-se e neglicencia-se a importância de quem não grita, não barafusta, não se põe em bicos de pés e, no fim, por muito que custe a alguns, todos somos importantes. 

sábado, 17 de abril de 2021

Urgências

Há dias assim. Plenos de actividade, sem tempo para pausas, ocupação ininterrupta e, no fim, afinal que fiz eu? 

No tempo do trabalho (já lá vão quatro longos anos ociosos), havia um tableau de bord, escrito ou mental, que ia servindo de orientação e de lembrança. Assuntos urgentes, tarefas importantes, temas prioritários, tudo pensado de véspera para que o dia fosse o mais produtivo possível. Uma grande parte das vezes, o planeado ficava no tableau, adiado (se eu fosse moderno diria procrastinado) para o dia seguinte ou eliminado por, entretanto, ter perdido actualidade. O desconforto surgia com a vontade de mandar o planeamento "às malvas", deixar que tudo acontecesse e depois se veria.

Agora é muito mais fácil! Não fiz nada do que tinha pensado para hoje? E depois? Qual é o problema? E, como diria o outro, qual é a pressa?

Não há nenhuma urgência que não possa esperar 24 horas e só há dois tipos de problemas: aqueles que o tempo resolve e os outros que nem o tempo consegue resolver.

terça-feira, 13 de abril de 2021

Cara de pau

Cara fechada, sem quaisquer manifestações, um bom dia (mal) sussurrado, quase imperceptível. Tem aquele aspecto dos que se costumam definir como gente "a quem todos devem e ninguém paga". 

Não há sorrisos, nem sequer um simples esgar. Concentração máxima, sobrolho franzido, faz o seu trabalho sem uma fala, contraído, como se estivesse a aguardar o cadafalso ou a sentença de morte.

- Precisa de alguma coisa?

- Não.

E lá vai prosseguindo a tarefa, sem esforço físico mas com um peso na "pinha", que deve ser enorme. Nem os músculos da face mexem e até a "maçã do Adão" permanece imóvel.

Terminou. Baixinho, quase em murmúrio, duas palavras seguidas:

- Boa tarde.

- Uma boa tarde também para si e obrigado.

O objectivo é "fazer aquilo que se gosta e gostar daquilo que se faz", mas há pessoas que não conseguem. É a vida!

segunda-feira, 29 de março de 2021

Quotidiano

Como toda a gente, não tenho um passado imaculado e fiz muitas asneiras, algumas que recordo, muitas outras que caíram no arquivo impenetrável por vontade própria, auto-defesa ou mesmo esquecimento puro. Ainda hoje, com todo o saber da experiência feito, é raro o dia que não cometa erros, faça coisas indevidas ou das quais me arrependo mais tarde. 

Por isso, cada vez tenho mais dificuldade em suportar os que se consideram infalíveis, têm sempre a solução na ponta da língua e, cúmulo, dominam todos os temas. E também aqueles que, perante a evidência do erro cometido, procuram os argumentos mais incríveis que o justifiquem e lhe dêem, até, credibilidade. E ainda aqueles outros que, do alto da sua "sapiência", tentam mostrar à saciedade e à sociedade que a "divina providência" lhes facultou os recursos, únicos, para "pregarem" a forma e o conteúdo da vida dos outros, como se só a cabeça deles funcionasse e apenas os seus olhos vissem as cores do quotidiano, do passado e do futuro.

Quando isto me acontece e me surgem estes seres sobredotados a indicarem o caminho, o "computador" apela à memória e traz à tona o Cântico Negro, de José Régio:

(...) Não sei por onde vou, não sei para onde vou, sei que não vou por aí.

terça-feira, 23 de março de 2021

Vícios

O café mantém-se "postigado" e a ida não é uma aventura embora ofereça sempre algumas curiosidades, impensáveis há uma ano. Já poucos se lembrarão, mas a entrada nos cafés era completamente livre e havia sempre clientes e conversas com fartura.

Estavam seis pessoas na fila, ainda que pouco passasse das 13 horas (os velhos refeiçoam cedo). Alguma impaciência na espera que o gong desse sinal de entrada. Dos seis, apenas dois beberam café. Os outros quatro procuraram a fortuna, adquirindo raspadinhas que a Santa Casa oferece, pagando, claro. A ansiedade era grande e a prática, via-se, imensa: já cá fora, na mão esquerda o segredo do papel ou o papel do segredo; na direita, a moeda que talvez descubra a sorte.

Ninguém voltou à fila, seguindo o seu caminho sem quaisquer manifestações de júbilo. Verdade se diga que também não me pareceu que ficassem muito desgostosos. Já devem estar habituados a que a sorte não os bafeje.

Amanhã voltarão e eu terei, de novo, companhia distanciada, como convém, e a fila a determinar a entrada para o café do "postigo". 

sexta-feira, 12 de março de 2021

Dentista

De boca aberta, deitado na cadeira enervante da estomatologista, oiço a conversa que se vai desenrolando entre a técnica e a ajudante. São jovens e têm algumas recordações que me são familiares, criando-me a vontade de participar, mas não posso. A concentração e as alterações que o meu sistema nervoso produz assim que entro naquele consultório, impedem qualquer raciocínio ou frase, para além do "sim" ou do "não", do aceno, do esgar ou do gesto.

O rádio, sintonizado na Antena 2, emite um som meio esquisito, que desperta lembranças às conversadoras.

- Parece o amola-tesouras.

- A doutora lembra-se?

- Lembro-me bem. Era miúda e a minha mãe dava-lhe as facas para afiar.

- E o "pitrolino", recorda-se?

- Isso não. Nem sei o que é.

- Era o homem da carroça, que vendia o petróleo e o azeite, avulso.

- Já só me lembro do azeite engarrafado e petróleo acho que nem nunca vi ninguém comprar.

Silêncio. A concentração no dente é completa.

- Está quase. Deve estar cansado de ouvir estas conversas sem jeito nenhum.

A mão sai do cinto e faz sinal que não há cansaço. A médica continua a sua tarefa, fala dos discos de vinil que o pai ainda tem, diz que se habituou a ler livros digitais e já não quer o papel.

- Até comprei um "ipad" especial, um "kindle". É espectacular.

Acabou! Há que sair da cadeira, agradecer, pagar e desejar às duas a continuação de um bom dia. Mais uma vez, aquilo que para mim é ontem, afinal já nem faz parte do imaginário da grande maioria.

A ida ao dentista correu muito bem e volto lá na próxima semana, para acabar o tratamento ... e ouvir!

quinta-feira, 4 de março de 2021

Pecado

Eu, pecador, me confesso ...

Ontem carpi mágoas de saudade de um café do café. Hoje, a meio da manhã, um SMS "maroto" dava a sugestão de uma visita ao café habitual, antes das 14 horas, que é a hora do fecho. Talvez haja uma surpresa.

Almocei e fui até lá. Não havia ninguém à espera. Mostrei-me através da montra e aguardei que o sinal sonoro me desse indicação para entrar. Em vez de me dirigir à parte do take-away ou à do quiosque, foi-me indicado o acesso outrora livre e agora apenas destinado a quem lá trabalha.

No escuro, a chávena apareceu, por milagre, à minha frente. Quentinha, a chávena, e a bebida, cremosa, ainda a fumegar. Bebi. Nem saboreei, mas soube tão bem! Até a máscara gostou! Quando a voltei a colocar, passadas mais de duas horas, ainda havia o cheirinho maravilhoso daquela bica tão ansiada.

Sabe sempre bem pisar o risco ... mas não pode ser sempre nem se deve divulgar.

quarta-feira, 3 de março de 2021

Rotina ou talvez não ...

O drama da folha em branco ... não tenho nada para dizer e muito menos para escrever.

Não que o mundo tivesse parado, eu tivesse deixado de estar atento ou não estivessem a acontecer coisas que a todos interessam, como aquela do japonês que está a oferecer viagens à Lua, para concretizar em 2023. Só não me inscrevo porque ainda não tenho o "passaporte vacinal" e não arrisco ir lá e sujeitar-me a apanhar o "corona lunar".

Sinto falta de café do café, de andar por aí sem "rédeas", de ver gente, de conversar ou de estar calado, sem a isso ser obrigado. Não há meio, mas tudo indica que o dia vai chegar em breve. Já ninguém põe à janela o "vai ficar tudo bem" e deixou de ouvir-se o papagaio carioca falar do "resfriadinho". O das melenas já foi passear e estará agora a meditar sobre a cor da casa que substituirá a Branca, que não deverá ter Sala Oval. Pondera, também, se deve manter a cor do cabelo e a "brasa".

Cá pela cidade, tal como no país, começou a agitação dos candidatos a autarcas e já há um candidato perfilado. É edil de Junta e vai tentar ser promovido à governação principal do concelho.

"Cheira-me" que, este ano, as autárquicas vão ser diferentes ...

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

A voar

"Quarta passada, semana acabada".

Frase muito dita e ouvida nos tempos do trabalho, para transmitir que a não concretização das tarefas, em tempo útil, traz como consequência o atraso, e que a preocupação deve ser sempre o "não guardes para amanhã o que podes fazer hoje".

Agora, o significado da frase alterou-se radicalmente:

- Já é quarta-feira. Mais uma semana a acabar ...

O tempo voa, propulsionado por motores potentíssimos e sem dar oportunidade de escolha do itinerário. Ainda ontem começou o ano e já estamos quase na Páscoa. Daqui a pouco é noite, o escuro entorpece os músculos, a televisão cansa o cérebro, os livros não resolvem tudo ... mas ajudam muito. Está na hora de fechar os estores, desligar do mundo da rua e ligar o alarme. As mesmas notícias, as mesmas rotinas e, mal se fecham os olhos, já é quinta-feira, o mês está a chegar ao fim e tudo fica na mesma: "nem o pai vem nem a gente almoça".

Apesar de alguns sinais de abrandamento, o malfadado bicho parece sentir-se bem com o clima e com as pessoas. Se fosse educado e compincha, podia apanhar uma boleia de uma qualquer sonda das que por aí navegam e ia para Marte, de férias ... definitivas.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2021

Normalidade

Voltou o século XXI e aí está, de novo, a Net e a TV a funcionarem em pleno.

A avaria que a NOS reportava foi, afinal, resolvida antes da hora prevista e ainda foi possível ter tudo a funcionar ontem, pouco tempo antes de o dia terminar. O telefone, entretanto, deu uma ajuda e permitiu ver o telejornal através dos dados móveis, que não são ilimitados e devem ser usados com parcimónia.

Leu-se a Gazeta, a Visão e mais umas boas páginas do livro actual. Depois, bem, depois veio a mensagem da NOS e tudo voltou à rotina, normal, que a idade já não permite grandes alterações e arroubos de aventuras.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

Que fazer?

Desde manhã sem Net nem televisão, que fazer à noite?

Ler, ouvir música e pensar que voltamos a 1960.

O que vale é a NOS garantir que amanhã, às 12H27 estará tudo resolvido! 😭

domingo, 3 de janeiro de 2021

Viagem domingueira

Amanheceu com muito frio e com alerta da Protecção Civil, para quem estivesse distraído e não o sentisse. O céu, como canta Caetano Veloso, dum azul celeste, celestial, o vento e a chuva, ausentes. Estavam reunidas as condições para a caminhada domingueira, para criar as reservas imprescindíveis ao suporte do confinamento que, a partir das 13 horas, está decretado. Nem para tomar uma bica há excepção e, por isso, restará o café caseiro, com a qualidade Nespresso, boa mas não substituível.

A Lagoa estava linda. Já é lugar comum mas ela toma muito cuidado com a maquilhagem  e todos os dias se apresenta diferente.

Façamos a viagem: o barco do Toni estava disponível e foi sem Pena que abandonámos o trilho costumeiro e caminhámos pelo areal. Apareceram Os Melgas, a Gabriela e o Malhoa, mas nenhum impediu o Navio de nos oferecer uma manhã Feliz.






terça-feira, 8 de dezembro de 2020

Quotidiano

Hoje foi ministrada, no Reino Unido, a primeira vacina para o coronavírus e, em Portugal, os números parecem estar, finalmente, em curva descendente;

Como se esperava há muito, Marcelo foi à pastelaria e anunciou que se recandidatava a mais um mandato em Belém. Foi tudo tão rápido que nem houve tempo para um pastelinho ou uma selfie;

Há 40 anos, um maluco assassinou John Lennon.

terça-feira, 17 de novembro de 2020

Simpatia e burocracia

À entrada, o aviso manda aguardar pelo segurança naquele local, cumprindo o distanciamento determinado e indicado no chão, com circunferências coladas. O segurança está a atender três jovens ao balcão. Demorou muito pouco e dirigiu-se a mim, cumprimentando-me e perguntando em que pode ajudar.

- Venho tratar do assunto desta carta.

Verifica o papel que lhe exibo e, de imediato, informa:

- Vire ali à esquerda e, depois, entre na primeira porta. 

Assim faço. Logo à entrada, um cartaz, grande, identifica "BALCÃO +". Três postos de atendimento, vazios. Todos têm acrílico e um deles, que tem pendurado o aviso de ser destinado a grávidas, deficientes e idoso, tem uma cadeira. Na parte de dentro, um pouco ao lado dos postos de atendimento, uma senhora sentada na frente de uma secretária imersa em papéis. Lá ao fundo, dois funcionários já entradotes, discutem um problema informático, muito importante e difícil, pelo menos a julgar pelo que vou ouvindo.

- Bom dia.

Ninguém responde. A senhora da secretária, talvez incomodada com o meu olhar, entende, daí a algum tempo, que eu mereço uma explicação. Diz, de forma eloquente e esclarecedora:

- Aguarde um momento.

- Obrigado.

Passam mais uns minutos e eis que surge, da rua, um homem em passo vagaroso e ar contrariado. Com ar de quem sabe tudo, dirige-se ao posto onde aguardo, tranquilamente. Tenho tempo ...

- Diga!

- Bom dia.

Silêncio.

- Venho entregar esta carta, para responder a este ofício do Tribunal. Trago aqui uma cópia, para confirmar que recebeu o original.

Mira tudo com uns olhos experientes, de quem sabe daquilo a sério. Coloca a carta no monte dos assuntos  a tratar, presumo. Vai lá ao fundo buscar um carimbo que usa para certificar a cópia. Devolve-a sem uma palavra, um esgar, um sorriso.

- Bom dia e obrigado.

Ninguém me liga. Os dois mantêm a discussão informática, a senhora continua assoberbada nos papéis, o "atendedor" senta-se, por certo cansado com o trabalho que lhe dei, àquela hora da manhã. Sinto que fui perturbar o sossego de quem, com esta pandemia, ainda tem de trabalhar. E se o raio do velho nos traz o vírus, devem ter pensado aqueles pobres trabalhadores.

Voltei para casa e deliciei-me com as flores do meu jardim. Estão sempre a sorrir!



sábado, 14 de novembro de 2020

Pedincha ou necessidade

Dou, não dou? O dilema surge sempre e nunca sei o que fazer. A negativa, agora, prevalece quase sempre, porque deixei de andar com dinheiro no bolso, notas ou moedas. Facilita a decisão, mas deixa-me sempre constrangido e com um peso, grande, de culpa. 

Nestes anos todos, a andar e a conhecer mais ou menos bem tantos sítios, encontrei muita gente com necessidade real e também deparei com alguns que o faziam por vício, fingindo maleitas ou defeitos que não tinham, para depois irem depositar uns cobres na sua conta mais ou menos recheada. 

A pergunta surge-me sempre: não há forma de eliminar esta praga? Não há vacina que ponha cobro a esta miséria? E aparecem sempre inúmeras respostas que nem vale a pena enumerar. A verdade é que se mantêm muitos seres humanos a estender a mão, sérios ou fingidos, pouco importa. 

Não quero acreditar que o melhor seja não olhar, não ver nem reparar porque, como diz o ditado, penas que não se vêem não se sentem.