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sexta-feira, 15 de agosto de 2025

Livros (lidos ou em vias disso)

"(...) Não é nosso fim censurar uma tendência, que parece invencível; o que queremos é motivá-la.

Por menos observador e menos experiente que seja, qualquer pessoa reconhece que a toleima é quase sempre um penhor de triunfo. Desgraçadamente ninguém pode por sua própria vontade gozar das vantagens da toleima. A toleima é mais do que uma superioridade ordinária: é um dom, é uma graça, é um selo divino.

<<O tolo não se faz, nasce feito>>.

Todavia, como o espírito e como o gênio, a toleima natural fortifica-se e estende-se pelo uso que se faz dela. É estacionária no pobre-diabo, que raramente pode aplicá-la; mas toma proporções desmarcadas nos homens a quem a fortuna, ou a posição social cedo leva à prática do mundo. Este concurso da toleima inata e da toleima adquirida é que produz a mais temível espécie de tolos, os tolos que o académico Trublet chamou <<tolos completos, tolos integrais, tolos no apogeu da toleima.>>

O tolo é abençoado do céu pelo fato de ser tolo, e é pelo fato de ser tolo, que lhe vem a certeza, de que, qualquer carreira que tome, há de chegar felizmente ao termo. Nunca solicita empregos, aceita-os em virtude do que lhe é próprio: Nominor leo. Ignora o que é ser corrido ou desdenhado; onde quer que chegue, é festejado como um conviva que se espera.

O que opor-lhe como obstáculo? É tão enérgico no choque, tão igual nos esforços e tão seguro no resultado! É rocha despegada, que rola, corre, salta e avança caminho por si, precipitada pela sua própria massa.

Sorri-lhe a fortuna particularmente ao pé das mulheres. Mulher alguma resistiu nunca a um tolo. (...)"

A mão e a luva
(Queda que as mulheres têm para os tolos)
Machado de Assis (1839-1908)

sexta-feira, 25 de novembro de 2022

Livros (lidos ou em vias disso)

(...)11 de Agosto

Não há nessa carta nada que não pudesse ser dito na volta, uma vez que ele desce daqui a três dias. Creio que ele cedeu ao desejo de ser lido por mim e de me ler também. Questão de simpatia, questão de arrastamento. Vou responder-lhe com duas linhas ...

... Lá vai a carta; respondi-lhe com trinta e tantas linhas, dizendo-lhe cousas que busquei fazer alegres, e com certeza saíram quase amigas. Concordei que Nova Friburgo era delicioso, e concluí por estas palavras: <<Quando descer venha almoçar comigo; falaremos de lá e de cá.>>

17 de Agosto

Fidélia chegou, Tristão e a madrinha chegaram, tudo chegou: eu mesmo cheguei a mim mesmo - por outras palavras, estou reconciliado com as minhas cãs. Os olhos que pus na viúva Noronha foram de admiração pura, sem a mínima intenção de outra espécie, como nos primeiros dias deste ano. Verdade é que já então citava eu o verso de Sheley, mas uma cousa é citar versos, outra é crer neles. Eu li há pouco um soneto verdadeiramente pio de um rapaz sem religião, mas necessitado de agradar a um tio religioso e abastado. Pois ainda que eu não desse então toda a fé ao poeta inglês, dou-lhe agora, e aqui a dou de novo para mim. A admiração basta.

19 de Agosto

Tristão veio almoçar comigo. A primeira parte do almoço foi a glosa da carta que ele me escreveu. Contou-me que já em criança tinha ido com a madrinha a Nova Friburgo algumas vezes, parece-lhe que três: reconheceu a cidade agora e gostou muito dela. De D. Carmo fala entusiasmado; diz que a afeição, o carinho, a bondade, tudo faz dela uma criatura particular e rara, por ser tudo uma espécie também rara e particular. Referiu-me anedotas antigas, dedicações grandes. Depois confessou que as impressões da nossa terra fazem reviver os seus primeiros tempos, a infância e a adolescência. O fim do almoço foi com o naturalizado e o político. A política parece ser grande necessidade para este moço. Estendeu-se bastante sobre a marcha das cousas públicas em Portugal e na Espanha; confiou-me as suas idéias e ambições de homem de Estado. Não disse formalmente estas três palavras últimas, mas todas as que empregou vinham a dar nelas. Enfim, ainda que pareça algo excessivo, não perde o interesse e fala com graça. (...)

Memorial de Aires
Machado de Assis

domingo, 23 de abril de 2017

Livros lidos (ou em vias disso)

Aprendi há muitos anos uma anedota que conta(va) a polémica desenvolvida por dois amigos de infância os quais, após o percurso escolar conjunto desde a primária até ao liceu, se separam na universidade, indo um para veterinária e outro para medicina. Amigos continuaram mas passaram a polemizar sobre a utilidade, eficiência e dificuldade das duas especialidades. O médico veterinário argumentava sempre com a grande dificuldade de curar os animais sem poder ouvir qualquer queixa ou sintoma; muito mais difícil do que atender pessoas, dizia, que se queixam e dão todos os pormenores sobre as maleitas que as afectam, tornando facílimo o diagnóstico. O médico ripostava que a humanidade não existiria sem humanos ...
Um dia, (há sempre um dia, até nas anedotas) o veterinário adoeceu e foi à consulta do seu amigo.
- Estou aqui para me consultares, mas não te vou dar qualquer pista sobre aquilo que sinto. Tens de conseguir descobrir o que tenho.
- Despe-te e deita-te nessa marquesa.
Auscultação, apalpação, espreitadela aos ouvidos, ao nariz e à garganta, exame à córnea, martelinho nos joelhos, um exame completo e minucioso.
- Não tem remédio. Abate-se!

Estou a ler O Alienista e outros contos, de Machado de Assis, um dos maiores da língua portuguesa, que nasceu no Rio de Janeiro em 1839 e por lá se finou em 1908. No conto "Um apólogo", Machado de Assis põe a agulha e a linha a polemizarem sobre uma ser mais importante do que a outra, e termina assim:

(...) Veio a noite do baile, e a baronesa vestiu-se. A costureira, que a ajudou a vestir-se, levava a agulha espetada no corpinho, para dar algum ponto necessário. E enquanto compunha o vestido da bela dama, e puxava a um lado ou outro, arregaçava daqui e dali, alisando, abotoando, acolchetando, a linha, para mofar da agulha, perguntou-lhe:

- Ora, agora, diga-me quem é que vai ao baile, no corpo da baronesa, fazendo parte do vestido e da elegância? Quem é que vai dançar com ministros e diplomatas, enquanto você volta para a caixinha da costureira, antes de ir para o balaio das mucamas? Vamos, diga lá.

Parece que a agulha não disse nada: mas um alfinete, de cabeça grande e não menor experiência, murmurou à pobre agulha: - Anda, aprende, tola. Cansas-te em abrir caminho para ela e ela é que vai gozar a vida, enquanto tu aí ficas na caixinha da costura. Faze como eu, que não abro caminho para ninguém. Onde me espetam, fico.
Contei esta história a um professor de melancolia, que me disse, abanando a cabeça: - Também eu tenho servido de agulha a muita linha ordinária.
Machado de Assis
O Alienista e outros contos