sábado, 28 de agosto de 2010

Fogos e alertas

As chamas continuam a consumir as matas nacionais, não fazendo distinção entre parques naturais, paisagens protegidas, mato rasteiro, carvalhos, pinheiros ou eucaliptos.
Na mesma senda da repetição, os orgãos de comunicação social fazem eco das cores dos alertas da Protecção Civil, do número de homens envolvidos no combate, dos meios terrestres e aéreos, numa contabilidade absurda e massacrante que o Ministro completa determinando percentagens sobre o que ardeu a menos, rebuscando estatísticas até encontrar resultados positivos.
Entretanto, ainda ontem na A8, presenciei o comportamento de uma condutora que, no exacto momento em que a ultrapassava, deitou pela janela a beata do cigarro com que, por certo, se tinha acabado de deliciar.
Fica a pergunta: se a Protecção Civil utilizasse os orgãos de comunicação social para emitir comunicados didácticos, apelando ao civismo, à educação para o bem de todos, ao respeito pela natureza, responsabilizando os maus comportamentos, não obteríamos melhores resultados do que com o contínuo bombardeamento de números e cores de alertas?

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Quotidiano

No final do dia de hoje, para desanuviar de algumas centenas de quilómetros, fui caminhar à beira da Lagoa, utilizando a "pista" que o Instituto da Água ali criou há já bastante tempo (talvez 2 anos), no âmbito de um programa de recuperação das margens da Lagoa de Óbidos, co-financiado pela Comunidade Europeia.
Tinha ideia de já não caminhar por ali há algum tempo, mas não supunha que já tanto tivesse decorrido. Deparei, hoje, com uma placa que assinala, para a posteridade, a inauguração daquele espaço de lazer em Maio deste ano, pelas mãos da Ministra do Ambiente, Dulce Pássaro.
Centenas, talvez milhares de pessoas utilizaram aquele espaço sem que, afinal, houvesse "licença de utilização". O "documento" foi agora emitido pela Ministra Pássaro.
Vivam a "passarada", os "passarões" e, já agora, os "passarinhos".

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Palavras bonitas

AI SILVINA, AI SILVININHA

Lindos olhos tem Silvina,
lindas mãos Silvina tem,
e a cintura de Silvina
é fina como o azevém.
Em Silvina tudo exala
um cheiro de coisa fina,
mas o que a nada se iguala
é a fala de Silvina.

A doce voz de Silvina
é como um colchão de penas,
é um fio de glicerina,
um vapor de águas serenas.

- Porque não cantas, Silvina?
Se a tua voz é tão doce
talvez cantada que fosse
mais doce que a glicerina.
Porque não cantas, Silvina?

- Não me apetece cantar
e muito menos para ti.
Eu sou nova, tu és velho,
já não és homem para mim
.

- Não me tentes, Silvininha,
que eu já não te olho a direito.
Sou como um ladrão escondido
na azinhaga do teu peito.

- A azinhaga do meu peito
corre entre duas colinas.
O ladrão do meu amor
tem pé leve e pernas finas.


- Canta, canta, Silvininha,
uma canção só para mim.
Dar-te-ei um lençol de estrelas,
uma enxerga de alecrim.

- Deixa o teu corpo estendido
à terra que o há-de comer.
A tua cama é de pinho,
teus lençóis de entristecer.

- Canta, canta, Silvininha,
como se fosse para mim.
Dar-te-ei um escorpião de oiro
com um aguilhão de marfim.

- Não quero o teu escorpião,
nem de ouro nem de prata.
Quero o meu amor trigueiro
que é firme e não se desata.

- Pois não cantes, Silvininha,
se é essa a tua vontade.
Canto eu, mesmo assim velho,
que o cantar não tem idade.
Hás-de tu ser morta e fria,
cem anos se passarão,
já de ti ninguém se lembra
nem de quem te pôs a mão.
Mas sempre há-de haver quem cante
os versos desta canção:
Ai Silvina, ai Silvininha,
Amor do meu coração.
António Gedeão
Máquina de fogo 1961

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Regresso

Habitualmente, a rádio acompanha-me no regresso a casa, com umas incursões, pontuais, ao leitor de CD's.
Hoje apetecia-me ter companhia mais íntima e fui à procura de Elis Regina, no monte que anda no porta luvas.
Vim com Elis & Tom, numa remasterização feita em 2004 de um disco gravado na cidade de Los Angeles trinta anos antes. Fica uma amostra do que ouvi ...

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Palavras bonitas

FICAM AS SOMBRAS ...

Não. Não podeis levar tudo.
Depois do corpo,
E da alma,
E do nome,
E da terra da própria sepultura,
Fica a memória de uma criatura
Que viveu,
E sofreu,
E amou,
E cantou,
E nunca se dobrou
à dura tirania que a venceu.

Fica dentro de vós a consciência
De que ali onde o mundo é mais vazio
Havia um homem.
E sabeis que se comem
Os frutos acres da recordação ...

Fantasmas invisíveis que atormentam
O sono leve dos que se alimentam
Da liberdade de qualquer irmão.

Miguel Torga
Cântico do Homem
Nota: Miguel Torga nasceu em S. Martinho de Anta, no dia 12 de Agosto de 1907, há 103 anos.

domingo, 8 de agosto de 2010

Férias

Acabou-se!

Amanhã volta a rotina, o trânsito, a gravata, o casaco, as meias e os sapatos.

Para trás ficam uns bons banhos, as brincadeiras com o neto, os livros lidos, as sestas viciantes.

Na despedida e após os últimos mergulhos, a bandeira mudou para a cor do costume e apareceram os pingos, visita habitual do mês de Agosto na Foz, que provocaram a debandada geral e uma despedida apressada.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Recordar António Feio


Agora, que já se passaram alguns dias sobre a partida e que o bolor do esquecimento se vai instalando, fica a recordação de um grande espectáculo realizado na "minha" Associação, com a sala a abarrotar e uma "fézada" de que tudo iria correr bem, como aconteceu.
A segurança era quase nula e o público participava activamente e de tal forma entusiasmado que o espectáculo durou mais de três horas.
No final, os dois actores, naturalmente muito satisfeitos, "picavam-se" mutuamente com as "buchas" que cada um foi metendo, pervertendo sistematicamente um guião já de si bastante elástico.
Nunca mais voltarei a ver António Feio e José Pedro Gomes, juntos e ao vivo.

domingo, 1 de agosto de 2010

Palavras bonitas

DIA DE ANOS

Com que então caiu na asneira
De fazer na quinta-feira
Vinte e seis anos! Que tolo!
Ainda se os desfizesse ...
Mas fazê-los não parece
De quem tem muito miolo!
Não sei quem foi que me disse
Que fez a mesma tolice
Aqui o ano passado ...
Agora o que vem, aposto,
Como lhe tomou o gosto,
Que faz o mesmo? Coitado!
Não faça tal; porque os anos,
Que nos trazem? Desenganos
Que fazem a gente velho.
Faça outra coisa; que em suma
Não fazer coisa nenhuma,
Também lhe não aconselho.
Mas os anos, não caia nessa!
Olhe que a gente começa
Às vezes por brincadeira,
Mas depois se se habitua,
Já não tem vontade sua,
E fá-los, queira ou não queira.
João de Deus