Mostrar mensagens com a etiqueta Manuel Alegre. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Manuel Alegre. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Palavras bonitas

COISAS

As coisas escondem-se nas coisas
ficam por baixo ou no fundo
às vezes umas nas outras.
Escondem-se de quê
as coisas?
Delas próprias ou de quem
tenta apanhá-las à mão?
Os óculos fogem e escondem-se 
às vezes nos próprios olhos
relógio nunca se sabe
talvez debaixo da cama
ou na metáfora das horas.
Telemóvel é conforme
ora fica em outro bolso
ora está onde não está.
O casaco no cabide
de repente é invisível
da caneta já não falo
cai no buraco mais próximo.
Cada coisa tem seus quês
seus recônditos refúgios
são tuas mas não as vês
estão contigo e não encontras.
Coisas de coisas
ou de homem?
Coisas que das mãos se somem
coisas em coisas escondidas
coisas que são mais nossas
quanto mais de nós perdidas.

Balada do corsário dos sete mares
Manuel Alegre
D. Quixote (2026)

sábado, 13 de abril de 2024

Livros (lidos ou em vias disso)

Está a terminar a leitura de um grande livro - mais de 400 páginas - que me tem ocupado nos últimos dias. Fez-me reviver muitas histórias, conhecer muitas outras, saber pormenores de assuntos que estavam na penumbra ou já tinham desaparecido da gaveta memorial.

O antes e o depois do 25 de Abril percorrem todas as páginas, despertando o interesse para a seguinte e obrigando a memória a reter o relato da anterior, mesmo que nela se registem apontamentos sobre a Foz do Arelho ou se contem episódios de Coimbra, de Torga ou de Adriano, com o registo imperativo de que "mesmo na noite mais triste, em tempos de servidão, há sempre alguém que resiste, há sempre alguém que diz NÃO.

"(...)

Melancolia democrática

Mas os tempos tinham mudado. Já não havia a dimensão heróica da resistência nem o entusiasmo e as ilusões líricas da revolução de Abril. A normalização trouxera consigo aquilo a que o francês Pascal Bruckner chamou a <<melancolia democrática>>, a democracia sem festa nem fervor revolucionário, um certo cinzentismo com alternância mas sem alternativa. Em França, Itália e noutros países os velhos bastiões da esquerda esvaziavam-se e, em breve, votariam na extrema-direita. Os partidos socialistas e sociais-democratas deixavam-se colonizar pelo neoliberalismo, aderiam à <<terceira via>> e, como várias vezes disse, há muitos anos, corriam o risco de se tornarem historicamente desnecessários.

Eu não conseguia desfazer-me daquilo a que Eduardo Lourenço chamou <<a nostalgia da epopeia>>. Na escrita e na vida. Era tempo de, sem abandonar a intervenção, me voltar cada vez mais para a escrita. (...)"

Manuel Alegre
Memórias minhas
D. Quixote (2024)

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2023

Palavras bonitas

Décimo Poema do Pescador

Nem sempre o robalo vem
nem sempre ele traz aquele inexplicável e fundo
mistério de pulsar como o coração de alguém
ou talvez como o próprio coração do mundo.

Nem sempre me toca a graça e nem sempre está 
o vento de feição. E no entanto procuro
incansavelmente procuro o não sei quê que já
muitas vezes me trouxe um coração no escuro.

Não há senão esse buscar. Esse incessante 
navegar pelo sonho essa viagem
de Ulisses sem regresso. Como alma errante
não mais que um viajante de passagem.

Um intruso no mar um algo a mais
pela noite adiante obsessivamente procuro
na página nos astros nos canais
um verso um peixe um coração no escuro.

Eu pescador Ulisses alma errante
navegador da noite procuro nem sei bem
uma luz um robalo um breve instante.
O coração do mundo. Ou de ninguém. Ou quem.

Senhora das Tempestades
Manuel Alegre
Dom Quixote (1998)

sexta-feira, 5 de agosto de 2022

Palavras bonitas

ESPLENDOR DE AGOSTO

Aconteceu o pior: o esquecimento.
Esqueci tudo o que deve ser lembrado
e já não sei se és tu ou se te invento
e se o que resta é só o imaginado.

Esqueci o nome o olhar esqueci o rosto
reclinado nas tardes de Setembro.
E já não sei sequer quem foi deposto
e se lembro não sei se és tu que lembro.

Porque tudo esqueci e não esqueci
esplendor dos corpos no azul de Agosto
e aquele não sei quê que havia em ti
e aquele ardor em mim de fogo posto.

Esqueço a lembrar e se te lembro esqueço
e já não sei se és margem ou ainda o centro
de tanto inventar não te conheço
e quanto mais te esqueço mais te lembro.

Nada escrito
Manuel Alegre
D.Quixote (2012)

segunda-feira, 21 de março de 2022

Actualidade

A poesia tem a virtude de poder ser lida mil e uma vezes e trazer sempre novidade, mantendo-se actual.

COM CINCO LETRAS DE SANGUE

De súbito três tiros na memória.
Apagaram-se as luzes. Noite. Noite.
De súbito três tiros nas palavras
uma poeta calou-se e acabou-se a canção.

De súbito um poema foi bombardeado
um poeta fechou-se nas vogais
cercado por consoantes que talvez
caminhassem cantando para um verso.

Eram granadas? Eram sílabas de fogo?
E de súbito a guerra. Noite. Noite. E um poeta
com cinco letras escreveu no chão: porquê?
Com cinco letras do seu próprio sangue.

30 Anos de Poesia
Manuel Alegre
Dom Quixote (1995)

domingo, 26 de dezembro de 2021

Livros (lidos ou em vias disso)

Chegou na noite de Natal, já está lido e arrumado. É verdade que é apenas uma pequena novela, com pouco mais de cinquenta páginas, mas há por lá muita coisa escondida, à espera de quem decifre, recorde ou reviva. Não sei se consegui, mas valeu a pena ler, como sempre.

(...) Apesar das voltas todas que a vida nos fez dar, tantos anos depois estamos, de certo modo, onde nunca deixámos de estar, cada um a pensar no outro, separados e nunca separados.

Vai-te lixar, Sasha, vai-te lixar mais a tua literatura, não era preciso inventares uma tentação no Norte nem uma conspiração que já passou, de quem já ninguém se lembra e a quem ninguém liga nada, querem lá saber da Resistência, cada um por si, o imaginário é outro, herói é quem andou a cortar orelhas em África ou quem está disposto a matar ciganos aqui, conta a tua história nas redes sociais e vais ver os nomes que te chamam. Já foste e já vieste. E assim se foi um tempo, uma cultura, um imaginário.

Se quiseres vir ter comigo não precisas de me pôr descalça numa praia do Norte, descalça e de cabelos ao vento, que é como estava ainda há pouco e vou voltar a estar depois de terminada esta, também tenho direito às minhas metáforas e a uma praia que talvez não exista lá onde tu dizes, ao norte do Norte, para ser mais bonito. Não se refaz a vida. O tipo sobre quem disparaste afinal não morreu, como já deves saber. Teve filhos e netos que talvez gostassem de ajustar contas contigo, já que com a instituição, a PIDE, as ditas ficaram por fazer. (...)

Tentação do Norte
Manuel Alegre
D. Quixote (2021)

terça-feira, 29 de junho de 2021

Vento

Numa manhã de vento, como é costume e já não se estranha, havia poucos pescadores e menos veraneantes. Talvez durante a tarde, uns e outros aumentem, mas não pertenço à "fauna" da tarde. Na ida à aberta, quando o pescador se lamentou do assoreamento da Lagoa que afasta o peixe, por falta de alimento, lembrei-me de Manuel Alegre. Era presença assídua na pescaria e, muitas vezes, a nadar nas águas frias e revoltas que deliciam os que gostam da Foz. Já não aparece. Os anos não perdoam ...

Lembrei-me, também, que Maria Bethânia fez 75 anos em 18 de Junho e que gravou Senhora das Tempestades, belíssimo poema de um excelente livro com o mesmo nome, todo ele dedicado à Foz do Arelho.

sábado, 25 de abril de 2020

Liberdade e Poesia

E alegre se fez triste

Aquela clara madrugada que
viu lágrimas correrem no teu rosto
e alegre se fez triste como se 
chovesse de repente em pleno agosto.

Ela só viu dedos nos teus dedos
meu nome no teu nome. E demorados
viu nossos olhos juntos nos segredos
que em silêncio dissemos separados.

A clara madrugada em que parti.
Só ela viu teu rosto olhando a estrada
por onde um automóvel se afastava.
                                                                          
E viu que a pátria estava toda em ti.
E ouviu dizer-me adeus: essa palavra
que fez tão triste a clara madrugada.

Manuel Alegre

"(...) cerrou os punhos: Ah, liberdade, és uma conquista permanente, uma perpétua vigilância! e não um leito de rosas ...(...)
José Rodrigues Miguéis - Uma aventura inquietante

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Palavras bonitas

ARTE DE PONTARIA

Invadiram os séculos que estão dentro de nós
invadiram a língua o canto o ritmo
antes fossem exércitos fardados
antes as botas de um invasor visível
não esses missionários da nova fé
com seus mercados sobre os nossos ombros
e seus discursos de sílabas pontiagudas
para gente de espinha de curvar.
Quando eles falam o céu fica cinzento
e há um rasto de cinza e desamparo.
Apetece pegar no poema
e disparar.

Manuel Alegre
Bairro Ocidental

sábado, 28 de abril de 2012

Palavras bonitas

HORA DE PONTA


Olhos rasos de mágoa
trazem perda nos sentidos
e um andar que não recua
sem nunca ir mais além.
Ao fim da tarde na rua
olham em frente perdidos
e passam sem ver ninguém

Nada está escrito
Manuel Alegre
D. Quixote (2012)

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Presidenciais

Porque tenho esperança e confiança, acredito, ainda, na política e na capacidade de mobilização dos portugueses para o bem comum, prezo a tolerância e as oportunidades iguais para todos, acho essencial que todos tenhamos acesso à educação, à cultura e à saúde, gosto de poesia e considero que há mais vida para além dos números que, todos os dias, os interesses instalados nos facultam, vou escolher Manuel Alegre para Presidente da República. 

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Palavras bonitas

TROVA DO VENTO QUE PASSA (Incompleta)
 
Pergunto ao vento que passa
Pergunto ao vento que passa
Notícias do meu país
E o vento cala a desgraça
E o vento nada me diz

Pergunto aos rios que levam
Tanto sonho à flor das águas
E os rios não me sossegam
Levam sonhos deixam mágoas. … 

Pergunto à gente que passa
Por que vai de olhos no chão.
Silêncio – é tudo o que tem
Quem vive na servidão. …

E a noite cresce por dentro
Dos homens do meu país.
Peço notícias ao vento
E o vento nada me diz.

Mas há sempre uma candeia
Dentro da própria desgraça
Há sempre alguém que semeia
Canções no vento que passa.

Mesmo na noite mais triste
Em tempo de servidão
Há sempre alguém que resiste
Há sempre alguém que diz não.

30 Anos de Poesia
Manuel Alegre
D. Quixote (1995)

quinta-feira, 7 de setembro de 2006

Palavras bonitas


Foz do Arelho
ou
Primeiro Poema do Pescador

Este é apenas um pequeno lugar do mundo
um pequeno lugar onde à noite cintilam luzes
são os barcos que deitam as redes junto à costa
ou talvez os pescadores de robalos com suas lanternas
suas pontas de cigarro e suas amostras fluorescentes
talvez o Farol de Peniche com seu código de sinais
ou a estrela cadente que deixa um rastro
e nada mais.

Um pequeno lugar onde Camilo Pessanha voltava sempre
talvez pelo sol e as espadas frias
talvez pela orquestra e os vendavais
ou apenas os restos sobre a praia
"pedrinhas conchas pedacinhos d'osso"
e nada mais.

Um pequeno lugar onde se pode ouvir a música
o vento o mar as conjunções astrais
um pequeno lugar do mundo onde à noite se sabe
que tudo é como as luzes que cintilam
um breve instante
e nada mais.
Manuel Alegre
Senhora das Tempestades
Publicações Dom Quixote 1998