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quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Coincidências

António Lobo Antunes é um escritor muito querido por aqui, há muitos, muitos anos. Voltar aos seus livros e à sua forma de escrever é um "desporto" que pratico com regularidade e sempre com uma satisfação enorme.

Nasceu num dia especial, ontem, e teria feito 84 anos se a sua partida não tivesse acontecido em Março deste ano, por sinal um mês também significativo cá por casa.

As obras de ALA estão todas à "mão de semear" e, de quando em vez, abrem-se ao acaso e lê-se um qualquer trecho. Continuam a ser sempre surpreendentes e deliciosos!

Ontem foi isto:

"(...) larguei o carrinho de mão nas traseiras por não necessitarmos dele, para quê, da mesma forma que não necessitamos do comboio da França porque além de apenas significar duas sílabas não se volta de lá, uma cama articulada entre camas articuladas numa sala onde o pai do cego não vive, se demora urinando na fralda, o canito estendeu-se de focinho na terra encostando-se-me à palma numa humildade cansada, um vitelo cruzou a ponte lá em baixo, um cabrito fitou-me com insolência de uma rocha, os rapazes passaram na vinha como se não dessem por nós, alguém que não localizei

- Foi depois do sarampo

levantei-me do cepo para me ir embora porque o relógio sem ponteiros marcava a hora certa, isto há vinte, trinta anos e a hora certa sempre, quem afirma que o tempo avança engana-se, somos nós que avançamos e nos tornamos idosos, não ele, tenho notado isso comigo, as pedras iguais, um bocadinho de musgo talvez e eu decrépito, como será a vila hoje, ruínas, meia dúzia de cercas que os arbustos comeram ou vivendas de emigrantes a regarem jardins, ao chegar a casa em Lisboa percebi que gente por uma mudança no ar embora nenhum ruído, nenhuma lâmpada e as janelas fechadas, o cartão do frigorífico no lugar em que o deixaram, os chinelos que ninguém me calça à cabeceira da cama, o esquerdo a necessitar de um reforço na biqueira (...)" 

Caminho como uma casa em chamas
António Lobo Antunes
D. Quixote (2014)

terça-feira, 25 de agosto de 2026

Livros (lidos ou em vias disso)

Quando, depois de uma (ou várias) estórias, muito bem contadas, sobre vários ditadores e ditaduras de África, nos deparamos, quase no final do belíssimo livro, com esta riqueza de palavras, concluímos, sem dificuldade, que ler vale a pena e que a Língua Portuguesa não precisa do famigerado acordo para ser tão rica nas suas diferenças. O autor nasceu em 1964 no Tarrafal, Ilha de Santiago, Cabo Verde.

**********

"(...)  A Presidenta leu, fisgou os golpistas com a caneta suspensa na mão e repetiu, vocês não entenderam a minha ordem?, os senhores vão tomar banho, caso contrário, mando o jardineiro regá-los aqui mesmo, à força, pois Vossas Excelências apestam o estrume da farda surrada, eu tenho alergia a suor.

- A senhora está presa e matada já futuramente, gritou o Sargento.

Os homens da infantaria desengataram a baioneta, dois deles agarraram a Presidenta pelo ombro, dobraram-na para colocar as algemas e, no exacto momento, uma cortina rosa de veludo lavado se abriu, dezasseis mulheres acenaram como cisnes atrás da voile e vozearam:

- Somos vossas mães, prendam-nos também,

seus porcos-espinhos, suas porcarias, seus poucas-vergonhas, falhados, mal-educados, agiotas, aldrabões, aleivosos, torpes, analfabetos, arrelampados, desumanos, arruaceiros, aselhas, asnos, candongueiros, atrasos de vida, bajuladores, paspalhos, pedantes, bandalhos, bandidos, batoteiros, beatas do Exército, bodes malcheirosos, broncos, caloteiros, camafeus, canalhas, carniceiros, casmurros, cavalgaduras, chauvinistas, chibos, choramingas, cínicos, cobardes, convencidos, corruptos, cretinos, delinquentes, demagogos, dementes, demónios, depravados,

(a primeira mãe parou, a outra atou):

desleais, desmancha-prazeres, desmazelados, déspotas, destrambelhados, párias, destroços, devassos, ditadores, drogados, egoístas, embirrentos, embusteiros, empecilhos, emplastros, energúmenos, escarumbas, escroques, esqueletos vaidosos, estropícios das vossas mães, estupores, estrupadores, facciosos, facínoras, falhados, fanáticos, fanfarrões, fantoches, farrapos, reaccionários, ressabiados, retardados, farropilhas, farsantes de generais, fedelhos mal-amados, figurões de patentes, fingidos de gente, fracos de espírito, franganotes, fúteis, gananciosos, insaciáveis,

(outra mãe secundou):

gatunos, grosseiros, grunhos, hereges, hipócritas, idiotas, ignorantes da vida, imaturos, imbecis, impertinentes, importunadores de mulheres, bêbados de má cepa, bocas de xarroco, indecentes, ineptos civis, infames, infelizes domiciliares, infiéis de igrejas mercenárias, intriguistas, asquerosos, assassinos, invejosos de cargos e competências, insensíveis ao amor, burros, cabeças-de-alho-chocho, cabeças-de-vento, calaceiros, insignificantes, insolentes, intolerantes, labregos, lacaios, ladrões, lambisgóias, larápios, lerdos, leva-e-trazes, línguas-de-trapos, lunáticos, mafiosos, malandros, malfeitores, maltrapilhos, trafulhas, traiçoeiros, traidores, malvados, manhosos, maníacos, manipuladores de eleições, maniqueístas, manteigueiros de brancos, marados dos cornos, 

- Calem-se, ordenou o Sargento.

E as mães, com as ofensas bem decoradas e tecidas por didascálias, rimas e ordem alfabética, auxiliadas com lengalengas para ofender todos os políticos medíocres que o mundo moderno tem produzido, da esquerda à direita - e são muitos, na sua grande minoria mentirosos e pulhas - continuaram:

piolhosos, avarentos e arrogantes, marginais, impostores, marmanjos sem tomates, maus, maus e maus, medrosos, mijões, rafeiros, monstros, mórbidos, nhurros, obtusos, caguinchas, otários, pernas-de-alicate, popularuchos, punheteiros de casernas, racistas, sádicos, saloios, sarnentos, sebosos,

 - Vão tomar banho, interrompeu a Presidenta. (...)"

Afrocalipse
Mário Lúcio Sousa
D. Quixote (2026)

terça-feira, 11 de agosto de 2026

Livros (lidos ou em vias disso)

"(...) No Bairro Alto, a lua vislumbra-se entre edifícios altos que, ininterruptamente, rasgam o céu. Em certas ruas, mais amplas, é até possível decifrá-la, solitária, sem estrelas à volta, que nas cidades com gente e luz em excesso não se dá conta do brilho dos outros astros. Os pequenos pontos que, em terras de ruralidade, dão graça ao céu negro não se permitem ver nas urbes, sempre bastante alumiadas. Nuvens também não as há. A noite é de lua cheia.

Nas vielas que encobrem a ténue luz municipal apenas se avistam sombras que passam apressadas. Outras, menos atrasadas para os seus boémios encontros, seguem com mais vagar. Todas, porém, transportam um copo na mão, quase sempre de cerveja, aqui e acolá um gin tónico, escolha de uma personalidade mais excêntrica. Talvez o diretor criativo de uma agência de publicidade ou uma atriz. Por vezes, arrisca-se um copo de vinho. Que elegante! As delicadas mãos que o seguram deverão ser de uma pintora. Ou de um dramaturgo, quem sabe. De uma cardiologista, não? Cabe o mundo no Bairro Alto. Cabe todo o álcool do mundo no Bairro Alto. E cabe ainda quase todo o ódio do mundo no Bairro Alto.

Não só a lua cheia se fez convidada naquela amena noite na capital. Um grupo de jovens carecas vestidos de preto e munidos de tacos de basebol, soqueiras e navalhas movimenta-se, ruidosamente e em matilha, rua abaixo, rua acima, estacando apenas quando o depósito de combustível acende a luz da reserva. Aí, enchem-no com cerveja, desaparecendo a luz do tanque vazio, permanecendo acesa aquela que sinaliza o ódio que vive confortavelmente nos seus corações.

Ouvem-se ao longe. As botas que calçam fazem estremecer a já matraqueada calçada alfacinha. Quem os vê aproximar muda de faixa. Os que não têm tempo para o fazer encostam-se à parede, fingindo nada ver e até apreciar a marcha. Alguns impropérios - bastante tímidos - são arremessados, mas ao longe, com pouca se não nenhuma eficácia. O bando de jovens carecas não lhes dá importância, ignoram, procuram caça grossa, não um grupo de bêbados com ar de quem habita as melhores casas da Estrela e da Lapa.

Betos!

Grita um dos carecas, revelando os seus bonitos e saudáveis dentes, orgulhoso de verbalizar perante o grupo informação que destapa o seu conhecimento relativo à demografia lisboeta. Como se exige a um feroz nacionalista nascido na capital. Outro, de discurso não tão elevado, ou pouco importado com a riqueza lexical àquela hora da noite, prefere identificar o alvo, excluindo o resto da existência humana:

Hoje é só pretos! (...)"

Foi o preto
Ângelo Delgado
Oficina do Livro (2026)

quinta-feira, 9 de julho de 2026

Livros (lidos ou em vias disso)

"(...) Estava a ser um verão duro. Não se podia sair da sombra, sair de casa, sair da cama, dos sonhos. O melhor era viver nos sonhos e nas noites, que também eram para sonhar. E a Pessivista perguntava: é verdade que o incrível Agilulfo não sonhava. Refazia a pergunta: conta-se que tinha noites como ausências, como se a alma e o corpo não coincidissem. Ele terá confessado que perdia a alma no sono, não sabia onde se guardaria, talvez prestasse serviço noutra dimensão absolutamente fechada ao conhecimento do corpo que esperava inerte, abandonado, na cama. Talvez as almas de uns prestem serviço a outros no lado oposto do mundo. Quando aqui é noite, é dia no planeta ao contrário. Talvez a alma de Agilulfo lhe fosse do corpo ao deitar para prestar serviço a alguém que justamente acordaria naquele instante. As mulheres riam discretas, para não fazer daquilo uma estupidez. Deixavam que fosse coisa poética. Uma ideia bonita muito bem ambientada entre os tons da salinha que ocupavam. E a Pasteleira, sempre agarrada à nova fé, dizia que não queria nada aceitar perder a alma à noite e que passaria a trancar a sete chaves as portas e as janelas, haveria de calafetar cada ínfimo buraco para não arriscar que a alma lhe fugisse nem que fosse mais magra do que um alfinete. Aprenderia a pôr-lhe cabresto, uma coleira, uma corrente de aço com uma bola de pedra na ponta, alguma coisa tão aprisionante, que não daria mais de uns milímetros de distância do coração. A alma que se levantasse mais de um milímetro do coração já deixaria saudade. Não queria. Era cobiçosa da alma e só lhe dava vontade de a aumentar, de a ter mais e mais. Brincavam. Estavam a brincar. Queriam comentar sobre os assassinos, mas ainda não ganhavam coragem. E a Marquesa, sem costumes humorísticos, apontando para as laranjas frescas que a Criada acabava de deixar num tabuleiro irrepreensível, dizia que o esposo não era de garantia. Tudo o que pode ter dito também podia significar o contrário. Era enigma de quem existiu diferente, como os génios. Agilulfo, com a graça de Deus, era como os génios. Não se comparava com a normalidade. Ao dizê-lo, outra vez se escutou a sineta e a Criada correu a buscar a Coveira, que era confiante de encontrar ali um figurino para um casamento da prima a acontecer no fim de Agosto. Deram-se boas tardes como já uma pequena multidão, e a Coveira perguntou: alguma coisa azul-celeste. Quero ir de azul-celeste, para me valorizar os olhos.(...)"

O século dos imbecis
Valter Hugo Mãe

sexta-feira, 26 de junho de 2026

Livros (lidos ou em vias disso)

"PRIMAS DE SAPUCAIA!

(...) Era à porta de uma igreja. Eu esperava que as minhas primas Claudina e Rosa tomassem água benta, para conduzi-las à nossa casa, onde estavam hospedadas. Tinham vindo de Sapucaia, pelo Carnaval, e demoraram-se dois meses na corte. Era eu que as acompanhava a toda a parte, missas, teatros, rua do Ouvidor, porque minha mãe, com o seu reumático, mal podia mover-se dentro de casa, e elas não sabiam andar sós. Sapucaia era a nossa pátria comum. Embora todos os parentes estivessem dispersos, ali nasceu o tronco da família. Meu tio José Ribeiro, pai destas primas, foi o único, de cinco irmãos, que lá ficou lavrando a terra e figurando na política do lugar. Eu vim cedo para a corte, donde segui a estudar e bacharelar-me em São Paulo. Voltei uma só vez a Sapucaia, para pleitear uma eleição, que perdi.

Rigorosamente, todas estas notícias são desnecessárias para a compreensão da minha aventura; mas é um modo de ir dizendo alguma coisa, antes de entrar em matéria, para a qual não acho porta grande nem pequena; o melhor é afrouxar a rédea à pena, e ela que vá andando, até achar entrada. Há de haver alguma; tudo depende das circunstâncias, regra que tanto serve para o estilo como para a vida; palavra puxa palavra, uma ideia traz outra, e assim se faz um livro, um governo, ou uma revolução; alguns dizem mesmo que assim é que a natureza compôs as suas espécies.

Portanto, água benta e porta de igreja. Era a igreja de São José. A missa acabara; Claudina e Rosa fizeram uma cruz na testa, com o dedo polegar, molhado na água benta e descalçado unicamente para esse gesto. Depois ajustaram os manteletes, enquanto eu, no portal, ia vendo as damas que saíam. De repente, estremeço, inclino-me para fora, chego mesmo a dar dois passos na direção da rua.

- Que foi, primo?

- Nada, nada.

Era uma senhora, que passara rentezinha com a igreja, vagarosa, cabisbaixa, apoiando-se no chapelinho de sol; ia pela rua da Misericórdia acima. Para explicar a minha comoção, é preciso dizer que era a segunda vez que a via. (...)"

Singular ocorrência
e outras histórias de mulheres
Machado de Assis
Tinta da China (2026)

quarta-feira, 17 de junho de 2026

Livros (lidos ou em vias disso)

"(...) Não identifica uma altura exacta em que a banca começou a mudar para ele, sempre esteve em mudança, desde as fichas e fichinhas, passando pelos computadores de 256K ou as fitas de banda magnética com três pistas (que mais tarde dariam origem aos terminais de POS) e chegando, nos séculos XX e XXI, à digitalização, às comunicações, aos chipes e à inteligência artificial. Diz que a banca conseguiu fazer o aproveitamento da tecnologia, especialmente do avanço das comunicações: <<Foi como passar de um caminho de cabras para uma autoestrada. No resto, a banca é como tudo, vivia sob regras, listas de antiguidade, espírito de equipa, mas sem carneirismo. Havia um lado humano, protetor, mas sem ter o pastor lá do sítio. Alguns colegas atravessavam dificuldades e havia sempre maneira de ajudar. Tinha-se mais vida social. A maior parte do pessoal estudava à noite e por isso cruzavam-se em sítios distintos, no banco e na escola. A partir dos anos 2000, isso perdeu-se.>>

 (...) Conheço-a há muitos anos, somos amigos de longa data. Convidei-a para dar o seu testemunho, certo de que as suas palavras acrescentariam luz e verdade a estas páginas. Respondeu-me pelo WhatsApp. Li a mensagem de um fôlego, e soube logo que não poderia existir melhor forma de terminar este livro. Não porque fale, mas precisamente porque recusa falar. Porque a recusa, com todas as feridas e silêncios que arrasta, é também um retrato fiel daquilo que aconteceu a uma geração inteira de bancários neste país.

<<Eu não sei se quero participar, Luís ... Optei por fechar este capítulo em definitivo, o mais possível, porque em absoluto não é possível. Voltar a "abrir" não é algo que tenha vontade. E de que é que nos vale ou adianta a exposição? Vale zero!  Nunca ninguém se interessou por nós, pela hecatombe que foi nas vidas de muitos de nós. Eu, para viver com dignidade mínima e pagar as minhas contas, trabalho numa actividade que está na base da pirâmide social, com tudo o que acarreta. Não é "vergonha" nenhuma, mas não era a minha expectativa de vida, não foi a minha projeção de vida nem para o que trabalhei. Não tendo estabilidade no rendimento mensal, tive de antecipar o pedido de reforma ao abrigo do desemprego de longa duração. Do Fundo de Pensões recebo 330 euros e da Segurança Social 506 euros, para 38 anos de carreira contributiva, no total. Eu não quero falar da banca, nem do banco, nem de despedimentos, nem do que seja. Não fiques aborrecido comigo, mas a única interação que tenho com o banco é o pagamento da casa no dia 23. E, agora, os 330 euros que me pagam por 25 anos de trabalho. Ninguém quis saber. Ninguém quer saber. O modelo de cálculo das reformas é algo de tão surreal! É um roubo autorizado e legalizado. É o lançar para os parâmetros da pobreza quem sempre trabalhou, produziu e contribuiu, quem educou filhos e investiu na formação das gerações mais bem preparadas que este país alguma vez teve. Não há um tribunal que nos dê razão, que nos oiça, que nos valorize e devolva a possibilidade de uma velhice digna. Para se sobreviver a isto, só "arrumando" o assunto. É o que tento fazer, pelo menos de há uns dois anos a esta parte. E não quero reabrir essa "gaveta" ...>>

Bancários
Luís Bento
Fundação Manuel Francisco dos Santos (2026)

quarta-feira, 3 de junho de 2026

Livros (lidos ou em vias disso)

É por estas e por outras que continuo a ler, mantendo a teimosia de há tantos, mas tantos anos. E continua a valer a pena ...

"(...) Depois de decidir que deveria conquistar o segurança mudo através da narração dum conto, minimizando o gesto impulsivo e suspeito que tive com a porcaria do plano dos caroços de pêssego - que me dá esperança na mesma medida em que me oferece desespero - e tentando ir mais longe e sensibilizá-lo para a minha causa revolucionária, este foi o passo que dei no sentido de seduzir um inimigo que à partida deveria estar do meu lado, pois ambos sofremos, e de que maneira, com a ditadura e com a esquálida potestade.

Estando ele no seu posto, estaquei à sua frente antes de me dirigir para a bancada e pegar na faca serrilhada.

Comecemos, silencioso Dimitar, por cortar o pão em treze fatias:

O pão, prima fatia, é o alimento básico por excelência. <<O pão nosso de cada dia>> tornou-se sinónimo de vivência. É símbolo do que é necessário, do mínimo vital.

O pão, segunda fatia, é fruto do labor: semear, colher, moer, amassar, cozer. É metáfora do esforço, da fadiga e da dignidade do trabalho. Receberás o pão com o suor do teu rosto. A primeira troca comercial foi feita assim: pão em troca de suor.

O pão, terceira fatia, sendo facilmente repartido, simboliza fraternidade. Partir o pão é gesto de união. <<Companheiro>> vem do latim cum panis, aquele com quem se partilha o pão.

Quarta fatia: oferecer pão é acolher. Na Bíblia, nas epopeias clássicas, no mundo camponês, o pão é o sinal do hóspede recebido.

Aliança com o divino é a quinta fatia. No Antigo Testamento, havia o <<pão da proposição>>, no Templo de Jerusalém. No cristianismo, o pão da Eucaristia é o corpo de Cristo, alimento sagrado que une humanos a Deus.

Simplicidade e humildade são a sexta fatia. O pão é alimento dos pobres, básico, a descrição da ausência de qualquer tipo de luxo. Por isso, simboliza a humildade, a sobriedade, a essência. Até Deus se esconde no pão, pois não há nada mais humilde, mais comum, mais fundamental. É no formato de pão que ele se deixa devorar na Eucaristia.

O pão, sétima fatia, é justiça social. Falar de pão é falar de desigualdade e de fome. <<Pão e trabalho>> foi lema popular. O pão simboliza os direitos do povo.

Ressurreição e renovação compõem a oitava. O pão é feito de grão triturado e morto que, ao fermentar e ser cozido, se transforma em algo novo e nutritivo. (...)"

A cozinheira do ditador
Afonso Cruz

quinta-feira, 28 de maio de 2026

Livros (lidos ou em vias disso)

"(...) Maria estava parada há mais de meia hora no ponto do ônibus. Estava cansada de esperar. Se a distância fosse menor, teria ido a pé. Era preciso mesmo ir se acostumando com a caminhada. O preço da passagem estava aumentando tanto! Além do cansaço, a sacola estava pesada. No dia anterior, no domingo, havia tido festa em casa da patroa. Ela levava para casa os restos. O osso do pernil e as frutas que tinham enfeitado a mesa. Ganhara as frutas e uma gorjeta. O osso, a patroa ia jogar fora. Estava feliz, apesar do cansaço. A gorjeta chegara numa hora boa. Os dois filhos menores estavam muito gripados. Precisava comprar xarope e aquele remedinho de desentupir o nariz. Daria para comprar também uma lata de Toddy. As frutas estavam ótimas e havia melão. As crianças nunca tinham comido melão. Será que os meninos iriam gostar de melão?

A palma de uma das mãos doía. Tinha sofrido um corte, bem no meio, enquanto cortava o pernil para a patroa. Que coisa! Faca laser corta até a vida!

Quando o ônibus apontou lá na esquina, Maria abaixou o corpo, pegando a sacola que estava no chão entre as suas pernas. O ônibus não estava cheio, havia lugares. Ela poderia descansar um pouco, cochilar até à hora da descida. (...)"

Olhos d'água
Conceição Evaristo

terça-feira, 19 de maio de 2026

Livros (lidos ou em vias disso)

"(...) Estamos em 2066 e tenho sessenta e seis anos. (...)

Para compreendermos mais depressa o que nos propõe Ava Carina, porque se lembrou disto agora, deveríamos todos ter aprendido com a moda.

Se observássemos como cada vestuário com rasgo de futuro trazia agarrado uma nostalgia, teríamos visto mais cedo como tudo se repete.

A alta-costura foi das primeiras evidências. Imaginação ao serviço de um eterno retorno. Evocações de passados tornaram-se indústrias. Ouçam como cada anúncio de progresso nos diz que isto ou aquilo está de volta. Saudades da pinta das calças e casacos de antigamente, dos cozinhados das avós, dos Natais, das férias da infância com o mesmo grupo de amigos. Os relógios que inventámos andam às voltas. Estamos destinados a tocar como um disco de vinil, que vai por ali fora até termos de o virar. E quando começa o lado de lá, é o mesmo disco que recomeça.

Por isso, quando Ava Carina explicou

- Chamei-as porque sou toda a favor da resiliência, e não aceito que os livros morram

percebi que fomos convocadas por ela como velhos mecânicos aposentados o seriam por um jovem que levanta o capô do carro e não faz ideia do que se passa ali.

Os regressos, as nostalgias. Porque lhes escapariam os regimes políticos? Ava Carina é apenas uma das testas-de-ferro de um novo tempo, e um novo tempo começa sempre por destruições selectivas no edifício que está em vigor.

No entanto (e é nisto que a humanidade é teimosa como a criança que volta ao fogo depois de se queimar) um novo tempo vai sempre beber ao passado, desde que seja longínquo. É um tão clássico quanto esquecido mecanismo de falta de memória, ou melhor, de apagamento progressivo da memória, que costumava durar muitas décadas, mas tende a ficar mais curto.

Nos anos dois mil e picos, era eu uma criança, mais ou menos setenta anos após a exposição ao mundo dos horrores dos campos nazis, começaram a surgir os primeiros arranhões nas juras de que nunca se poderia repetir.

Vocês lembram-se. Surgiram e multiplicaram-se vozes a questionar se teria sido mesmo assim, esse Holocausto de que tanto falam. Se não haveria um folclore exagerado. Chegou a ouvir-se que o sofrimento dos judeus foi pura e simplesmente inventado por uma geração para condicionar as seguintes. (...)"

O meu primeiro apocalipse
Rodrigo Guedes de Carvalho
D. Quixote (2026)

terça-feira, 21 de abril de 2026

Livros (lidos ou em vias disso)

Desmond Morris tinha 98 anos - bonita idade - e faleceu no passado dia 19. A notícia da sua morte só hoje "apareceu" nas minhas fontes, que não passam pelas redes ditas sociais, sempre tão actualizadas. Ainda sou um teimoso dos jornais ...

Fui à procura de "O Macaco Nu", livro já "arquivado" na secção dos "antigos". Se a memória não me trai, foi o primeiro que comprei com as parcas poupanças que os "altos" rendimentos do trabalho permitiam. Edição do Círculo de Leitores, cujos divulgadores, na época, batiam às portas, entregando a revista com os (muitos) livros editados e procurando vender, ao menos, um livrinho, pago em três vezes e que seria recebido no segundo mês.

Abri "ao calhas" e não resisti a deixar uma breve transcrição, em memória de quem, na época, se dedicava ao estudo das diferenças entre os macacos e os humanos. Hoje, Desmond Morris teria muita dificuldade em atribuir a qualidade de humano a alguns "macacões" que por aí pululam.

"(...) Os primeiros desenhos e pinturas, tanto no chimpanzé como na criança, nada têm que ver com comunicação. São actos de descoberta, de invenção, de experimentação das possibilidades da variabilidade gráfica. São actos de pintura, e não <<transmissões>>. Não exigiam recompensa, visto que constituíam só por si a recompensa - tratava-se de brincar por brincar. Contudo, como tantos outros aspectos das brincadeiras infantis, vão adquirir rapidamente as características dos actos dos adultos. A comunicação social vai produzir os seus efeitos, perdendo-se a inventiva original, a emoção pura de <<viver uma aventura a partir de um risco>>. A maioria dos adultos apenas deixa transparecer este acto inventivo através das garatujas inconscientes com que por vezes se entretêm. (O que não quer dizer que deixaram de ser inventivos, mas apenas que o campo da invenção se deslocou para a esfera mais complicada da tecnologia.)

Felizmente para a arte exploratória da pintura e do desenho, existem hoje técnicas muito mais eficazes de reproduzir as imagens do meio ambiente. (...)"

O Macaco Nu
Desmond Morris
Círculo de Leitores (1967)

sábado, 4 de abril de 2026

Leitura necessária

Por enquanto, José Saramago é o único Prémio Nobel da Literatura que Portugal ostenta. Isso causa comichão a muita gente e inveja a outros tantos. Nada melhor do que "escondê-lo" e propagar a ideia de que é de muito difícil leitura. Vem-me à memória A Relíquia, de Eça de Queirós, que li com uma cinta vermelha à volta e graças à boa vontade do motorista da carrinha da Gulbenkian, que pediu para não dizer a ninguém. Pensando melhor, qual é o interesse em ler isto na escola? O Ministro tem razão! É uma trabalheira ...

"(...) Viviam José e Maria num lugarejo chamado Nazaré, terra de pouco e de poucos, na região de Galileia, em uma casa igual a quase todas, como um cubo torto feito de tijolos e barro, pobre entre pobres. Invenções de arte arquitectónica, nenhumas, apenas a banalidade uniforme de um modelo incansavelmente repetido. Com o propósito de poupar alguma coisa nos materiais, tinham-na construído na encosta da colina, apoiada ao declive, escavado pelo lado de dentro, deste modo se criando uma parede completa, a fundeira, com a vantagem adicional de ficar facilitado o acesso à açoteia que formava o tecto. Já sabemos ser José carpinteiro de ofício, regularmente hábil no mester, porém sem talento para perfeições sempre que lhe encomendem obra de mais finura. Estas insuficiências não deveriam escandalizar os impacientes, pois o tempo e a experiência, cada um com seu vagar, ainda não são bastantes para acrescentar, ao ponto de dar-se por isso no trabalho de todos os dias, o saber oficinal e a sensibilidade estética de um homem que mal passou dos vinte anos e vive em terra de tão escassos recursos e ainda menores necessidades. Contudo, não se devendo medir os méritos dos homens apenas pela bitola das suas competências profissionais, convém dizer que, apesar da sua pouca idade, é este José do mais piedoso e justo que em Nazaré se pode encontrar, exacto na sinagoga, pontual no cumprimento dos deveres, e não tendo sido a sua fortuna tanta que o tivesse dotado Deus duma facúndia capaz de o distinguir dos mortais comuns, sabe discorrer com propriedade e comentar com acerto, mormente se vem a propósito introduzir no discurso alguma imagem ou metáfora relacionadas com o seu ofício, por exemplo, a carpintaria do universo. (...)" 

O Evangelho segundo Jesus Cristo
José Saramago
Caminho (1992)

segunda-feira, 30 de março de 2026

Redacções

Isto de ter (muitos) livros em casa cria problemas de espaço, de arrumação, de procura, de "norte"

Onde estará? É melhor ver no computador se é um dos que está registado ...

mas, vezes sem conta, traz surpresas tão inesperadas quanto agradáveis.

Olha as Redacções da Guidinha. Há quanto tempo ...

Luís de Sttau Monteiro foi jornalista e escritor cuja irreverência foi muito "admirada" pela PIDE, a qual, pelo muito "amor" que lhe tinha, lhe dispensou bastos "mimos" e o levou várias vezes para a sua companhia. Outros tempos ... 

Nos anos de 1969 e 1970, Sttau Monteiro publicou, no Diário de Lisboa, deliciosas crónicas de crítica social e de costumes que, na sua aparente simplicidade, procuravam iludir a vigilância da censura e ser mordazes ao quotidiano. Ao deparar com o livro, não resisti e (re)li as Redacções. Por parecer actual, com as devidas adaptações, deixo esta por aqui ... para memória futura.

Carta Aberta ao Presidente da América 

Ando mesmo à brocha com falta de pilim é que ando mesmo à brocha o que vale é que tive uma ideia bestial que me vai dar pilim em barda para comer sorvetes durante o Verão todo e ainda me vai sobrar algum para comprar um helicóptero e um transistor pequenino daqueles que parecem carteiras a ideia que eu tive foi escrever ao presidente da América a pedir pilim todo o pilim que lhe pedirmos é pouco porque não lhe faz falta nenhuma mas o melhor é eu contar como é que tive esta ideia sim porque a ideia não foi minha eu só a copiei quem a teve primeiro foi um do Salgueiros a coisa foi assim o meu Pai leu o MUNDO DESPORTIVO e deixou-o na sala e vai eu levei-o para a retrete mas não para o ler sim porque eu não leio jornais da bola agora que já ando no liceu levei-o mas foi para outra coisa porque a gente cá em casa anda agora em economias para comprarmos um perú lá para o Natal ora quando eu estava a fazer o que tinha a fazer pus-me a lê-lo porque é sabido que uma coisa puxa a outra toda a gente sabe como as coisas são a carta escrita pelo tal do Salgueiros que é um clube da bola é assim <<Excelência: Aceite senhor Presidente os respeitos desta Comissão Pró-Estádio do Sport Comércio e Salgueiros. Os dias que antecederam a amaração da Apolo-13 no Oceano Pacífico foram autênticos dias de preces. Todos os portugueses imploravam a Deus pedindo o salvamento desses geniais cosmonautas.

Deus atendeu os portugueses. De todo o mundo surgiram pedidos ao Divino Salvador para que acompanhasse os cosmonautas da Apolo-13 mas as orações mais febris partiam do povo português, esses portugueses que sempre têm Richard Nixon no seu coração. Esses portugueses que oram no seu altar Fátima - Altar do mundo. Pedimos e fomos atendidos. Os cosmonautas regressaram à terra vivos e sãos, cheios de contentamento, cheios de felicidades, orgulhosos do seu êxito. E assim tudo acabou em bem, felizmente para os cosmonautas e para o mundo civilizado. Sentimo-nos muito honrados com mais uma vitória dos nossos amigos americanos. Senhor Presidente: Quem como nós acompanhou a difícil campanha eleitoral que conduziu em boa hora Richard Nixon à Casa Branca passámos a partir do momento em que Vossa Excelência aparecia nas câmaras de televisão e nas páginas dos jornais a ser fervorosos simpatizantes de Vossa Excelência. Foram muitas as vezes, sempre que Vossa Excelência surgia junto do seu povo, chorámos de alegria ao depararmos com a figura de Vossa Excelência, Senhor Presidente: Que Deus nos ajude também a construirmos o nosso estádio. Somos um clube desportivo dos mais pobre em Portugal, mas também, nos honramos muito por sermos um dos mais populares clubes deste país. Precisamos de construir o nosso Estádio, tarefa em que todos nos encontramos empenhados e a braços com o mais grave problema, que é o arranjo de dinheiros para custear a sua construção. Que Deus nos oiça e que Richard Nixon nos escute, e que os cosmonautas por quem muito pedimos a Deus, passem agora a pedir eles por nós para conseguirmos dinheiro para a construção do nosso Estádio. Senhor Presidente: O respeitável nome de V. Excelência, ficará perpetuamente na História da América e pelo decorrer dos anos jamais o mundo se esquecerá de Richard Nixon. Aceite senhor Presidente, a admiração de todos nós e fazemos votos ardentes para que V. Excelência continue com a ajuda de Deus, a mostrar ao mundo, que é o povo amigo da América. Muito honrosamente assinamos, António Fonseca Zenha, Presidente.>> Então é bestial ou não é está-se mesmo a ver que é e eu disse à Guidinha que sou eu estás a ver ó Guidinha como isto é que este sabe-a toda e tu se não fores parva também escreves ao tal Presidente da América a ver se apanhas algum e vai escrevi <<excelentíssimo senhor presidente da América o senhor recebeu uma carta do senhor do Salgueiros a pedir pilim porque a gente rezou muito quando aqueles foram à Lua e voltaram sem lá terem ido o que eu quero dizer ao senhor é que rezei que nem uma danada olhe que a gente lá em casa rezou tanto que até os vizinhos reclamaram contra o barulho cá por mim ninguém me tira que aquilo tudo aconteceu por causa das minhas rezas nunca tinha rezado tanto na minha vida rezei tanto que fiquei nervosa e vi-me doida para conseguir parar se não me tivessem dado uma Água das Pedras ainda agora estava a rezar aquilo foi uma tara era capaz de jurar que rezei mais dos que o senhor da bola e se o senhor Presidente quiser fazer uma justiça esquece esse senhor e manda-me o pilim a mim isso é que era uma grande justiça eu moro na Graça quem trouxer o pilim que pergunte onde eu moro porque toda a gente sabe o que era bom era que o pilim viesse depressa porque eu estou mesmo à brocha e prometo que se vier um pilim assim que se veja mando algum ao senhor da bola com as honras da Guidinha

Redacções da Guidinha
Luís de Sttau Monteiro
Areal Editores (2002)

domingo, 15 de março de 2026

Palavras bonitas

O meu amigo Lino Sebastião resolveu, agora que as suas Primaveras já ultrapassaram as oitenta, publicar em livro os poemas que lhe vão na alma, no coração e na memória.

Quatro livros já estão acessíveis a quem gosta de poesia e há mais na forja. A mim, que sou um privilegiado, chegam-me em mão mal saem da editora, oferecidos e com dedicatória para a posteridade.

Perdido de um tempo antigo
Fico submerso na saudade,
Palavra que digo
Como se em mim dissesse
Pássaro, flor, eternidade
E todo o tempo contivesse,
Nesse espaço,
Inicial e puro,
O côncavo maduro
De um abraço.

Palavra a subir por mim
Os caminhos pedregosos dos dias
E feita clarim
A anunciar 
O despertar
De antigas nostalgias.

Do longe e da ferida
Lino Sebastião

quinta-feira, 12 de março de 2026

Mário Zambujal

Não quero que isto se transforme num obituário, mas ...

Partiu hoje, aos 90 anos, mais um cujos livros fazem parte da estante há muitos anos. Até "O último a sair", o mais recente, já lá está arrumado e foi lido de um fôlego, tal como todos os outros. São dezanove!

Mário Zambujal faz parte das memórias do jornalismo, do Mundo Desportivo à RTP, do Diário de Notícias ao Sete e ao Tal e Qual. Mas o seu primeiro livro foi, é e será sempre um maravilhoso retrato deste povo que somos nós. E que se lê sempre!

"(...) Tinha havido uma queixa. Dois cidadãos, pessoas de respeito, como muito bem se verificava no trajar e nos documentos exibidos, haviam solicitado à autoridade a detenção de duas mulheres, <<às vinte e três e trinta e cinco do dia 9 de Março, no Campo Mártires da Pátria, sob a acusação de lhes terem furtado, dois dias antes, 7 de Março, um alfinete de gravata e um isqueiro, tudo avaliado em seiscentos e cinquenta escudos>>, assim rezava o relatório.

<<Foram elas!>>, afirmaram, peremptórios, os dois, sem dúvida nenhuma. O subchefe da Polícia fitou as presas e ficou à espera. Então, Lina Despachada voltou a abrir a mala preta de plástico, tirou um alfinete e um isqueiro, mostrou-os bem na mão espalmada e desafiou:

<<São estes?>>

Aparvalhados, os queixosos mais não fizeram do que sim com as cabeças e já a acusada se virava para o subchefe da Polícia, cada vez mais desgostado da cruzada que escolhera na vida.

<<Para já, senhor subchefe, aqui a miúda não tem nada que ver com o caso. Ela nem soube que eu guardei esta porcaria. Guardei, disse bem. Guardei de penhor - de penhor, ouviu? - porque esses grandes filhos da puta, peço desculpa senhor subchefe, filhos de meretriz, queria eu dizer, serviram-se e não pagaram. Os grandes vigaristas! Ainda por cima umas tristezas na cama, um frete, um desconsolo, ai senhor subchefe só queria que visse. Então eu saquei-lhes isto de penhor: têm de nos dar os sessenta paus a cada uma, mais os setenta da pensão. Se quiserem, está claro. Se não quiserem vou direitinha pedir a massa às mulheres deles, já descobri as moradas. Ai queridos, tenham paciência: vou cobrar lá a casa, eu não dê mais um passo! Ando há vinte e seis anos nesta vida e ainda não houve um filho da puta, perdão senhor subchefe, de meretriz, que se ficasse a rir da Lina Despachada. Agora vocês resolvam ...>> (...)"

Crónica dos bons malandros
(da palma da mão à ponta da unha)
Mário Zambujal
Livraria Bertrand (1980)

quinta-feira, 5 de março de 2026

ALA

ALA já cá não está.

Morreu um dos maiores escritores de língua portuguesa, que (me) deixou livros incontornáveis e lições de vida extraordinárias. A partir de hoje, António Lobo Antunes estará sempre à mão na "biblioteca" e na memória, enquanto esta tiver capacidade.

Do primeiro ...

"(...) As ruas cá fora seguiam como um passeio ao sol e outro à sombra como coxos em sapatos desiguais, e o médico demorou-se à porta do consultório a palpar as mandíbulas doridas para se certificar de que continuava a existir dos olhos para baixo: desde que vira em África órbitas de crocodilo à deriva no rio, em busca dos corpos que perderam, que temia soltar-se de si próprio para flutuar, sem lastro de intestinos, em torno dos cegos que desafinam as esquinas com os seus acordeões reumáticos de Chopins em pasodoble. Esta cidade que era a sua oferecia-lhe sempre, através das suas avenidas e das suas praças, o rosto infinitamente variável de uma amante caprichosa que as árvores escureciam do cone de sombra dos remorsos melancólicos, e acontecia-lhe tropeçar nos Neptunos dos lagos como um bêbedo se encontra, ao sair de um candeeiro, com o queixo feroz de um polícia sem humor, culturalmente alimentado pelos erros de gramática do cabo da esquadra. (...)"

Memória de elefante
António Lobo Antunes
Dom Quixote (1979)

... até ao último:

"(...) A minha vida antes de conhecer o senhor está quase toda no fundo da barragem que engoliu a vila, olho para cima e encontro um céu de água, talvez sobre ele exista um outro, não sei, porque à noite vagas constelações de luzes trémulas e uma manchazita mil vezes reflectida que pode ser a lua, às vezes presa na sombra de uma árvore vejo o que parece ser o meu pai, o que parece ser o meu avô, o que parecem ser os afogados do poço que subiram lá do fundo numa lentidão ensonada
- O que se passa aqui?
caminhando ao acaso na horta, sem entenderem, espantados
- Continuarei vivo eu?
ou seja a viúva que morava a seguir a nós e o coxo da bengala
(mestre Esteves)
que se aleijou na guerra em África, puxando a perna postiça com a palma
- Raios partam os pretos 
 às vezes à noite continuo a ouvi-lo, batendo no soalho o seu coto de pau ou sentado a um canto
a lamber a mortalha do cigarro entre os estalos dos móveis enquanto o senhor
(começo a conhecê-lo)
na sua cadeira, quase à janela, se inclina a olhar o baloiçozeco parado, embora dentro da água a
a claridade esverdeada e as coisas menos nítidas, mas um baloiço sem dúvida e a mão dele a pensar, que é aquilo que os dedos fazem devagarinho quando coçam a orelha, o coxo, sempre a transportar o móvel pesadíssimo de si mesmo, sentava-se às vezes num degrau, ao lado da maçada do próprio corpo, a soprar as bolhinhas do cansaço pela boca aberta, se por acaso o senhor o olhasse agora, da sua cadeira, dava logo com ele, não é o gordo a enrolar o cigarro, esse é o mau pai, é o outro mais pequeno, magrinho, a ver os milhafres ao longe que a água da barragem não dissolveu ainda, o advogado para mim, deitado na cama, com um braço em cima dos olhos, no hotelzito onde a gente se encontrava
- São sempre assim os teus sonhos? (...)"

O tamanho do mundo
António Lobo Antunes
Dom Quixote (2022) 

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Livros (lidos ou em vias disso)

"(..) 1.
Bloom afogaça com os caninos um médio hot dog
enquanto, em redor dele, americanos de cinto cem vezes XL
parecem devorar pão plastificado e gordura repelente
a ritmo de máquina trituradora, mistura de motor e ansiedade.
Mas as conversas mudaram. O tema é um e só um.

2.
E é isto. Boatos, boatos.
Como se o medo da peste fosse no organismo a mais súbita
das viagens para trás, colocando a cabeça do assustado
num insólito século XXI rodeado de pedra e pura paisagem, 
sem qualquer artefacto ou vestígio do intelecto -
bem antes do metal, do fogo, da roda ou do alfabeto.
Estúpida como um tijolo fica a cabeça do homem moderno
diante do perigo sem forma e sem causa aparente.
Balbucia, repete boatos e dispara bem antes do alvo aparecer
ou sequer ser feito ou pintado.

3.
Mas, sim, nesse organismo que vive no equilíbrio possível,
no meio da confusa marabunta interna,
a partir de que concentração pânica, senhor narrador,
salta o pai de família sapiens para as quatro patas mentais
do animal impiedoso que, como único projeto de vida,
coloca no instante atual, e nos seguintes,
o objetivo de sobreviver?
(...)"
O fim dos Estados Unidos da América
Gonçalo M. Tavares
Relógio d'Água (2025) 

domingo, 25 de janeiro de 2026

Livros (lidos ou em vias disso)

"(...) Por um momento, ele debruça-se do convés, sente o frio que vem do mar, do lado oposto à cidade que não quer ver ainda. Daqui a duas horas, dissera a vozinha de gaze do imediato aos microfones de bordo, o navio atracará na Gare Marítima de Alcântara. <<Tudo tão perto>>, pensa, <<tão na distância de um grito, e afinal para que serão precisas ainda duas longas horas de mar?>> Não conhece os ritos, as demoras que tornam extenuantes as navegações, nem as suas atracagens ao cais da chegada. Uma lentidão até certo ponto litúrgica, das que exasperam até a paciência dos santos. E, contudo, não experimenta nenhum anseio quanto ao momento que o papá, a mamã e Patrícia lhe acenarão de longe, descobrindo-o perdido entre as fardas mil dos batalhões e das companhias independentes. Não propriamente um número rigoroso de homens vestidos com suas muito velhas fardas, mas sim o espírito de quantos haviam somado anos, noites e dias nas suas três frentes de guerra. Em breve seriam talvez perto de um milhão, mas nunca ao certo o diria ninguém: estavam em todas as famílias e casas portuguesas, guardando álbuns de fotografias em cuja capa se lia <<ao serviço da pátria>> por baixo da gravura em relevo de uma sentinela alerta - a arma como que aperreada, os olhos fitos no seu ponto de mira; estavam vivos e mortos, mas todos calados, sem vontade de contar histórias e tragédias, e crimes que assustariam mulheres e crianças. Pior do que tudo, fingiam-se curados de uma dor que entrara neles para nunca mais deixar de doer, e à qual entregavam culpas, vergonhas, desgraças tais e tantas que não bastará ter duas vidas para expiar o castigo, cumprir toda a penitência e todo o remorso desse pecado.

<<O estranho pormenor da minha geração?>>, pensa João Alberto. O facto de ser única, perdida e solitária entre todas as demais - num país pequeno, com forma de urna e sem memória de nada. Onde nem mesmo as vicissitudes mais monstruosas têm qualquer importância. A Europa sabe de cor toda a música dos Beatles. Ouvira, em transe, o pânico provocado pelos bombardeiros B-52 sobre as lezírias do Vietname; vivera o sonho provisório dos hippies e o levantamento das novas comunas do Maio 68 - mas essa mesma Europa ignorava por completo a fatalidade de um destino estritamente português. Ri-se dos seus emigrantes avaros e suplicantes, tolera os exilados, os refratários, os desertores - mas mantém-se cega como a toupeira, sem suspeitar que o tempo dessa geração portuguesa é também o vinho mortal, a nuvem do seu próprio e inevitável crepúsculo. (...)"

A nuvem no olhar
- O tríptico dos barcos
João de Melo
D. Quixote (2025) 

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Livros (lidos ou em vias disso)

Amanhã é dia de reflexão, não sendo legalmente possível falar sobre o acto eleitoral que decorrerá Domingo, dia 18. Por isso e por ser Dia de Santo Antão, deve ser, entre uns chouriços na brasa, umas entremeadas e umas febras regadas com um bom tinto, dedicado à colocação de todas as cartas na mesa, à arrumação das ideias e ao vislumbre, difícil, de qual seja a melhor solução. Ou talvez, ainda mais clarinho, aquilo que nunca será solução e deve ser deixado à "meia dúzia" de tontos que acham ser fundamental voltar ao antanho.

Para ajudar a reflectir, a opinião de quem escreve sobre o mundo miserável que se mantém e comunga da opinião de que "para trás, mija a burra!".

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"(...) Todas as noites, Obinze saía do trabalho coberto por uma poeira química branca. Partículas arenosas alojavam-se-lhe nos ouvidos. Tentava não inspirar demasiado fundo enquanto limpava, preocupado com os perigos que flutuavam no ar, até o gerente lhe dizer que ia ser despedido devido a uma redução de pessoal. O emprego seguinte foi uma substituição temporária numa empresa que fazia entregas de cozinhas, semana após semana sentado ao lado de condutores brancos que lhe chamavam <<moço>>, estaleiros de construção civil cheios de ruídos e de capacetes, subir muitos degraus a carregar pranchas de madeira, sem ajuda e sem reconhecimento. No silêncio em que conduziam e no tom em que diziam <<moço!>> Obinze sentia a inimizade dos condutores. Uma vez, quando tropeçou e caiu de joelhos, uma queda tão forte que foi a coxear para o camião, o condutor disse aos outros no armazém: <<O joelho dele mais preto não pode ficar!>> Riram-se. A hostilidade deles incomodava-o, mas só ligeiramente; o que importava era que ganhava quatro libras à hora, mais com as horas extra, e quando foi mandado para um novo armazém de entregas em West Thurrock, sentiu-se preocupado por poder deixar de ter oportunidades de trabalhar horas extra.

O chefe do novo armazém tinha o aspeto do típico inglês que Obinze imaginava, um homem alto e enxuto, com o cabelo ruivo e olhos azuis. Mas era um homem sorridente e, na imaginação de Obinze, os homens ingleses não eram sorridentes. Chamava-se Roy Snell. Deu um vigoroso aperto de mão a Obinze.

- Então, Vincent, és de África? - perguntou, enquanto conduzia Obinze numa visita ao armazém, que era do tamanho de um campo de futebol, muito maior do que o anterior, e estava cheio de camiões a serem carregados, de caixas de cartão espalmadas a serem dobradas e metidas num buraco fundo, de homens a conversarem.

- Sou! (...)"

Americanah
Chimamanda Ngozi Adichie
D. Quixote (2025)

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Balanço 2025

A rotina determina ( e cada vez se nota mais) o ciclo das horas, dos dias, das noites, dos meses e até dos anos. Em resumo: manda na vida e cada vez mais impõe a sua vontade.

São raras (e muitas vezes enervantes) as excepções, precedidas sempre dessa dúvida "metódica": "e se ...".

As leituras fazem parte da rotina diária de há muitos, muitos anos e, espero, manter-se-ão por muitos mais, até que a vista e a "pinha" consigam, uma ler, e outra, entender.

O registo informático informa que, em 2025, o número de livros lidos foi ligeiramente abaixo do do ano anterior, circunstância que me deixou um pouco admirado. Será do tempo?




sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Livros (lidos ou em vias disso)

"(...) A águia ouviu o relato do falcão sobre a necessidade de introduzir as artes e as ciências na herdade e não compreendeu de imediato. Pôs-se a grasnar e a raspar com as unhas, e os seus olhos, como seixos polidos, tornavam-se lustrosos ao sol.

Nunca tinha lido nenhum jornal; não se interessava nem por Baba-Iagá, nem por bruxas, e sobre o rouxinol somente tinha ouvido uma coisa: era um pássaro pequeno e não valia a pena sujar o bico por sua causa.

- Se calhar nem sabes que o Bonaparte morreu - disse o falcão.

- Quem é esse Bonaparte?

- Aí está. Não te faria mal saberes isso. Os convidados vão chegar, conversar e dizer: <<Isso ocorreu nos tempos de Bonaparte>>, e tu vais simplesmente pestanejar. Não é bom.

O mocho foi convocado para a assembleia e acabou por confirmar a necessidade de introdução das ciências e das artes entre a criadagem, pois com elas até as águias têm uma vida mais divertida - e atribuem inclusive um certo estatuto. A aprendizagem é luz e a ignorância são trevas. Cada um é capaz de encher o papo e dormir, mas quando chega a altura de resolver o <<Voava um bando de gansos ...>>, quem será capaz de responder? Antigamente, acontecia que os senhores de terras sábios trocavam dois analfabetos por um instruído: significa que nisso havia proveito. Olhem para o lugre: é todo ele ciência, sendo até capaz de trazer o baldinho com a água, mas quanto dinheiro não cobra por isso!

- A mim, apelidaram-me de sábio porque consigo ver na escuridão - disse o mocho. - E tu és capaz de olhar para o sol horas a fio sem pestanejar, mas sobre ti dizem: <<A águia é ágil mas papalva.>>

- Bem, não tenho nada a opor às ciências! grasnou a águia.

Dito e feito. No dia seguinte, na casa da águia começou a Idade de Ouro entre a criadagem. Os estorninhos aprendiam de cor o hino As ciências alimentam os jovens, os codornizões e os mergulhões afinavam as trombetas, os papagaios aprendiam novos truques. Os corvos foram obrigados a um imposto novo chamado <<educativo>>; para os jovens falcões e açores organizou-se o corpo de cadetes; para as corujas, os mochos e os bufos inaugurou-se a academia de ciiance e, a propósito, foram comprados Ásbuka-Kopéika para os corvos. Finalmente, o estorninho mais velho foi nomeado poeta, sob o nome de Vassili Kirilych Trediakovski, e ordenaram-lhe que se preparasse para competir com o rouxinol no dia seguinte.

Então, chegou o dia ansiado. Os recrutas foram colocados diante da águia e ordenaram-lhes que se vangloriassem.

O dom-fafe teve o maior sucesso. Em vez de uma saudação, recitou um folhetim satírico de conteúdo tão superficial que até a águia julgou ter compreendido. O dom-fafe declarou que se devia viver bem e a águia confirmou: <<Exaltamente!>> Disse que só lhe interessava que as suas vendas a retalho corressem de feição, e quanto ao resto pouco lhe importava, e a águia confirmou: <<Exaltamente!>> Acrescentou ainda que os criados vivem melhor do que o proprietário, porque o proprietário tem de pensar em tudo, enquanto os criados não têm nenhuma preocupação com o seu amo, e a águia confirmou: <<Exaltamente!>> Disse que, antigamente, quando tinha vergonha, o dinheiro não lhe chegava para comprar calças, e agora que não lhe sobra um pingo de vergonha, anda com dois pares de calças ao mesmo tempo, e a águia confirmou: <<Exaltamente!>> Por fim, o dom-fafe tornou-se enfadonho. (...)"

A águia-mecenas
Mikhaíl Saltykóv-Shchedrín (1884)
Antologia de contos satíricos e humorísticos russos
Colecção de Ricardo Araújo Pereira
Tinta da China (2025)