Casa situada na cidade das Caldas da Rainha, "nascida" em 1976, numa rua sossegada, estreita e, desde Abril de 2009, com sentido único.
Produção: dois frutos de alta qualidade que já vão garantindo o futuro da espécie com quatro novos, deliciosos. O blog é, tem sido ou pretendido ser uma catarse, o diário de adolescente que nunca escrevi, um repositório de estórias, uma visão do quotidiano, uma gaveta da memória.
Se eu não fosse uma pessoa discreta, descreveria o que vai pelo mundo como um cacharolete de interesses, egos, vaidades, poupas amarelas e lacadas, caras de pau destilando raiva, peneirentos em busca de lacaios, "sabões" que nunca passarão de "sabonetes" e dos bem pequeninos.
A discrição impede-me de fazer uma descrição exaustiva do que por aí vai, a começar nos atentados de guerra, passando pelos da gramática, pelos discursos a justificar o que não tem justificação, os perigos disto e daquilo, com erros ortográficos pelo meio e percepções resilientes que se atropelam continuamente.
Há muita gente à procura de protagonismo, poucos em busca do saber, muitos a necessitarem de "dez réis" de humildade, outros tantos a precisarem de educação e ainda, bastantes, a cuspir para o chão.
A senhora professora andava preocupada com o comportamento do Carlinhos. Há já muito tempo que não participava nos debates da aula, não emitia opiniões, não contava estórias, não dizia asneiras, e só respondia, apenas por monossílabos, quando directamente questionado. Estava muito diferente do Carlinhos anteriormente interventivo, muitas vezes inconveniente, crítico dos colegas, comentador verrinoso, falador pelos cotovelos.
Por isso, a senhora professora achou que daquele dia não passava e iria directa ao assunto, para resolver o problema de vez.
- O menino Carlinhos tem algum problema que, eu ou os seus colegas, possamos ajudar a resolver?
- Não, senhora professora, respondeu secamente.
- Então porque não participa nas aulas como fazia antes?
O Carlinhos hesitou durante alguns segundos. Os olhos da professora fitavam os seus, acusadores e acutilantes. Aqueles olhos mantiveram-no quieto e sem hipóteses de fuga à pergunta.
- Cansei-me, senhora professora. A senhora sabe tudo, ensina tudo, tem razão sobre tudo, até sobre a necessidade de usar sobretudo no Inverno, veja lá. Como posso eu participar se a minha ignorância é imensa e, na grande maioria das discussões, qualquer frase que eu diga é mal entendida, gozada pelos meus colegas e por si recriminada.
A professora embatucou e precisou de algum tempo para se recompor. Não lhe ocorria nada que servisse para quebrar aquele ruidoso silêncio que se instalou. Foi o Carlinhos que deu a volta à situação:
- A senhora professora sabe a semelhança entre uma sapataria e o forno da minha avó?
A vontade da professora era calá-lo de imediato mas, depois de tudo o que tinha dito, não seria pedagógico. Rendeu-se.
- Eu não, mas o menino vai ensinar-me, claro.
- Na sapataria, há sapatos. No forno, a minha avó assa patos.
A professora corou e, de imediato, continuou a explicar a gramática, enfatizando que o grito "Não à guerra" é muito diferente da afirmativa "Não há guerra", embora se pronunciem da mesma forma.
Há fruta no Parque, ou melhor, à saída, logo a seguir ao roseiral, no espaço arbóreo que por ali há.
Para cumprimento das regras sanitárias, há que levar máscara e manter o distanciamento à volta das pessoas, evitando a propagação do vírus que há tanto tempo connosco permanece e incomoda a todos, até à Polícia, a quem cabe, há muito, a inestimável tarefa de cuidar dos cidadãos.
À entrada para os espectáculos, há necessidade de exibir o bilhete electrónico. Quem os tem, chama-lhes seus. Já estão esgotados há muito tempo e não há sítio nenhum onde ainda estejam à venda. Ah! Olha a admiração, tem gente que não assiste a um espectáculo, de borla, há quase dois anos.
Também há cinema na Praça da Universidade, da qual só sobrou a Sénior. Um dia, quem sabe, a Universidade voltará à Praça e todos lembrarão que, há muitos anos, houve por ali um estabelecimento universitário do ensino privado que lhe deu o nome, houve muitos alunos que lá obtiveram o canudo e de alguns já não se ouve falar há muito.
Há, seguramente, muitas mais notícias da terrinha, que cada vez mais se preocupa com o progresso e a cultura, seguindo de perto os concelhos vizinhos de Óbidos e Alcobaça, nos quais há tradição para as coisas que giram à volta do saber.
Em Óbidos, ou mais concretamente na Amoreira, há mais um espaço cultural dedicado aos livros e o seu nome faz jus à finalidade de divulgar a Língua Portuguesa. A preocupação deve ter sido tornar o espaço apelativo para a multidão de turistas que, todos os anos, visitam a Amoreira, e também a todos os que por lá residem e não estão familiarizados com as expressões actualmente na moda. À biblioteca, que foi hoje inaugurada, foi dado o nome de Little Free Library, nome que tresanda à inspiração em Aquilino, Eça, Camões, Pessoa, para só citar alguns.
Há por aí tanta gente a fazer, a dizer e a escrever asneiras, que mais um não deve fazer diferença às pessoas, poucas, que isto leram até ao fim.
Por muito que me custe, tenho de admitir que a idade me refinou a refilice e me subtraiu a falta de paciência para coisas comezinhas, às quais, noutro tempo, não ligava patavina.
Hoje, fazem-me confusão os erros ortográficos, as frases mal construídas, a mistura de palavras noutras línguas para "armar ao pingarelho", o uso sistemático de adjectivos muitas vezes redundantes, as exposições pomposas vazias de senso e de conteúdo, as palavras da moda e as conversas para "encher chouriços".
Tenho de meditar muito bem sobre este problema e procurar acertar o passo, sob pena de, um dia destes, dar comigo isolado e sem me conseguir fazer entender. Corro o risco de, se não alinhar, procrastinar a minha integração na sociedade, perder a resiliência e ainda me surgir alguma comorbilidade que me apague para sempre.
Não há pachorra!
Mas não é nada que um sunset à beira-mar não ajude a resolver!!!
Costumo dizer que uma das minhas poucas qualidades é ser muito teimoso. E é verdade: gosto de uma boa polémica, adoro contraditar, defendo as minhas ideias com toda a energia e convicção.
Vem isto a propósito de, esta semana, ter encetado uma discussão, pacífica, sobre o adjectivo "obrigado" e a forma correcta de o aplicar.
A A.L. defendia que o adjectivo devia ser utilizado no feminino se dito por uma mulher e no masculino, quando pronunciado por um homem. A R.R. contraditava, parecendo-lhe que o correcto era sempre "obrigado". O M.R. não tinha certezas e estava virado para a abstenção. Teimoso, eu argumentava que se devia dizer sempre "obrigado" e, para justificar o meu argumento, ilustrava com uma frase:
- A menina não se sinta obrigada a dizer obrigado sempre que lhe oferecem flores!
A A.L. mantinha-se irredutível. O seu professor de português tinha-lhe ensinado a regra, há muitos anos, e nunca se tinha esquecido.
Comecei a duvidar de mim e cedi:
- Quando chegar a casa, vou confirmar!
Hoje, logo pela manhã, enderecei este mail aos meus colegas:
" Bom dia
Rendo-me à evidência!!!
Penitencio-me do erro e congratulo-me pelo facto de termos discutido uma das coisas boas que temos: a nossa língua.
No Dia das Mulheres, confirmam-se, como sempre, os saberes de antanho: elas têm sempre razão e é estúpido quem as contraria.
O adjectivo “obrigado” deve ser utilizado no masculino ou na sua forma feminina (obrigada) consoante o sexo de quem o pronuncia. (Edite Estrela e outro cujo nome não me lembro) – “Saber escrever / Saber falar”
Para ilustrar a minha rendição, qual Egas Moniz, mas sem corda ao pescoço, umas rimas (mal) alinhavadas no “horário” (como se diz na Madeira) que me trouxe do Oeste profundo e inculto à capital dotada e sapiente: