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terça-feira, 7 de outubro de 2025

Matemática

O Clube Tinta da China, do qual sou "sócio" desde o seu início, enviou-me, na passada semana, o livro 33, da autoria de Marcelo Viana, com o título Histórias da Matemática - Da contagem dos dedos à inteligência artificial.

O título do livro indicia claramente o conteúdo e, mesmo para quem não é dotado de grandes saberes matemáticos, é extremamente interessante. Está carregado de exemplos de aplicações e descobertas matemáticas e ainda só vou no Séc. XVII ...

Num dos desafios, o autor convida-nos a determinar os anos vividos por Diofanto, filósofo grego que terá vivido nos anos 250 A.C.. De acordo com o autor, o texto/problema aparece numa colecção de quebra-cabeças do Séc. V e diz o seguinte:

"Aqui jaz Diofanto, vejam que maravilha. Por arte matemática, a pedra nos diz a duração da sua vida. Deus lhe deu um sexto da vida por infância. Mais um duodécimo por juventude, quando surge a barba. Um sétimo mais e começou o tempo do casamento. Cinco anos passaram e um filho chegou. Tragédia, o herdeiro foi levado pelo destino quando tinha por idade a metade da vida de seu sábio pai. Depois de se consolar com a ciência dos números por quatro anos mais, terminou Diofanto enfim sua existência."

Com que idade morreu Diofanto?

Não me dei ao trabalho de tentar descobrir o valor de X (incógnita da idade), nem a forma/fórmula de equacionar o problema. "Googlei" e a IA deu a resposta imediata: Diofanto morreu com 84 anos de idade!

Palavras para quê ...

domingo, 2 de julho de 2023

Livros (lidos ou em vias disso)

A inscrição, desde o seu início, no Clube Tinta da China, tem-me proporcionado a leitura de muitos e bons livros antes de chegarem ao mercado normal. Surgem perto do final de cada mês, sem qualquer divulgação prévia, e o abrir da caixa, o desembrulhar - o livro vem cuidadosamente embrulhado -, a descoberta do segredo, proporcionam um misto de entusiasmo e curiosidade sempre intensos, que o guia de leitura ainda mais aguça. Depois, é acabar rapidamente o que se está lendo ou, até, suspender, para se iniciar a descoberta.

No final de Junho, a surpresa foi um novo livro de A.M.Pires Cabral, cuja leitura já vai a meio e que retrata a vida num quartel mais ou menos imaginado. A data da edição indicada é Agosto de 2023.

"(...) O Leitor deve ter reparado que na parte da história já contada veio a propósito falar mais que uma vez de alcunhas. Como ainda há muitas alcunhas por referir, talvez faça sentido introduzir aqui um parêntesis que, ao mesmo tempo que discorre sobre alcunhas, constitui um momento de descompressão que é bem-vindo, numa altura em que a história começa a ganhar intensidade, dramatismo e suspense.

<<Um regimento sem alcunhas é como um gato sem unhas>>, diz muitas vezes o Comandante do RA-7, quando vem a propósito. Aparentemente, quer ele dizer que as alcunhas são uma arma de defesa e ataque dum regimento, tal como as unhas o são dos gatos. Mas não se chega a perceber qual o fundamento da comparação e ele escusa-se a explicar. Talvez o Comandante quisesse antes significar que é tão natural haver alcunhas nos aquartelamentos militares como unhas nos gatos. Mas, cá para nós, o mais provável é que o aforismo encontrasse na rima a sua única razão de ser e que, além de rimarem, não há qualquer outro ponto de contacto entre unhas e alcunhas.

De qualquer maneira, o Comandante usa frequentemente o anexim. O Comandante, nos seus ócios, que não são muitos, gosta de reflectir sonolentamente sobre assuntos como este das alcunhas. Diz ele que pensar pequeno é um bom tirocínio para quando é preciso pensar grande.(...)"

O quartel ou as bochechas do general
A.M.Pires Cabral

P.S. - Ontem almocei com um grupo de amigos que, há mais de meio século, se apresentaram comigo, nuzinhos em pêlo, perante um conjunto de três oficiais do exército que a todos mandaram subir para a balança, anotaram os pesos, ordenaram o perfilar na craveira e registaram as alturas, questionaram sobre a existência de carta de condução e carimbaram um papel com a palavra "APTO". Já faltam "peças" no grupo, mas lembrei-me do livro porque, como nele, também todos tinham (e têm) alcunhas. 

segunda-feira, 5 de dezembro de 2022

Livros (lidos ou em vias disso)

A adesão ao Clube Tinta da China, efectuada no seu início e no começo do ano que está, agora, prestes a terminar, tem-se revelado uma óptima decisão e tem trazido, mensalmente, um livro novo. Todos se têm revelado muito bons e diferentes, com alguns autores que não conhecia nem de nome, e temas diversos e interessantes.

Este último, chegado na passada semana e cuja leitura ainda não está concluída, versa a vida de Alexandre Yersin, cientista que descobriu o bacilo da peste negra. É uma viagem romanceada sobre a ciência e o mundo nos finais do século XIX, início do século XX, demonstrando, se necessário fosse, que "quanto mais sei, maior é a minha ignorância".

"(...) A chegada de Calmette a Saigão surpreende Yersin. Os dois homens vêem-se pela primeira vez. Foi Roux, a partir de Paris, e a conselho de Pasteur, que organizou o encontro.

Os dois homens nasceram no mesmo ano, mas os seus trajectos foram opostos. Depois de estudar Medicina na Escola de Saúde Naval, em Brest, Albert Calmette foi incorporado na campanha da China do almirante Courbet, na qual também participou Pierre Loti. Médico da marinha, passou uma temporada em Hong Kong, seis meses no Gabão, onde encontrou Brazza, mais dois anos na Terra Nova, de onde seguiu para Saint-Pierre-et-Miquelon. Concluiu há pouco o curso sobre micróbios do Instituto Pasteur, cujos responsáveis o enviam para a Cochinchina. É o caloiro dos pasteurianos.

Yersin aceita o convite para o encontro por um misto de cortesia e curiosidade. O outro representa a sua antiga vida. Como uma passagem de testemunho entre a navegação e a pesquisa científica. Quando Calmette entrou nos serviços de saúde da marinha, com 20 anos, Yersin estava em Marburgo e ainda não vira o mar. Neste momento, é ele o marinheiro. Há um ano que viaja de cá para lá no Volga. Os dois homens sentam-se num salão do Majestic, o palácio branco que fica ao fundo da rua Catinat. Agora, rua Dong Khoi.

Cadeirões estilo império, com dourados, e empregados de libré. Vista para a Riviera e para os juncos, como ainda hoje acontece, em 2012, passados 120 anos. Procuremos um cadeirão para o invisível fantasma do futuro, o escriba do caderno com capa de pele de toupeira que andava atrás do rasto de Yersin no Zur Sonne de Marburgo. Ele estica a orelha, espia e regista nas suas notas a conversa dos dois homens de 28 anos, ambos com uma barba negra bem aparada. Tomando precauções dignas de conspiradores tímidos, evocam o seu gosto comum pela geografia, por Loti e pela pesca do bacalhau. Convocam, em Saigão, o frio e o gelo de Miquelon. É o militar que está vestido à paisana e o civil que enverga um uniforme branco com cinco galões dourados.(...)"

Peste e Cólera
Patrick Deville

sábado, 3 de dezembro de 2022

Memória

Comecei a ler muito cedo, bem antes da entrada na escola primária, como então se chamava à que, actualmente, surge após o jardim de infância, na altura ainda inexistente. A minha irmã, nascida três anos antes, foi a grande responsável, despertando em mim o gosto pela descoberta e a sensação, estranha mas intensa, de perceber a junção das letras, os sons que daí resultavam, a imensidão de coisas novas que era possível aprender. O Jornal de Notícias que o meu pai trazia, com frequência quase diária, das suas viagens ao Porto, fez o resto. Lembro-me de o ler (talvez soletrar)  de joelhos, na cozinha, e de a minha mãe, nas suas deambulações de labuta doméstica, muitas vezes lhe passar por cima, sem ter o cuidado que o "leitor" achava ser imprescindível ter para aquele papel enorme, que trazia "tudo" o que era desconhecido e ia acontecendo pelo país e pelo mundo e, ainda por cima, sujava as mãos de tinta negra.

Os livros vieram bem mais tarde, com a escola, depois com a Biblioteca itinerante da Gulbenkian, onde um senhor, alto, cujo nome já não recordo, escolhia os livros que eu devia ler e entregou nas minhas mãos, depois de todo o Júlio Dinis, de dois ou três do Camilo, e vários do Eça, desde O Primo Basílio aos Maias, passando pelo Crime do Padre Amaro, um exemplar de A Relíquia, retirado da prateleira lá do fundo e com uma cinta vermelha à volta.

- Já podes ler, mas evita mostrar.

Depois, ainda da Gulbenkian, a Biblioteca fixa do Parque, com a senhora, simpática, a fazer crochet na secretária e a interrompê-lo para anotar os livros trazidos depois de "assentar" os que tinham sido entregues e confirmavam o "saldo" zero. As bibliotecas foram as "livrarias" que frequentei até ir para a tropa. 

O primeiro livro por mim comprado foi "Sábado à noite e Domingo de manhã", de Alan Sillitoe. Mais de meio século passado, ainda se encontra na estante, com uma estória para contar, para além daquela que contém. Foi metido no saco que transportava os, poucos, pertences que me acompanharam no ingresso no serviço militar obrigatório e não passou na revista, rigorosa, que um militar consciente e zeloso nas suas obrigações, fez ao saco logo na entrada, para se perceber claramente quem mandava.

- Um livro? Aqui não há tempo para ler! Ainda por cima subversivo. Fica cá.

- É só um romance. Nada de especial ...

Não adiantou a observação. Foi "arquivado". Só voltou ao dono duas ou três semanas depois, quando a timidez e o medo foram vencidos e alguma convivência com o comandante da companhia - Tenente (na altura) Virgílio Varela, já falecido - me permitiu ter a "lata" de lhe contar o sucedido.

- O "mecerico" vai voltar a ter o livro. Vou tratar disso ...

E tratou. Não faço ideia como o foi descobrir e onde se encontrava, mas regressou ao proprietário.

- O "mecerico" leva-o para casa e não o traz mais. Tenho esperança que os livros deixem, um dia, de ter o rótulo que este apanhou.

Aconteceu daí a pouco mais de um ano, não sem antes o meu comandante de companhia ter sido preso pela participação activa no levantamento do 16 de Março de 1974. 

E queria eu falar de um livro em concreto, que ontem me chegou em mais uma entrega do Clube Tinta da China ...

quinta-feira, 29 de setembro de 2022

Livros (lidos ou em vias disso)

A Tinta da China promoveu, no ano passado, um "Clube" de leitores do qual faço parte desde o início. Mensalmente, recebo um livro novo, ainda antes de esse livro ter entrado no circuito comercial, o qual circuito, diga-se, me parece ser cada vez mais restrito em qualidade e alargado em quantidade. A abertura da caixa que traz o livro, sempre acompanhado por uma "graça" de utilidade, cria alguma ansiedade, uma vez que não faço a mais pequena ideia do que irá surgir e estou (ainda) habituado a folhear quase todos os livros antes de os adquirir. Até aqui, têm sido sempre excelentes surpresas, que bem justificam a decisão tomada.

Há três dias recebi o exemplar deste mês. Nele,  António Mega Ferreira faz um roteiro por palavras perdidas no tempo, ordenando-as alfabeticamente, debruçando-se sobre a sua origem e divagando sobre as razões que as levaram ao desuso. O autor refere, no preâmbulo, que apenas utilizou 80 das 250 palavras que inventariou. Dei por mim a confirmar que o meu "computador" já colocou no seu "lixo" tantas palavras bonitas ...

"(...) FINEZA - Há mais de meio século era corrente ouvir, em qualquer loja da Baixa, pedir a fineza de, solicitar um obséquio, reclamar a bondade de. Eram tudo formas mais ou menos preciosas (estas eram mesmo preciosas) de pedir um favor, demandar um serviço, chamar a atenção. No tabuleiro dos rituais de interação social, tanto como as formas de tratamento ("você é estrebaria" era a condenação comum de uma forma que agora se tornou corrente, tal como há 50 anos previa Luís Filipe Lindley Cintra, no seu ainda hoje fundamental estudo Sobre Formas de Tratamento na Língua Portuguesa, publicado em 1972), as saudações e fórmulas de cortesia tinham uma gradação exigente, cuja valorização social classista sempre espreitava por trás da expressão utilizada. Aliás, Cintra sublinhava que a relativa maior complexidade das formas de tratamento no português europeu (o que é usado em Portugal) refletia uma hierarquia social muito rígida, definida e gradativa. Quando em 1974 se abriram as comportas do discurso e da interação, tudo isso foi varrido no lapso de uma geração. Antigamente, a fineza e o obséquio eram um suplemento de cortesia que mascarava um mal-estar social, uma espécie de insegurança no relacionamento com os outros. Normalmente, o seu emprego era desproporcionado em relação ao favor que se pedia. (...)"

Roteiro Afetivo de Palavras Perdidas
António Mega Ferreira

sexta-feira, 1 de julho de 2022

Livros (lidos ou em vias disso)

Um rinoceronte vindo lá dos confins do mundo para a casa das feras de D. Manuel I, um professor castelhano que estuda a obra de Fernando Pessoa e até com ele fala quando deambula pelos lugares "pessoanos" de Lisboa, e mais um excelente livro do Clube Tinta da China.

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"(...) olhe para esta gente que está aqui à frente à espera de vez para tirar uma fotografia comigo, estes homens e estas mulheres, estas raparigas e estes rapazes que se aproximam de mim, que se põem aqui ao meu lado, sentados ou de cócoras, esperam que o fotógrafo dispare e depois regressam às suas vidas, satisfeitos por se terem imortalizado com o que julgam ser um dos marcos imprescindíveis da cidade, da nação; é evidente que nenhum deles, vamos ser optimistas e dizer que só alguns, sabem verdadeiramente quem sou, e é possível que nem uma das pessoas que desfilaram por aqui ao longo do dia seja capaz de repetir de cor um único dos meus versos, nem sequer os mais fáceis, os primeiros que escrevi, aquela famosa quadra através da qual comuniquei à minha mãe que me mudaria com ela para a África do Sul. Não acha que tenho razão? Acho, acho, respondeu Espinosa depois de acabar de um gole o café, morno pelo tempo de repouso e pela temperatura, ainda quente, mas já um pouco fresca, da rua. Ora bem, continuou Pessoa, estarei eu realmente em condições de pedir a esta gente que me leia? Estarei eu em posição de lhes exigir que conheçam os meus poemas, quando estão a viver um período tão hostil, tão inclemente, tão ímpio, tão propenso ao desacato e à traição em detrimento das artes? Que pensa, querido Espinosa? Os tempos nunca foram fáceis, dom Fernando, respondeu Espinosa, tentando ultrapassar o tímido pessimismo no qual ameaçavam mergulhá-lo as palavras do seu incomensurável contertúlio, , não foram para si, nem foram para nenhum dos grandes génios da literatura universal, a História é sempre convulsa e sempre acontece, não podemos livrar-nos dela. E no entanto escrevemos, interrompeu-o Pessoa, escrevemos como se não houvesse nada mais importante do que encher os nossos papéis, como se nesse empenho em que deixamos a vida residisse o segredo da salvação do mundo, mas no fundo sabemos que não é assim, que nunca é assim, (...)"

O rinoceronte e o poeta
Miguel Barrero

sábado, 14 de maio de 2022

Livros (lidos ou em vias disso)

Já há muito que perdi a conta aos livros que li e, de muitos deles, recordo pouco ou nada mesmo. Isso não invalida que, presunçoso, por vezes me convença de que sou um grande leitor. Falso, como a seguir se demonstra sem margem para dúvidas.

Acabei de ler "Um diário de leituras - treze livros para treze meses", de Alberto Manguel, escritor argentino que recentemente se instalou em Portugal, doando a sua biblioteca à cidade de Lisboa. Dos treze autores mencionados, e comentados, no livro, conheço sete. Dos livros referidos, li três, dois deles em língua portuguesa directa: Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis e Viagens na minha terra, de Almeida Garrett. O terceiro é Dom Quixote, de Miguel de Cervantes, que li, numa tradução antiga, quando o Acordo Ortográfico ainda estava arredio, bem longe, talvez na Patagónia ou no Alasca, onde deveria ter permanecido.

Uma vez mais provei a mim mesmo que presunção e água benta, cada um toma a que quer, e que quanto mais sei, maior é a minha ignorância.

"(...) Estendido na cama com pontadas de dor nos ombros e nas pernas, penso que a velhice pode ser medida em pequenos inconvenientes irritantes como este. Quando eu era novo, o meu corpo estava simplesmente presente e não chamava a atenção para si mesmo. Agora, parece uma criança choramingas, constantemente a puxar-me pela manga, a exigir atenção. (...)"

Um diário de leituras
(Treze livros para treze meses)
Alberto Manguel