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quarta-feira, 17 de junho de 2020

Poesia racismo

Uma cabeça contra umas pedras bicudas

O meu patrão era taxeiro 
e eu moleque do seu bebé
chamado Constantino o tal bebé
e o patrão Machado
e ela D. Maria
ele era ateu
e muito vinhateiro
e ainda boxeur com os criados
um dos adversários sou eu
com o vencimento de vinte e cinco
com tanto trabalho que tinha
brincar com o menino branco
e ainda com o patrão em socos
socos só dele
eu sem me defender
sangue pelo nariz
sapatos nas costelas
eu caindo
assim nem vencia o tal Machado
este sou eu?
perguntava-me eu próprio
que recebo socos de um ser humano?
não devo ser, 
quando eu caía
este patrão tinha festa
lá no coração
pois era campião
dum K.O. falso
com este patrão
muito sofri
na avenida J. Serrão
em 1949
tanto levei
e tanto sangue saía
e criou-me um câncro
nas minhas unhas
veneno na língua
das dores dele
vivi doente
sem remédio, sofri
pois preto não precisa de remédio
dizia o senhor
autor do boxe.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Palavras bonitas e a pintura

OLHOS DE SERPENTE

Os teus olhos de serpente
são os únicos representantes
da tua formosura oh linda
o teu cabelo serve de cortina
para te cobrires para que
não te descubra, amor
mas eu vou abrir a tal cortina;
És muito bonita que até
as borboletas te conhecem
e dizem que roubaste a beleza
da rainha borboleta, amor
e então que encantas tanto, amor.
Esses olhos são para mim
luzes para zigue-zagues caminhos
dás-me a mão para que eu não caia
tragas a tua beleza toda para
os passos da minha vida, amor.
Malangatana
24 poemas  e outros inéditos
ISPA - 2004

A "doença prolongada" levou mais um grande nome da cultura, ontem, no Porto.
Malangana foi um grande pintor moçambicano, com ligações profundas a Portugal e também às Caldas da Rainha, onde realizou, que me recorde, duas exposições na Casa da Cultura. Nessa altura, ofereceu algumas obras que farão parte do espólio da Casa da Cultura (onde quer que ele esteja), com excepção de um pequeno quadro a tinta da china, que pode ser visto na sede dos Pimpões.

terça-feira, 1 de janeiro de 2008

Dia Mundial da Paz


LÁGRIMA DE PRETA
Encontrei uma preta
que estava a chorar,
pedi-lhe uma lágrima
para a analisar.

Recolhi a lágrima
com todo o cuidado
num tubo de ensaio
bem esterelizado.

Olhei-a de um lado,
do outro e de frente:
tinha um ar de gota
muito transparente.
Mandei vir os ácidos,
as bases e os sais,
as drogas usadas
em casos que tais.

Ensaiei a frio,
experimentei ao lume,
de todas as vezes
deu-me o que é costume:

nem sinais de negro,
nem vestígios de ódio.
Água (quase tudo)
e cloreto de sódio.
António Gedeão
Máquina de fogo - 1961