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segunda-feira, 2 de março de 2026

Palavras bonitas

Continua a parecer que foi ontem, mas já lá vão 22 anos. A capicua fica assinalada com a ligação poética entre o mês em que partiste e aquele em que me pariste.

ENTRE MARÇO E ABRIL

Que cheiro doce e fresco,
por entre a chuva,
me traz o sol,
me traz o rosto, 
entre março e abril,
o rosto que foi meu.
o único
que foi afago e festa e primavera?

Oh cheiro puro e só da terra!
Não das mimosas,
que já tinham florido
no meio dos pinheiros;
não dos lilases,
pois era cedo ainda
para mostrarem 
o coração às rosas;
mas das tímidas, dóceis flores
de cor difícil,
entre limão e vinho,
entre marfim e mel,
abertas no canteiro junto ao tanque.

Frésias,
ó pura memória
de ter cantado -
pálidas, fragrantes,
entre chuva e sol
e chuva
- que mãos vos colhem,
agora que estão mortas
as mãos que foram minhas?

Poesia
Eugénio de Andrade
Fundação Eugénio de Andrade(2000) 

quinta-feira, 7 de março de 2024

Palavras bonitas

... Para a minha irmã, que hoje faz anos, mas não quer que se diga quantos. "Era só o que faltava!".

DE RAMO EM RAMO

Não queiras transformar
em nostalgia
o que foi exaltação,
em lixo o que foi cristal!
A velhice,
o primeiro sinal
de doença da alma, 
às vezes contamina o corpo.
Nenhum pássaro
permite à morte dominar
o azul do seu canto.
Faz como eles: dança de ramo 
em ramo.

Eugénio de Andrade
Poesia
Fund. Eugénio de Andrade (2000)

quarta-feira, 23 de agosto de 2023

Palavras bonitas

Para o meu pai que, há 8 anos, subiu as colinas e desceu em busca da clareza do olhar definitivo.

Estou sentado nos primeiros anos da minha vida,
o verão já começou, e a porosa
sombra das oliveiras abre-se à nudez
do olhar. Lá para o fim da tarde
a poeira do rebanho não deixará
romper a lua. Quanto ao pastor,
talvez um dia suba com ele às colinas,
e se aviste o mar.

Poesia
Eugénio de Andrade
Fundação Eugénio de Andrade (2000)

quinta-feira, 19 de janeiro de 2023

Palavras bonitas

Passam hoje 100 anos sobre o nascimento do grande Eugénio de Andrade.

Agora as palavras

Obedecem-me agora muito menos,
as palavras. A propósito
de nada resmungam, não fazem
caso do que lhes digo,
não respeitam a minha idade.
Provavelmente fartaram-se da rédea,
não me perdoam
a mão rigorosa, a indiferença
pelo fogo-de-artifício.
Eu gosto delas, nunca tive outra
paixão, e elas durante muitos anos
também gostaram de mim: dançavam
à minha roda quando as encontrava.
Com elas fazia o lume,
sustentava os meus dias, mas agora
estão ariscas, escapam-se por entre
as mãos, arreganham os dentes
se tento retê-las. Ou será que
já só procuro as mais encabritadas?

O sal da língua
Eugénio de Andrade
Associação Portuguesa de Escritores (2001)

quarta-feira, 20 de julho de 2022

Aniversário

Encerra hoje o ciclo anual das datas de aniversários dos netos, dias que são, sem qualquer dúvida, os mais importantes de cada ano. O neto, segundo na hierarquia das idades, completa a primeira capicua das muitas que, na sua vida, irá cumprir.

O Vasco faz onze anos da forma discreta como sempre se apresenta. Tímido, com poucas palavras, sabedor, irónico por vezes, inteligente sempre. Tem força e fibra naquele corpo aparentemente frágil, sempre atento ao que se passa à sua volta, deixando que transpareça o contrário.

CONSELHO

Sê paciente: espera
que a palavra amadureça 
e se desprenda como um fruto
ao passar o vento que a mereça.

Poesia
Eugénio de Andrade
Fund. Eugénio de Andrade (2000)

terça-feira, 22 de dezembro de 2020

Palavras bonitas

ALGUMAS IMAGENS DO INVERNO

Chega mais cedo;
conheço-lhe os passos:
já muita vez aqueceu as mãos
ao lume das minhas.
Vai demorar-se;
sacudir a lama, remendar
os sapatos, tirar o sal
que se juntou em redor dos lábios.
Entre o silêncio e o falar
não há senão
espaço para anoitecer.
Tão pesadas, as folhas do ar.

Poesia
Eugénio de Andrade
Fundação Eugénio de Andrade (2000)

sábado, 21 de março de 2020

Dia Mundial da Poesia

Da crónica de Pacheco Pereira, hoje no Público, respigo:
(...) Mas, resumindo e concluindo, três coisas contam nesta pandemia: vida, cultura e dinheiro. Infelizmente, estão todas muito mal distribuídas, em particular a última. Mas, pelo menos na cultura, sempre se pode combater a incultura que cresce perante a cobardia e a inércia de muitos que acham que esta é a "realidade" dos nossos tempos e não há nada a fazer. Há e muito. Não é remédio absoluto, mas ajuda. (...)

No Dia Mundial da Poesia, dois poemas de Eugénio de Andrade, para deleite de quem espera, e acredita, que virão melhores dias e que, apesar de tudo, o mundo não vai acabar. 
Mas vai ser diferente, vai, vai!

CONSELHO

Sê paciente; espera
que a palavra amadureça
e se desprenda com um fruto
ao passar o vento que a mereça.

OS AMANTES SEM DINHEIRO

Tinham o rosto aberto a quem passava.
Tinham lendas e mitos
e frio no coração.
Tinham jardins onde a lua passeava
de mãos dadas com a água
e um anjo de pedra por irmão.

Tinham como toda a gente
o milagre de cada dia
escorrendo pelos telhados;
e olhos de oiro
onde ardiam
os sonhos mais tresmalhados.

Tinham fome e sede como os bichos,
e silêncio
à roda dos seus passos.
Mas a cada gesto que faziam
um pássaro nascia dos seus dedos
e deslumbrado penetrava nos espaços.

Eugénio de Andrade
Fund.Engénio de Andrade (2000)

quarta-feira, 8 de maio de 2019

Dia da Mãe

Hoje é (era) o Dia da minha mãe. 
Faria 96 anos, se ainda por cá estivesse,

CANTO ROUCO

Antes que perca a memória
das pedras do adro,
antes do corpo ser
um sopro e quebrado
ramo sem água,
devolvei-me o canto
rouco
e desamparado
do harmónio da noite.

Mãe!,
desamparado na noite.

Eugénio de Andrade
Poesia
Fundação Eugénio de Andrade (2000)

terça-feira, 21 de março de 2017

Dia Mundial da Poesia

A poesia não vai                                                 

A poesia não vai à missa,
não obedece ao sino da paróquia,
prefere atiçar os seus cães
às pernas de deus e dos cobradores
de impostos.
Língua de fogo do não,
caminho estreito
e surdo da abdicação, a poesia          
é uma espécie de animal
no escuro recusando a mão                            
que o chama.                                                    
Animal solitário, às vezes
irónico, às vezes amável,
quase sempre paciente e sem piedade.
A poesia adora
andar descalça nas areias do verão.

Eugénio de Andrade
O sal da língua

Esteira e cesto

No entrançar de cestos ou de esteira
Há um saber que vive e não desterra
Como se o tecedor a si próprio se tecesse
E não entrançasse unicamente esteira e cesto
Mas seu humano casamento com a terra

Será possível

Será possível que nada se cumprisse?
Que o roseiral a brisa as folhas de hera
Fossem como palavras sem sentido
- Que nada seja, senão seu rosto ido
Sem regresso nem resposta - só perdido?

Sophia de Mello Breyer Andresen
O nome das coisas

quarta-feira, 24 de junho de 2015

NETOS

Começa hoje um período de efemérides sem primeiras páginas nem alaridos televisivos, mas muito caras para quem escreve estas linhas. 
Durará até ao dia 20 de Julho e os motivos que lhe dão origem têm, em si mesmo, razões de sobra para que a festa seja rija e fique na memória dos protagonistas e também na minha.
O meu neto mais novo - DUARTE - faz hoje 3 anos; no próximo dia 5, o mais velho - GIL - completará 9 e no dia 20, o do meio - VASCO - chegará às 4 primaveras.
E tudo isto em menos de um mês! Emoções enormes para um coração que já vai tendo algumas dificuldades de as controlar.
Três "rapazolas" tão diferentes, que fazem as delícias do avô (babado) e de todos os que lhe estão próximos.
Hoje, parabéns ao DUDU, que o dia é todo dele!

FRUTOS

Pêssegos, peras, laranjas,
morangos, cerejas, figos,
maçãs, melão, melancia,
Ó música de meus sentidos,
pura delícia da língua;
deixai-me agora falar
do fruto que me fascina,
pelo sabor, pela cor,
pelo aroma das sílabas:
tangerina, tangerina.
Eugénio de Andrade

Os últimos versos do grande Eugénio de Andrade podiam ser substituídos pelo Dudu assim:

deixai-me agora falar
daquilo que me fascina,
pelas pontes, pela cor,
pelo prazer de brincar:
"palicina, palicina."

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Palavras bonitas ... para a minha mãe

LUGAR DO SOL

Há um lugar na mesa onde a luz
abdicou do seu ofício.
Já foi do sol
e do trigo esse lugar - agora
por mais que escutes, não voltarás
a ouvir a voz de quem,
há muitos anos, era a delicadeza
da terra a falar: "Não sujes
a toalha"; "Não comes a maçã?"
Também já não há quem se debruce
na janela para sentir
o corpo atravessado pela manhã.
Talvez só um ou outro verso
consiga juntar no seu ritmo
luz, voz, maçã.

Eugénio de Andrade
Ofício de Paciência

A minha mãe faria hoje 91 anos, mas "a luz abdicou do seu ofício".

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Palavras bonitas

O SORRISO

Creio que foi o sorriso,
o sorriso foi quem abriu a porta.
Era um sorriso com muita luz
lá dentro, apetecia
entrar nele, tirar a roupa, ficar
nu dentro daquele sorriso.
Correr, navegar, morrer naquele sorriso.

Poesia
Eugénio de Andrade
Fund. Eugénio de Andrade (2005)

quarta-feira, 21 de março de 2012

Palavras bonitas

P A I S A G E M

Passavam pelo ar aves repentinas,
O cheiro da terra era fundo e amargo,
E ao longe as cavalgadas do mar largo
Sacudiam na areia as suas crinas

Era o céu azul, o campo verde, a terra escura,
Era a carne das árvores elástica e dura,
Eram as gotas de sangue da resina
E as folhas em que a luz se descombina.

Eram os caminhos num ir lento,
Eram as mãos profundas do vento
Era o livre e luminoso chamamento
Da asa dos espaços fugitiva.

Eram os pinheirais onde o céu poisa,
Era o peso e era a cor de cada coisa,
A sua quietude, secretamente viva,
E a sua exaltação afirmativa.

Era a verdade e a força do mar largo,
Cuja voz, quando se quebra, sobe,
Era o regresso sem fim e a claridade
Das praias onde a direito o vento corre.

Poesia
Sophia de Mello Breyner Andresen
Caminho (2005)

F O L H I N H A

Murchou a flor aberta ao sol do tempo.
Assim tinha de ser, neste renovo
Quotidiano.
Outro ano,
Outra flor,
Outro perfume.
O gume
Do cansaço
Vai ceifando,
E o braço
Doutro sonho
Semeando.
É essa a eternidade:
A permanente rendição da vida.

Outro ano,
Outra flor,
Outro perfume,
E o lume
De não sei que ilusão a arder no cume
De não sei que expressão nunca atingida.

Orfeu Rebelde
Miguel Torga
Gráfica de Coimbra (1922)

R I C O C H E T E

Que margens têm os rios
Para além das suas margens?
Que viagens são navios?
Que navios são viagens?

Que contrário é uma estrela?
Que estrela é este contrário
De imaginarmos por vê-la
Tudo à volta imaginário?

Que paralelas partidas
Nos articulam os braços
Em formas interrompidas
Para encarnar um espaço?

Que rua vai dar ao tempo?
Que tempo vai dar à rua
Por onde o Firmamento
E a Terra se unem na lua?

Que palavra é o silêncio?
Que silêncio é esta voz
Que num soluço suspenso
Chora flores dentro de nós?

Que sereia é o poente,
Metade não sei de quê
A pentear-se com o pente
Do olhar finito que o vê?

Que medida é o tamanho
De estar sentado ou de pé?
Que contraste torna estranho
Um corpo à alma que é?

O Sol nas noites e o luar nos dias
Natália Correia
Círculo de Leitores (1993)

D U N A S

É o mar do deserto, ondulação
Sem fim das dunas,
Onde dormir, onde estender o corpo
Sobre outro corpo, o peito vasto,
As pernas finas, longas,
As nádegas rijas, colinas
Sucessivas onde o vento
Demora os dedos, e as cabras
Passam, e o pastor
Sonha oásis perto,
E o verde das palmeiras se levanta
Até à nossa boca, até à nossa alma
Com sede de outras dunas,
Onde o corpo do amor
Seja por fim um gole de água.

O sal da língua
Eugénio de Andrade
APEL (2001)

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Palavras bonitas ...

... para o meu filho, que faz hoje 30 anos.

LUGAR DO SOL

Há um lugar na mesa onde a luz
abdicou do seu ofício.
Já foi do sol
e do trigo esse lugar - agora
por mais que escutes, não voltarás
a ouvir a voz de quem,
há muitos anos, era a delicadeza
da terra: "Não sujes
 a toalha", "Não comes a maçã?"
Também já não há quem se debruce
na janela para sentir
o corpo atravessado pela manhã.
Talvez só um ou outro verso
consiga juntar no seu ritmo
luz, voz, maçã.
Poesia
Eugénio de Andrade
Fund. Eugénio de Andrade (2005)

segunda-feira, 21 de março de 2011

Palavras bonitas

LIBERDADE

Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
O sol doira
Sem literatura.
O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo não tem pressa …

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto é melhor, quando há bruma,
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças …
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

O mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca …

Fernando Pessoa

EM TODOS OS JARDINS

Em todos os jardins hei-de florir,
Em todos beberei a lua cheia,
Quando enfim no meu fim eu possuir
Todas as praias onde o mar ondeia.

Um dia serei eu o mar e a areia,
A tudo quanto existe me hei-de unir,
E o meu sangue arrasta em cada veia
Esse abraço que um dia se há-de abrir.

Então receberei no meu desejo
Todo o fogo que habita na floresta
Conhecido por mim como num beijo.

Então serei o ritmo das paisagens,
A secreta abundância dessa festa
Que eu via prometida nas imagens

Sophia de Mello Breyner Andresen

MIRADOIRO

Com tristeza e vergonha enternecida,
Olho daqui
A ponte das palavras
Que construí
Sobre o abismo da vida.

Sonhei-a;
Desenhei-a;
Sólida até onde pude,
Lancei-a como um salto de gazela:
E não passei por ela!

Vim por baixo, agarrado ao chão do mundo.
Filho de Adão e Eva,
Era de terra e treva
O meu destino.
E cá vou como um pobre peregrino.

Miguel Torga

O SAL DA LÍNGUA

Escuta, escuta: tenho ainda
Uma coisa a dizer.
Não é importante, eu sei, não vai
Salvar o mundo, não mudará
 A vida de ninguém – mas quem
É hoje capaz de salvar o mundo
Ou apenas mudar o sentido
Da vida de alguém?

Escuta-me, não te demoro.
É coisa pouca, como a chuvinha
Que vem vindo devagar.
São três, quatro palavras, pouco
Mais. Palavras que te quero confiar.

Para que não se extinga o seu lume,
O seu lume breve.
Palavras que muito amei,
Que talvez ame ainda.
Elas são a casa, o sal da língua.

Eugénio de Andrade

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Palavras bonitas

SONETO
 
Amor desta tarde que arrefeceu
as mãos e os olhos que te dei;
amor exacto, vivo, desenhado
a fogo, onde eu próprio me queimei;
amor que me destrói e destruiu
a fria arquitectura desta tarde
- só a ti canto, que nem eu já sei
outra forma de ser e de encontrar-me.
Só a ti canto que não há razão
para que o frio que me queima os olhos
me trespasse e me suba ao coração;
só a ti canto, que não há desastre
de onde não possa ainda erguer-me
para encontrar de novo a tua face.

Poesia
Eugénio de Andrade
Fundação Eugénio de Andrade (2000)

segunda-feira, 2 de março de 2009

Palavras bonitas

DESPEDIDA

Volto-me e são brancos
os cavalos.
O trigo novo, a música
dos nomes, o tempo da flor,
tudo isso passou.
Mas a terra brilha
como quem não conhece a morte.
Volto-me, os pombos regressam.
Tu já não estavas
e só eu
os vi chegar.

Poesia
Eugénio de Andrade
Fund. Eugénio de Andrade (2005)

sexta-feira, 7 de março de 2008

Palavras bonitas

COM AS GAIVOTAS

Contente de me dar como as gaivotas
bebo o outono e a tarde arrefecida.
Perfeito o céu, perfeito o mar, e este amor
por mais que digam é perfeito como a vida

Tenho tristezas como toda a gente.
E como toda a gente quero alegria.
Mas hoje sou de um céu que tem gaivotas,
leve o diabo essa morte dia a dia.

Poesia
Eugénio de Andrade
Fund. Eugénio de Andrade (2000)

segunda-feira, 7 de maio de 2007

Palavras bonitas

Uma mulher a cantar
de cabelo despenteado.

(Era o tempo das gaivotas
mas o mar tinha secado.)

Pelos seus braços caíam
frutos maduros de outono,

pelas pernas escorriam
águas mortas de abandono.

(Uma criança juntava
o cabelo destrançado.)

Gaivotas não as havia
e o mar tinha secado.

Poesia
Eugénio de Andrade
Fund. Eugénio de Andrade (2005)

sexta-feira, 2 de março de 2007

Palavras bonitas

POEMA À MÃE
...
Olha - queres ouvir-me? -
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;
ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;
ainda oiço a tua voz:
Era uma vez uma princesa
no meio do laranjal ...
Mas - tu sabes - a noite é enorme,
e todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber.
Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas.
Boa noite. Eu vou com as aves.

Poesia
Eugénio de Andrade
Fund. Eugénio de Andrade (2005)