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quarta-feira, 13 de janeiro de 2021

Melros

Quem, como eu, os conhece desde a infância, não estranha o seu comportamento esquivo, na procura dos seus interesses, mesmo atropelando os de todos os outros. Muito mais espertos que os pardais, os melros movimentam-se pela calada, escondem-se na vegetação, voam para longe quando lhes cheira a esturro e só cantam quando têm garantida audiência e se encontram bem protegidos. 

Habituei-me desde cedo a conhecer os melros que, com maior ou menor desfaçatez, me foram surgindo pela frente, sem dar às asas mas insinuando-se de forma subtil para, de uma forma que parecesse lícita, voarem até ao alvo pretendido. O importante, para esses melros era, e é, evitar a frontalidade, mesmo quando infringem todas as regras, nomeadamente aquelas pelas quais garantem reger-se.

Apesar de, como o cântaro, já ter ido tantas vezes à fonte, ainda dou por mim a perguntar porque razão determinado melro seguiu esta ou aquela estratégia, varrendo para debaixo da mesa princípios éticos que sempre apregoou, procurando soluções que sempre disse abominar e, apesar das evidências, ainda é capaz de colocar o seu angelical rosto de santinho, pretendendo fazer crer que não contam com ele para partir um prato, muito menos o guarda-louça.

Nestas ocasiões, apetece-me sempre puxar do adágio e dizer-lhe, em voz bem alta e sem receios, que confio muito que talvez vás à lã e venhas tosquiado.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2020

Melros

As visitas dos melros ao meu quintal continuam, para minha grande satisfação. Porém, não se restringem ao meu quintal. Aqui só vêm melros pacíficos e de um preto lindo, com vontade de cantarolar e de se esconder, de brincar e passear, nunca de importunar.

Todavia, cada vez mais se ouvem por aí outros melros, a gritar, a escrever, a chafurdar, vomitando ódio, revolta, vingança, ressabiados com tudo quanto mexe e não é da sua opinião, logo deles que, como toda a gente sabe, são dotados e muito e disso deram prova durante quase meio século.

Na maior parte dos casos, são melros que pensam pela cabeça de outros, mais melros, que os usam para que a conversa pareça ter algum nexo, ser credível, vinda de gente que "não tendo onde cair morta" nem sabendo escrever duas linhas direito, se dispõe a servir-lhe de capacho.

E fazem-no socializando nas redes, tornando-as mais mal cheirosas que muitos esgotos. Estes melros podem falar, e gritar, e asneirar, deitando abaixo os tempos actuais e colocando nos píncaros o antigamente, de tão má memória que, a bem dizer, nem merecem duas linhas. 

Valha-nos a paciência infinita que a democracia exige e a capacidade que tem para aturar e dar voz a esta gente.

sábado, 19 de setembro de 2020

Melros

Como já por aqui ficou mais ou menos expresso, gosto muito de melros. Devem ter sido dos primeiros pássaros de que aprendi o nome, e a reconhecer pela aparência e pelo seu canto variado e sonoro. No tempo em que se ia aos ninhos - nos dias de hoje, frase sacrílega e socialmente inaceitável - os de melro eram dos mais difíceis de encontrar e raramente se conseguia detectá-los com crias. Passe a imodéstia da mistura, Miguel Torga refere-se a eles bastas vezes na sua obra e, em particular, em A Vindima.

Hoje, os melros invadiram as cidades, os parques, as ruas, os jardins, as habitações, numa convivência sem sustos, quase sugerindo que sempre por aqui habitaram e comportando-se como verdadeiros conhecedores do terreno.

Talvez por isso, aparecem com frequência alguns "melros" de duas pernas, que espalham a sua "esperteza" fazendo-nos de parvos a cada momento. Nestes, também o canto é sonoro, variado, muitas vezes estridente. Voam alto, protegem-se bem, compram disfarces e companhias, raramente se lhes vê o "ninho".

E não se pode exterminá-los? Pode, mas é necessário provar, em várias instâncias, que os "cabritos" não caíram do céu nem nasceram por geração espontânea. E isso é muito mais difícil do que detectar um ninho de melro verdadeiro.

Dos verdadeiros, eu quero que se continuem a deliciar (e a deliciar-me) no jardim, ainda que isso implique partilhar ginjas, morangos e mirtilos antes mesmo de amadurecerem. 

Quanto aos "passarões", gostava de os presentear com uma gaiola grande, onde poderiam conviver todos , em festa contínua, sem champagne nem caviar.

quarta-feira, 1 de abril de 2020

Melros

Passa todos os dias pelo jardim.
Primeiro, pousa no telhado fronteiro, averigua os perigos e, de repente, ei-lo que pousa na relva, ciranda, debica, saltita, sempre de olhar atento não vá surgir algo ou alguém que o possa colocar em perigo, real ou imaginado.
Ao mínimo som ou aparição, ei-lo que parte, com o silvo habitual e o voar inconfundível, bem distinto de todas as outras aves.
É o melro que é um "melro". Esperto, frio, atento, desconfiado. Arrisca sem medo, com cuidados metódicos e quase sempre sozinho.
Ao contrário do que acontecia dantes, os melros tornaram-se habitantes da cidade e, tal como os pardais, já fazem parte da "mobília" citadina. Não se agrupam e os convívios sociais são reduzidos ao mínimo. Vivem quase em permanente quarentena, mas não consta que possam ser contagiados pelo coronavírus nem obrigados ao confinamento. Gozam de liberdade plena e sem receio que a autoridade os possa interpelar para saber se vão para o trabalho, para a mercearia ou para a farmácia.
Com toda esta liberdade de movimentos, espera-se que da sua habituação e integração na cidade, não resulte a transmissão dos seus defeitos e que os humanos não se tornem uns "melros" mais desconfiados, mais frios, mais individualistas, mais calculistas, e que sejam solidários, agora e no futuro, se e quando as coisas se complicarem ainda mais.
E que, tal como o melro, os "melros" deixem de cuspir para o chão ...