sábado, 11 de julho de 2026

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Em qualquer floresta de enganos faz muito falta um Bugalho!

Conseguido este, fica o país tranquilo e dormem descansados o Ministro das Finanças, o Primeiro-Ministro e o Ministro da Educação, aos quais foi poupada a dificuldade de decisão, tão cara quanto difícil, como todos sabemos.

Este Bugalho, recentemente mandatado para porta-voz do PSD, decidiu mandar pagar as horas extraordinárias aos professores que estão a corrigir os recentes exames, alvo de uma salgalhada que ninguém entende, muito menos os alunos. Mas o Bugalho sabe as causas, as consequências e os remédios. Vai daí, deu a ordem pública para pagar e agora o responsável pelos "carcanhóis" que se desenrasque. Manda quem pode, obedece quem deve ...

"Assim também eu", como diz o César Mourão na publicidade ao Continente ou "o que importa é a publicidade", como diria o Carlinhos, depois da sua aventura amorosa com a professora!

sexta-feira, 10 de julho de 2026

História

Dêem as voltas que derem, omitam ou dediquem um pequeno rodapé, a história registará para sempre que, há dez anos, em Paris, Portugal venceu a França por 1-0, com um golo de Éder. Foi a primeira vez, e até agora, única, que a nossa selecção conseguiu o título de Campeão Europeu de Futebol. 

quinta-feira, 9 de julho de 2026

Livros (lidos ou em vias disso)

"(...) Estava a ser um verão duro. Não se podia sair da sombra, sair de casa, sair da cama, dos sonhos. O melhor era viver nos sonhos e nas noites, que também eram para sonhar. E a Pessivista perguntava: é verdade que o incrível Agilulfo não sonhava. Refazia a pergunta: conta-se que tinha noites como ausências, como se a alma e o corpo não coincidissem. Ele terá confessado que perdia a alma no sono, não sabia onde se guardaria, talvez prestasse serviço noutra dimensão absolutamente fechada ao conhecimento do corpo que esperava inerte, abandonado, na cama. Talvez as almas de uns prestem serviço a outros no lado oposto do mundo. Quando aqui é noite, é dia no planeta ao contrário. Talvez a alma de Agilulfo lhe fosse do corpo ao deitar para prestar serviço a alguém que justamente acordaria naquele instante. As mulheres riam discretas, para não fazer daquilo uma estupidez. Deixavam que fosse coisa poética. Uma ideia bonita muito bem ambientada entre os tons da salinha que ocupavam. E a Pasteleira, sempre agarrada à nova fé, dizia que não queria nada aceitar perder a alma à noite e que passaria a trancar a sete chaves as portas e as janelas, haveria de calafetar cada ínfimo buraco para não arriscar que a alma lhe fugisse nem que fosse mais magra do que um alfinete. Aprenderia a pôr-lhe cabresto, uma coleira, uma corrente de aço com uma bola de pedra na ponta, alguma coisa tão aprisionante, que não daria mais de uns milímetros de distância do coração. A alma que se levantasse mais de um milímetro do coração já deixaria saudade. Não queria. Era cobiçosa da alma e só lhe dava vontade de a aumentar, de a ter mais e mais. Brincavam. Estavam a brincar. Queriam comentar sobre os assassinos, mas ainda não ganhavam coragem. E a Marquesa, sem costumes humorísticos, apontando para as laranjas frescas que a Criada acabava de deixar num tabuleiro irrepreensível, dizia que o esposo não era de garantia. Tudo o que pode ter dito também podia significar o contrário. Era enigma de quem existiu diferente, como os génios. Agilulfo, com a graça de Deus, era como os génios. Não se comparava com a normalidade. Ao dizê-lo, outra vez se escutou a sineta e a Criada correu a buscar a Coveira, que era confiante de encontrar ali um figurino para um casamento da prima a acontecer no fim de Agosto. Deram-se boas tardes como já uma pequena multidão, e a Coveira perguntou: alguma coisa azul-celeste. Quero ir de azul-celeste, para me valorizar os olhos.(...)"

O século dos imbecis
Valter Hugo Mãe

quarta-feira, 8 de julho de 2026

Recordar

Por vezes, a ordem aleatória traz surpresas e recordações, sem necessidade de olhar o céu ou pró céu. E, de cada vez que esta voz surge, vem à memória uma noite velha, quente e bem estrelada no Alentejo profundo.

Foi há muitos, muitos anos, no Festival do Crato e nunca mais foi esquecida!

terça-feira, 7 de julho de 2026

Futebol irónico

Para quem não tem filhos dependentes da brilhante correcção digital dos exames, que está a acontecer e não se imagina quando irá terminar, já é possível ir de férias descansado ou passar os dias na praia sem preocupações.

O Mundial de futebol acabou ontem, para os devidos e legais efeitos, muito embora ainda haja alguns jogos para realizar até ao apuramento do campeão, coisa completamente irrelevante, diga-se. O Primeiro-Ministro poderá voltar ao sossego da sua caminha e deixar a obrigação de dormitar nos aviões que, apressadamente, o carregam de um lado para o outro. Não existirá mais abertura de telejornal ou primeira página de jornais com as notícias que, desde ontem, perderam todo e qualquer interesse. O gosto pela modalidade claramente sentido por 10 milhões de portugueses (ou serão onze?) eclipsou-se e vamos agora estar focados no nome do próximo seleccionador, nos reforços de jogadores "enormes" que todos os dias pisam a Portela e em saber se Cristiano Ronaldo vai levar Roberto Martinez para a Arábia.

Entretanto, dever-se-á dar início a uma campanha de recolha de assinaturas para exigir que a presidência da FIFA passe a ser ocupada pelo "homem da melena". Reúne todas as condições e será o homem certo no lugar certo, depois do seu brilhante desempenho neste Mundial: não deixou entrar o árbitro somali que tinha sido designado por quem de direito; obrigou a comitiva do Irão a dormir no México, para que não se corresse o risco de os lençóis americanos ficarem conspurcados; anulou o castigo correspondente a um cartão vermelho directo, que foi mostrado (e bem) a um jogador dos Estados Unidos. Só não conseguiu evitar a derrota destes frente à Bélgica, decerto por desconhecer que, por enquanto, no futebol ainda ganha quem marca mais golos ... mas isso vai acabar, podem ter a certeza!   

domingo, 5 de julho de 2026

Duas dezenas

Como o tempo passa ...

Há vinte anos, nasceu o meu neto primeiro de quatro na escala da idade, única que produz algumas diferenças. Enorme, forte, antevendo o tamanho que o passar dos dias viria a confirmar.

Nasceu grande, cresceu bem e vai continuar a ser enorme, por muitos e bons anos, dos quais eu ainda quero ver mais uns quantos.

A vida há-de sorrir-lhe, porque o merece, e ser clara como a água da sua predilecção, e também generosa, copiando uma das suas muitas qualidades.

Parabéns meu neto GRANDE!

Mostrai-me as anémonas, as medusas e os corais
Do fundo do mar.
Eu nasci há um instante.
Mar
Sophia de Mello Breyner Andresen
Caminho (2001)

sexta-feira, 26 de junho de 2026

Livros (lidos ou em vias disso)

"PRIMAS DE SAPUCAIA!

(...) Era à porta de uma igreja. Eu esperava que as minhas primas Claudina e Rosa tomassem água benta, para conduzi-las à nossa casa, onde estavam hospedadas. Tinham vindo de Sapucaia, pelo Carnaval, e demoraram-se dois meses na corte. Era eu que as acompanhava a toda a parte, missas, teatros, rua do Ouvidor, porque minha mãe, com o seu reumático, mal podia mover-se dentro de casa, e elas não sabiam andar sós. Sapucaia era a nossa pátria comum. Embora todos os parentes estivessem dispersos, ali nasceu o tronco da família. Meu tio José Ribeiro, pai destas primas, foi o único, de cinco irmãos, que lá ficou lavrando a terra e figurando na política do lugar. Eu vim cedo para a corte, donde segui a estudar e bacharelar-me em São Paulo. Voltei uma só vez a Sapucaia, para pleitear uma eleição, que perdi.

Rigorosamente, todas estas notícias são desnecessárias para a compreensão da minha aventura; mas é um modo de ir dizendo alguma coisa, antes de entrar em matéria, para a qual não acho porta grande nem pequena; o melhor é afrouxar a rédea à pena, e ela que vá andando, até achar entrada. Há de haver alguma; tudo depende das circunstâncias, regra que tanto serve para o estilo como para a vida; palavra puxa palavra, uma ideia traz outra, e assim se faz um livro, um governo, ou uma revolução; alguns dizem mesmo que assim é que a natureza compôs as suas espécies.

Portanto, água benta e porta de igreja. Era a igreja de São José. A missa acabara; Claudina e Rosa fizeram uma cruz na testa, com o dedo polegar, molhado na água benta e descalçado unicamente para esse gesto. Depois ajustaram os manteletes, enquanto eu, no portal, ia vendo as damas que saíam. De repente, estremeço, inclino-me para fora, chego mesmo a dar dois passos na direção da rua.

- Que foi, primo?

- Nada, nada.

Era uma senhora, que passara rentezinha com a igreja, vagarosa, cabisbaixa, apoiando-se no chapelinho de sol; ia pela rua da Misericórdia acima. Para explicar a minha comoção, é preciso dizer que era a segunda vez que a via. (...)"

Singular ocorrência
e outras histórias de mulheres
Machado de Assis
Tinta da China (2026)

quarta-feira, 24 de junho de 2026

Amanhã é um novo dia!

São 14 anos, a idade das confusões, dos anseios, da exigência, dos projectos, dos porquês, da afirmação da personalidade que se deseja bem vincada, com espírito crítico e respeito pelos outros, como tem sido até aqui e vai continuar, disso tenho a certeza.

O aniversariante de hoje - o meu DUDU- está bem longe, lá nos "confins" de um mundo em ebulição, com guerras "à porta" e uma cultura bem diferente, que lhe trouxe vivências e conhecimentos que não mais esquecerá.  Porém e felizmente, o mundo é cada vez mais pequenino, e amanhã já receberá aquele abraço apertado, assim que assomar à rampa do aeroporto. Estarei a aguardá-lo(s), deliciado, emocionado, exultante, sem palavras, para o(s) ver e sentir, com a certeza de que, aqui, no conforto da frescura do Oeste, apesar de tudo, "tá-se" melhor!

ERA O TEMPO

Era o tempo das amizades visionárias
Entregues à sombra à luz à penumbra
E ao rumor mais secreto das ramagens
Era o tempo extático das luas
Quando a noite se azulava fabulosa e lenta
Era o tempo do múltiplo desejo e da paixão
Os dias como harpas ressoavam
Era o tempo de oiro das praias luzidias
Quando a fome de tudo se acendia.

O búzio de Cós e outros poemas
Sophia de Mello Breyner Andresen
Caminho (2004)

sexta-feira, 19 de junho de 2026

Futebóis

E, teimosamente, o Expresso continua a ser lido semanalmente em papel e, na benesse inerente à compra, diariamente em formato digital.

Na edição de hoje, Miguel Sousa Tavares põe o dedo nas várias feridas, nossas e do mundo, e António produz, como sempre, uma delícia. 

quarta-feira, 17 de junho de 2026

Livros (lidos ou em vias disso)

"(...) Não identifica uma altura exacta em que a banca começou a mudar para ele, sempre esteve em mudança, desde as fichas e fichinhas, passando pelos computadores de 256K ou as fitas de banda magnética com três pistas (que mais tarde dariam origem aos terminais de POS) e chegando, nos séculos XX e XXI, à digitalização, às comunicações, aos chipes e à inteligência artificial. Diz que a banca conseguiu fazer o aproveitamento da tecnologia, especialmente do avanço das comunicações: <<Foi como passar de um caminho de cabras para uma autoestrada. No resto, a banca é como tudo, vivia sob regras, listas de antiguidade, espírito de equipa, mas sem carneirismo. Havia um lado humano, protetor, mas sem ter o pastor lá do sítio. Alguns colegas atravessavam dificuldades e havia sempre maneira de ajudar. Tinha-se mais vida social. A maior parte do pessoal estudava à noite e por isso cruzavam-se em sítios distintos, no banco e na escola. A partir dos anos 2000, isso perdeu-se.>>

 (...) Conheço-a há muitos anos, somos amigos de longa data. Convidei-a para dar o seu testemunho, certo de que as suas palavras acrescentariam luz e verdade a estas páginas. Respondeu-me pelo WhatsApp. Li a mensagem de um fôlego, e soube logo que não poderia existir melhor forma de terminar este livro. Não porque fale, mas precisamente porque recusa falar. Porque a recusa, com todas as feridas e silêncios que arrasta, é também um retrato fiel daquilo que aconteceu a uma geração inteira de bancários neste país.

<<Eu não sei se quero participar, Luís ... Optei por fechar este capítulo em definitivo, o mais possível, porque em absoluto não é possível. Voltar a "abrir" não é algo que tenha vontade. E de que é que nos vale ou adianta a exposição? Vale zero!  Nunca ninguém se interessou por nós, pela hecatombe que foi nas vidas de muitos de nós. Eu, para viver com dignidade mínima e pagar as minhas contas, trabalho numa actividade que está na base da pirâmide social, com tudo o que acarreta. Não é "vergonha" nenhuma, mas não era a minha expectativa de vida, não foi a minha projeção de vida nem para o que trabalhei. Não tendo estabilidade no rendimento mensal, tive de antecipar o pedido de reforma ao abrigo do desemprego de longa duração. Do Fundo de Pensões recebo 330 euros e da Segurança Social 506 euros, para 38 anos de carreira contributiva, no total. Eu não quero falar da banca, nem do banco, nem de despedimentos, nem do que seja. Não fiques aborrecido comigo, mas a única interação que tenho com o banco é o pagamento da casa no dia 23. E, agora, os 330 euros que me pagam por 25 anos de trabalho. Ninguém quis saber. Ninguém quer saber. O modelo de cálculo das reformas é algo de tão surreal! É um roubo autorizado e legalizado. É o lançar para os parâmetros da pobreza quem sempre trabalhou, produziu e contribuiu, quem educou filhos e investiu na formação das gerações mais bem preparadas que este país alguma vez teve. Não há um tribunal que nos dê razão, que nos oiça, que nos valorize e devolva a possibilidade de uma velhice digna. Para se sobreviver a isto, só "arrumando" o assunto. É o que tento fazer, pelo menos de há uns dois anos a esta parte. E não quero reabrir essa "gaveta" ...>>

Bancários
Luís Bento
Fundação Manuel Francisco dos Santos (2026)

sexta-feira, 12 de junho de 2026

Cinismo

O que qualquer pessoa de bom senso desejaria e esperaria era que OMAR ARTAN fosse o árbitro da final do Campeonato do Mundo de Futebol de 2026, que ontem se iniciou no México, Estados Unidos e Canadá.

Vindo de um país situado nos degraus mais baixos da escada (em tempo apelidado de lixo por essa inteligência rara que manda nos USA), foi considerado o melhor árbitro de África em 2025. A sua participação seria um espelho onde toda a gente que por lá nasceu decerto se reveria com muito orgulho e com a certeza de que o local de nascimento não é um ferrete indelével.

Não aconteceu! O homem da melena impediu-o de entrar por vir da miséria e não pertencer ao escol do "cacau". Imagine-se o risco que ele correria se o homem desse uma lição de arbitragem e mostrasse que, afinal, o berço impede muita coisa mas não trava tudo.

Esperar-se-ia uma reacção forte das entidades responsáveis e dos colegas de profissão. Nada! Toda a gente se calou, a bem do "desporto" e do "cacau"!!!

segunda-feira, 8 de junho de 2026

Cansaço

Apetecia-me tanto escrever sobre guerra, drones, carros de combate, ordem unida, pista de obstáculos, pórtico, detentor do cão, rancho, formatura, divisas e galões, aviões, balas normais e tracejantes, mísseis, pára-quedas, corvetas, cornetas, porta-aviões, defesa anti-aérea, granadas, metralhadoras, continências e manejo de armas, tiro, valas, trincheiras, minas, mas estou cansado ... e convencido que sou um nabo azucrinado pelo homem da melena e pela corte de apaniguados que religiosamente o segue.

Reduz-te à tua insignificância e aguarda, serenamente, que te peçam umas "lecas" para comprar os imprescindíveis F-35!

quarta-feira, 3 de junho de 2026

Livros (lidos ou em vias disso)

É por estas e por outras que continuo a ler, mantendo a teimosia de há tantos, mas tantos anos. E continua a valer a pena ...

"(...) Depois de decidir que deveria conquistar o segurança mudo através da narração dum conto, minimizando o gesto impulsivo e suspeito que tive com a porcaria do plano dos caroços de pêssego - que me dá esperança na mesma medida em que me oferece desespero - e tentando ir mais longe e sensibilizá-lo para a minha causa revolucionária, este foi o passo que dei no sentido de seduzir um inimigo que à partida deveria estar do meu lado, pois ambos sofremos, e de que maneira, com a ditadura e com a esquálida potestade.

Estando ele no seu posto, estaquei à sua frente antes de me dirigir para a bancada e pegar na faca serrilhada.

Comecemos, silencioso Dimitar, por cortar o pão em treze fatias:

O pão, prima fatia, é o alimento básico por excelência. <<O pão nosso de cada dia>> tornou-se sinónimo de vivência. É símbolo do que é necessário, do mínimo vital.

O pão, segunda fatia, é fruto do labor: semear, colher, moer, amassar, cozer. É metáfora do esforço, da fadiga e da dignidade do trabalho. Receberás o pão com o suor do teu rosto. A primeira troca comercial foi feita assim: pão em troca de suor.

O pão, terceira fatia, sendo facilmente repartido, simboliza fraternidade. Partir o pão é gesto de união. <<Companheiro>> vem do latim cum panis, aquele com quem se partilha o pão.

Quarta fatia: oferecer pão é acolher. Na Bíblia, nas epopeias clássicas, no mundo camponês, o pão é o sinal do hóspede recebido.

Aliança com o divino é a quinta fatia. No Antigo Testamento, havia o <<pão da proposição>>, no Templo de Jerusalém. No cristianismo, o pão da Eucaristia é o corpo de Cristo, alimento sagrado que une humanos a Deus.

Simplicidade e humildade são a sexta fatia. O pão é alimento dos pobres, básico, a descrição da ausência de qualquer tipo de luxo. Por isso, simboliza a humildade, a sobriedade, a essência. Até Deus se esconde no pão, pois não há nada mais humilde, mais comum, mais fundamental. É no formato de pão que ele se deixa devorar na Eucaristia.

O pão, sétima fatia, é justiça social. Falar de pão é falar de desigualdade e de fome. <<Pão e trabalho>> foi lema popular. O pão simboliza os direitos do povo.

Ressurreição e renovação compõem a oitava. O pão é feito de grão triturado e morto que, ao fermentar e ser cozido, se transforma em algo novo e nutritivo. (...)"

A cozinheira do ditador
Afonso Cruz

segunda-feira, 1 de junho de 2026

Chapéus de praia

De acordo com o Público de hoje, a Herdade da Comenda intentou uma acção contra o Estado e a Agência Portuguesa do Ambiente, reclamando-se detentora de 5 (cinco!) praias da zona da Arrábida que "estão no domínio particular (privado) e não no domínio público marítimo", o que as torna, sem qualquer dúvida, sua propriedade.

Talvez por deficiência de capacidade intelectual, não consigo entender a necessidade de recorrer à Justiça, sempre inundada com trabalho, com um direito que todos deviam aceitar ter sido adquirido há séculos e não merecer qualquer contestação. O seu a seu dono ... e o Estado devia cuidar disso.

Difícil é compreender que o maralhal queira e se ache no direito de frequentar o mar, exibindo os seus dotes natatórios e os seus corpos curvilíneos, sem respeito pelo passado, pelas tradições e por quem manda.

Ironias à parte, não será isto o desencadear de um processo a estender por toda a costa, tornando cada vez mais o mergulho na água salgada um "objecto" de luxo, acessível apenas a quem detém o pedigree necessário? Esperemos que não! Já haverá por aí muita gentinha de sorriso aberto, aguardando tempos novos que lhe acabem com o castigo de ser incomodada no seu merecido lazer.

- Cala-te, palerma! Chapéus há muitos!

sexta-feira, 29 de maio de 2026

Rotina semanal

O tempero está garantido! E a comida, estará? E a paz, chegará?

A arte, o humor e a clareza de António fazem parte da rotina obrigatória no Expresso semanal. Em papel, claro!

quinta-feira, 28 de maio de 2026

Livros (lidos ou em vias disso)

"(...) Maria estava parada há mais de meia hora no ponto do ônibus. Estava cansada de esperar. Se a distância fosse menor, teria ido a pé. Era preciso mesmo ir se acostumando com a caminhada. O preço da passagem estava aumentando tanto! Além do cansaço, a sacola estava pesada. No dia anterior, no domingo, havia tido festa em casa da patroa. Ela levava para casa os restos. O osso do pernil e as frutas que tinham enfeitado a mesa. Ganhara as frutas e uma gorjeta. O osso, a patroa ia jogar fora. Estava feliz, apesar do cansaço. A gorjeta chegara numa hora boa. Os dois filhos menores estavam muito gripados. Precisava comprar xarope e aquele remedinho de desentupir o nariz. Daria para comprar também uma lata de Toddy. As frutas estavam ótimas e havia melão. As crianças nunca tinham comido melão. Será que os meninos iriam gostar de melão?

A palma de uma das mãos doía. Tinha sofrido um corte, bem no meio, enquanto cortava o pernil para a patroa. Que coisa! Faca laser corta até a vida!

Quando o ônibus apontou lá na esquina, Maria abaixou o corpo, pegando a sacola que estava no chão entre as suas pernas. O ônibus não estava cheio, havia lugares. Ela poderia descansar um pouco, cochilar até à hora da descida. (...)"

Olhos d'água
Conceição Evaristo

quarta-feira, 27 de maio de 2026

Aproximação

Já não bebia água há uma hora e, de acordo com os sábios conselhos expressos pelas entidades que detêm os conhecimentos sobre a matéria, era importante fazê-lo.

Estava distraído a ouvir música e tratando de colocar uma parte dos selos na devida e legível ordem, de forma a facilitar a tarefa de quem os irá cuidar, vender ou mandar para o lixo quando me lembrei dos importantes avisos. Resolvi suspender as tarefas (ouvir música é uma tarefa tão ou mais importante do que tratar dos selos), ir comer qualquer coisa e beber água, muita, que o calor aperta lá fora. Aqui 'tá-se bem!

Liguei a televisão para aproveitar e actualizar as notícias. No estado em que isto está, nunca se sabe o que está a acontecer, o que já aconteceu e aquilo que irá acontecer, para gáudio dos inúmeros e doutos analistas que enxameiam os diversos canais.

Surpresa. Não havia análises, mas antes o debate quinzenal na Assembleia da República. 

Enquanto comia e bebia fui ouvindo Luís Montenegro e José Luís Carneiro discorrerem sobre números da saúde, dos combustíveis, dos impostos e dos descontos, com um a identificar a incógnita "x" e outro a contrapor a "Y", com os mesmos números na base.

Amaldiçoei, entre comas, os excelentes professores que tive a Matemática, porque concluí, brilhantemente, que dois e dois afinal não são quatro e que a Matemática está longe de ser uma ciência exacta.

- "Pi"

É apenas uma aproximação! 

segunda-feira, 25 de maio de 2026

Mentirinhas

P'ra mentira ser segura
e atingir profundidade,
tem de trazer à mistura
qualquer coisa de verdade!

António Aleixo

  • Afinal, a União Europeia rejeitou quaisquer responsabilidades no caos que se instalou nas entradas dos aeroportos portugueses, por mau funcionamento do sistema de controlo biométrico;
  • Afinal, Portugal autorizou "de cruz" a utilização da Base das Lages, conforme afirmou o Secretário de Estado americano Rubio ... sem corar;
  • Afinal, por muito que custe a Paulo Rangel, a terra é redonda e a mentira, tal como ele, tem perna curta!

terça-feira, 19 de maio de 2026

Livros (lidos ou em vias disso)

"(...) Estamos em 2066 e tenho sessenta e seis anos. (...)

Para compreendermos mais depressa o que nos propõe Ava Carina, porque se lembrou disto agora, deveríamos todos ter aprendido com a moda.

Se observássemos como cada vestuário com rasgo de futuro trazia agarrado uma nostalgia, teríamos visto mais cedo como tudo se repete.

A alta-costura foi das primeiras evidências. Imaginação ao serviço de um eterno retorno. Evocações de passados tornaram-se indústrias. Ouçam como cada anúncio de progresso nos diz que isto ou aquilo está de volta. Saudades da pinta das calças e casacos de antigamente, dos cozinhados das avós, dos Natais, das férias da infância com o mesmo grupo de amigos. Os relógios que inventámos andam às voltas. Estamos destinados a tocar como um disco de vinil, que vai por ali fora até termos de o virar. E quando começa o lado de lá, é o mesmo disco que recomeça.

Por isso, quando Ava Carina explicou

- Chamei-as porque sou toda a favor da resiliência, e não aceito que os livros morram

percebi que fomos convocadas por ela como velhos mecânicos aposentados o seriam por um jovem que levanta o capô do carro e não faz ideia do que se passa ali.

Os regressos, as nostalgias. Porque lhes escapariam os regimes políticos? Ava Carina é apenas uma das testas-de-ferro de um novo tempo, e um novo tempo começa sempre por destruições selectivas no edifício que está em vigor.

No entanto (e é nisto que a humanidade é teimosa como a criança que volta ao fogo depois de se queimar) um novo tempo vai sempre beber ao passado, desde que seja longínquo. É um tão clássico quanto esquecido mecanismo de falta de memória, ou melhor, de apagamento progressivo da memória, que costumava durar muitas décadas, mas tende a ficar mais curto.

Nos anos dois mil e picos, era eu uma criança, mais ou menos setenta anos após a exposição ao mundo dos horrores dos campos nazis, começaram a surgir os primeiros arranhões nas juras de que nunca se poderia repetir.

Vocês lembram-se. Surgiram e multiplicaram-se vozes a questionar se teria sido mesmo assim, esse Holocausto de que tanto falam. Se não haveria um folclore exagerado. Chegou a ouvir-se que o sofrimento dos judeus foi pura e simplesmente inventado por uma geração para condicionar as seguintes. (...)"

O meu primeiro apocalipse
Rodrigo Guedes de Carvalho
D. Quixote (2026)

segunda-feira, 18 de maio de 2026

Informação

Dou por mim muito, mas mesmo muito, preocupado!

Como não utilizo nem frequento regularmente as redes ditas sociais e nem sequer sou subscritor da que o "homem da melena" faz uso diário, corro o risco de me tornar mentecapto, com a redução da capacidade intelectual que a ausência dessas fontes de "informação" altamente fidedignas vai certamente provocar.

"A culpa deve ser do Sol"! Tenho de ir atrás da banda ou vê-la passar, ouvindo Chico Buarque!

sábado, 16 de maio de 2026

Arte e humor

Não pretendo, longe disso, transformar o blog num obituário ou criar nele uma página da necrologia como, em tempos idos, existia nos jornais. No entanto, perdas há que não resisto a registar, por razões, as mais diversas, que me dizem muito e me dispenso de enumerar.

João Abel Manta ficou a "dois passos" do centenário, mas a sua obra permanecerá por muito tempo, com actualidade e como documento histórico.


sexta-feira, 15 de maio de 2026

Aniversário

Foi há precisamente 20 anos que isto começou!

Numa altura em que tudo foi, e continua a ser, efémero, toda a gente apostaria, singelo contra dobrado, que o projecto (!!!) desapareceria a breve trecho, sem ninguém ter conseguido entender a sua utilidade. Todos os que assim pensaram tinham razão e, volvidas duas dezenas de anos, continuam a ter. 

As cinco interrogações que constavam no primeiro post mantêm-se, mostrando que a resiliência (palavrão da moda, importante e chique) não passa de teimosia exacerbada, sem nexo, causa ou justificação.

E por aqui me fico, no dia em que, antigamente, era da festa do "pau caiado" e hoje, muito bem, é o Dia da Cidade.

Quando anoitecer, sentar-nos-emos na Praça 25 de Abril, a ouvir a Banda Comércio e Indústria e Paulo de Carvalho, tal como na noite de ontem presenciámos a banda Némanus e o habitual fogo de artifício, excelente, diga-se.

Haja cadeiras suficientes, que os joelhos (e não só) já têm muita dificuldade ...

quinta-feira, 14 de maio de 2026

Barbárie

Imagens "roubadas" no blog "Duas ou três coisas", do Embaixador Seixas da Costa, sem qualquer autorização. A justificação para a falta de respeito e para o acto em si reside "apenas" no facto de elas serem tão elucidativas do que a guerra faz, ou melhor, do que fazem os homens. E nós cá vamos ... cantando e rindo, como no tempo da "outra senhora"!


terça-feira, 12 de maio de 2026

Palavras bonitas

POEMA DO HOMEM NOVO

Niels Armstrong pôs os pés na Lua
e a Humanidade inteira saudou nele
o Homem Novo
No calendário da História sublinhou-se
com espesso traço o memorável feito.

Tudo nele era novo.
Vestia quinze fatos sobrepostos.
Primeiro, sobre a pele, cobrindo-a de alto a baixo,
um colante poroso de rede tricotada
para ventilação e temperatura próprias.
Logo após, outros fatos, e outros e mais outros,
catorze no total, 
de película de nylon
e borracha sintética.
Envolvendo o conjunto, do tronco até aos pés,
na cabeça e nos braços,
confusíssima trama de canais
para circulação dos fluidos necessários,
da água e do oxigénio.
A cobrir tudo, enfim, como um balão de vento,
um envólucro soprado de tela de alumínio.
Capacete de rosca, de especial fibra de vidro,
auscultadores e microfones,
e, nas mãos penduradas, tentáculos programados,
luvas com luz nos dedos.
Numa cama de rede, pendurada
da parede do módulo,
na majestade augusta do silêncio,
dormia o Homem Novo a caminho da Lua.

Cá de longe, na Terra, num burburinho ansioso,
bocas de espanto e olhos de humidade,
todos se interpelavam e falavam
do Homem Novo,
do Homem Novo,
do Homem Novo.

Sobre a Lua, Armstrong pôs finalmente os pés.
Caminhava hesitante e cauteloso,
pé aqui,
pé ali,
as pernas afastadas,
os braços insuflados como balões pneumáticos,
o tronco debruçado sobre o solo.

Lá vai ele.
Lá vai o Homem Novo
medindo e calculando cada passo,
puxando pelo corpo como bloco emperrado.

Mais um passo.
Mais outro.
Num sobrehumano esforço
levanta a mão sapuda e qualquer coisa nela.
Com redobrado alento avança mais um passo,
e a Humanidade inteira,
com o coração pequeno e ressequido,
viu, com os olhos que a terra há-de comer,
o Homem Novo espetar, no chão poeirento da Lua, a bandeira da sua Pátria,
exactamente como faria o Homem Velho.

Novos poemas póstumos
António Gedeão
Edições João Sá da Costa (1998)

sexta-feira, 8 de maio de 2026

Mãe

 Hoje, sim, é o Dia da Mãe. Da minha!

Nascida há 103 anos, no rescaldo da Primeira Grande Guerra, viveu as grandes dificuldades da Segunda, da qual recordava, muitas vezes, as senhas de racionamento e as necessidades de coser roupa até ao limite. Sofreu, entre muitas outras, as agruras antecipadas de ver um filho na guerra (colonial), o que o 25 de Abril, felizmente, lhe evitou.

Partiu, satisfeita com o que tinha conseguido fazer pelos dois filhos que, por enquanto, ainda a vão recordando e mantendo viva. Teve uma vida difícil, sem um queixume e sempre com agulhas, alfinetes e linhas por perto!

terça-feira, 5 de maio de 2026

Português

Numa época em que, em profusão, se ouvem atentados à nossa língua "mascarados" de erudição e conhecimento, nada melhor do que ir à estante e pegar num livro antigo, na data, na edição e na beleza.

Foi como poeta que conquistou um lugar cimeiro entre os falantes da língua portuguesa em todo o mundo. A sua modéstia e a "mesquinhez da outra senhora" impediram voos bem mais largos. Também na prosa se revelou enorme, dando-nos livros maravilhosos, dos Bichos à Vindima, do qual se deixa um belíssimo excerto.

"(...) Quando a noite caiu sobre a Cavadinha, espessa e desolada, é que a ausência de Alberto passou a ser um pesadelo.

- Aconteceu-lhe alguma coisa! Ah, isso é que aconteceu! ... - era agora o estribilho da D. Maria Jorge.

Por debaixo da crosta insensível e ressequida, o instinto de mãe irrompia ansioso e vaticinador.

- Que é que lhe havia de acontecer?! - iludia-se o Lopes, a querer ter mão em mais desgraças. - Apanhou uma carga de água, e está-se a enxugar em qualquer parte. Mas há-de ouvir-me! ...

Dizia isto sem convicção nenhuma, apenas para sossegar a mulher e não acordar as forças do mal que tão obstinadamente o perseguiam.

- Não costuma demorar-se tanto ... De mais a mais num dia destes, sabendo que a gente está aqui aflita ... 

Foi ainda a Gertrudes que deu a resposta decidida a estas reticências:

 - O menino, se não veio até agora, já não vem!

A afirmação tinha tal dureza e tal verosimilhança, que o Lopes assanhou-se de indignação:

- Tu não me faças perder a cabeça, rapariga! Cala-te de uma vez!

Toda a tarde a criada resmungara a pedir socorro para o rapaz. E o Lopes, ao verificar que teria sido melhor mandar procurar o filho a tempo e horas, reagia com violência, sem querer reconhecer o erro.

- Não vem! E nós havemos de ver!

Forte na dedicação, segura nas conjecturas, a moça não se dobrava aos berros do patrão. E este acabou por ceder, numa resposta contemporizadora:

- Tu não estás mais aflita do que nós. Por isso ...

Não era, porém, com frases que a nuvem pesada se desfazia.

- E se mandássemos alguém a Vilela saber se o tinham visto? - propôs a D. Maria Jorge.

- Pode ir. Mas é tolice. Antes de o portador lá chegar, já ele cá está ...

Tentava iludir-se e iludir o destino.

- Deus te ouvisse ...

Pressurosa, a Gertrudes saiu a chamar dois homens à cardenha, e acompanhou-os até ao fim do terreiro a recomendar-lhes pressa e zelo. Naquela incerteza, o seu coração feminino era uma dobadoira de ternura.

- Se eu fosse mulher, ia também! (...)"

Vindima
Miguel Torga
Coimbra (1997)

domingo, 3 de maio de 2026

Tecnologias e dependências

Sentou-se na cadeira indicada no bilhete, verificando a correcção antes. Era ali, sem dúvida. Telemóvel na mão, a companheira sentada na cadeira ao lado, cenho franzido, nenhuma outra manifestação de prazer ou repulsa.

Acabadinho de aliviar as pernas, o indicador começou a percorrer o ecran e, com som ou sem ele, os sorrisos passaram a suceder-se. As luzes, intermitentes, davam sinal de que o início do espectáculo estava para breve. E a voz off  avisava:

- O espectáculo vai começar dentro de momentos. Por favor, desliguem os telemóveis. É proibido fotografar ou gravar. Bom concerto.

A ordem era inequívoca, mas o aparelho continuou na mão. Vai desligar quando a música começar, pensei. Não aconteceu. Mexi-me na cadeira, deitei descaradamente os mirones. Nenhuma reacção. E o scroll continuava, apesar de a música ser contagiante e apelativa. Tudo na mesma, como a lesma. Impassível na cadeira, nem uma única vez bateu palmas. A companheira, ao lado, ainda ia aquecendo as mãos, de vez em quando. No final, o público aplaudiu de pé, pediu mais, acentuou os aplausos até obter a confirmação de que ainda havia, pelo menos, mais uma.

Permaneceu impassível. Continuou os movimentos com o dedinho e sorria de satisfação.

O "artista", seguramente com mais de 50 anos, assistiu com este desinteresse a um excelente espectáculo musical, integrado no 29º. Festival de Jazz do Valado

Comprou bilhete para quê? Podia ter ficado em casa e dava lugar a outro ... 

sexta-feira, 1 de maio de 2026

Dia do Trabalhador

Comemoração? Nada melhor do que o "retrato" desse trabalhador incansável que, vinte e quatro horas por dia (mais a noite, diria ele) não se cansa de contribuir para a melhoria do (seu) mundo.

A arte de António, no Expresso de hoje!

quinta-feira, 30 de abril de 2026

Lixos

Há um caixote a cinquenta, sessenta metros, se tanto. Uma embalagem de papel onde deve ter estado um hamburguer da marca famosa. Ao lado, um recipiente de yogurt, duas garrafas de cerveja, uma de litro e outra média.

Generalizo: as pessoas são tão porcas!

A senhora deita um papel para o chão.

- Deixou cair um papel ...

- Não tem importância. É lixo!

- Mas não custa nada apanhar e pôr ali no caixote.

- Quem quiser que apanhe. Era o que faltava!

E seguiu a sua vidinha, que o tempo urge ...

 Talvez na próxima geração ...

quarta-feira, 29 de abril de 2026

sábado, 25 de abril de 2026

Liberdade


UMA LIÇÃO DE SOLDADO

Ó meu alferes?!
Porra, isso é um suicídio!
Não se brinca com as nossas vidas!
Já viu meu alferes
que podemos lerpar
quase no fim desta merda?! ...
Desculpe mas isso é inconsciência!
Quase no fim desta porcaria
sem mortos
e ir meia dúzia d'homens por aí fora

... E se rebentamos uma "marmita"?

Não, meu alferes
tenha paciência!

Aquele soldado Taborda
era lixado
sempre a refilar
a contestar
a apontar.
E tinha quase sempre razão!
(Hoje reconheço que a teve sempre)
- Só na bisca de nove
nem sempre levava a melhor


APELO                                                               

Que tudo quanto vimos                                        
Que tudo quanto vivemos                                    
Que tudo quanto agredimos                                
Que tudo quanto sofremos

Se grite bem alto
aos quatro ventos
para que o Povo acorde

e todos nos libertemos!

Trinta facadas de raiva
Capitão Calvinho
Edição da ADFA (1976)

quinta-feira, 23 de abril de 2026

Dia Mundial do Livro

Ler é uma das actividades que (ainda) vou conseguindo desenvolver. E sempre com muito prazer!

Comecei a ler bem menino, à custa da paciência da minha irmã, três anos mais antiga, que, nessa altura, iniciou a "profissão" à qual, alguns anos mais tarde, haveria de retirar as aspas. Descobrir o que os livros da escola diziam naquele amontoado de "hieróglifos" era uma aventura. Ouvir quem já sabia causava uma inveja medonha e obrigava a um esforço para memorizar e "ler" sem ainda perceber o que estava impresso. Lembro a história dos bois do Geirinhas (livro da 3ª. classe?) que, trocados, não conseguiam ou não queriam puxar o carro, por mais que o dono insistisse. Foi decorada na totalidade antes ainda de saber juntar as letras ou soletrar palavras.

Depois, o Jornal de Notícias, - enorme, que entrava em casa com alguma regularidade e era lido no chão da cozinha, de joelhos-, proporcionou alguma abertura sobre o que ia acontecendo no país e no mundo e que a censura autorizava saber. Vem dessa época e desse grande jornal o gosto pelo cartoon pelas Palavras Cruzadas que ainda hoje conservo.

Não faço ideia de quantos livros já li. Foram, e continuam a ser, muitos. Mesmo quando já se conhece o autor, até já se leu uma crítica ou o resumo, ler o livro é sempre uma aventura entusiasmante: colocar-se do lado de lá, tentar perceber o que o autor escondeu, o significado da palavra, a metáfora contida na frase é, ao mesmo tempo, um desafio e um prazer enormes.

Os livros estão caros, mas o "vício" de comprar até isso ultrapassa. Hoje, a caixa do correio electrónico foi inundada de descontos oferecidos pelas editoras. Não cedi. Lá para o dia 25, como é costume, vão aparecer mais alguns ... e cada vez há menos espaço!

terça-feira, 21 de abril de 2026

Livros (lidos ou em vias disso)

Desmond Morris tinha 98 anos - bonita idade - e faleceu no passado dia 19. A notícia da sua morte só hoje "apareceu" nas minhas fontes, que não passam pelas redes ditas sociais, sempre tão actualizadas. Ainda sou um teimoso dos jornais ...

Fui à procura de "O Macaco Nu", livro já "arquivado" na secção dos "antigos". Se a memória não me trai, foi o primeiro que comprei com as parcas poupanças que os "altos" rendimentos do trabalho permitiam. Edição do Círculo de Leitores, cujos divulgadores, na época, batiam às portas, entregando a revista com os (muitos) livros editados e procurando vender, ao menos, um livrinho, pago em três vezes e que seria recebido no segundo mês.

Abri "ao calhas" e não resisti a deixar uma breve transcrição, em memória de quem, na época, se dedicava ao estudo das diferenças entre os macacos e os humanos. Hoje, Desmond Morris teria muita dificuldade em atribuir a qualidade de humano a alguns "macacões" que por aí pululam.

"(...) Os primeiros desenhos e pinturas, tanto no chimpanzé como na criança, nada têm que ver com comunicação. São actos de descoberta, de invenção, de experimentação das possibilidades da variabilidade gráfica. São actos de pintura, e não <<transmissões>>. Não exigiam recompensa, visto que constituíam só por si a recompensa - tratava-se de brincar por brincar. Contudo, como tantos outros aspectos das brincadeiras infantis, vão adquirir rapidamente as características dos actos dos adultos. A comunicação social vai produzir os seus efeitos, perdendo-se a inventiva original, a emoção pura de <<viver uma aventura a partir de um risco>>. A maioria dos adultos apenas deixa transparecer este acto inventivo através das garatujas inconscientes com que por vezes se entretêm. (O que não quer dizer que deixaram de ser inventivos, mas apenas que o campo da invenção se deslocou para a esfera mais complicada da tecnologia.)

Felizmente para a arte exploratória da pintura e do desenho, existem hoje técnicas muito mais eficazes de reproduzir as imagens do meio ambiente. (...)"

O Macaco Nu
Desmond Morris
Círculo de Leitores (1967)

domingo, 19 de abril de 2026

Óbidos e os livros

Está a decorrer em Óbidos - termina hoje - mais um evento dedicado aos livros, desta vez com enfoque na literatura de viagens: o Latitudes - Literatura & Viajantes.

Ontem, aproveitando um pouco do pouco tempo livre, a visita a Óbidos aconteceu, no meio de muita, muita gente que quase não usufrui da beleza e do sossego da bela vila medieval, limitando-se a galgar a Rua Direita, beber uma ginginha em cálice de chocolate e comprar um "bonequinho" para o frigorífico.

Como em todos os festivais literários, não foi, nunca é, possível assistir a todas as conversas, eventos, apresentações, mas o tempo foi bem aproveitado. Em quatro locais diferentes, tão agradáveis quanto inesperados, o actor Pedro Lamares disse poesia como muito bem sabe e mostrou aos que o ouviram um conjunto de poetas que, entre muitos outros, marcam a qualidade da nossa poesia. E como a poesia ainda se torna mais bela quando é bem dita! 

De Camões a Pessoa, passando por Al Berto, Nemésio, Herberto, O'Neill ou Natália, foi a esta última que coube o encerramento com dois poemas que fazem parte do "acervo" deste blogue: O coito do Morgado e A defesa do poeta.

sexta-feira, 17 de abril de 2026

Fúria épica

Se dúvidas houvera, ficaram definitivamente esclarecidas: o homem da melena é quem determina e ... como se dizia (ainda se dirá?) na tropa, manda publicar! E a Companhia tinha de ficar em sentido!

O Irão anunciou que iria reabrir o estreito de Ormuz e o manda-chuva apressou-se a publicar na sua rede "social" que isso só era feito por ter sido por ele ordenado e nas condições que, ele mesmo, tinha fixado; o Papa Leão XIV, americano, resolveu, no âmbito da sua actividade religiosa, opinar sobre o mundo que é de todos: se estivesse "à mão de semear", o chefe ter-lhe-ia dado umas "nalgadas" para aprender a ser submisso; a NATO não aceitou meter-se na guerra e recebeu um sério aviso para entrar na linha, sob pena de deixar de comer à mesa.

Enquanto tudo isto acontece, por mais inverosímil que possa parecer, na Ucrânia, no Médio Oriente, em África, todos os dias morre gente, muitos ficam sem casa, muitos outros fogem para nenhures, enquanto alguns enriquecem e outros fazem reuniões para definir estratégias ...

É o mundo dos loucos no seu esplendor!

segunda-feira, 13 de abril de 2026

Brincar ... com coisas sérias

O homem da melena já deu ordem para que o Estreito de Ormuz seja bloqueado, sem sequer pedir a ajuda do nosso Afonso de Albuquerque, homem que tão bem conhece aquelas águas, onde navegou e mandou no início do século XVI. Afonso de Albuquerque poderia ser peça essencial para que os seus objectivos fossem atingidos.

Entretanto, o Papa Leão XIV deve ter reunido, de urgência, o seu estado-maior e ordenado a aquisição de baterias anti-aéreas aos USA, com vista a proteger o Vaticano de um possível ataque. O homem avisou que não gosta dele e nunca se sabe como ele acorda ...

Valha-nos que o nosso primeiro-ministro é bom rapaz e lhe faz todas as vontadinhas. Caso contrário, ainda ameaçava bombardear as Lajes, as Berlengas e até o Corvo, e obrigava o Nuno Melo a adquirir de imediato o material bélico fundamental para o nosso desenvolvimento ...

sábado, 11 de abril de 2026

Direitos de autor

Tenho a "autoridade" de quem o compra e lê, em papel, desde o longínquo ano de 1973. Só por isso, o Expresso deve perdoar-me o continuado abuso de alguns dos seus conteúdos.

Hoje não resisti a transcrever "meia dúzia" de linhas da excelente crónica de Miguel Sousa Tavares (passou a quinzenal, o que lamento) e a partilhar o cartoon de António, brilhante, como sempre. 

"O que une um governante, uns banqueiros e uns bispos?

(...) uma guerra, levada ao Iraque, ilegítima, à revelia da ONU e com pretextos inventados e provas falsificadas, que Durão Barroso declarou autênticas. Mas talvez na era contemporânea, nunca a nossa diplomacia tenha descido tão baixo como agora, em que as Lajes servem de tapete voador sobre o qual nos curvamos à passagem dos aviões e drones do louco perigoso que governa os Estados Unidos e que levou ao Irão uma guerra sem sombra de legitimidade e até de estratégia política e militar, e, por arrasto, ao mundo inteiro. Hoje, graças à diplomacia de Luís Montenegro e Paulo Rangel, tenho vergonha de ser português e só me consolo um pouco pensando que quem só faz o que sabe não é inteiramente responsável por toda a ignorância que carrega.

Porém, não se trata apenas de política ou de diplomacia. Trata-se também da segurança nacional. Colocando Portugal na primeira linha de apoio à linha da frente desta demência trumpiana-israelita, o Governo coloca-nos também na posição de alvo legítimo e natural de represálias iranianas. É possível que preclaro presidente do Governo Regional dos Açores ainda não tenha visto o assunto a esta luz e por isso declara não ter opinião sobre a legitimidade desta guerra e do apoio que lhe estamos a dar, preferindo, diz ele, confiar na justeza da decisão do Governo da República e do seu próprio partido. O homem ouve o desvairado narciso americano dizer que vai varrer uma civilização milenar numa noite, levando-a de volta à Idade da Pedra (pelo método Hiroxima-Nagasáqui, supõe-se), e não tem opinião sobre o assunto. Mas quando interrogado sobre se o nosso "aliado" americano não deveria ao menos pagar uns tostões, ou uns <<peanuts>>, pela utilização das Lajes, aí já José Manuel Bolieiro tem opinião própria e pronta. Sim, declara ele, atendendo à importância que agora se voltou a confirmar da Base das Lajes para as guerras dos Estados Unidos deste lado do mar, seria justo que, tal como sucedeu no passado, eles pagassem alguma coisa ... aos Açores. Ou seja, entendamo-lo: princípios, ele não tem nem o incomodam; mas uma esmolinha nunca fez mal a ninguém.(...)"

sexta-feira, 10 de abril de 2026

Evolução

A ida ao(s) café(s) foi um ritual repetido várias vezes durante o dia (e durante muitos anos) por necessidade, acto de desligar, compromisso comercial ou porque sim ...

Das sete, oito, nove ou mais bicas por dia, o tempo reduziu-as a três e, dessas, normalmente, apenas a do almoço se concretiza externamente. Cada vez mais, ir tomar um café ao café, ainda por cima ao balcão, é um acto singular e praticado por poucos teimosos. O pagamento, na era da IA, já não passa por mãos humanas, sendo "digerido" pelo "anão" escondido na máquina que tudo entende e que, rápida, nunca se engana no troco nem admite notas falsas.

Com este "pequeno" progresso, há no café mais mão-de-obra disponível para atender os clientes do jogo, onde a raspadinha é rainha. Tenho para mim que muitos destes frequentadores nem imaginam que o estabelecimento, afinal, até vende café!

Evolução e mudança, que se há-de fazer ... também já ninguém pede um "copo de três" ou uma "ciganinha", como era vulgar quando era jovem!   

quinta-feira, 9 de abril de 2026

Vagueando

Uma voltinha para desanuviar e calcorrear o Portugal profundo, sem pressas, com boa comida, pouco trânsito, sem aglomerações, muita água nos terrenos e bastantes toneladas de lenha por retirar. Faz bem! Descontrai, liberta, espreita-se o que está longe e, muitas vezes, esquecido. E há tanta coisa para ver, que não passa na televisão ...

No regresso, uma passagem pela Azinhaga do Ribatejo para ver as 100 oliveiras de Saramago e ler um trecho de As pequenas memórias (2006) "azulejado" junto a elas.



domingo, 5 de abril de 2026

Bodas

É Domingo de Páscoa e o sol não se esquece de acompanhar as festividades e de lhes trazer a alegria da luz. Na semana que vem, de acordo com as previsões, já desligará as luzes, talvez para poupar energia que não estamos em época de desperdícios.

O carro precisa de gasolina porque, teimoso, não anda sem isso e amanhã vai ter de trabalhar. Ainda é cedo e o posto de abastecimento não deve ter fila. O rádio vai ligado, como é sempre e, de repente, ouço uma voz já um pouco estafada como a minha:

Tinha 15 anos quando ouvi isto pela primeira vez, na casa de uns amigos onde nos juntávamos para tocar, cantar e ... beber uns copos. Na rádio, naquela época, era impensável.

Prestei atenção. Era isto, e eu ainda me lembrava da letra!