domingo, 24 de abril de 2022

Candeeiro

Esta é a altura em que vemos, ouvimos e lemos dissertações imensas sobre o país que o dia de amanhã, em 1974, despertou e transformou. A maior parte delas registam situações, hoje quase absurdas, que se viviam nessa altura e que, vistas a esta distância, não lembram ao diabo. Esta não foge à regra e serve apenas para a confirmar.

Outras há que, menos cuidadas ou propositadamente omissas, registam estórias para encher o olho e o ego, regra a que também esta não fugirá. Ainda bem! O país (e o mundo) não tem nada a ver com o daquela época e não é apenas por vivermos em democracia, haver partidos políticos, não termos censura nem polícia política, e existirem hipóteses (quase) iguais para todos, independentes da qualidade da madeira do berço. A vida minimamente digna ainda está longe de ser totalmente abrangente, mas mesmo os mais miseráveis vivem indiscutivelmente melhor, embora com muito caminho a percorrer.

Há coisas que, contadas hoje, parecerão da Idade da Pedra e completamente incompreensíveis para os mais novos. Se um qualquer professor se lembrar hoje de perguntar o que significa torcida, o mais provável é receber como resposta de que se trata da claque apoiante de um qualquer clube de futebol. Ninguém se lembrará, felizmente, da tira que, mergulhada no petróleo existente no "depósito" do candeeiro de vidro, garantia a iluminação de muitas das casas portuguesas, em finais da década de cinquenta do século passado. Um pequeno rodízio fazia com que a torcida subisse ou descesse, aumentando ou diminuindo a chama que dava a luz a quem da eléctrica apenas conhecia a dos candeeiros da rua, não em todas as terras e muito menos em todas as ruas.

Hoje, o candeeiro de vidro já não leva petróleo e é apenas um peça decorativa, cara, pousada sobre um qualquer móvel de recordações para visita ver.

sábado, 23 de abril de 2022

Premonições

Estamos como o burro do espanhol: agora que já estávamos habituados a usar máscara, veio o decreto que elimina a obrigatoriedade de com ela andar.

Marcelo, com a rapidez do costume, promulgou o decreto que, em consequência, se encontra em vigor. Hoje, talvez por insistência dos jornalistas, o Presidente teve uma conversa "informal" com eles e deu a conhecer que, quase de certeza, as reuniões de Guterres com o "caramelo" que manda na Rússia e quer estender o seu mando como quem estende uma toalha sobre a mesa, e também com o Presidente da Ucrânia invadida, as quais devem acontecer no início da próxima semana, irão ser determinantes para o fim da guerra. Marcelo opinou, quem pode duvidar.

Significa isto que quer a pandemia quer a guerra poderão estar em vias de extinção, tal como o lince da Serra da Malcata? Talvez. Marcelo costuma ser assertivo e antecipar tudo e o seu contrário.

Vamos ver o que acontece nos próximos dias, com a esperança de que, desta vez, Belém acerte em cheio nas duas, promulgação e palpite.

sexta-feira, 22 de abril de 2022

Escondido


Talvez tenha vindo para frequentar a universidade, mas escondeu-se e quase passa despercebido.

quinta-feira, 21 de abril de 2022

Paciência

A necessidade de esclarecer a contabilização e um pedido de pagamento obrigou-me a procurar um endereço electrónico para responder, uma vez que o que me foi enviado transmitia, imperativamente,  que aquele endereço não fosse utilizado para responder. 

Fui à página da NET mas contactos electrónicos não existiam. Indicava-se um número de telefone para qualquer contacto.

Que desespero! Tentar saber apenas um endereço electrónico é pior que percorrer a via sacra! A chamada já leva mais de quatro minutos e continuo a ouvir um arrazoado dissertando sobre a protecção de dados e afins.

Não há pachorra! Desisto, que são horas de ir jantar, tema muito mais interessante e importante.

quarta-feira, 20 de abril de 2022

Roseira

Não aguentou a ventania. Havia sido plantada no jardim há muito, muito tempo. Talvez trinta anos, talvez mais. Era a mais antiga e ostentava algumas rosas na primavera que foi a sua última. Caiu de noite, para que ninguém visse. O vento foi implacável e aproveitou-se da sua fraqueza e incapacidade para resistir. Como tantas vezes acontece com tanta situação ...

Deixa duas herdeiras que, cheias de força e vontade, resistiram sem problemas às inclemências do tempo. Partiu a roseira mais velha, ficaram as descendentes que, juntamente com as outras que por cá moram, hão-de continuar a dar alguma beleza ao jardim.

Tudo tem o seu fim, tudo continua.

terça-feira, 19 de abril de 2022

Cuidado com o cão

(...) Cesse tudo quanto a antiga musa canta,
que outro valor mais alto se alevanta. (...)
Os Lusíadas - Canto I

"Chegou, viu e venceu"

Como era esperado, o carteiro trouxe-o hoje, dia oficial da colocação à venda, autografado e tudo. E já começou a ser lido.

Remeteu para a fila de espera a "Morte e ficção do Rei Dom Sebastião", de André Belo, (Tinta da China),  e o "Contágios", de diversos autores (Visgarolho), que ficarão a aguardar melhor oportunidade para serem concluídos. Talvez não o merecessem, mas devem ter paciência. Nem sempre tudo nos corre bem.

Tendo em conta os trabalhos anteriores, as expectativas são elevadas para este novo livro de Rodrigo Guedes de Carvalho, mas as conclusões serão tiradas no fim. Não são de prever desilusões e o princípio já o indicia.

Agora é ler, para chegar ao fim tão depressa quanto o deleite o permita. 

segunda-feira, 18 de abril de 2022

Divagações

Há todos os dias coisas que aprendo, aparecem diariamente muito mais assuntos que ignoro. Não tem nada de mal nem de anormal, é verdade, e acontece, digo eu, a toda a gente, mesmo aos que pararam no tempo e acham que nem vale a pena perder uns minutos com um tema que ignoram e também àqueles que sabem tudo e de ninguém precisam.

É bem mais fácil comer o peixe já misturado no acompanhamento, previamente despido da pele e das espinhas, do que ser colocado frente ao prato onde paira a posta, e conseguir que, com esforço, calma e atenção, lhe sejam retirados os componentes que não irão ser deglutidos.

Com tantos anos já decorridos, seria admissível pensar que já não apareceriam coisas completamente novas, assuntos totalmente ignorados, temas simplesmente desconhecidos. E nada disto acontece, felizmente. Depois disto, surge a interrogação, a constatação da estupidez, a vontade de abanar, agitar, revoltar, modificar.

Se o mundo tem tanto de aliciante para todos, se cada um pode dar o seu contributo útil, como compreender que "meia dúzia" continue a subjugar a imensa maioria e se repitam situações de opressão, dizimação, violência, sem preceito nem respeito por ninguém.

A estrada será estreita. Todavia, todos poderiam nela caber, se cada um ocupasse apenas o seu espaço e se preocupasse em não invadir o dos outros.

Divagações!!!

domingo, 17 de abril de 2022

Palavras bonitas

QUEREM O CÉU

Querem o céu, a mística ilusão
Da alma.
E, se estivessem lá,
Queriam a terra, a sórdida morada
Da raiz.
Mas é o céu que lhes diz
Eternidade,
Verdade,
Santidade
E descanso.

Assim se pode mistificar
A preguiça,
O pecado,
A mentira,
E a transitória vida natural.

O grande tecto azul, porém, não dá sinal
De acolher o aceno.
Afaga as nuvens, e da luz solar
Faz o dia maior ou mais pequeno.

Cântico do Homem
Miguel Torga
Coimbra (Jan/1974)

sábado, 16 de abril de 2022

Largo Estragado

Na designação camarária, oficial e obrigatória nos registos, é Largo do Colégio Militar. Ninguém saberá explicar bem porquê e quais as razões que motivaram a homenagem à instituição que, na capital, há mais de duzentos anos se dedica, quase em exclusivo, ao ensino de futuros militares. O Estragado, que sempre deu nome ao Largo, foi despromovido e passou a usar as divisas de Beco, perdendo os galões de Largo.

Não parece que o grande oleiro que foi e que por ali manteve a sua olaria, produzindo bens de carácter utilitário para todas as famílias, das mais abastadas às menos afortunadas, merecesse tal despromoção, ainda por cima feita à revelia da "parada" e sem conhecimento da grande maioria dos "soldados", "sargentos" e "oficiais". Enfim!

Apesar das decisões, da publicação e da saída "à ordem", continua a ser o Largo do Estragado o nome pelo qual é conhecido por todos. Sem contar os que lá moram ou por perto residem, não haverá muita gente na cidade que consiga localizar rapidamente o Largo do Colégio Militar. Se for perguntado pelo Estragado, quase todos terão a resposta na ponta da língua.

O Largo anda há mais de dois anos a ser arranjado, perdão, requalificado, e não há meio de as obras de requalificação - é bem mais bonito assim, não haja qualquer dúvida - ficarem prontas. A pandemia, a pandemia, a pandemia, a pandemia, ainda a pandemia e ... nem a mudança de regime camarário conseguiu o milagre. Os elementos que hão-de propiciar as delícias da criançada ainda estão "embrulhados" em panos, por certo para se não sujarem até à inauguração. As vias que o circundam, um dia parecem estar prontas, no outro aparece logo mais um buraco e novo trabalho de calceteiro. Se chove, surgem poças de água a demonstrar que o nível foi mal calculado e a água, que o determina, fica por ali. Mais umas fitas vermelhas, uns sinais de obras e de proibição de trânsito, um ou dois trabalhadores, uma maquineta pequena e, de novo, uma requalificação da calçada, não um arranjo. 

A requalificação caminha, devagar, mas caminha. Se fosse arranjo, seria mais rápido, mas não tinha a repercussão devida. Não era a mesma coisa ...

O Estragado, lá onde estiver, deve rir-se e achar que era bem mais fácil fazer bilhas, alguidares e jarros do que arranjar, melhor, requalificar o largo que é seu, de facto, mas não de direito.

sexta-feira, 15 de abril de 2022

Teatro

Há mais de dois anos que não acontecia. 

Ontem foi noite de teatro no CCC e aconteceu uma daquelas que dificilmente se esquecerá. A peça, COCHINCHINA, uma adaptação do livro Princípio de Karenina, de Afonso Cruz, feita por Sandra Barata Belo, encheu a noite.

Victor d'Andrade foi o protagonista, num regresso à sua terra natal, muito bem acompanhado por Margarida Vila-Nova e Patrícia André. Excelentes interpretações, uma encenação linda e fora do esperado, e uma sala, cheia, que aplaudiu de pé os três actores, enormes no seu desempenho.

Hoje, logo pela manhã, a notícia que ensombra o Teatro: morreu Eunice Munoz, a "Mãe Coragem" que, felizmente, tive oportunidade de ver várias vezes em cima do palco, onde os actores se dão na plenitude e mostram todo o seu valor.

Eunice era enorme e assim permanecerá na memória.