quinta-feira, 5 de setembro de 2024

Ultrapassagem

Cada vez me irritam mais os velhos (eu incluído) que, a coberto da dita experiência e do poder que detêm, querem continuar a opinar sobre o mundo e a manter um ascendente sobre os jovens, mesmo que esses já tenham quarenta ou cinquenta anos e saibam muito mais do que eles sobre o mundo actual.

Sendo certa a verdade do ditado "aprender até morrer", que serve para todos e principalmente para aqueles que, em teoria, mais perto estão dessa chegada, não é menos certo que qualquer passarinho, mal começa a voar, quer fazê-lo sozinho, correndo o risco de errar no rumo e procurando experienciar, a cada momento, o voo do Fernão Capelo Gaivota, ainda que o destino esteja invisível, atrás daquela nuvem que tudo tapa.

No início de vida, a educação e o saber são colheita na seara dos pais, da família, dos professores, dos amigos, da sociedade. É o criador a burilar a criatura, a adverti-la para alguns perigos basilares, a procurar despertá-la para as agruras. Depois, bem, depois é (ou devia ser) gratificante ver e sentir que a criatura ultrapassa o criador e voa sozinha, sempre atenta às aves que lhe possam tolher o voo.

Mas há velhos que, teimosamente, se acham o centro do mundo e continuam a pensar, e a agir, como se a juventude fosse mentecapta e a inteligência, o saber, a capacidade e a experiência, fossem um tesouro bem guardadinho na sua caixa de ... sapatos.

Bem dizia uma velha professora, que até me estreou com dois tabefes bem dados: "ora valha-lhes um burro aos coices e três aos pontapés". 

terça-feira, 3 de setembro de 2024

Férias

Segundo rezam as crónicas, escritas e faladas, as férias das gentes importantes já terminaram e o Verão, que alguns não sabem sequer se o verão, também está no fim. É hora de divulgar as fotos, com poses arrojadas ou de rastos, de desabafar o entusiasmo, de falar da beleza nunca vista, de desejar voltar em breve. Fizeram-se passeios de buggy, comezainas de excelência, noites de lazer e de não perder.

É uma pena Agosto só ter trinta e um dias, muito embora as noites também contem, e muito.

Em Setembro volta a piroseira do dia a dia, as filas no trânsito, as gentes apressadas que atravessam a avenida sem olhar, o viver em stress no meio da multidão que não respeita quem, de quando em vez, tem mesmo de se misturar com a plebe.

Ao contrário das férias e do Verão, as guerras continuam sem fim à vista, apesar dos "esforços" diários de muita gente. Para muitos milhares, o fim já aconteceu e os "esforços" foram inúteis.

Talvez tudo isto seja culpa da "urologia" da Madeira, referida pela titular do MAI a propósito do fogo que por lá andou muitos dias, ou ao pé que, para alguns comentadores de futebol, deixou de ser esquerdo e passou a ser canhoto.

domingo, 1 de setembro de 2024

Longe

Mais um ano e ainda mais longe. Lá nos confins da Europa e nas barbas da Ásia, o aniversário volta a ser passado sem os seus, apenas respaldado nos milagres da técnica, que permitem minimizar, não substituir.

É a vida, dizem uns; o que importa é estar bem, afirmam outros; passa depressa, alegam mais uns quantos. Pois ... digo eu!

Parabéns, meu filho.

terça-feira, 27 de agosto de 2024

Livros (lidos ou em vias disso)

(...)53. Das tripas coração

O meu Porto é feito de duas cidades: aquela em que cresci e a de hoje. Uma deu-me o que tenho, fez de mim o que sou, a outra dá-me o pão. Desde sempre, o Porto foi uma cidade-mãe; desde sempre, alimentou os que lhe pertenciam e os de fora, nunca virou a cara fosse a quem fosse. Esta nobreza ninguém lha tira. Explico sempre aos turistas que somos tripeiros com muito orgulho e que a denominação terá nascido por termos - e isto quem desconhece são tanto os lisboetas, como muitos portuenses - oferecido toda a carne que por cá havia para salvar ou ajudar Lisboa. Na capital, o infante D. Henrique engendrava há muito um plano secreto, cuja preparação entregou à cidade que o vira nascer, o Porto. Nos estaleiros, na zona de Massarelos, as águas do Douro viam erguer-se dezenas de naus e de outras embarcações. O povo intrigava-se com tamanho empreendimento naval e nem mesmo os trabalhadores conheciam o emprego a dar aos barcos. A boataria crescia: havia quem dissesse que serviriam para levar - com escolta nunca vista - el-rei D. João I  a Jerusalém, a fim de visitar o Santo Sepulcro; também se garantia que tinham como missão transportar a infanta D. Helena até Inglaterra, para casar; aventava-se de igual modo a hipótese de estarem a ser preparados para levarem os infantes D. Pedro e D. Henrique a Nápoles, também para fins matrimoniais. As estradas vindas de outras paragens e os caminhos que levavam até ao rio encontravam-se congestionados com carros transportando panos para velas, armas e mantimentos, numa azáfama nunca vista, mas só Mestre Vaz, o encarregado da construção, sabia do plano do infante D. Henrique. Esvaziaram-se celeiros, matou-se toda a espécie de animais, para depois se salgarem as carnes. O Porto e a região preparavam-se para, em 1415, tal como trinta anos antes, durante a guerra com Castela, que levou ao cerco de Lisboa, se sacrificar pela nação. Em 1384, em plena crise 1383-1385, uma armada alimentar, carregada das melhores carnes, foi enviada do Porto para Lisboa, para ajudar a resistir aos avanços castelhanos. As gentes do Norte, mas sobretudo os portuenses, ficaram somente com as vísceras. O mesmo terá acontecido em 1415, quando o infante D. Henrique, aparecendo de surpresa no Porto, a fim de visitar os estaleiros de Massarelos, e de ver o andamento dos trabalhos de construção naval, pediu ao mestre Vaz empenho redobrado, para terminar a empreitada. Diz-se que o Mestre Vaz não defraudou a confiança do infante: prometeu todo o empenho da cidade e, inclusivamente, que o Porto ofereceria toda a carne que possuísse, para a jornada, ficando somente com os miúdos. Em rigor, não se sabe se foi por promessa do Mestre Vaz, se porque as vísceras se estragariam facilmente a bordo, mas o Porto ficou, mais uma vez, apenas com as tripas - com as quais, com muito engenho, criou o seu prato mais típico - e demais miudezas. Em resultado deste novo sacrifício, os portuenses passaram a ser conhecidos como tripeiros. (...)

Morro da Pena Ventosa
Rui Couceiro
Porto Editora (2024)

sexta-feira, 23 de agosto de 2024

Palavras bonitas

Passam hoje 9 anos da partida do meu pai e cada vez é mais difícil dizer alguma coisa de substancial sobre isso.

Faltando a imaginação e a capacidade, nada melhor do que recorrer a quem sabe e parece ter feito o poema adequado.

POESIA

Gastei uma hora pensando um verso
que a pena não quer escrever.
No entanto ele está cá dentro
inquieto, vivo.
Ele está cá dentro
e não quer sair.
Mas a poesia deste momento
inunda minha vida inteira.

Vai, Carlos!
Carlos Drummond de Andrade
Tinta da China (2022)

quinta-feira, 15 de agosto de 2024

Distracção

A Foz faz, diariamente, prova inequívoca de que não é possível ter tudo nem agradar a todos: se há sol, vem o vento; se o vento não aparece, o sol ausenta-se; se o mar está calmo, não há temperatura que justifique sentir o frio nos artelhos; se o dia está fantástico, com um sol radioso, sem vento nem nuvens, então o banheiro coloca a bandeira do Benfica porque o mar não está para brincadeiras e pode haver chatices.

- Vamos à aberta!

E lá marcha a excursão, a caminho da piscina natural, de água salgada e sem ondas, mas com água renovada e bem limpinha, que a maré está a encher até quase à uma da tarde.

Pelo caminho, conversa-se sobre o discurso do Primeiro-Ministro Montenegro, gritado às massas no remanso de Quarteira, com o oceano, de poucas ondas, atento ao português utilizado de forma brilhante (ou será com brilhantina?).

Será-lhe difícil esquecer o dia de ontem, tal como os reformados mais débeis não olvidarão o prémio que será-lhe pago no próximo mês. Não será o erro que impedirá a portaria ...

segunda-feira, 12 de agosto de 2024

Palavras bonitas

 LUTA

Um contra o mundo, é pouco.
Mesmo que seja louco,
É muito pouco ainda.
Mas que pode fazer o homem que endoidece
E se esquece
De medir o poder do seu tamanho?
Ah, se houvesse um fotógrafo no céu
Que filmasse
Uma aventura assim, ridícula e perfeita!
D. Quixote sozinho
A combater as velas do moinho
Que mói, ronceiro, a última colheita.

Cântico do homem
Miguel Torga
Coimbra

Passam hoje 117 anos do nascimento do grande Miguel Torga. Sempre actual!

terça-feira, 6 de agosto de 2024

Aventuras

Acordo . Um barulho esquisito, difuso, longe, numa divisão que não consigo identificar à primeira. Estarei a sonhar? O sol ainda não nasceu e a claridade do dia mal perpassa pelas nesgas do estore. Toda a casa está em silêncio e no escuro. Apuro o ouvido. Alguma coisa bate em algo, de quando em vez

"Batem leve, levemente, como quem chama por mim ..."

Levanto-me e sigo a intuição. Não é chuva nem é gente e neve é visitante muito, muito raro nesta zona e nunca neste tempo. Acendo as luzes e o barulho acentua-se. Facilita a deslocação e a identificação do local donde provém. Pasmo! Há um pássaro na lareira, a lutar contra o vidro. Deve ser um aventureiro que tentou desvendar o mistério da escuridão do fumeiro. Veio até cá abaixo e, claro, já não conseguiu subir.

Abri a lareira. O pardal saiu de rompante, mal me dando tempo para o identificar. Procurou a luz, pousando no cimo dum móvel, aflito. Era um pardal-telhado, um charéu, um telhadeiro, adulto, daqueles que na minha infância terminavam, muitas vezes, no braseiro ou na frigideira. Amedrontado, perdido, decerto com o coraçãozito em velocidade supersónica.

"O pardal daninho aos campos / não aprendeu a cantar. Como os ratos e as doninhas, apenas sabe chiar." 

Apenas chiava, baixinho, na sua aflição em busca da saída. Encaminhado pela luz e pelas portas que se iam abrindo, lá chegou, finalmente, àquela que lhe deu acesso ao quintal e a um tronco da ginjeira, onde pousou, olhando, pareceu-me que agradecido.

O caminho para a liberdade não foi fácil. E alguma vez é?

terça-feira, 30 de julho de 2024

Livros (lidos ou em vias disso)

Agustina escreveu muito e bem. Dela já li muito e bom, mas não tudo nem nada que se pareça. "O Manto", escrito em 1961 e reeditado há meia dúzia de anos, era um dos que estava ausente. Calhou agora, para poder ser arrumado, ele que já estava saturado de saltar da secretária para a mesa de cabeceira, do carro para a cadeira da praia, sem cumprir a sua função de afago.

Uma vez mais, confirmei que a língua portuguesa, quando utilizada por quem sabe, não é bonita, é fantástica.

"(..-) À beira do rio Ave, à beira do rio Ave desembarcam as lavadeiras, com os seus lenços verdes, que cheiram a fumo de pinheiro, atados para a nuca. São mulheres prazenteiras, que riem, e cujas vozes enchem o ar e as margens de areia, onde o rodado dos carros de bois ficou profundo; nas ilhotas juntam-se as gaivotas brancas como pedras de um jogo, em fileiras cerradas e quietas; os sinceiros dobram-se sobre as águas, o vento parou um momento. Na colina que as primeiras chuvas hão-de reverdecer, Camilo toma banhos de sol; está quase nu, o corpo liso e de finos músculos repousa sobre uma toalha vermelha; ele tem ao lado alguns livros, e o vento parou um momento. Eis um homem solitário, com o seu quê de mitológico, e, com um pouco de esforço, podemos calcular as suas probabilidades de entrar na fábula um dia, com os seus cisnes no meio dos quais se deixa arrastar na corrente, com o seu moinho onde à noite pousam as corujas sopradoras. Mas o que faz o mito não pode ser nunca a excentricidade, mas sim o raro, o difícil e até o insociável que há na virtude humana. Este homem dorme como Pã sobre a relva - mas onde está a flauta que inspirou a cabriola e o amor lúdico? Os delgados caracóis caem-lhe na testa como as próprias madeixas de Apolo - mas onde está a tristeza da formosura que medita? Os deuses belos são deuses tristes. Este homem - acreditem-me -, quando despertar, há-de sacudir as formigas que sobem pelas suas pernas, e pensará no jantar; vive como um pobre, aproveita o calor do Verão para não gastar roupas, amealha obstinadamente, porque tem a sustentar mais do que uma descendência ou até um vício - talvez o medo. (...)"

O Manto
Agustina Bessa-Luís