terça-feira, 19 de maio de 2026

Livros (lidos ou em vias disso)

"(...) Estamos em 2066 e tenho sessenta e seis anos. (...)

Para compreendermos mais depressa o que nos propõe Ava Carina, porque se lembrou disto agora, deveríamos todos ter aprendido com a moda.

Se observássemos como cada vestuário com rasgo de futuro trazia agarrado uma nostalgia, teríamos visto mais cedo como tudo se repete.

A alta-costura foi das primeiras evidências. Imaginação ao serviço de um eterno retorno. Evocações de passados tornaram-se indústrias. Ouçam como cada anúncio de progresso nos diz que isto ou aquilo está de volta. Saudades da pinta das calças e casacos de antigamente, dos cozinhados das avós, dos Natais, das férias da infância com o mesmo grupo de amigos. Os relógios que inventámos andam às voltas. Estamos destinados a tocar como um disco de vinil, que vai por ali fora até termos de o virar. E quando começa o lado de lá, é o mesmo disco que recomeça.

Por isso, quando Ava Carina explicou

- Chamei-as porque sou toda a favor da resiliência, e não aceito que os livros morram

percebi que fomos convocadas por ela como velhos mecânicos aposentados o seriam por um jovem que levanta o capô do carro e não faz ideia do que se passa ali.

Os regressos, as nostalgias. Porque lhes escapariam os regimes políticos? Ava Carina é apenas uma das testas-de-ferro de um novo tempo, e um novo tempo começa sempre por destruições selectivas no edifício que está em vigor.

No entanto (e é nisto que a humanidade é teimosa como a criança que volta ao fogo depois de se queimar) um novo tempo vai sempre beber ao passado, desde que seja longínquo. É um tão clássico quanto esquecido mecanismo de falta de memória, ou melhor, de apagamento progressivo da memória, que costumava durar muitas décadas, mas tende a ficar mais curto.

Nos anos dois mil e picos, era eu uma criança, mais ou menos setenta anos após a exposição ao mundo dos horrores dos campos nazis, começaram a surgir os primeiros arranhões nas juras de que nunca se poderia repetir.

Vocês lembram-se. Surgiram e multiplicaram-se vozes a questionar se teria sido mesmo assim, esse Holocausto de que tanto falam. Se não haveria um folclore exagerado. Chegou a ouvir-se que o sofrimento dos judeus foi pura e simplesmente inventado por uma geração para condicionar as seguintes. (...)"

O meu primeiro apocalipse
Rodrigo Guedes de Carvalho
D. Quixote (2026)

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