É por estas e por outras que continuo a ler, mantendo a teimosia de há tantos, mas tantos anos. E continua a valer a pena ...
"(...) Depois de decidir que deveria conquistar o segurança mudo através da narração dum conto, minimizando o gesto impulsivo e suspeito que tive com a porcaria do plano dos caroços de pêssego - que me dá esperança na mesma medida em que me oferece desespero - e tentando ir mais longe e sensibilizá-lo para a minha causa revolucionária, este foi o passo que dei no sentido de seduzir um inimigo que à partida deveria estar do meu lado, pois ambos sofremos, e de que maneira, com a ditadura e com a esquálida potestade.
Estando ele no seu posto, estaquei à sua frente antes de me dirigir para a bancada e pegar na faca serrilhada.
Comecemos, silencioso Dimitar, por cortar o pão em treze fatias:
O pão, prima fatia, é o alimento básico por excelência. <<O pão nosso de cada dia>> tornou-se sinónimo de vivência. É símbolo do que é necessário, do mínimo vital.
O pão, segunda fatia, é fruto do labor: semear, colher, moer, amassar, cozer. É metáfora do esforço, da fadiga e da dignidade do trabalho. Receberás o pão com o suor do teu rosto. A primeira troca comercial foi feita assim: pão em troca de suor.
O pão, terceira fatia, sendo facilmente repartido, simboliza fraternidade. Partir o pão é gesto de união. <<Companheiro>> vem do latim cum panis, aquele com quem se partilha o pão.
Quarta fatia: oferecer pão é acolher. Na Bíblia, nas epopeias clássicas, no mundo camponês, o pão é o sinal do hóspede recebido.
Aliança com o divino é a quinta fatia. No Antigo Testamento, havia o <<pão da proposição>>, no Templo de Jerusalém. No cristianismo, o pão da Eucaristia é o corpo de Cristo, alimento sagrado que une humanos a Deus.
Simplicidade e humildade são a sexta fatia. O pão é alimento dos pobres, básico, a descrição da ausência de qualquer tipo de luxo. Por isso, simboliza a humildade, a sobriedade, a essência. Até Deus se esconde no pão, pois não há nada mais humilde, mais comum, mais fundamental. É no formato de pão que ele se deixa devorar na Eucaristia.
O pão, sétima fatia, é justiça social. Falar de pão é falar de desigualdade e de fome. <<Pão e trabalho>> foi lema popular. O pão simboliza os direitos do povo.
Ressurreição e renovação compõem a oitava. O pão é feito de grão triturado e morto que, ao fermentar e ser cozido, se transforma em algo novo e nutritivo. (...)"
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