terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Palavras bonitas



FUNDO DO MAR

No fundo do mar há brancos pavores,
Onde as plantas são animais
e os animais são flores.

Mundo silencioso que não atinge
A agitação das ondas.
Abrem-se rindo conchas redondas,
Baloiça o cavalo-marinho.
Um polvo avança
No desalinho
Dos seus mil braços,
Uma flor dança,
Sem ruído vibram os espaços.

Sobre a areia o tempo poisa
Leve como um lenço.

Mas por mais bela que seja cada coisa
Tem um monstro em si suspenso.

O Búzio de Cós e outros poemas
Sophia de Mello Breyner Andresen
Caminho (2004)

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

A bronca do bronco

A observação, à distância, é sempre mais realista ...
Vale a pena espreitar e sentir como a imagem de quem manda na cidade saiu reforçada, na brilhante intervenção do último "Prós e Contras" da RTP 1.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Flic-Flac

Ontem:
  • Ota ... sempre;
  • Alcochete ... "jamais";
  • Estudos credibilissimos garantem ser a melhor solução.
  • O resto é apenas demagogia.

Hoje:

  • Alcochete ... sempre;
  • Estudos credibilissimos garantem ser a melhor solução;
  • Demissão ... "jamais".

Conclusão, à Scolari:

... E o burro sou eu ?!

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

Ironias

A comparação entre as épocas de 2006/2007 e 2007/2008 da Liga Bwin de futebol, no final da 1ª. volta, produz os seguintes resultados:

  • 2006/2007 - Porto: 40 pontos; Sporting: 33 pontos; Benfica: 32 pontos.
  • 2007/2008 - Porto: 38 pontos; Benfica: 29 pontos; Sporting: 26 pontos.

Os jornais concluem que o F.C. do Porto está, neste ano, imparável e muito melhor ...

Os reformados fazem filas nos Bancos, para constituirem depósitos a prazo com o aumento que irão receber. Afinal parece que os retroactivos já não vão ser pagos em 14 suaves prestações mensais ...

O Tratado de Lisboa não vai ser referendado. A promessa fora feita, mas referia-se ao outro ...

Armando Vara vai ter uma licença sem vencimento na CGD. Talvez obtenha um VENCIMENTO sem licença no BCP ...

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

Livros (lidos ou em vias disso)

Morreu ... perdeu-se uma voz "envinagrada" que, durante décadas, "temperou" a vida literária do Portugal "fechadinho".

Memorial do recolhimento

Aqui há meses, chateadíssimo de viver sozinho, resolvi recolher a um lar da terceira idade. ( )

... Não sei ao certo de onde veio esta moda, mas calculo. E veio para ficar.( )

... E tenho trabalhado. E tenho editado. E me considero privilegiado por isso. E surgiram-me apoios e palavras boas.( )

... E não me considero arrumado.( )

... E se padeci sustos e flatos e, às vezes, isto parece uma casa de orates, não perdi a vontade de rir de mim, principalmente, o que é óptimo sintoma. Deêm-me os parabéns. Tudo tem um fim, sei, sabemos todos. Aquela história que os elefantes conhecem a morte (e morrem) tem a sua beleza e sua nobreza. E quando me surge um neto pequenino ... e quando Raio de Luar vier ... fazem o favor de me invejar. Há razões que o coração conhece bem. E a razão aprova.

Raio de Luar
Luiz Pacheco
Oficina do Livro (2003)

terça-feira, 1 de janeiro de 2008

Palavras bonitas


LÁGRIMA DE PRETA

Encontrei uma preta
que estava a chorar,
pedi-lhe uma lágrima
para a analisar.

Recolhi a lágrima
com todo o cuidado
num tubo de ensaio
bem esterelizado.

Olhei-a de um lado,
do outro e de frente:
tinha um ar de gota
muito transparente.
Mandei vir os ácidos,
as bases e os sais,
as drogas usadas
em casos que tais.

Ensaiei a frio,
experimentei ao lume,
de todas as vezes
deu-me o que é costume:

nem sinais de negro,
nem vestígios de ódio.
Água (quase tudo)
e cloreto de sódio.
 
Poesias Completas (1956-1967)
António Gedeão
Portugália (1975)

domingo, 30 de dezembro de 2007

Árvores

No final de mais um ano, as árvores mantêm o seu porte majestoso, mesmo que o vento, o frio e a chuva as fustiguem amiúde ...

quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

Rotina

Ei-la de novo e sem autorização ou passaporte.
Instala-se e pronto ... não paga renda, não pede licença, "abanca".
Já não há: "fala mais baixo que acordas o menino"; "cuidado com a porta aberta"; "despacha-te que pode ser preciso alguma coisa"; "agora não me peças nada".
A casa é enorme !!!
Ontem tinha tanta gente ...

domingo, 23 de dezembro de 2007

Natal

As flores do Natal, no jardim e na Casa.

Estão cá todas ... as grandes, as pequenas, as "estrangeiras" e as nacionais, as que aqui nasceram e as que se juntaram.

É o jardim completo ... por pouco tempo.

sábado, 15 de dezembro de 2007

Sem data

No final dos anos sessenta fazer uma escritura significava, pelo menos, uma manhã de burocracia, depois de algumas passagens pelas Finanças e pela Conservatória, também pela Câmara, para obter os documentos necessários.
Ao Notário, coadjuvado pelo Ajudante de mangas de alpaca no casaco, cabia a marcação da data, depois de uma olhada rápida pelos elementos entregues. Os pormenores ficavam para o dia aprazado, com a presença de todos os intervenientes, que compareciam com bastante antecedência para que nada pudesse correr mal e o serviço, de muita responsabilidade, não fosse prejudicado pelo atraso de alguém.
Nessa altura trabalhava como empregado de escritório (ou guarda-livros como, por vezes, ainda se ouvia aos mais velhos) de uma grande casa agrícola da região, cujo proprietário, herdeiro de uma grande, antiga e conceituada família, era uma pessoa de grande cultura, educação e rigor.
Pouco dado às burocracias e com, por certo, coisas bem mais interessantes para fazer, mandava-me ir em sua representação e chegava, apenas, na hora aprazada para o acto. O Notário conhecia os hábitos e sabia que, à hora marcada, deveria ter a escritura totalmente pronta e em condições de ser lida e assinada, porque a sua pontualidade era "inglesa".
Naquele dia, à hora prevista, não chegou ...
Passou-se quase meia hora e nada ...
Pedi ao Notário para utilizar o telefone, fixo, que os móveis só chegariam muitos anos depois.
Liguei para a Quinta e fui atendido de imediato. Estava, quase de certeza, sentado a aguardar o telefonema.
- Estamos todos à sua espera ...
- Para quê?, foi a pergunta que surgiu do lado de lá.
- Para assinar a escritura de... deixei um recado escrito num papel, na mesa da sala verde, respondi, já com algum receio e sensação de culpabilidade.
- Vi e li. Não tinha data, não fiquei a saber que era para hoje. Vou já para aí.
Nunca mais esqueci a lição.
Ainda hoje, em qualquer nota, por mais curta que seja, coloco sempre a data.