domingo, 21 de agosto de 2011

O celeiro

A vida naquele celeiro era qualquer coisa de sonho!
Os ratos que nele habitavam deleitavam-se com a variedade e a qualidade dos cereais que lá eram armazenados e que proporcionavam lautos banquetes.
Bem nutridos, os ratinhos apenas comiam, dormiam e ... reproduziam-se. Cada vez eram mais, e mais felizes!
Um dia (há sempre um dia) surgiu no celeiro uma criatura estranha, bem maior, mais peluda, que também se deslocava a quatro patas, bem diferentes e assustadoras. Cada uma delas tinha umas garras, afiadas, retorcidas,  de fazer arrepiar o pelinho sedoso de qualquer ratinho ou ratão. Ainda por cima, a criatura trazia cara de poucos amigos ... inspeccionou, cheirou, decerto detectou o que procurava, retirou-se sem sequer mostrar curiosidade pelos esconderijos que as sacas empilhadas ofereciam.
Os ratos, em pânico, convocaram uma reunião de emergência para discutirem o problema que, já se adivinhava, havia chegado. A sua vida corria perigo, a sua subsistência estava em causa, o sossego ia terminar. 
Encontrar uma solução era urgente e instante!
Constituída a mesa que iria conduzir os trabalhos, a participação dos ratinhos na assembleia surgiu ordeira, preocupada e civilizada.
- Juntamo-nos todos, montamos uma emboscada e liquidamos o gato, disse um.
- Nem pensar! Somos civilizados, fiéis ao respeito pelos outros, ordeiros, dialogantes, não somos vândalos, muito menos assassinos, argumentaram, com veemência, os dois oradores seguintes.
- Pregamos-lhe um valente susto!
- E quem nos garante que ele não volta a seguir?
Foram inúmeras as intervenções, nenhuma apresentou qualquer solução. O desespero já se apoderava da assembleia, o medo era comum a todos, a corrida às ideias era vertiginosa.
Acabaram os oradores inscritos e o silêncio na sala era ensurdecedor.
Um rato mais maduro, tido como ponderado, inteligente e sabedor, pediu a palavra.
- Encontrei a solução! 
A voz era pausada, persuasiva e concitou a atenção de toda a assembleia.
- Colocamos um guizo no gato e o seu tilintar avisar-nos-á com antecedência, permitindo-nos fugir para os esconderijos sem correr quaisquer riscos.
- Bravo, excelente, brilhante, foram alguns dos muitos adjectivos com que a assembleia brindou o orador, para além de uma chuva de aplausos de "deitar o celeiro abaixo".
Solução encontrada, prepara-se o presidente para a última intervenção, na qual brindaria os presentes com os agradecimentos do costume, e daria por encerrados os trabalhos, não sem antes salientar a forma ordeira como tinham decorrido e a aclamação com que tinha sido aprovada a proposta do meritíssimo rato. Não se podia esquecer de convidar todos os participantes a retemperarem as forças depauperadas com uma boa dose dos excelentes cereais que ali se encontravam à disposição de todos e de cada um. 
Ajeitou a compostura, pigarreou para aclarar a voz, mas, lá do cantinho do fundo e com uma voz tremida pelo nervoso habitual de quem fala em público pela primeira vez, um jovem ratinho levantou a medo a pata direita, pedindo a palavra.
- Senhor presidente! Também eu aplaudi a ideia brilhante que acabou de ser aprovada e aclamada, e que, por certo, o senhor secretário já registou na acta. Permita-me, contudo, uma pergunta.
- Meu caro, pergunte o que quiser, retorquiu, solícito, o presidente.
- Quem vai colocar o guizinho no pescocinho do gato?

Moral da história - É fácil dizer que se faz, mas é tão difícil fazer!
Entre o celeiro e o país "vai o passo de um anão".

domingo, 7 de agosto de 2011

Cidadania

A Fundação Francisco Manuel dos Santos, que António Barreto dirige (vale a pena espreitar o seu blog pessoal  aqui), tem vindo a publicar uns "livrinhos" com estudos, ensaios e opiniões sobre os mais diversos temas, da educação às finanças, da autoridade à estatística, passando pelas sondagens, pela corrupção e pela justiça. 
Já foram editados 18 volumes, que podem ser adquiridos no Pingo Doce, a 3,15 Eur cada.
A última publicação é da autoria de Maria Filomena Mónica e versa a morte e a forma como com ela se lida. Partindo da doença da mãe, vítima da doença de Alzheimer em 2006, a autora discorre sobre conceitos éticos, morais, científicos, religiosos. Analisa-os sobre a perspectiva histórica, ilustra a argumentação com casos reais, convida/desafia à discussão, serena, sobre temas tão actuais quanto o são a eutanásia, o testamento vital, o suicídio assistido, a dignidade a que temos direito, a vontade manifestada e ausência dessa manifestação e muito, muito mais.
O tema não será fracturante na sociedade mas é, seguramente, demasiado importante para ser deixado nas mãos da demagogia e do cinismo. 
Imprescindível ler.

Palavras bonitas

UM DIA
 
Um dia, mortos, gastos, voltaremos
A viver livres como os animais
E mesmo tão cansados floriremos
Irmãos vivos do mar e dos pinhais.
O vento levará os mil cansaços
Dos gestos agitados, irreais,
E há-de voltar aos nossos membros lassos
A leve rapidez dos animais.
Só então poderemos caminhar
Através do mistério que se embala
No verde dos pinhais, na voz do mar,
E em nós germinará a sua fala.

Dia do Mar
Sophia de Mello Breyner Andresen
Caminho (2005)

domingo, 31 de julho de 2011

Venda do BPN

O Governo anunciou há pouco, em comunicado formal, a venda do BPN ao banco angolano BIC, que já opera no mercado português e é presidido por uma figura muito conhecida na nossa praça - Luís Mira Amaral. 
Foi assim cumprida, em cima do limite de prazo, uma das imposições da "troika".
Como os nossos credores não fixaram o preço de venda nem o comprador, aguarda-se, agora, que o Ministro das Finanças divulgue as razões que o levaram a preferir a proposta do BIC em detrimento das dos outros 3 concorrentes - Montepio Geral, um grupo de empresários denominado NEI e um outro que se manteve no anonimato - e bem assim como todas as condições da adjudicação.
A bem da transparência ...

domingo, 24 de julho de 2011

Província

A grande cidade coloca à disposição dos seus habitantes espectáculos da mais variada ordem, sendo apenas condição para a eles assistir que o gosto a isso apele e a carteira disponibilize os euros suficientes. 
Para quem vive na província, a situação é bastante diferente. Ou se desloca frequentemente à "aldeia grande", com os custos e o cansaço inerentes, ou está atento e não desperdiça as oportunidades, uma vez que "o comboio nunca passa duas vezes".
Na passada sexta-feira assisti no CCC, com a companhia estóica do meu Neto I (já estou muito cansado, avô), ao encerramento do Musicaldas 2011. Inspirado em Alexandre O'Neil, Bernardo Sassetti e a Companhia Nacional de Bailado apresentaram "Uma coisa em forma de assim" que valeu pela música e pela interpretação de Sassetti, pelas excelentes coreografias e pelos belíssimos desempenhos dos bailarinos (Ó vô, parece que estão a fazer ginástica). Uma bela noite!
Ontem, no Mosteiro de Alcobaça, integrado no Cistermúsica, este ano "Em torno de Inês", ouvi, pela primeira vez, Bach em acordeão a solo. O finlandês Mika Väyrynen deu um concerto extraordinário no claustro D. Afonso VI, do Mosteiro. A última obra do programa - Impasse, de Franck Angelis - foi uma "coisa em forma de ASSIM", que o texto escrito pelo intérprete no programa já deixava antever: "...Na última parte do concerto temos Impasse, de Franck Angelis. A história desta peça é dramática e trágica. O Franck era uma espécie de "padrasto" do filho da sua irmã (pois este não tinha pai). Eram muito próximos e o Franck viu o pequeno bébé crescer e tornar-se rapaz. Até que um dia chegou a triste notícia: o rapaz morrera num acidente de moto. "Impasse" é dedicado à memória deste menino. Impasse significa "algo que não sai". Nos grandes desgostos, é essa a sensação que temos."

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Neto II

Qual navegador ousado, consequente e destemido, o meu neto Vasco terminou a "travessia" pelos interstícios da mamã e "atracou" nas Descobertas, onde lhe franquearam as portas de uma vida que se deseja longa, bela e cheia de felicidade.
Chegou bem! Era o mais importante. É (ainda) pequenino, mas vai crescer e fazer as delícias dos pais, dos avós, dos tios, de toda a família e ... do mano Gil, que está tão deslumbrado e com tanta ânsia de brincar com ele, que já queria que o mano pegasse no peluche que escolheu para lhe oferecer.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Palavras bonitas

DIÁLOGO
 
Pergunto ...
Mas quem me poderia responder?!
Tu não, rio sem asas,
Que permaneces
A passar ...
Nem tu, planeta alado,
Que pareces
Parado
A caminhar ...
Humano, só de humanos meus iguais
Entendo a fala,
Os gestos
E o destino.
E esses, como eu,
Olham a terra e o céu,
Os rios e os planetas,
E perguntam também ...
Perguntam, mas a quem?

Orfeu Rebelde
Miguel Torga
Gráfica de Coimbra (1992)

Netos

O meu neto fez 5 anos no passado dia 5. Nunca mais conseguirá repetir esta proeza e o avô não foi capaz de assinalar a data na altura própria, como se impunha.
A vida, às vezes, prega-nos partidas e a "martelada" na cabeça não sai só aos outros. Também nos calha, por muito que pensemos que não.
O mar já está mais calmo, a tempestade tende a amainar, a minha qualidade de teimoso já está à tona, o humor já apanhou o comboio, ronceiro, do regresso.
Apareceram inquilinos a ocupar espaço sem a devida autorização. Foram despejados e remetidos a quem os possa identificar, nem que seja para lhes determinar um "termo de identidade e residência".
Cá por mim, que com eles não assinei contrato, só espero que não voltem nem tenham deixado rasto ...
O que importa, agora, é que o meu neto Gil já é um homem de 5 anos e que o meu neto Vasco está quase, quase a sair do conforto da barriguinha da mãe!

terça-feira, 5 de julho de 2011

Crise

No muro, algum contestatário meio "anarca" ou a recordar os idos tempos do PREC (para quem é mais novo, iniciais do Processo Revolucionário Em Curso, em 1975), escreveu:

- NÃO À CRISE!

A cor diferente, um esperto zelador da língua, talvez conservador ou diligente "educador", colocou um H antes do "à", não tocando, todavia, no acento.
Deixando de lado a acentuação, com a qual já pouca gente se preocupa, resultou que a primeira mensagem, que pretendia ser de alerta, chamamento, voz de revolta, foi, com um simples H, transformada radicalmente numa afirmação peremptória:

- NÃO HÁ CRISE!

E ambas cumpriram a sua função, com a subtileza, bela, que tem a língua portuguesa.

sábado, 2 de julho de 2011

Palavras bonitas

PÓRTICO


Aqui começa a nova caminhada.
Se a levar ao fim, darei louvores a Deus,
Como meu Pai, ao despegar
do dia ganho.
Não por haver chegado,
mas ter acrescentado
um palmo de ilusão ao meu tamanho.

Diário XVI
Miguel Torga
Gráfica de Coimbra (1995)