sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Livros (lidos ou em vias disso)

Quando entrei no mercado de trabalho - há quantos anos, já lhe perdi a conta! - não havia subsídio de férias (nem férias), não existia subsídio de Natal (o Natal existia mas era bem mais curtinho) e o horário era uma coisa que constava de um papel afixado no escritório (havia um senhor que era o fiscal do dito) que, na prática se resumia a ter a hora de entrada e a hora de saída, com intervalo para almoço, para que o tal referido senhor consultasse quando visitava a empresa, na sua missão soberana de zelar pelo cumprimento da lei e, já agora, da ordem.

Passadas estas dezenas de anos, o horário já desapareceu há muito mas ainda consta do papel e os subsídios de férias e de Natal vão seguir-lhe o caminho.

Regredir é a palavra de ordem, ninguém sabendo onde se situará o fim desta "descida aos infernos".

Espera-se que a meta não seja o regresso a uma sociedade arcaica, castradora, insensível, desigual, propiciadora de situações como a que António Lobo Antunes ficciona no seu último romance, Comissão das Lágrimas:

"(...) um animal vindo por momentos à superfície de um sonho e mergulhando logo numa inércia de afogado, a lareira que não aquecia, fritava e o tio a cabecear no banquito que era o único baloiço que tivera na vida, a tia que o marido entrega ao avô, no dia seguinte ao casamento, por não estar completa
      - A sua fruta tem bicho
e não comia com eles, estendiam-lhe o prato e acocorava-se no arco do forno, de chapéu na cabeça a tapar-lhe a cara (...)"

Comissão das lágrimas
António Lobo Antunes
D. Quixote (2011)

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Euro 2012

O trabalho deu frutos...
Após 16 jogos sem conhecer a derrota, a Grécia está apurada para o Euro 2012 e o "meu menino" também tem uma quota parte de responsabilidade nesse sucesso.
Parabéns para todos, num dia de nervos e de alegria, apenas ensombrada pelo não apuramento directo da selecção de Portugal.

sábado, 24 de setembro de 2011

Fim de semana

O Expresso faz-me companhia desde o primeiro número publicado, ainda naquele papel e tinta que deixavam as mãos num estado impróprio para mostrar a quem quer que fosse, no já longínquo ano de 1973. 
Com altos e baixos, o seu caminho é, lugar comum, uma demonstração cabal de que a qualidade, a diversidade e o debate das ideias são condição para se ser cada vez melhor.
Os colunistas são, para mim, pessoas do "tu cá, tu lá", sem que, na grande maioria, alguma vez me tivesse com eles cruzado nem sequer no passeio do outro lado da rua. Mas, o Henrique Monteiro, o Miguel Sousa Tavares (mais uma extraordinária crónica esta semana), o Nicolau Santos, o Fernando Madrinha, o Ricardo Costa, a Clara Ferreira Alves, etc. etc., são convidados de casa e passam comigo todos os fins de semana.
No número de hoje, uma chamada de atenção na crónica do Nicolau Santos levou-me a esta "pérola" de Pedro Osório, que aqui fica. Obrigado, Nicolau, e, já agora, os agradecimentos também pelas incursões da poesia nos interstícios da economia. 

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Vontade

Não me apetece, pronto!
Com tanto assunto na ordem do dia, do aumento da energia eléctrica com anúncio deixado cair pela entidade reguladora (?), até às "gavetas" do Alberto João que guardam tantos "tesourinhos deprimentes", passando pela crise, pelo fim do euro, pelo discurso "redondinho" do PR, pela nova liderança e presidência do PS, por isto e mais aquilo, não faltavam assuntos para discorrer, mesmo que a imaginação não abunde e a capacidade seja pouca, mas, que querem, não me apetece!!!

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Palavras bonitas ...

... para o meu filho, que faz hoje 30 anos.

LUGAR DO SOL

Há um lugar na mesa onde a luz
abdicou do seu ofício.
Já foi do sol
e do trigo esse lugar - agora
por mais que escutes, não voltarás
a ouvir a voz de quem,
há muitos anos, era a delicadeza
da terra: "Não sujes
 a toalha", "Não comes a maçã?"
Também já não há quem se debruce
na janela para sentir
o corpo atravessado pela manhã.
Talvez só um ou outro verso
consiga juntar no seu ritmo
luz, voz, maçã.
Poesia
Eugénio de Andrade
Fund. Eugénio de Andrade (2005)

sábado, 27 de agosto de 2011

Percebes


Percebes, agora, porque são caros os percebes?

MAMAOT

Num país onde as siglas proliferam e os neologismos e as misturas linguísticas são constantes, mencionar, em voz alta, a sigla do Ministério da Agricultura, Mar, Ambiente e Ordenamento do Território - MAMAOT - pode dar lugar a dúvidas sobre o que se pretende identificar ou transmitir. 
Sendo a pronúncia rigorosamente igual para MAMAOT ou MAMA HOT, já o significado, considerado o inglesismo arrevesado na última expressão, é bem diferente.
Para além de enorme, o Ministério de Assunção Cristas também será "quente"?

domingo, 21 de agosto de 2011

O celeiro

A vida naquele celeiro era qualquer coisa de sonho!
Os ratos que nele habitavam deleitavam-se com a variedade e a qualidade dos cereais que lá eram armazenados e que proporcionavam lautos banquetes.
Bem nutridos, os ratinhos apenas comiam, dormiam e ... reproduziam-se. Cada vez eram mais, e mais felizes!
Um dia (há sempre um dia) surgiu no celeiro uma criatura estranha, bem maior, mais peluda, que também se deslocava a quatro patas, bem diferentes e assustadoras. Cada uma delas tinha umas garras, afiadas, retorcidas,  de fazer arrepiar o pelinho sedoso de qualquer ratinho ou ratão. Ainda por cima, a criatura trazia cara de poucos amigos ... inspeccionou, cheirou, decerto detectou o que procurava, retirou-se sem sequer mostrar curiosidade pelos esconderijos que as sacas empilhadas ofereciam.
Os ratos, em pânico, convocaram uma reunião de emergência para discutirem o problema que, já se adivinhava, havia chegado. A sua vida corria perigo, a sua subsistência estava em causa, o sossego ia terminar. 
Encontrar uma solução era urgente e instante!
Constituída a mesa que iria conduzir os trabalhos, a participação dos ratinhos na assembleia surgiu ordeira, preocupada e civilizada.
- Juntamo-nos todos, montamos uma emboscada e liquidamos o gato, disse um.
- Nem pensar! Somos civilizados, fiéis ao respeito pelos outros, ordeiros, dialogantes, não somos vândalos, muito menos assassinos, argumentaram, com veemência, os dois oradores seguintes.
- Pregamos-lhe um valente susto!
- E quem nos garante que ele não volta a seguir?
Foram inúmeras as intervenções, nenhuma apresentou qualquer solução. O desespero já se apoderava da assembleia, o medo era comum a todos, a corrida às ideias era vertiginosa.
Acabaram os oradores inscritos e o silêncio na sala era ensurdecedor.
Um rato mais maduro, tido como ponderado, inteligente e sabedor, pediu a palavra.
- Encontrei a solução! 
A voz era pausada, persuasiva e concitou a atenção de toda a assembleia.
- Colocamos um guizo no gato e o seu tilintar avisar-nos-á com antecedência, permitindo-nos fugir para os esconderijos sem correr quaisquer riscos.
- Bravo, excelente, brilhante, foram alguns dos muitos adjectivos com que a assembleia brindou o orador, para além de uma chuva de aplausos de "deitar o celeiro abaixo".
Solução encontrada, prepara-se o presidente para a última intervenção, na qual brindaria os presentes com os agradecimentos do costume, e daria por encerrados os trabalhos, não sem antes salientar a forma ordeira como tinham decorrido e a aclamação com que tinha sido aprovada a proposta do meritíssimo rato. Não se podia esquecer de convidar todos os participantes a retemperarem as forças depauperadas com uma boa dose dos excelentes cereais que ali se encontravam à disposição de todos e de cada um. 
Ajeitou a compostura, pigarreou para aclarar a voz, mas, lá do cantinho do fundo e com uma voz tremida pelo nervoso habitual de quem fala em público pela primeira vez, um jovem ratinho levantou a medo a pata direita, pedindo a palavra.
- Senhor presidente! Também eu aplaudi a ideia brilhante que acabou de ser aprovada e aclamada, e que, por certo, o senhor secretário já registou na acta. Permita-me, contudo, uma pergunta.
- Meu caro, pergunte o que quiser, retorquiu, solícito, o presidente.
- Quem vai colocar o guizinho no pescocinho do gato?

Moral da história - É fácil dizer que se faz, mas é tão difícil fazer!
Entre o celeiro e o país "vai o passo de um anão".

domingo, 7 de agosto de 2011

Cidadania

A Fundação Francisco Manuel dos Santos, que António Barreto dirige (vale a pena espreitar o seu blog pessoal  aqui), tem vindo a publicar uns "livrinhos" com estudos, ensaios e opiniões sobre os mais diversos temas, da educação às finanças, da autoridade à estatística, passando pelas sondagens, pela corrupção e pela justiça. 
Já foram editados 18 volumes, que podem ser adquiridos no Pingo Doce, a 3,15 Eur cada.
A última publicação é da autoria de Maria Filomena Mónica e versa a morte e a forma como com ela se lida. Partindo da doença da mãe, vítima da doença de Alzheimer em 2006, a autora discorre sobre conceitos éticos, morais, científicos, religiosos. Analisa-os sobre a perspectiva histórica, ilustra a argumentação com casos reais, convida/desafia à discussão, serena, sobre temas tão actuais quanto o são a eutanásia, o testamento vital, o suicídio assistido, a dignidade a que temos direito, a vontade manifestada e ausência dessa manifestação e muito, muito mais.
O tema não será fracturante na sociedade mas é, seguramente, demasiado importante para ser deixado nas mãos da demagogia e do cinismo. 
Imprescindível ler.