sexta-feira, 18 de maio de 2012

Livros (lidos ou em vias disso)

Cheguei ao fim!

São 1054 páginas de um português adjectivado, substantivo, recheado de belíssimos e desusados vocábulos, num romance sobre a história da Marquesa de Alorna, poetisa, neta de Leonor de Távora.

Ao longo da viagem histórica e romanceada, visita-se e reflecte-se sobre o despotismo de Pombal, as intrigas da corte, o papel das mulheres, o luxo, a superficialidade, os amores, as traições, os casamentos de conveniência, a "loucura" da Rainha e o oportunismo do Príncipe, as baixezas de Pina Manique, a revolução francesa, os interesses dos Estados, a política (só para homens), a poesia e os poetas, numa descrição cativante e empolgante, que faz ressaltar sempre a ânsia do saber, os livros, os ideais, as ideias, as Luzes que comandam, mesmo que, aos olhos da grande maioria, surjam descabidas, sem nexo, sem interesse, importância ou justificação.

Um grande livro!

As luzes de Leonor
Maria Teresa Horta
D. Quixote (2011)



terça-feira, 15 de maio de 2012

Quotidiano ... em férias

Embora não seja (ainda) sexagenário, o computador parece já ser da "idade da pedra lascada" e lá me vai pregando partidas, não funcionando quando deve, muito menos quando eu quero, mas quando lhe apetece ou lhe dá na real gana.
Tinha alinhavado meia dúzia de linhas sobre o fim de semana que, entretanto, perderam oportunidade e actualidade.
Fica apenas a referência a (mais) um grande concerto de Bethânia no Coliseu e uma lição de história no CCC, com muitas "estórias" à mistura, as quais, tudo o indica, irão surgir em mais um livro do Juiz Carlos Querido.
Ontem cumpriu-se o ritual, assistindo-se ao concerto do 15 de Maio, fraquinho na qualidade e fortíssimo nos decibéis (será da idade?).
Uma ida à Foz, o corte das pernadas dos pessegueiros que não aguentaram o peso da idade e dos frutos e ... dois dias já lá vão!

sábado, 12 de maio de 2012

Bernardo Sassetti

Já só figura na memória e na estante dos discos.
Partiu um grande, um extraordinário músico.
Fica a obra do génio e a afabilidade, simpatia e humildade de um homem com quem tive o privilégio de privar, em três ocasiões distintas, nas quais me demonstrou (como se eu não soubesse) que não é preciso dizer ou fazer constar que se é bom: está à vista!

terça-feira, 8 de maio de 2012

Alma mater

A luz, tão intensa quanto a dos teus olhos, as nuvens, que muitas vezes te trouxeram tempestades, a música, que não me trauteaste ao ouvido.
Fazias (fazes) hoje 89 anos.
Obrigado, mãe.

sábado, 28 de abril de 2012

Palavras bonitas

HORA DE PONTA


Olhos rasos de mágoa
trazem perda nos sentidos
e um andar que não recua
sem nunca ir mais além.
Ao fim da tarde na rua
olham em frente perdidos
e passam sem ver ninguém

Nada está escrito
Manuel Alegre
D. Quixote (2012)

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Percurso


No exercício de hoje
Pra relembrar tempos idos
Tento colocar os sentidos
Alerta,
Na matemática.

Contei seguido e aos pares
Saltei como o caranguejo
E que vejo:
No dia da liberdade fiz
A capicua de dois,
Algarismo que serviu,
Depois,
Para completar duas dúzias.
Vejam só a ambição
De ver o tempo correr
Que doze meses passados
Já cá tinha um quarteirão.

Na época da ilusão
Tudo parecia real
O mundo estava a mudar,
(os filhos já a chegar)
Não havia volta a dar!
Acabara a escuridão,
O horizonte era vasto.
(como o pensar era casto)
O futuro já nos sorria
Na janela bem aberta,
De um país que pulsava,
Sentia, vivia, sonhava,
E, sobretudo,
Acreditava!

Os anos foram passando …
Os alcatruzes da nora
Já não trazem água fresca.
Está turva, que bem se nota.
A janela está fechada
Por culpa de quem a fez
(não cuidou bem da madeira)
E deixou que o caruncho
Sulcasse, de novo, a cama
E lhe apagasse a chama!

E eu, que só queria provar
Ser capaz de me contar
Por formas mui variadas:
Doze lustres, cinco dúzias,
Seis dezenas, quatro arrobas,
Dei uma volta na vida
E encontrei um cenário
Triste e tão pesaroso.
Hoje, já sou idoso,
Cordato, sexagenário!

domingo, 15 de abril de 2012

Madredeus

Ontem foi noite de concerto no CCC, que ainda permanece frio, à espera que a austeridade desapareça ou que o verão surja, quentinho.
Os Madredeus escolheram as Caldas para apresentarem ao vivo o novo disco - Essência - recentemente editado e que assinala os 25 anos do grupo. O trabalho é uma visita a alguns dos muitos êxitos que, ao longo deste quarto de século, nos habituamos a ouvir, a ver e a apreciar, e que surgem como uma roupagem nova, mais cheia e mais lenta.
Do anterior agrupamento restam Carlos Maria Trindade e Pedro Ayres de Magalhães, surgindo um violoncelo a brilhar nas mãos de Luís Clode (foi professor no Conservatório de Caldas), dois violinos, Jorge Varrecoso e António Figueiredo, e a voz de Beatriz Nunes, a procurar fazer esquecer Teresa Salgueiro.
A primeira parte não foi brilhante, com a música a sobrepor-se demasiado à voz, algo tensa, de Beatriz Nunes, que parecia adivinhar as comparações que se faziam na plateia.
Na segunda parte, Beatriz Nunes surgiu mais tranquila e mais segura, resultando um excelente concerto, onde ressaltou a qualidade dos novos arranjos e o virtuosismo dos músicos.
Já passava da meia-noite quando se ouviu a última música dos "encores", com uma interpretação excelente, que nada ficou a dever à que abaixo se reproduz.
Uma pequena nota final: ao consultar a página dos Madredeus verifiquei que o primeiro concerto do grupo a que assisti aconteceu em 20 de Maio de 1994, no Mosteiro da Batalha. Já lá vão quase 20 anos!

domingo, 8 de abril de 2012

Cão de ... rocha

Foz do Arelho, manhã de hoje.
O cão, que o tempo esculpiu na rocha, medita no modo como o mar tirou a areia que cobria as rochas e a transportou para a aberta, sem uma única máquina, camião ou draga.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Quotidiano

Lapso (Adjectivo) - Erro, falta que se comete, falando ou escrevendo, por inadvertência, descuido ou falha de memória (Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa).
Na semana da Páscoa, o Ministro Gaspar explicou, pausadamente como é seu timbre, que o ano de 2015 será o consecutivo do ano 2014 e que os subsídios de Natal e de férias voltarão aos bolsos dos funcionários públicos, de forma gradual, nesse ano e não em 2014, como, por mero lapso, havia referido anteriormente. 
Ainda bem que o Ministro Gaspar explicou tão direitinho aquilo do ano consecutivo. Esta angustiante ignorância de não saber que o ano de 2015 era o consecutivo de 2014 estava a aumentar-me perigosamente os níveis de ansiedade. Ficou tudo claro e vou passar a dormir mais tranquilo, à espera que 2016 seja o consecutivo de 2015 e que um senhor Fulano de Tal qualquer surja como consecutivo do Ministro Gaspar, muito antes disso.
Já não há pachorra para aturar aquele ar de sapiência infinita e aquela voz monocórdica de suprema clareza.
Tranquilo com a sequência dos anos, estou agora ansioso para não perder o momento em que o porta-voz do Conselho de Ministros virá explicar o lapso de se ter esquecido de nos informar que tinham aprovado a suspensão das reformas antecipadas, coisita de somenos, uma vez que se trata da gestão do dinheiro dos nossos descontos.
Entretanto também estou a aguardar que Cavaco Silva explique na sua página do Facebook como conseguiu promulgar o diploma tão rapidamente. Não o terá lido? Terá sido lapso?
Durmamos descansados, que há sempre alguém inteligente que vela por nós e pelo nosso bem-estar.
Devemos, por isso, voltar a ser "cidadãos atentos, veneradores e obrigados, a bem da nação", como antigamente, lembram-se?

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Portugal ... pequenino

António Lobo Antunes é um dos escritores preferidos cá de casa e a sua obra literária (completa) tem lugar de destaque na memória e na estante.
Para além dos livros que o mantêm sempre por aqui, quinzenalmente faz-nos a visita nas crónicas da Visão, já por várias vezes aqui destacadas.
Esta semana, com um humor irónico de alto nível e a qualidade habitual da escrita, Lobo Antunes espraia-se pelas figurinhas e pelos figurões desta "nação valente e imortal" e termina assim: 
"... Temos peitos, lábios, literatura e os ministros e os ex-ministros a tomarem conta disto. Sinceramente, sejamos justos, a que mais se pode aspirar? O resto são coisas insignificantes: desemprego, preços a dispararem, não haver com que pagar ao médico e à farmácia, ninharias. Como é que ainda sobram criaturas com a desfaçatez de protestarem? Da mesma forma que os processos importantes em tribunal a indignação há-de, fatalmente, de prescrever. E, magrinhos, magrinhos mas com peitos de litro e beijando-nos uns aos outros com os bifes das bocas seremos, como é nossa obrigação, felizes."