quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

Passeio confinado

Ainda voltaremos a ter uma cidade agradável, apetecível, espaçosa, arrumada e aberta? 

As obras nas ruas circundantes continuam e parecem trazer alguma coisa mais do que a simples substituição das canalizações. Um pouco mais abaixo, começou a ser delineado o que irá ser um espaço de lazer, que ligará a zona habitacional à zona desportiva, sem "arranha-céus" pelo meio, permitindo que toda a gente possa por ali andar, correr, brincar, desfrutar.

Por enquanto ainda está só no início, lento como convém, e pouco mais tem que os caminhos principais abertos e cobertos de saibro. Já convida a passear e, nesta altura em que as saídas se devem circunscrever aos espaços em volta do local da habitação, sabe bem poder passear por perto e em espaço agradável.

Veremos se fica concluído antes das autárquicas ...

terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

A seringa e a agulha

Vivem as duas, bem juntinhas, naquele minúsculo "apartamento" de vácuo, que ocupam desde a saída da fábrica, sem pagar qualquer renda. A seringa exibe um largo sorriso de boa disposição e contentamento, enquanto a agulha está sisuda, com cara de poucos amigos, mostrando aquele ar aterrador de que todos lhe devem e ninguém lhe paga.

- Não tens outra cara? Eu, só de pensar que vou à televisão, nem consigo dormir! Que excitação!

- Qual é o interesse? As minha antepassadas ensinaram-me que devia ser discreta, segura, que estava destinada a salvar uma vida ou, pelo menos, a contribuir para isso. Já não é como no tempo delas, que eram fervidas a cada utilização e duravam imenso. Agora, somos descartáveis e, à primeira utilização, lixo. Mas, ainda assim, prefiro a discrição ao exibicionismo.

- Tens de ver o lado positivo. Agora temos protagonismo, notícias, fotografias, televisões, a toda a hora. Somos vedetas, mais do que artistas, colocam-nos à frente de quem fala, várias vezes, para que sejamos bem vistas. Se eu fosse invejosa, que não sou, dir-te-ia que ocupas o espaço quase todo, sempre a entrar nos braços deste e daquele, do Presidente ao mais humilde idoso, nome que agora é dado aos velhos, enquanto eu apenas apareço de forma fugaz e sempre atrás de ti.

- Não concordo nada contigo. Qual é o interesse que tem essa exibição? Acaso cumprimos melhor a nossa função? Porque razão a agulha há-de ser notícia exibicional? E o acto de picar? Mostrado, filmado, fotografado, para quê? O que adianta?

 - Assim, toda a gente nos vê e nos aprecia a elegância. Gostava tanto de ser agulha, para ter a câmara a mostrar-me todinha ...

Encolheram-se sem chegar a acordo. O saco estava a ser aberto, iam ser retiradas e utilizadas, mas não havia luzes à volta.

Azar! Logo havia de ser hoje, que a televisão não veio!

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2021

Nada

A música francesa fez parte da minha adolescência, quando tudo vinha de Paris, até os meninos.

De Adamo a Aznavour, nessa época mais Bécaud do que Brel, passando por Françoise Hardy, Sylvie Vartan ou Mireille Mathieu, o romantismo a marcar os passos de dança e os outros. Em meados dos anos sessenta, os quatro de Liverpool chegaram e cilindraram tudo, até o corte de cabelo. Uma nova ordem de gosto, moderna e contestatária, acentuou o conflito de gerações, com divergências profundas e observações (im)pertinentes, como a de um professor de História que, com a desfaçatez própria de quem tudo sabe, comentava sobre os Beatles: "músicos eléctricos, desliga-se a ficha e pronto" .

O encanto pela música francesa, mesmo assim, manteve-se, e a diva Edith Piaf ainda hoje se ouve com muito agrado e actualidade.

Rien de Rien ...

domingo, 7 de fevereiro de 2021

Tempo

Janeiro fora, cresce uma hora. E quem bem procurar, hora e meia há-de encontrar.

Nem o tempo ajuda!

Fevereiro já cumpriu um quarto do seu reinado, mais curto do que o dos seus onze irmãos e, neste ano, apenas com vinte e oito dias de vida, porque bissexto foi em 2020 e só volta a ser em 2024. Se dúvidas houver sobre a certeza desta verdade insofismável, é só consultar o Borda d'Água ou a Wikipédia. Está lá tudo!

De manhã, ainda deu para a voltinha higiénica - porque há-de chamar-se higiénica se nos faz transpirar -, que desentorpece os músculos e permite sentir o vento, fraco, na cara e a luz, cinzenta, nos olhos. Pessoas, muito poucas, mascaradas, com a pressa de andar, a desconfiança do olhar e a certeza do dever de afastar. Longe, longe, é a preocupação actual, não vá o diabo tecê-las. Quem vê caras não vê corações e muito menos o bicho, e cautelas e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém.

Acordada da sesta, parece que a ventania está a regressar e a ameaça da chuva mantém-se, para que o encerramento confinado não se torne tão arrasador e a obrigatoriedade "legal" seja esquecida ou, pelo menos, menosprezada.

Os dias estão cada vez maiores. De acordo com os especialistas e os números dos últimos dias, parece que o tempo está a melhorar. Oxalá não haja enganos nem retrocessos, e a Primavera traga um sol radioso, para nos deliciar e fortalecer, que bem precisamos.

sábado, 6 de fevereiro de 2021

O Garoto

Estreou há 100 anos, no dia 06 de Fevereiro de 1921. Pode ser (re)visto aqui, integralmente, legendado em português e sem pagar bilhete.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021

Netos

Hoje é o dia do aniversário do meu neto mais novo. Cinco anos, alegria a rodos que não pode ser completamente extravasada, dadas as circunstâncias especiais em que (sobre)vivemos. Conversas, poucas e sempre distantes.

Daqui a uns anos, lembrar-se-á que, no dia do seu quinto aniversário, passou pela casa dos avós, numa "visita de médico", ouviu os parabéns mal cantados e recebeu uma prenda, dada por uns "mascarados" que o abraçaram, comedidos e receosos. Ainda mal começara e já a "festa" estava acabada.

Regresso à normalidade, anormal, que a chuva está a chegar e a casa é, em princípio, o único sítio que nos põe a salvo da dita ...

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

Teias

Fundiu-se uma das lâmpadas do quintal, aquela que só acende quando o escuro acontece e está destinada a dar luz à retaguarda da casa. É essencial que não sejamos egoístas e não queiramos a luz só para nós. Mesmo os visitantes nocturnos, que vêem bem de noite e nem sequer o escuro os atrapalha, e fazem do jardim o seu WC a céu aberto, merecem ser iluminados.

Os caracóis e as caracoletas, as aranhas e os aranhiços, as minhocas e os minhocos, as lesmas e os lesmas, são visitas nocturnas assíduas e também devem carecer de luz, para não se atrapalharem no trânsito. Não dão trabalho à mangueira e terão a sua utilidade no equilíbrio ecológico que, todos dizem, é fundamental para preservar o futuro do planeta.

De todos os referidos, as aranhas e os aranhiços são os que mais admiração me causam. Ao desmontar o candeeiro destruí, de forma involuntária, registe-se, duas teias que lá estavam montadas. A teia é uma obra de arte: apanha moscas e mosquitos, é tecida com grande precisão e tem uma resistência enorme. Não há chuva nem vento que a destrua, esteja nos cantos ou no meio das paredes. E se, por qualquer mão predadora, perde o poiso, procura pôr-se a salvo e arranjar lugar para, outra vez, tecer uma casa nova.

As teias da vida real são quase tão eficientes quanto as dos pequenos insectos, mas muito mais perigosas...

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

Dificuldades

O jacarandá habita o jardim há muito tempo e todos os anos se estica e alarga mais um bocado. Na época da floração dá uns cachos lindos, de um azul arroxeado ou de um roxo azulado, numa copa verde, frondosa e muito bonita.

No Inverno causa problemas. A ramagem torna-se castanha, ou será cinzenta, talvez preta (a minha dificuldade com as cores é cada vez maior) e as pequenas folhas caem pelo telhado, no quintal e, pior que tudo, no algeroz. Com a chuva, as pequenas folhas formam  uma massa pastosa, pegajosa, bem agarrada ao fundo, dificílima de retirar, mesmo utilizando a mangueira com grande pressão.

A solução era caminhar por cima do telhado, com uma qualquer ferramenta que ajudasse a retirar aquela massa pastosa e permitisse à água circular livremente até ao final. Foi isso que pensei fazer, procurando arranjar uma qualquer vassoura ou um pequeno piaçaba para me facilitar a vida.

Com tudo já planeado na mente, lembrei-me que a apólice de seguro de acidentes de trabalho (que não tenho) tem uma cláusula de exclusão que impede o beneficiário de voar sobre os ninhos de cucos e também caminhar sobre os telhados. 

Pensei melhor e resolvi não me aventurar, para não invadir o território dos meus amigos gatinhos e, fundamentalmente, para não arranjar problemas com a seguradora.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

Método e organização

Há livros por vários sítios, mas já não há na mesa de cabeceira, ou melhor, aparece um só à noite. Numa transformação a que não é alheia a campanha de esclarecimento há muito encetada, o plural passou a singular. O último que por lá restava a aguardar vez, está a ser lido desde ontem e desloca-se a vários locais, regressando à base apenas na hora de recolher.

Acabaram-se os avisos, os sinais de enfado, porque ganham pó, não deixam limpar bem, a mesa de cabeceira não é sítio para livros, não chega a secretária, não bastam as estantes, há livros por todo o lado. E contra factos, não há argumentos, que a hora não é para contraditar.

Os que estão na fila, aguardam a sua vez na secretária, bem comportados, embora também não goste muito de os ver aqui, em monte. São os prioritários. Não têm a certeza se não serão ultrapassados, por nunca se saber se e quando o carteiro traz alguns novos, que se tornem mais urgentes. 

Todos serão vacinados, perdão, lidos. Assim o tempo me ajude e a vontade não me falte.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

Prevaricar

Eu, prevaricador me confesso!

Não, não fui vacinado nem sequer meti uma cunha para me colocarem na lista dos prioritários. Prevariquei, é verdade mas, tal como nas vacinas, não tenho qualquer culpa do sucedido. A minha prevaricação não resulta de sobras de circunstância que, irremediavelmente, iriam para o lixo, mas sim de um acaso fortuito e de culpa alheia.

Eu conto: era necessário e urgente ir ao supermercado, por estarem em falta alguns artigos essenciais a um confinamento eficaz. As excepções prevêem essas carências e o "Ambrósio" disponibilizou-se para cumprir a sua função, folgado que estava e por saber que o carrinho tinha saudades de sair da garagem conduzido pelas mãos habituais e, vamos lá, meigas e eficientes. A viatura agradeceu, penhorada, mesmo não havendo "Ferrero Rocher". O livrinho fez companhia, enquanto se esperava quem de direito. Cumprida a primeira tarefa, ainda era preciso, afinal, passar pela farmácia para recolher uns medicamentos que lá aguardavam. Tudo dentro da legalidade e sem hipóteses de "confrontação" com a autoridade, mesmo que ela aparecesse. O "Ambrósio" concordou, a viatura também e a tarefa foi cumprida sem problemas, aproveitando a espera para mais umas páginas, poucas, que o atendimento fármaco foi rápido. 

Agora, sim, era empreender o regresso a casa e ao confinamento. Viatura a trabalhar, viagem de regresso iniciada e o inesperado, surpreendente e incontrolável aconteceu! Como é possível! O carro, sem "rei nem roque" tomou o caminho do mar, sem obedecer às tentativas para o contrariar. Não faço ideia porquê, mas levou a sua teimosia até ao fim e, mal dei por isso, eis que surge a paisagem da Foz do Arelho, lá em baixo, com o mar a trazer muito "Omo Super" e a justificar o alerta da Protecção Civil.

Não houve saídas. A teimosia do carro também se fez sentir aí e as portas não abriram. Deu a volta, sem grande pressa, devagarinho mas sempre andando, como o outro. O "Ambrósio" pensava na desculpa de justificação, se as autoridades aparecessem. Seria uma qualquer, esfarrapada, como as que têm sido ouvidas sobre as vacinas.

Não foi necessário. As autoridades deviam ter mais que fazer do que controlar um carro teimoso, conduzido por um "Ambrósio" incompetente, incapaz de o controlar e de o fazer cumprir a lei. A CMTV também não andava por ali e apenas duas ou três outras viaturas foram encontradas, estas, por certo a trabalhar.

Como tudo mudou! Há um ano, se alguém dissesse que ir à Foz ver o mar era prevaricação, talvez visse apontarem-lhe o caminho do Júlio de Matos ... que já não existe.