quarta-feira, 28 de dezembro de 2022

Saída

A Secretaria de Estado do Tesouro perdeu, como se esperava, a sua titular, que mal teve tempo para conhecer os cantos à casa.

Desta vez, foi exonerada a seu pedido e por decisão do seu superior hierárquico - Fernando Medina -, não sendo necessário que os advogados das partes reúnam para calcular a indemnização a receber. O Presidente Marcelo já está informado da situação, já a foi comentando, a seu belo prazer e com a graça que lhe é peculiar nos subentendidos.

A passagem, efémera, da senhora pelas funções governativas, ficará a constar, com o relevo que lhe é devido, no currículo brilhante, com a omissão, por desnecessária, das razões que a motivaram.

Não é de estranhar: porque haveriam de ser "curriculadas" as razões da saída se também o não foram as da entrada. São ambas o resultado do mérito, indiscutível, mas de compreensão difícil.

terça-feira, 27 de dezembro de 2022

Será?

A actual Secretária de Estado do Tesouro, Alexandra Reis, exerce (ainda) uma função cuja designação lhe assenta como uma luva. É forçoso que ela seja um tesouro, importantíssimo, de valor incalculável e daqueles que, de tão raros, têm apenas lugar nos grandes museus e sob alta segurança. É para lá o caminho que lhe está destinado ...

A competência da senhora deve estar tão nos píncaros que pairará bem acima da altitude normal dos aviões que bem conhece e sem dar qualquer hipótese de detecção pelos vulgares radares. Nasceu no meu distrito, no ano da liberdade, e licenciou-se em Engenharia Electrónica e Telecomunicações na Universidade de Aveiro, quase de certeza com 20 valores, por ser nesse número que termina a escala.

De acordo com o currículo público, a sua vertiginosa carreira de sucesso começou em 1998 (24 anos) como Technical Account Manager, na empresa Alcatel. Dos muitos cargos que ocupou à medida que foi subindo na idade, ressalta apenas uma "fraquinha" directora de compras do Grupo REN, cargo desempenhado em meia dúzia de anos e que não atingiu a almejada designação inglesa. Foi pena, mas acidentes de percurso, quem os não tem?

Saiu do Conselho de Administração da TAP, por vontade própria, segundo a empresa, por imposição desta, de acordo com a própria. Talvez tenha sido este desencontro que motivou o meio milhão de euros de indemnização que lhe foi outorgado, por acordo estabelecido entre as duas partes: entidade patronal e empregado que se despediu ou foi despedido. Tal qual como acontece com qualquer trabalhador e, por isso, a senhora afirma não aceitaria aquela "ridícula" indemnização se ela não tivesse o respaldo da Lei, como é do conhecimento de toda a gente. Aliás, e apenas como nota de passagem, refira-se que o desconhecimento da Lei não impede a condenação de quem a viola. Que grande guitarra!

Cinco meses depois de sair da TAP e antes de o Fundo de Desemprego ter tempo para despachar o necessário processo, a senhora foi nomeada para Presidente do CA da NAV, de onde saiu seis meses depois, para ocupar o tal cargo para que estava destinada e tinha competência. Um Tesouro ... Esta nomeação deve ter-lhe custado uma elevada perda no rendimento mensal, tendo em conta que o vencimento, legal, de um Secretário de Estado é manifestamente inferior ao de um membro do CA de uma qualquer empresa, pública ou privada. Resta saber se, por alguma excepção legal não conhecida, a senhora não terá direito a uma indemnização por perdas e danos.

Mas, sejamos claros: tudo isto há-de ter uma douta explicação, acessível apenas a quem tem na cabeça um tesouro e não a um qualquer vulgar cidadão que apenas ostenta a mioleira no interior da sua moleirinha.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2022

António Mega Ferreira

Nasceu em 1949, em Lisboa, e foi de lá que partiu hoje, para sempre. Quem o leu no Expresso, no Jornal de Letras ou nos seus muitos livros, não pode deixar de ficar pesaroso com o cumprimento inexorável da lei da vida. 

António Mega Ferreira foi o grande responsável pela Expo 98, deu muito do seu saber ao Centro Cultural de Belém, uma "mãozinha" na Orquestra Metropolitana de Lisboa, uma grande contribuição à RTP 2, entre muitas outras coisas que conheço e, quase de certeza, muitas mais que ignoro.

Em sua memória, estendi o braço à estante, tirei um dos livros "ao calhas" e abri. Fica aqui um pequeno extracto da página que o acaso exibiu.

"(...) Parece que não há, na língua portuguesa, palavra adequada para descrever um oásis desagradável. Se houvesse, coisa ruim inesperadamente revelada no meio do paraíso, mão fatal do Homem a romper o exuberante equilíbrio da Natureza envolvente, talvez devesse aplicar-se com propriedade à pequena cidade de Nazaré das Farinhas, em pleno Recôncavo Baiano, a uns cento e tal quilómetros de Salvador.

Chega-se a Nazaré por um descuido da estrada, os olhos imersos na quase exaustiva diversidade do verde rasgado por pequenos veios de água, pela via que une a capital da Bahia ao sul, a caminho de Valença e de Ilhéus. Atravessa-se uma rua estreita de casas baixas e poeirentas e desagua-se numa praça tosca, descambada sobre a margem esquerda do Jaguaripe, que aqui, em vez de água ameno e límpido, é esgoto a céu aberto, lamacento e castanho. À volta, os morros verdejantes quase asfixiam a terra; cá em baixo, os burros, carrocinhas e caminhões atrapalham-se uns aos outros, na pressa de chegarem ao mercado instalado nas ruas da outra margem. 

E, flutuando sobre tudo, o cheiro acre e inevitável do jenipapo a pôr verniz num ar lento, húmido, doentio, feito de urina e de excrementos, a dar pasto às moscas e à doença. (...)"

Hotel Locarno
António Mega Ferreira
Sextante Editora (2015)

domingo, 25 de dezembro de 2022

Poesia de Natal

NATAL

Um anjo imaginado
Um anjo dialéctico, actual,
Ergueu a mão e disse: - É noite de Natal,
Paz à imaginação!
E todo o ritual
Que antecede o milagre habitual
Perdeu a exaltação.

Diário IX
Miguel Torga
Gráfica de Coimbra (1977)

sábado, 24 de dezembro de 2022

Poesia de Natal

VOTO DE NATAL

Acenda-se de novo o Presépio no Mundo!
Acenda-se Jesus nos olhos dos meninos!
Como quem na corrida entrega o testemunho,
passo agora o Natal para as mãos dos meus filhos.

E a corrida que siga, o facho não se apague!
Eu aperto no peito uma rosa de cinza.
Dai-me o brando calor da vossa ingenuidade,
para sentir no peito a rosa reflorida!

Filhos, as vossas mãos! E a solidão estremece,
como a casca do ovo ao latejar-lhe vida ...
Mas a noite infinita enfrenta a vida breve:
dentro de mim não sei qual é que se eterniza.

Extinga-se o rumor, dissipem-se os fantasmas!
Ó calor destas mãos nos meus dedos tão frios!
Acende-se de novo o Presépio nas almas,
Acende-se Jesus nos olhos dos meus filhos.

Obra Poética (1948-1988)
David Mourão-Ferreira
Editorial Presença (1997)

sexta-feira, 23 de dezembro de 2022

Poesia de Natal

NATIVIDADE

Arde no coração da noite
A ritual fogueira que anuncia
O eterno milagre
Do nascimento.
Batida pelo vento, 
Que da cinza das brasas faz semente,
É um sol sem firmamento,
Directamente
Aceso
E preso
À terra
Por mãos humanas.
De raízes profanas, 
Lume de vida a bafejar a vida,
O seu calor aquece
A única certeza que merece
Ser aquecida ...

Diário VII
Miguel Torga
Gráfica de Coimbra (1976) 
 

quinta-feira, 22 de dezembro de 2022

Poesia de Natal

O NATAL DA INFÂNCIA

Ah como se alongava a província Natal
com distritos de luz dentro do Novo Ano
Vinha já de mais longe um perfume lunar
Começava em Novembro a toilette dos Anjos

No mapa da Europa a Suíça a Suécia
ganhavam posições de repente invejáveis
Andava-se na rua à procura de neve
A neve dos postais arquivava-se em casa

E brincava connosco o menino Jesus
mesmo antes da noite em que tinha nascido
Mas ninguém se atrevia a tratá-lo por tu
Era de todos nós o menino mais rico

As prendas que nos dava  E fingia-se pobre
Adorávamos nele o amor do teatro
o dom de liberdade e da metamorfose
Sorríamos de quem nos dissesse o contrário

Obra Poética (1948-1988)
David Mourão- Ferreira
Editorial Presença (1997)

quarta-feira, 21 de dezembro de 2022

Poesia de Natal

NATAL

Natal fora da casa de meu Pai,
Longe da manjedoira onde nasci.
Neve branca também, mas que não cai
Na telha-vã da infância que perdi.

Filosofias sobre a eternidade;
Lareiras de salão, civilizadas;
E eu a tremer de frio e de saudade
Por memórias em mim quase apagadas ...

Diário VI
Miguel Torga
Gráfica de Coimbra (1978)

terça-feira, 20 de dezembro de 2022

Poesia de Natal

NATAL À BEIRA RIO

É o braço do abeto a bater na vidraça?
E o ponteiro pequeno a caminho da meta!
Cala-te, vento velho! É o Natal que passa,
a trazer-me da água a infância ressurrecta.

Da casa onde nasci via-se perto o rio.
Tão novos os meus Pais, tão novos no passado!
E o Menino nascia a bordo de um navio
que ficava, no cais, à noite iluminado ...

Ó noite de Natal, que travo a maresia!
Depois fui não sei quem que se perdeu na terra.
E quanto mais na terra a terra me envolvia
mais da terra fazia o norte de quem erra.

Vem tu, Poesia, vem, agora conduzir-me
à beira desse cais onde Jesus nascia ...
Serei dos que afinal, errando em terra firme,
precisam de Jesus, de Mar, ou de Poesia?

Obra Poética (19481988)
David Mourão-Ferreira
Editorial Presença (1997)

segunda-feira, 19 de dezembro de 2022

Poesia de Natal

NATAL

Foi tudo tão pontual
Que fiquei maravilhado.
Caiu neve no telhado
E juntou-se o mesmo gado
No curral.

Nem as palhas da pobreza
Faltaram na manjedoira!
Palhas babadas da toira
Que ruminava a grandeza
Do milagre pressentido.
Os bichos e a natureza
No palco já conhecido.

Mas, afinal, o cenário
Não bastou.
Fiado no calendário,
O homem nem perguntou
Se Deus era necessário ...
E Deus não representou.

Diário V
Miguel Torga
Gráfica de Coimbra (1974)