segunda-feira, 15 de janeiro de 2024

Dantes

O cálculo não é fácil, mesmo recorrendo à tradicional máquina de calcular ou à que qualquer telemóvel ou computador nos faculta. 

Divisões e multiplicações, percentagens, somas, subtracções, uma tarefa ciclópica se ainda estivéssemos em 1970, e para a qual nem uma folha A4 seria suficiente, sem contar que se corria o risco de, a meio, uma pequena falha na tabuada deitar por terra todo o trabalho.

Agora, o Excel faz tudo. Criada a fórmula, com os "se" e as condições prévias, o cálculo é imediato. E, para o futuro, basta colocar o novo valor e o "anão sabão" fornecerá o resultado certo, de imediato, sem papel e sem esforço pessoal.

E ainda há por aí umas "gentes" a gritar que "dantes é qu'era bom"!

domingo, 14 de janeiro de 2024

WC

Obra recente, a reconstrução do cais palafítico convida à visita, ao passeio e à admiração da paisagem circundante, onde a Lagoa é rainha, os patos, mordomos, e os flamingos, cortesãos.

Está bonito, agradável mas, como sempre ... não há bela sem senão. O arquitecto que projectou foi negligente e esqueceu-se de um elemento essencial para que a obra ficasse completa: a necessidade imperiosa de um WC para os cãezinhos.

Eis o resultado:

sábado, 13 de janeiro de 2024

Palavras bonitas

Discurso

Vinde cá todos! Enchei a praça.
Eu, que não gosto de discursos,
tenho um discurso a fazer.
Chegai-vos e ouvi. Ou não ouvi, se quereis.
Mas cinde, que eu preciso fazer um discurso,
e para haver discursos é preciso público.
Isso, todos aí. Curiosos,
desdenhosos, 
ociosos,
e até ranhosos, pouco importa. Mas todos.
Sentados ou deitados,
verticais ou oblíquos, 
paralelos, concorrentes,
secantes, tangentes,
- irra! - tudo o que quiserem. Mas todos.
Público, que eu preciso de pedir a palavra.
Tenho uma mensagem a dizer.
Eu, que não sou profeta,
nem revolucionário,
nem aviso funerário,
eu que sou o contrário
de tudo isso, precisamente porque não sou nada disso,
tenho algo a dizer. (E logo às massas
que é uma irrealidade que me bole com os nervos
desde as unhas dos pés ao centro do miolo!)
Aí vai (já não é sem tempo): Sou uma besta quadrada
e forrada do mesmo, para maior perfeição.
Ando sempre a quatro. Lucidamente a quatro, 
quando sei que nem ao pé coxinho devia ir.
Tenho a estupidez mais estúpida que há:
medida, exacta, vista,
esquadrinhada,
a estupidez inteligente, sabem?
Não dou berros quando todas as pessoas
normalmente os dão.
Calo-me quando devia dizer palavrões.
Sorrio quando devia morder.
Perdoo quando o momento pedia
um sacrosanto par de bofetadas.
Arre! Cheiro a museu,
cheiro a arquivo,
cheiro a jantar de cerimónia.
É demais!

E porque é demais para uma pessoa só
é que fiz este discurso
- eu, que odeio discursos, museus e arquivos
e os jantares de cerimónia.

Tenho dito!

Ermelinda Xavier
Barro e Luz (Poesia completa)
Unicepe (2016)

sexta-feira, 12 de janeiro de 2024

De "A" a "D"

Apesar de ser desnecessário, António confirma, no Expresso de hoje, que uma imagem vale mais que mil palavras.

quinta-feira, 11 de janeiro de 2024

Regresso ao passado?!

E se, de repente e como por magia, tudo andasse para trás 50 anos?

Dirão uns, saudosistas das capacidades físicas: Maravilha! Voltava a alegria e a loucura dos "vintes", nada fazia mal e não havia chuva que molhasse nem frio que rachasse; acrescentarão outros, mais racionais: Não havia dores, nem sono, nem pressa e tínhamos tudo "à mão de semear" ... excepto o que não tínhamos.

Cada vez são menos os que viveram há meio século e disso têm lembrança de "experiência feita". Não conseguiram, ou não quiseram, contar à geração seguinte, nascida depois de 1974, como eram aqueles tempos e como tudo se transformou. Talvez não tenham procedido da melhor maneira e a omissão esteja longe de ter sido a atitude correcta, mas aconteceu assim, na grande maioria.

E agora, espantados, ouvimos gente que subiu degraus de uma escada que não existia, deu muito trabalho a muitos e foi bem difícil de construir, apesar dos defeitos, a gritar que "dantes é que era"! E falam grosso, como quem quer comer microfones, gritando impropérios e frases sem nexo, como se os decibéis da voz fossem suficientes para terem razão e sabedoria.

"Valha-lhes um burro aos coices e três aos pontapés!"

domingo, 7 de janeiro de 2024

Domingo

Com frio, nota-se melhor a calma da ausência do vento, o azul da inexistência de nuvens, tudo marcado pelo chilrear dos pássaros nas margens, pelos corvos marinhos abrindo as asas para aproveitarem o quentinho ... do sol.

A beleza da Lagoa, sempre, e a gaivota, desfrutando, bem instalada, o conforto do "hotel" Coelho e Rola.

quinta-feira, 4 de janeiro de 2024

Calor em tempo frio

O tempo era, ainda, o das escrituras serem um acto solene, num Cartório Notarial estatal, com hora marcada e presença sem atrasos da parte de quem era parte, com uma única excepção - o Notário. Era ainda o tempo das escrituras manuscritas pelo próprio Notário ou dactilografadas pelo Ajudante, na máquina de escrever Messa.

Sentados à volta de uma mesa, grande, com cadeiras bem desconfortáveis e na ordem pela qual outorgavam, os intervenientes aguardavam a chegada do Notário, que iria ocupar a cadeira, maior e com almofada, situada no topo. A primeira tarefa do Notário era verificar os documentos de identificação dos intervenientes não seus conhecidos, após o que iniciava a leitura do texto, não sem antes recomendar que o interrompessem se alguma coisa não compreendessem ou estivesse incorrecta. No final, após a menção das eventuais rasuras, a ordem prévia determinada para sentar, servia para que a última folha fosse passando e recolhendo a assinatura de cada um. A assinatura do Notário encerraria, depois de inutilizar todos os espaços em branco.

Naquele dia, era mais uma escritura de compra, venda e empréstimo, estando presentes: o casal comprador, os pais, fiadores, o administrador da empresa vendedora da fracção e o representante do Banco. Estava muito calor lá fora e o ar condicionado do Cartório ainda não passava de miragem. O representante da empresa vendedora vinha atrasado, muito acalorado e ainda deve ter ficado mais quente quando se sentou, a aguardar, com o Ajudante a dar-lhe sinal do atraso. A camisa vinha aberta até ao cinto, com o peito, peludo, à mostra e um ar de machão importante, ciente de que os seus poderes até podiam criar janelas de fresquidão ...

A Notária entrou, passou os olhos por todos e nem se sentou.

- Vá vestir-se em condições. Isto não é a praia. Lá para fora!

Enfiado, saiu. Deve ter ido ao carro ou ao escritório. Regressou pouco tempo depois. A camisa vinha abotoada até acima e um casaquinho compunha o ramalhete.

A escritura fez-se sem mais comentários e o homem, pelo menos naquelas em que, a seguir, comigo participou, apresentou-se sempre de camisa, gravata e casaquinho ... abotoado, não fosse o diabo tecê-las! 

terça-feira, 2 de janeiro de 2024

Balanço 2023

Todos os dias leio (n)um livro. É uma das tarefas que ainda vou executando, das que me dão grande prazer e que nunca me cansam, muito embora os olhos já não tenham a mesma capacidade e obriguem a apêndice.

Com mais ou menos entusiasmo, livro pegado é livro mantido até à última página, mesmo quando as expectativas são defraudadas. Quem o escreveu e o editou merece que, pelo menos, quem lhe pega lhe dê o uso para que foi concebido. Sempre até ao fim ... mesmo que, dalguns, felizmente poucos, se diga: tempo perdido!

Cumprindo a tradição, fica o registo das capas dos que me passaram pelas mãos e pelos olhos em 2023, sem quaisquer preocupações de ordem ou de destaque.

Foram lidos, pronto! E neste ano de 2024 virão muitos outros, espero eu!