terça-feira, 24 de setembro de 2024

Livros (lidos ou em vias disso)

"(...) Ao descer aquele caminho pedregoso, Wojnicz esforçava-se por não se afastar do Sr. August, mantendo um passo de distância atrás para conversar com ele ... - sem que ele próprio soubesse ainda sobre o quê - até que, por fim, teve a honra de caminhar ao lado do Sr. August, que afrouxara o passo e seguia agora ombro a ombro com Wojnicz, deixando o Leão Grisalho à cabeça da comitiva. A discussão sobre os primórdios da civilização humana, bastante lenta por causa do terreno acidentado, esmorecera e, agora, o Sr. August, embora tivesse perto de si um ouvinte cheio de admiração, infelizmente tinha de se concentrar e observar o caminho que pisava, pois seria fácil tropeçar e escorregar pelo trilho abaixo. Desta conversa intermitente, Wojnicz ficou a saber que o Sr. August se considerava escritor.

- O meu pai era um funcionário austríaco, mas nasceu em Jassy - revelava o Sr. August. - A minha mãe era oriunda da Bucovina, mas era austríaca. Mas o que significa isto, se os pais dela tinham propriedades na Hungria e se sentiam húngaros? E quanto a mim ... é difícil dizer. Do ponto de vista da língua, penso em alemão e em romeno. E, claro, em francês, como todo o europeu.

Acreditava que a moda dos estados nacionais era passageira e haveria de acabar mal: a divisão artificial das pessoas em categorias tão pouco consistentes como lugar de nascimento em nada correspondia à complexa questão da identité.

- Aliás, o termo <<nação>> não me diz absolutamente nada. O nosso imperador, o seu e o meu, afirma que só existem <<povos>> e que as nações são uma invenção. O paradoxo consiste no facto de os estados nacionais precisarem de outros estados nacionais, como o cogumelo guarda-sol precisa de chuva; um estado nacional não tem razão de ser, a sua essência é confrontar e divergir. Mais tarde ou mais cedo, isto leva à guerra.

Neste ponto, disse algo em francês, mas Wojnicz não percebeu patavina. (...)"

Empúsio
Olga Tokarczuk
Cavalo de Ferro (2023)

sexta-feira, 20 de setembro de 2024

Aragem

Há um novo ar de liberdade quando, na Rua da dita, se olha para o céu e surgem "chafalos" a darem um novo e garrido colorido ao local e à cidade. É uma pedrada no charco das águas mornas, sempre aguerridas na mudança ... desde que tudo fique na mesma.

A ousadia das comerciantes daquela zona traz mais gente e, pela certa, mais negócio. É bom, e vital, que os comerciantes interiorizem, cada vez mais, que as pessoas se deslocam para onde se sentem bem.

E eu que, noutros tempos, fui um frequentador assíduo daquela zona, voltei a beber um "Camaroeiro" com um prazer imenso e, cheio de nostalgia e de actualidade, desci até à "Baía", sem provar as trouxas que, agora, me estão vedadas pela "polícia dos costumes".

A foto foi "roubada" à Gazeta das Caldas, que o meu jeito para fotógrafo é pouco ou nenhum.

sábado, 14 de setembro de 2024

domingo, 8 de setembro de 2024

Segurança

Não fugiram todos! Nem sequer meia dúzia!

Foram apenas cinco os condenados que, graças a uma escada bem grande, colocada por mão amiga na parte de dentro do muro de segurança de Vale de Judeus, se evadiram em "menos de um fósforo".

Ninguém deu por nada. As câmaras estavam distraídas e os guardas desligados, ou o contrário, mas isso é pouco relevante. As investigações já se iniciaram e vai ser instaurado um rigoroso inquérito ao acontecido. 

A seu tempo hão-de saber-se as razões que levaram ao acontecido. Até lá, confirma-se que só há dois tipos de problemas: aqueles que o tempo resolve e os outros, que nem o tempo consegue resolver.

quinta-feira, 5 de setembro de 2024

Ultrapassagem

Cada vez me irritam mais os velhos (eu incluído) que, a coberto da dita experiência e do poder que detêm, querem continuar a opinar sobre o mundo e a manter um ascendente sobre os jovens, mesmo que esses já tenham quarenta ou cinquenta anos e saibam muito mais do que eles sobre o mundo actual.

Sendo certa a verdade do ditado "aprender até morrer", que serve para todos e principalmente para aqueles que, em teoria, mais perto estão dessa chegada, não é menos certo que qualquer passarinho, mal começa a voar, quer fazê-lo sozinho, correndo o risco de errar no rumo e procurando experienciar, a cada momento, o voo do Fernão Capelo Gaivota, ainda que o destino esteja invisível, atrás daquela nuvem que tudo tapa.

No início de vida, a educação e o saber são colheita na seara dos pais, da família, dos professores, dos amigos, da sociedade. É o criador a burilar a criatura, a adverti-la para alguns perigos basilares, a procurar despertá-la para as agruras. Depois, bem, depois é (ou devia ser) gratificante ver e sentir que a criatura ultrapassa o criador e voa sozinha, sempre atenta às aves que lhe possam tolher o voo.

Mas há velhos que, teimosamente, se acham o centro do mundo e continuam a pensar, e a agir, como se a juventude fosse mentecapta e a inteligência, o saber, a capacidade e a experiência, fossem um tesouro bem guardadinho na sua caixa de ... sapatos.

Bem dizia uma velha professora, que até me estreou com dois tabefes bem dados: "ora valha-lhes um burro aos coices e três aos pontapés". 

terça-feira, 3 de setembro de 2024

Férias

Segundo rezam as crónicas, escritas e faladas, as férias das gentes importantes já terminaram e o Verão, que alguns não sabem sequer se o verão, também está no fim. É hora de divulgar as fotos, com poses arrojadas ou de rastos, de desabafar o entusiasmo, de falar da beleza nunca vista, de desejar voltar em breve. Fizeram-se passeios de buggy, comezainas de excelência, noites de lazer e de não perder.

É uma pena Agosto só ter trinta e um dias, muito embora as noites também contem, e muito.

Em Setembro volta a piroseira do dia a dia, as filas no trânsito, as gentes apressadas que atravessam a avenida sem olhar, o viver em stress no meio da multidão que não respeita quem, de quando em vez, tem mesmo de se misturar com a plebe.

Ao contrário das férias e do Verão, as guerras continuam sem fim à vista, apesar dos "esforços" diários de muita gente. Para muitos milhares, o fim já aconteceu e os "esforços" foram inúteis.

Talvez tudo isto seja culpa da "urologia" da Madeira, referida pela titular do MAI a propósito do fogo que por lá andou muitos dias, ou ao pé que, para alguns comentadores de futebol, deixou de ser esquerdo e passou a ser canhoto.

domingo, 1 de setembro de 2024

Longe

Mais um ano e ainda mais longe. Lá nos confins da Europa e nas barbas da Ásia, o aniversário volta a ser passado sem os seus, apenas respaldado nos milagres da técnica, que permitem minimizar, não substituir.

É a vida, dizem uns; o que importa é estar bem, afirmam outros; passa depressa, alegam mais uns quantos. Pois ... digo eu!

Parabéns, meu filho.

terça-feira, 27 de agosto de 2024

Livros (lidos ou em vias disso)

(...)53. Das tripas coração

O meu Porto é feito de duas cidades: aquela em que cresci e a de hoje. Uma deu-me o que tenho, fez de mim o que sou, a outra dá-me o pão. Desde sempre, o Porto foi uma cidade-mãe; desde sempre, alimentou os que lhe pertenciam e os de fora, nunca virou a cara fosse a quem fosse. Esta nobreza ninguém lha tira. Explico sempre aos turistas que somos tripeiros com muito orgulho e que a denominação terá nascido por termos - e isto quem desconhece são tanto os lisboetas, como muitos portuenses - oferecido toda a carne que por cá havia para salvar ou ajudar Lisboa. Na capital, o infante D. Henrique engendrava há muito um plano secreto, cuja preparação entregou à cidade que o vira nascer, o Porto. Nos estaleiros, na zona de Massarelos, as águas do Douro viam erguer-se dezenas de naus e de outras embarcações. O povo intrigava-se com tamanho empreendimento naval e nem mesmo os trabalhadores conheciam o emprego a dar aos barcos. A boataria crescia: havia quem dissesse que serviriam para levar - com escolta nunca vista - el-rei D. João I  a Jerusalém, a fim de visitar o Santo Sepulcro; também se garantia que tinham como missão transportar a infanta D. Helena até Inglaterra, para casar; aventava-se de igual modo a hipótese de estarem a ser preparados para levarem os infantes D. Pedro e D. Henrique a Nápoles, também para fins matrimoniais. As estradas vindas de outras paragens e os caminhos que levavam até ao rio encontravam-se congestionados com carros transportando panos para velas, armas e mantimentos, numa azáfama nunca vista, mas só Mestre Vaz, o encarregado da construção, sabia do plano do infante D. Henrique. Esvaziaram-se celeiros, matou-se toda a espécie de animais, para depois se salgarem as carnes. O Porto e a região preparavam-se para, em 1415, tal como trinta anos antes, durante a guerra com Castela, que levou ao cerco de Lisboa, se sacrificar pela nação. Em 1384, em plena crise 1383-1385, uma armada alimentar, carregada das melhores carnes, foi enviada do Porto para Lisboa, para ajudar a resistir aos avanços castelhanos. As gentes do Norte, mas sobretudo os portuenses, ficaram somente com as vísceras. O mesmo terá acontecido em 1415, quando o infante D. Henrique, aparecendo de surpresa no Porto, a fim de visitar os estaleiros de Massarelos, e de ver o andamento dos trabalhos de construção naval, pediu ao mestre Vaz empenho redobrado, para terminar a empreitada. Diz-se que o Mestre Vaz não defraudou a confiança do infante: prometeu todo o empenho da cidade e, inclusivamente, que o Porto ofereceria toda a carne que possuísse, para a jornada, ficando somente com os miúdos. Em rigor, não se sabe se foi por promessa do Mestre Vaz, se porque as vísceras se estragariam facilmente a bordo, mas o Porto ficou, mais uma vez, apenas com as tripas - com as quais, com muito engenho, criou o seu prato mais típico - e demais miudezas. Em resultado deste novo sacrifício, os portuenses passaram a ser conhecidos como tripeiros. (...)

Morro da Pena Ventosa
Rui Couceiro
Porto Editora (2024)

sexta-feira, 23 de agosto de 2024

Palavras bonitas

Passam hoje 9 anos da partida do meu pai e cada vez é mais difícil dizer alguma coisa de substancial sobre isso.

Faltando a imaginação e a capacidade, nada melhor do que recorrer a quem sabe e parece ter feito o poema adequado.

POESIA

Gastei uma hora pensando um verso
que a pena não quer escrever.
No entanto ele está cá dentro
inquieto, vivo.
Ele está cá dentro
e não quer sair.
Mas a poesia deste momento
inunda minha vida inteira.

Vai, Carlos!
Carlos Drummond de Andrade
Tinta da China (2022)

quinta-feira, 15 de agosto de 2024

Distracção

A Foz faz, diariamente, prova inequívoca de que não é possível ter tudo nem agradar a todos: se há sol, vem o vento; se o vento não aparece, o sol ausenta-se; se o mar está calmo, não há temperatura que justifique sentir o frio nos artelhos; se o dia está fantástico, com um sol radioso, sem vento nem nuvens, então o banheiro coloca a bandeira do Benfica porque o mar não está para brincadeiras e pode haver chatices.

- Vamos à aberta!

E lá marcha a excursão, a caminho da piscina natural, de água salgada e sem ondas, mas com água renovada e bem limpinha, que a maré está a encher até quase à uma da tarde.

Pelo caminho, conversa-se sobre o discurso do Primeiro-Ministro Montenegro, gritado às massas no remanso de Quarteira, com o oceano, de poucas ondas, atento ao português utilizado de forma brilhante (ou será com brilhantina?).

Será-lhe difícil esquecer o dia de ontem, tal como os reformados mais débeis não olvidarão o prémio que será-lhe pago no próximo mês. Não será o erro que impedirá a portaria ...