segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Futuro

Se fosse uma final de uma qualquer competição de futebol, dir-se-ia:

- Há um favorito, mas nunca se sabe. É só um jogo e pode haver surpresas.

No dia 8 de Fevereiro de 2026 não acontecerá um jogo de futebol. Mas pode haver surpresas!

Passaram já mais de 50 anos desse "dia inicial inteiro e limpo" em que fiz 22 anos, alimentando a esperança de uma sociedade nova, com liberdade e possibilidade de todos subirem a escada, independentemente da origem social, cor ou qualquer outra, sem polícia do pensamento nem mandantes sem autoridade.

Tudo isso está na corda bamba. Mas tenho esperança que o bom senso prevaleça na maioria das pessoas e que quem grita serem precisos três "rapa-tachos" continue a dizer as bacoradas que quiser, mas não adquira direito a um "mocho" quanto mais a uma cadeira de poder.

É seguro que apenas SEGURO pode ser Presidente de todos os portugueses!

domingo, 18 de janeiro de 2026

Votos

Quase a acabar o Domingo das decisões importantes!

Dos catorze candidatos inscritos no boletins de voto, "apenas" onze são oficialmente aceites, por as tipografias terem imenso trabalho e não conseguirem imprimir os "papelinhos" apenas depois da decisão do Tribunal Constitucional. Paciência ... os eleitores saberão escolher bem, por a grande maioria já pertencer a uma geração muito letrada!

É seguro que, dos onze, dois vão à final ... se não houver surpresas de última hora.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Livros (lidos ou em vias disso)

Amanhã é dia de reflexão, não sendo legalmente possível falar sobre o acto eleitoral que decorrerá Domingo, dia 18. Por isso e por ser Dia de Santo Antão, deve ser, entre uns chouriços na brasa, umas entremeadas e umas febras regadas com um bom tinto, dedicado à colocação de todas as cartas na mesa, à arrumação das ideias e ao vislumbre, difícil, de qual seja a melhor solução. Ou talvez, ainda mais clarinho, aquilo que nunca será solução e deve ser deixado à "meia dúzia" de tontos que acham ser fundamental voltar ao antanho.

Para ajudar a reflectir, a opinião de quem escreve sobre o mundo miserável que se mantém e comunga da opinião de que "para trás, mija a burra!".

********************************

"(...) Todas as noites, Obinze saía do trabalho coberto por uma poeira química branca. Partículas arenosas alojavam-se-lhe nos ouvidos. Tentava não inspirar demasiado fundo enquanto limpava, preocupado com os perigos que flutuavam no ar, até o gerente lhe dizer que ia ser despedido devido a uma redução de pessoal. O emprego seguinte foi uma substituição temporária numa empresa que fazia entregas de cozinhas, semana após semana sentado ao lado de condutores brancos que lhe chamavam <<moço>>, estaleiros de construção civil cheios de ruídos e de capacetes, subir muitos degraus a carregar pranchas de madeira, sem ajuda e sem reconhecimento. No silêncio em que conduziam e no tom em que diziam <<moço!>> Obinze sentia a inimizade dos condutores. Uma vez, quando tropeçou e caiu de joelhos, uma queda tão forte que foi a coxear para o camião, o condutor disse aos outros no armazém: <<O joelho dele mais preto não pode ficar!>> Riram-se. A hostilidade deles incomodava-o, mas só ligeiramente; o que importava era que ganhava quatro libras à hora, mais com as horas extra, e quando foi mandado para um novo armazém de entregas em West Thurrock, sentiu-se preocupado por poder deixar de ter oportunidades de trabalhar horas extra.

O chefe do novo armazém tinha o aspeto do típico inglês que Obinze imaginava, um homem alto e enxuto, com o cabelo ruivo e olhos azuis. Mas era um homem sorridente e, na imaginação de Obinze, os homens ingleses não eram sorridentes. Chamava-se Roy Snell. Deu um vigoroso aperto de mão a Obinze.

- Então, Vincent, és de África? - perguntou, enquanto conduzia Obinze numa visita ao armazém, que era do tamanho de um campo de futebol, muito maior do que o anterior, e estava cheio de camiões a serem carregados, de caixas de cartão espalmadas a serem dobradas e metidas num buraco fundo, de homens a conversarem.

- Sou! (...)"

Americanah
Chimamanda Ngozi Adichie
D. Quixote (2025)

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Contado ... ninguém acredita

Só faltava esta!

Um candidato, apenas e só um candidato embora se arvore em representante de Deus na terra, resolveu "fardar-se" de militar, antecipando o cargo de Comandante Supremo das Forças Armadas que lhe estará reservado ... se for eleito. Nessa figurinha, debitou alarvidades às massas sedentas de o ouvirem e que lhe acenaram a cabeça como o bonequinho chinês.

Para a palhaçada (desculpem-me os palhaços) ser completa, vistosa e apelativa, faltou-lhe colocar o quico na pinha, a G3 no ombro e as botas, antigas, nos presuntos. Ficaria, assim, em excelentes condições para aprender a marchar, com uma hora de "ordem unida". De seguida, rastejaria por debaixo do arame farpado, faria uma corridinha no pórtico e um salto na paliçada, sempre com a G3 nas mãos, no regaço ou a tiracolo. Para terminar, atravessaria a manilha de esgoto, de preferência cheia, garantindo que a G3 não se sujaria. 

Chegava ... para primeiro dia. Outros se seguiriam, durante três meses, para aprender a ter maneiras.

E parece que isto vai à segunda volta!

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Pasmaceira

Esforço-me e não consigo!

Sinais dos tempos, aos quais não é fácil habituar quem já viveu muito, esperou bastante, ambicionou sempre melhor e, agora, tem a convicção de que isto não vai dar certo. Oxalá esteja equivocado!

A campanha para as presidenciais faz lembrar aquele dito que surge sempre que, num colóquio de anedotas, estas deslizam para uma linguagem mais desbragada:

- A conversa está a descer de nível mas a subir de interesse!

Pensando melhor, é verdade que desce de nível todos os dias. Todavia, interesse, não tem nenhum!

Domingo, todos(?) caminharemos para as salas onde se colocará a cruz da resposta de cada um, como nos "testes americanos" de agora. Saberão a matéria? Os "professores" foram claros nas explicações?

Não descortino nada de jeito. Defeito meu ...

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Expresso

Lembro-me bem do número 1!

Era um jovem, em vésperas de ingressar no serviço militar obrigatório e, naquele sábado de 1973 (6 de Janeiro) cumpri o ritual de mais um dia de trabalho - a semana tinha seis dias. Fui ao Banco Lisboa & Açores (os bancos estavam abertos ao sábado de manhã), ali na Rua das Montras, cumprimentei o Sr. Mendonça, entreguei os cheques (o Multibanco nem em sonhos) e recebi o dinheiro necessário ao pagamento das jornas, com variedade de notas e moedas para que fosse possível pagar certinho o "enorme" salário semanal a cada um dos jornaleiros da quinta.

Não recordo se estava frio ou chuva. Nesse tempo, as condições climatéricas não incomodavam nem impediam nada. Olha agora ...

Depois do banco e antes do regresso ao escritório, passei pela Jornália, pesquisei no fundo do bolso, retirei a moeda de 5$00 e comprei aquele jornal novo, enorme, com uma manchete bem sugestiva e premonitória: "63% dos portugueses nunca votaram". Eu era um deles ...

O hábito, ou o vício, nunca mais se perdeu. Hoje, como sempre, comprei o exemplar desta semana, mantendo-me fiel ao papel - velho teimoso!

O jornal tem muitas diferenças: custou 5,50 € (em 1973 seriam mais de 1.100 escudos ou, utilizando a linguagem da época, mais de um conto e cem); as páginas já não são tão grandes, mas o peso é bastante superior; vem num saco de papel, que dá muito jeito, e a tinta já não suja as mãos; nesta semana (e nas próximas três) traz uma antologia da Lírica de Camões, fazendo jus às preocupações culturais que sempre teve e mantém.

E, na página 3, lá surge mais um brilhante "retrato" saído das mãos de António:

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Calendário

Janeiro fora, cresce uma hora! E quem bem procurar, hora e meia há-de encontrar.

Confirma-se. Apesar das nuvens, do frio, da chuva e da neve, esta por outras bandas que não estas, já se nota bem que os dias estão a crescer. E isso é bom! Há menos tempo com as luzes acesas (poupança de energia), o dia rende mais (produtividade aumenta), aquele nervosinho do "bolas, já é de noite" surge mais tarde (melhor disposição) e, finalmente, aqueles que ainda trabalham e têm horários mais ou menos decentes, poderão sair do emprego ainda a tempo de ver o Sol, se ele, teimoso, não se esconder.

Cheira a Carnaval! Não aquele a que se vai assistindo na campanha nem o outro que se vai desenrolando lá pelos States, mas sim o que surgirá daqui a pouco mais de um mês - 17 de Fevereiro e, de novo, à terça-feira.

Caminhamos a passos largos para mais uns mergulhos na Foz ...

Estou preocupado: a andarem a esta velocidade, um dia destes os anos ainda são apanhados pelo radar e ... ficam sem carta!

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Balanço 2025

A rotina determina ( e cada vez se nota mais) o ciclo das horas, dos dias, das noites, dos meses e até dos anos. Em resumo: manda na vida e cada vez mais impõe a sua vontade.

São raras (e muitas vezes enervantes) as excepções, precedidas sempre dessa dúvida "metódica": "e se ...".

As leituras fazem parte da rotina diária de há muitos, muitos anos e, espero, manter-se-ão por muitos mais, até que a vista e a "pinha" consigam, uma ler, e outra, entender.

O registo informático informa que, em 2025, o número de livros lidos foi ligeiramente abaixo do do ano anterior, circunstância que me deixou um pouco admirado. Será do tempo?




domingo, 4 de janeiro de 2026

Fruta

Estava "maduro" e o homem da melena, qual polícia diligente, não foi de modas: mandou-o colher, encaixotar e transportar para o frigorífico, antes que se estragasse mais. Preocupações, legítimas, com o meio ambiente ...

Aguarda-se, com expectativa, perceber se a nova "fruta" a plantar no "pomar" será verde ou podre e qual vai ser a reacção dos outros polícias, também eles diligentes, sem melena mas com "pomares" onde a "fruta" não lhes agrada muito.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Livros (lidos ou em vias disso)

"(...) A águia ouviu o relato do falcão sobre a necessidade de introduzir as artes e as ciências na herdade e não compreendeu de imediato. Pôs-se a grasnar e a raspar com as unhas, e os seus olhos, como seixos polidos, tornavam-se lustrosos ao sol.

Nunca tinha lido nenhum jornal; não se interessava nem por Baba-Iagá, nem por bruxas, e sobre o rouxinol somente tinha ouvido uma coisa: era um pássaro pequeno e não valia a pena sujar o bico por sua causa.

- Se calhar nem sabes que o Bonaparte morreu - disse o falcão.

- Quem é esse Bonaparte?

- Aí está. Não te faria mal saberes isso. Os convidados vão chegar, conversar e dizer: <<Isso ocorreu nos tempos de Bonaparte>>, e tu vais simplesmente pestanejar. Não é bom.

O mocho foi convocado para a assembleia e acabou por confirmar a necessidade de introdução das ciências e das artes entre a criadagem, pois com elas até as águias têm uma vida mais divertida - e atribuem inclusive um certo estatuto. A aprendizagem é luz e a ignorância são trevas. Cada um é capaz de encher o papo e dormir, mas quando chega a altura de resolver o <<Voava um bando de gansos ...>>, quem será capaz de responder? Antigamente, acontecia que os senhores de terras sábios trocavam dois analfabetos por um instruído: significa que nisso havia proveito. Olhem para o lugre: é todo ele ciência, sendo até capaz de trazer o baldinho com a água, mas quanto dinheiro não cobra por isso!

- A mim, apelidaram-me de sábio porque consigo ver na escuridão - disse o mocho. - E tu és capaz de olhar para o sol horas a fio sem pestanejar, mas sobre ti dizem: <<A águia é ágil mas papalva.>>

- Bem, não tenho nada a opor às ciências! grasnou a águia.

Dito e feito. No dia seguinte, na casa da águia começou a Idade de Ouro entre a criadagem. Os estorninhos aprendiam de cor o hino As ciências alimentam os jovens, os codornizões e os mergulhões afinavam as trombetas, os papagaios aprendiam novos truques. Os corvos foram obrigados a um imposto novo chamado <<educativo>>; para os jovens falcões e açores organizou-se o corpo de cadetes; para as corujas, os mochos e os bufos inaugurou-se a academia de ciiance e, a propósito, foram comprados Ásbuka-Kopéika para os corvos. Finalmente, o estorninho mais velho foi nomeado poeta, sob o nome de Vassili Kirilych Trediakovski, e ordenaram-lhe que se preparasse para competir com o rouxinol no dia seguinte.

Então, chegou o dia ansiado. Os recrutas foram colocados diante da águia e ordenaram-lhes que se vangloriassem.

O dom-fafe teve o maior sucesso. Em vez de uma saudação, recitou um folhetim satírico de conteúdo tão superficial que até a águia julgou ter compreendido. O dom-fafe declarou que se devia viver bem e a águia confirmou: <<Exaltamente!>> Disse que só lhe interessava que as suas vendas a retalho corressem de feição, e quanto ao resto pouco lhe importava, e a águia confirmou: <<Exaltamente!>> Acrescentou ainda que os criados vivem melhor do que o proprietário, porque o proprietário tem de pensar em tudo, enquanto os criados não têm nenhuma preocupação com o seu amo, e a águia confirmou: <<Exaltamente!>> Disse que, antigamente, quando tinha vergonha, o dinheiro não lhe chegava para comprar calças, e agora que não lhe sobra um pingo de vergonha, anda com dois pares de calças ao mesmo tempo, e a águia confirmou: <<Exaltamente!>> Por fim, o dom-fafe tornou-se enfadonho. (...)"

A águia-mecenas
Mikhaíl Saltykóv-Shchedrín (1884)
Antologia de contos satíricos e humorísticos russos
Colecção de Ricardo Araújo Pereira
Tinta da China (2025)