terça-feira, 5 de maio de 2026

Português

Numa época em que, em profusão, se ouvem atentados à nossa língua "mascarados" de erudição e conhecimento, nada melhor do que ir à estante e pegar num livro antigo, na data, na edição e na beleza.

Foi como poeta que conquistou um lugar cimeiro entre os falantes da língua portuguesa em todo o mundo. A sua modéstia e a "mesquinhez da outra senhora" impediram voos bem mais largos. Também na prosa se revelou enorme, dando-nos livros maravilhosos, dos Bichos à Vindima, do qual se deixa um belíssimo excerto.

"(...) Quando a noite caiu sobre a Cavadinha, espessa e desolada, é que a ausência de Alberto passou a ser um pesadelo.

- Aconteceu-lhe alguma coisa! Ah, isso é que aconteceu! ... - era agora o estribilho da D. Maria Jorge.

Por debaixo da crosta insensível e ressequida, o instinto de mãe irrompia ansioso e vaticinador.

- Que é que lhe havia de acontecer?! - iludia-se o Lopes, a querer ter mão em mais desgraças. - Apanhou uma carga de água, e está-se a enxugar em qualquer parte. Mas há-de ouvir-me! ...

Dizia isto sem convicção nenhuma, apenas para sossegar a mulher e não acordar as forças do mal que tão obstinadamente o perseguiam.

- Não costuma demorar-se tanto ... De mais a mais num dia destes, sabendo que a gente está aqui aflita ... 

Foi ainda a Gertrudes que deu a resposta decidida a estas reticências:

 - O menino, se não veio até agora, já não vem!

A afirmação tinha tal dureza e tal verosimilhança, que o Lopes assanhou-se de indignação:

- Tu não me faças perder a cabeça, rapariga! Cala-te de uma vez!

Toda a tarde a criada resmungara a pedir socorro para o rapaz. E o Lopes, ao verificar que teria sido melhor mandar procurar o filho a tempo e horas, reagia com violência, sem querer reconhecer o erro.

- Não vem! E nós havemos de ver!

Forte na dedicação, segura nas conjecturas, a moça não se dobrava aos berros do patrão. E este acabou por ceder, numa resposta contemporizadora:

- Tu não estás mais aflita do que nós. Por isso ...

Não era, porém, com frases que a nuvem pesada se desfazia.

- E se mandássemos alguém a Vilela saber se o tinham visto? - propôs a D. Maria Jorge.

- Pode ir. Mas é tolice. Antes de o portador lá chegar, já ele cá está ...

Tentava iludir-se e iludir o destino.

- Deus te ouvisse ...

Pressurosa, a Gertrudes saiu a chamar dois homens à cardenha, e acompanhou-os até ao fim do terreiro a recomendar-lhes pressa e zelo. Naquela incerteza, o seu coração feminino era uma dobadoira de ternura.

- Se eu fosse mulher, ia também! (...)"

Vindima
Miguel Torga
Coimbra (1997)

domingo, 3 de maio de 2026

Tecnologias e dependências

Sentou-se na cadeira indicada no bilhete, verificando a correcção antes. Era ali, sem dúvida. Telemóvel na mão, a companheira sentada na cadeira ao lado, cenho franzido, nenhuma outra manifestação de prazer ou repulsa.

Acabadinho de aliviar as pernas, o indicador começou a percorrer o ecran e, com som ou sem ele, os sorrisos passaram a suceder-se. As luzes, intermitentes, davam sinal de que o início do espectáculo estava para breve. E a voz off  avisava:

- O espectáculo vai começar dentro de momentos. Por favor, desliguem os telemóveis. É proibido fotografar ou gravar. Bom concerto.

A ordem era inequívoca, mas o aparelho continuou na mão. Vai desligar quando a música começar, pensei. Não aconteceu. Mexi-me na cadeira, deitei descaradamente os mirones. Nenhuma reacção. E o scroll continuava, apesar de a música ser contagiante e apelativa. Tudo na mesma, como a lesma. Impassível na cadeira, nem uma única vez bateu palmas. A companheira, ao lado, ainda ia aquecendo as mãos, de vez em quando. No final, o público aplaudiu de pé, pediu mais, acentuou os aplausos até obter a confirmação de que ainda havia, pelo menos, mais uma.

Permaneceu impassível. Continuou os movimentos com o dedinho e sorria de satisfação.

O "artista", seguramente com mais de 50 anos, assistiu com este desinteresse a um excelente espectáculo musical, integrado no 29º. Festival de Jazz do Valado

Comprou bilhete para quê? Podia ter ficado em casa e dava lugar a outro ... 

sexta-feira, 1 de maio de 2026

Dia do Trabalhador

Comemoração? Nada melhor do que o "retrato" desse trabalhador incansável que, vinte e quatro horas por dia (mais a noite, diria ele) não se cansa de contribuir para a melhoria do (seu) mundo.

A arte de António, no Expresso de hoje!

quinta-feira, 30 de abril de 2026

Lixos

Há um caixote a cinquenta, sessenta metros, se tanto. Uma embalagem de papel onde deve ter estado um hamburguer da marca famosa. Ao lado, um recipiente de yogurt, duas garrafas de cerveja, uma de litro e outra média.

Generalizo: as pessoas são tão porcas!

A senhora deita um papel para o chão.

- Deixou cair um papel ...

- Não tem importância. É lixo!

- Mas não custa nada apanhar e pôr ali no caixote.

- Quem quiser que apanhe. Era o que faltava!

E seguiu a sua vidinha, que o tempo urge ...

 Talvez na próxima geração ...

quarta-feira, 29 de abril de 2026

sábado, 25 de abril de 2026

Liberdade


UMA LIÇÃO DE SOLDADO

Ó meu alferes?!
Porra, isso é um suicídio!
Não se brinca com as nossas vidas!
Já viu meu alferes
que podemos lerpar
quase no fim desta merda?! ...
Desculpe mas isso é inconsciência!
Quase no fim desta porcaria
sem mortos
e ir meia dúzia d'homens por aí fora

... E se rebentamos uma "marmita"?

Não, meu alferes
tenha paciência!

Aquele soldado Taborda
era lixado
sempre a refilar
a contestar
a apontar.
E tinha quase sempre razão!
(Hoje reconheço que a teve sempre)
- Só na bisca de nove
nem sempre levava a melhor


APELO                                                               

Que tudo quanto vimos                                        
Que tudo quanto vivemos                                    
Que tudo quanto agredimos                                
Que tudo quanto sofremos

Se grite bem alto
aos quatro ventos
para que o Povo acorde

e todos nos libertemos!

Trinta facadas de raiva
Capitão Calvinho
Edição da ADFA (1976)

quinta-feira, 23 de abril de 2026

Dia Mundial do Livro

Ler é uma das actividades que (ainda) vou conseguindo desenvolver. E sempre com muito prazer!

Comecei a ler bem menino, à custa da paciência da minha irmã, três anos mais antiga, que, nessa altura, iniciou a "profissão" à qual, alguns anos mais tarde, haveria de retirar as aspas. Descobrir o que os livros da escola diziam naquele amontoado de "hieróglifos" era uma aventura. Ouvir quem já sabia causava uma inveja medonha e obrigava a um esforço para memorizar e "ler" sem ainda perceber o que estava impresso. Lembro a história dos bois do Geirinhas (livro da 3ª. classe?) que, trocados, não conseguiam ou não queriam puxar o carro, por mais que o dono insistisse. Foi decorada na totalidade antes ainda de saber juntar as letras ou soletrar palavras.

Depois, o Jornal de Notícias, - enorme, que entrava em casa com alguma regularidade e era lido no chão da cozinha, de joelhos-, proporcionou alguma abertura sobre o que ia acontecendo no país e no mundo e que a censura autorizava saber. Vem dessa época e desse grande jornal o gosto pelo cartoon pelas Palavras Cruzadas que ainda hoje conservo.

Não faço ideia de quantos livros já li. Foram, e continuam a ser, muitos. Mesmo quando já se conhece o autor, até já se leu uma crítica ou o resumo, ler o livro é sempre uma aventura entusiasmante: colocar-se do lado de lá, tentar perceber o que o autor escondeu, o significado da palavra, a metáfora contida na frase é, ao mesmo tempo, um desafio e um prazer enormes.

Os livros estão caros, mas o "vício" de comprar até isso ultrapassa. Hoje, a caixa do correio electrónico foi inundada de descontos oferecidos pelas editoras. Não cedi. Lá para o dia 25, como é costume, vão aparecer mais alguns ... e cada vez há menos espaço!

terça-feira, 21 de abril de 2026

Livros (lidos ou em vias disso)

Desmond Morris tinha 98 anos - bonita idade - e faleceu no passado dia 19. A notícia da sua morte só hoje "apareceu" nas minhas fontes, que não passam pelas redes ditas sociais, sempre tão actualizadas. Ainda sou um teimoso dos jornais ...

Fui à procura de "O Macaco Nu", livro já "arquivado" na secção dos "antigos". Se a memória não me trai, foi o primeiro que comprei com as parcas poupanças que os "altos" rendimentos do trabalho permitiam. Edição do Círculo de Leitores, cujos divulgadores, na época, batiam às portas, entregando a revista com os (muitos) livros editados e procurando vender, ao menos, um livrinho, pago em três vezes e que seria recebido no segundo mês.

Abri "ao calhas" e não resisti a deixar uma breve transcrição, em memória de quem, na época, se dedicava ao estudo das diferenças entre os macacos e os humanos. Hoje, Desmond Morris teria muita dificuldade em atribuir a qualidade de humano a alguns "macacões" que por aí pululam.

"(...) Os primeiros desenhos e pinturas, tanto no chimpanzé como na criança, nada têm que ver com comunicação. São actos de descoberta, de invenção, de experimentação das possibilidades da variabilidade gráfica. São actos de pintura, e não <<transmissões>>. Não exigiam recompensa, visto que constituíam só por si a recompensa - tratava-se de brincar por brincar. Contudo, como tantos outros aspectos das brincadeiras infantis, vão adquirir rapidamente as características dos actos dos adultos. A comunicação social vai produzir os seus efeitos, perdendo-se a inventiva original, a emoção pura de <<viver uma aventura a partir de um risco>>. A maioria dos adultos apenas deixa transparecer este acto inventivo através das garatujas inconscientes com que por vezes se entretêm. (O que não quer dizer que deixaram de ser inventivos, mas apenas que o campo da invenção se deslocou para a esfera mais complicada da tecnologia.)

Felizmente para a arte exploratória da pintura e do desenho, existem hoje técnicas muito mais eficazes de reproduzir as imagens do meio ambiente. (...)"

O Macaco Nu
Desmond Morris
Círculo de Leitores (1967)

domingo, 19 de abril de 2026

Óbidos e os livros

Está a decorrer em Óbidos - termina hoje - mais um evento dedicado aos livros, desta vez com enfoque na literatura de viagens: o Latitudes - Literatura & Viajantes.

Ontem, aproveitando um pouco do pouco tempo livre, a visita a Óbidos aconteceu, no meio de muita, muita gente que quase não usufrui da beleza e do sossego da bela vila medieval, limitando-se a galgar a Rua Direita, beber uma ginginha em cálice de chocolate e comprar um "bonequinho" para o frigorífico.

Como em todos os festivais literários, não foi, nunca é, possível assistir a todas as conversas, eventos, apresentações, mas o tempo foi bem aproveitado. Em quatro locais diferentes, tão agradáveis quanto inesperados, o actor Pedro Lamares disse poesia como muito bem sabe e mostrou aos que o ouviram um conjunto de poetas que, entre muitos outros, marcam a qualidade da nossa poesia. E como a poesia ainda se torna mais bela quando é bem dita! 

De Camões a Pessoa, passando por Al Berto, Nemésio, Herberto, O'Neill ou Natália, foi a esta última que coube o encerramento com dois poemas que fazem parte do "acervo" deste blogue: O coito do Morgado e A defesa do poeta.

sexta-feira, 17 de abril de 2026

Fúria épica

Se dúvidas houvera, ficaram definitivamente esclarecidas: o homem da melena é quem determina e ... como se dizia (ainda se dirá?) na tropa, manda publicar! E a Companhia tinha de ficar em sentido!

O Irão anunciou que iria reabrir o estreito de Ormuz e o manda-chuva apressou-se a publicar na sua rede "social" que isso só era feito por ter sido por ele ordenado e nas condições que, ele mesmo, tinha fixado; o Papa Leão XIV, americano, resolveu, no âmbito da sua actividade religiosa, opinar sobre o mundo que é de todos: se estivesse "à mão de semear", o chefe ter-lhe-ia dado umas "nalgadas" para aprender a ser submisso; a NATO não aceitou meter-se na guerra e recebeu um sério aviso para entrar na linha, sob pena de deixar de comer à mesa.

Enquanto tudo isto acontece, por mais inverosímil que possa parecer, na Ucrânia, no Médio Oriente, em África, todos os dias morre gente, muitos ficam sem casa, muitos outros fogem para nenhures, enquanto alguns enriquecem e outros fazem reuniões para definir estratégias ...

É o mundo dos loucos no seu esplendor!