10 Novembro 2009

Palavras bonitas

IMPRESSÃO DIGITAL

Os meus olhos são uns olhos.
E é com esses olhos uns
que eu vejo no mundo escolhos
onde outros, com outros olhos,
não vêem escolhos nenhuns.

Quem diz escolhos diz flores.
De tudo o mesmo se diz.
Onde uns vêem luto e dores
uns outros descobrem cores
do mais formoso matiz.

Nas ruas ou nas estradas
onde passa tanta gente,
uns vêem pedras pisadas,
mas outros, gnomos e fadas
num halo resplandecente.

Inútil seguir vizinhos,
querer ser depois ou ser antes.
Cada um é seus caminhos.
Onde Sancho vê moinhos
D. Quixote vê gigantes.

Vê moinhos? São moinhos.
Vê gigantes? São gigantes.
António Gedeão
Movimento perpétuo

27 Outubro 2009

Terça-feira

Hoje apeteceu-me procurar isto no Youtube ... e havia!

25 Outubro 2009

Mobilidade

O "fotógrafo" passou por lá e registou... na Rua Ilídio Amado, junto ao Centro de Artes, local aprazível, que convida ao passeio, à meditação e que, nesta altura, tem medronhos muito saborosos, uma paragem do TOMA, que ocupa o passeio e mal deixa espaço para a passagem de uma pessoa. Carrinhos de bébé e cadeiras de rodas terão de utilizar a estrada, com os perigos e os inconvenientes que daí decorrem.

Para corrigir, teria sido suficiente recuar dois metros e eliminar um dos lugares do estacionamento, que raramente estão ocupados.

A (in)sensibilidade a marcar pontos!


18 Outubro 2009

Domingo de Outono


Não há vento, o sol pinta o mar de verde esmeralda (ou será azul marinho?), as ondas da maré vazia espraiam na areia, quase pedindo desculpa por a molestarem. É a Foz no seu melhor ... mas estamos em meados de Outubro!

Linda manhã!

E que bem que soube o mergulho e as braçadas no Atlântico com temperatura de Julho.

Refrescaram-se as ideias, esqueceram-se os problemas, leram-se uma páginas, passeou-se na areia e ouviu-se a "sinfonia marítima", no sossego de uma sala quase sem espectadores.

17 Outubro 2009

Palavras bonitas

DEPOIMENTO

Deponho no processo do meu crime.
(Sou testemunha
E réu
E vítima
E juiz).
Juro
Que havia um muro,
E na face do muro uma palavra a giz.
Merda ! - lembro-me bem.
- Crianças ... - disse alguém
Que ia a passar.
Mas voltei novamente a soletrar
O vocábulo indecente,
E de repente,
Como quem adivinha,
Numa tristeza já de penitente,
Vi que a letra era minha ...
Miguel Torga
Câmara Ardente

05 Outubro 2009

Coincidências



Não serve de desculpa para a ausência do Blog, mas (também eu) estou a ler o 2666, ainda que há muito pouco tempo.
Das 1030 páginas, li pouco mais de 100! A empreitada pressupõe tempo e paciência ... espero que compense!
"Que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar? " está na fila, mas, para este, é preciso, para além do tempo, que os níveis de concentração voltem ao normal e que a "pinha" esteja desocupada.
Voltando ao 2666: peguei-lhe há pouco, aproveitando um pequeno espaço, e deparei com a descrição que abaixo reproduzo a qual, pasme-se, versa um assunto que tinha sido tema na conversa de hoje em casa do meu neto.
"(...) Durante muito tempo esqueceram-se das suas viagens semanais a Londres. Esqueceram-se de Pritchard e da Górgona. Esqueceram-se de Archimboldi, cujo prestígio crescia à margem deles. Esqueceram-se dos seus trabalhos, que escreviam de forma rotineira e desabrida e que mais do que trabalhos seus eram dos seus discípulos ou de professores auxiliares dos seus respectivos departamentos recrutados para a causa archimboldiana à base de vagas promessas de contratos como efectivos ou aumentos de salário.(...)

23 Setembro 2009

Mensagem

É neste mar que me vejo e sinto ... a navegar todos os dias.

08 Setembro 2009

Momentos

Quando a vontade de ler se desvanece, quando a concentração se dispersa, quando o ouvido é massacrado de "barbaridades" sem nexo, "marketizando" o que devia ser sério, com meias verdades a ilustrarem as realidades, o folclore demagógico servido na bandeja da propaganda, coloco no aparelho o CD "Longe daqui", de Pedro Barroso, pego em Torga e "desapareço".
"(...) Tropeçar? Não aguentar a carga? Se fosse apenas isso! Embora pessimamente dormido e com a barriga vazia, nem as pernas lhe quebravam às primeiras, nem três sacos de centeio lhe faziam mossa. Os aborrecimentos que temia eram doutra natureza ... Qualquer encontro desagradável, por exemplo ...
Nem de propósito! Ele a pensar no mal, e a ponta de um uivo tenebroso a furar-lhe os ouvidos.
Um arrepio fundo percorreu-lhe o corpo. E, a seguir, todo ele ficou hirto, frio, pregado ao chão, num pânico mortal. Obra de um segundo, apenas. O justo tempo de a arreata ficar esticada entre a mão que a segurava e o argolão do cabresto. É que reagiu logo. Que diabo! Ia ali quem o defendesse ... Não havia razão para um terror assim!
Mas o dono, enigmaticamente, recuava. Aos poucos, encurtava os passos e chegava-se ao seu bafo. Mau! ...
Novo uivo, quase sobre eles, fendeu a noite. E ambos, agora como se fossem um só, de tão cingidos, se puseram a pisar o chão ao de leve, encolhidos no bioco da noite, com a respiração suspensa.(...)"
Miguel Torga
Bichos
Morgado

01 Setembro 2009

Palavras bonitas

Para o meu filho, que hoje fez 28 anos, a poesia e o mar ... da Foz!


E POR VEZES

E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos

David Mourão-Ferreira
Obra Poética

25 Agosto 2009

Falésia

São Rafael - Algarve
Verão de 2009