sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Livros (lidos ou em vias disso)

Amanhã é dia de reflexão, não sendo legalmente possível falar sobre o acto eleitoral que decorrerá Domingo, dia 18. Por isso e por ser Dia de Santo Antão, deve ser, entre uns chouriços na brasa, umas entremeadas e umas febras regadas com um bom tinto, dedicado à colocação de todas as cartas na mesa, à arrumação das ideias e ao vislumbre, difícil, de qual seja a melhor solução. Ou talvez, ainda mais clarinho, aquilo que nunca será solução e deve ser deixado à "meia dúzia" de tontos que acham ser fundamental voltar ao antanho.

Para ajudar a reflectir, a opinião de quem escreve sobre o mundo miserável que se mantém e comunga da opinião de que "para trás, mija a burra!".

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"(...) Todas as noites, Obinze saía do trabalho coberto por uma poeira química branca. Partículas arenosas alojavam-se-lhe nos ouvidos. Tentava não inspirar demasiado fundo enquanto limpava, preocupado com os perigos que flutuavam no ar, até o gerente lhe dizer que ia ser despedido devido a uma redução de pessoal. O emprego seguinte foi uma substituição temporária numa empresa que fazia entregas de cozinhas, semana após semana sentado ao lado de condutores brancos que lhe chamavam <<moço>>, estaleiros de construção civil cheios de ruídos e de capacetes, subir muitos degraus a carregar pranchas de madeira, sem ajuda e sem reconhecimento. No silêncio em que conduziam e no tom em que diziam <<moço!>> Obinze sentia a inimizade dos condutores. Uma vez, quando tropeçou e caiu de joelhos, uma queda tão forte que foi a coxear para o camião, o condutor disse aos outros no armazém: <<O joelho dele mais preto não pode ficar!>> Riram-se. A hostilidade deles incomodava-o, mas só ligeiramente; o que importava era que ganhava quatro libras à hora, mais com as horas extra, e quando foi mandado para um novo armazém de entregas em West Thurrock, sentiu-se preocupado por poder deixar de ter oportunidades de trabalhar horas extra.

O chefe do novo armazém tinha o aspeto do típico inglês que Obinze imaginava, um homem alto e enxuto, com o cabelo ruivo e olhos azuis. Mas era um homem sorridente e, na imaginação de Obinze, os homens ingleses não eram sorridentes. Chamava-se Roy Snell. Deu um vigoroso aperto de mão a Obinze.

- Então, Vincent, és de África? - perguntou, enquanto conduzia Obinze numa visita ao armazém, que era do tamanho de um campo de futebol, muito maior do que o anterior, e estava cheio de camiões a serem carregados, de caixas de cartão espalmadas a serem dobradas e metidas num buraco fundo, de homens a conversarem.

- Sou! (...)"

Americanah
Chimamanda Ngozi Adichie
D. Quixote (2025)

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Contado ... ninguém acredita

Só faltava esta!

Um candidato, apenas e só um candidato embora se arvore em representante de Deus na terra, resolveu "fardar-se" de militar, antecipando o cargo de Comandante Supremo das Forças Armadas que lhe estará reservado ... se for eleito. Nessa figurinha, debitou alarvidades às massas sedentas de o ouvirem e que lhe acenaram a cabeça como o bonequinho chinês.

Para a palhaçada (desculpem-me os palhaços) ser completa, vistosa e apelativa, faltou-lhe colocar o quico na pinha, a G3 no ombro e as botas, antigas, nos presuntos. Ficaria, assim, em excelentes condições para aprender a marchar, com uma hora de "ordem unida". De seguida, rastejaria por debaixo do arame farpado, faria uma corridinha no pórtico e um salto na paliçada, sempre com a G3 nas mãos, no regaço ou a tiracolo. Para terminar, atravessaria a manilha de esgoto, de preferência cheia, garantindo que a G3 não se sujaria. 

Chegava ... para primeiro dia. Outros se seguiriam, durante três meses, para aprender a ter maneiras.

E parece que isto vai à segunda volta!

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Pasmaceira

Esforço-me e não consigo!

Sinais dos tempos, aos quais não é fácil habituar quem já viveu muito, esperou bastante, ambicionou sempre melhor e, agora, tem a convicção de que isto não vai dar certo. Oxalá esteja equivocado!

A campanha para as presidenciais faz lembrar aquele dito que surge sempre que, num colóquio de anedotas, estas deslizam para uma linguagem mais desbragada:

- A conversa está a descer de nível mas a subir de interesse!

Pensando melhor, é verdade que desce de nível todos os dias. Todavia, interesse, não tem nenhum!

Domingo, todos(?) caminharemos para as salas onde se colocará a cruz da resposta de cada um, como nos "testes americanos" de agora. Saberão a matéria? Os "professores" foram claros nas explicações?

Não descortino nada de jeito. Defeito meu ...

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Expresso

Lembro-me bem do número 1!

Era um jovem, em vésperas de ingressar no serviço militar obrigatório e, naquele sábado de 1973 (6 de Janeiro) cumpri o ritual de mais um dia de trabalho - a semana tinha seis dias. Fui ao Banco Lisboa & Açores (os bancos estavam abertos ao sábado de manhã), ali na Rua das Montras, cumprimentei o Sr. Mendonça, entreguei os cheques (o Multibanco nem em sonhos) e recebi o dinheiro necessário ao pagamento das jornas, com variedade de notas e moedas para que fosse possível pagar certinho o "enorme" salário semanal a cada um dos jornaleiros da quinta.

Não recordo se estava frio ou chuva. Nesse tempo, as condições climatéricas não incomodavam nem impediam nada. Olha agora ...

Depois do banco e antes do regresso ao escritório, passei pela Jornália, pesquisei no fundo do bolso, retirei a moeda de 5$00 e comprei aquele jornal novo, enorme, com uma manchete bem sugestiva e premonitória: "63% dos portugueses nunca votaram". Eu era um deles ...

O hábito, ou o vício, nunca mais se perdeu. Hoje, como sempre, comprei o exemplar desta semana, mantendo-me fiel ao papel - velho teimoso!

O jornal tem muitas diferenças: custou 5,50 € (em 1973 seriam mais de 1.100 escudos ou, utilizando a linguagem da época, mais de um conto e cem); as páginas já não são tão grandes, mas o peso é bastante superior; vem num saco de papel, que dá muito jeito, e a tinta já não suja as mãos; nesta semana (e nas próximas três) traz uma antologia da Lírica de Camões, fazendo jus às preocupações culturais que sempre teve e mantém.

E, na página 3, lá surge mais um brilhante "retrato" saído das mãos de António:

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Calendário

Janeiro fora, cresce uma hora! E quem bem procurar, hora e meia há-de encontrar.

Confirma-se. Apesar das nuvens, do frio, da chuva e da neve, esta por outras bandas que não estas, já se nota bem que os dias estão a crescer. E isso é bom! Há menos tempo com as luzes acesas (poupança de energia), o dia rende mais (produtividade aumenta), aquele nervosinho do "bolas, já é de noite" surge mais tarde (melhor disposição) e, finalmente, aqueles que ainda trabalham e têm horários mais ou menos decentes, poderão sair do emprego ainda a tempo de ver o Sol, se ele, teimoso, não se esconder.

Cheira a Carnaval! Não aquele a que se vai assistindo na campanha nem o outro que se vai desenrolando lá pelos States, mas sim o que surgirá daqui a pouco mais de um mês - 17 de Fevereiro e, de novo, à terça-feira.

Caminhamos a passos largos para mais uns mergulhos na Foz ...

Estou preocupado: a andarem a esta velocidade, um dia destes os anos ainda são apanhados pelo radar e ... ficam sem carta!

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Balanço 2025

A rotina determina ( e cada vez se nota mais) o ciclo das horas, dos dias, das noites, dos meses e até dos anos. Em resumo: manda na vida e cada vez mais impõe a sua vontade.

São raras (e muitas vezes enervantes) as excepções, precedidas sempre dessa dúvida "metódica": "e se ...".

As leituras fazem parte da rotina diária de há muitos, muitos anos e, espero, manter-se-ão por muitos mais, até que a vista e a "pinha" consigam, uma ler, e outra, entender.

O registo informático informa que, em 2025, o número de livros lidos foi ligeiramente abaixo do do ano anterior, circunstância que me deixou um pouco admirado. Será do tempo?




domingo, 4 de janeiro de 2026

Fruta

Estava "maduro" e o homem da melena, qual polícia diligente, não foi de modas: mandou-o colher, encaixotar e transportar para o frigorífico, antes que se estragasse mais. Preocupações, legítimas, com o meio ambiente ...

Aguarda-se, com expectativa, perceber se a nova "fruta" a plantar no "pomar" será verde ou podre e qual vai ser a reacção dos outros polícias, também eles diligentes, sem melena mas com "pomares" onde a "fruta" não lhes agrada muito.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Livros (lidos ou em vias disso)

"(...) A águia ouviu o relato do falcão sobre a necessidade de introduzir as artes e as ciências na herdade e não compreendeu de imediato. Pôs-se a grasnar e a raspar com as unhas, e os seus olhos, como seixos polidos, tornavam-se lustrosos ao sol.

Nunca tinha lido nenhum jornal; não se interessava nem por Baba-Iagá, nem por bruxas, e sobre o rouxinol somente tinha ouvido uma coisa: era um pássaro pequeno e não valia a pena sujar o bico por sua causa.

- Se calhar nem sabes que o Bonaparte morreu - disse o falcão.

- Quem é esse Bonaparte?

- Aí está. Não te faria mal saberes isso. Os convidados vão chegar, conversar e dizer: <<Isso ocorreu nos tempos de Bonaparte>>, e tu vais simplesmente pestanejar. Não é bom.

O mocho foi convocado para a assembleia e acabou por confirmar a necessidade de introdução das ciências e das artes entre a criadagem, pois com elas até as águias têm uma vida mais divertida - e atribuem inclusive um certo estatuto. A aprendizagem é luz e a ignorância são trevas. Cada um é capaz de encher o papo e dormir, mas quando chega a altura de resolver o <<Voava um bando de gansos ...>>, quem será capaz de responder? Antigamente, acontecia que os senhores de terras sábios trocavam dois analfabetos por um instruído: significa que nisso havia proveito. Olhem para o lugre: é todo ele ciência, sendo até capaz de trazer o baldinho com a água, mas quanto dinheiro não cobra por isso!

- A mim, apelidaram-me de sábio porque consigo ver na escuridão - disse o mocho. - E tu és capaz de olhar para o sol horas a fio sem pestanejar, mas sobre ti dizem: <<A águia é ágil mas papalva.>>

- Bem, não tenho nada a opor às ciências! grasnou a águia.

Dito e feito. No dia seguinte, na casa da águia começou a Idade de Ouro entre a criadagem. Os estorninhos aprendiam de cor o hino As ciências alimentam os jovens, os codornizões e os mergulhões afinavam as trombetas, os papagaios aprendiam novos truques. Os corvos foram obrigados a um imposto novo chamado <<educativo>>; para os jovens falcões e açores organizou-se o corpo de cadetes; para as corujas, os mochos e os bufos inaugurou-se a academia de ciiance e, a propósito, foram comprados Ásbuka-Kopéika para os corvos. Finalmente, o estorninho mais velho foi nomeado poeta, sob o nome de Vassili Kirilych Trediakovski, e ordenaram-lhe que se preparasse para competir com o rouxinol no dia seguinte.

Então, chegou o dia ansiado. Os recrutas foram colocados diante da águia e ordenaram-lhes que se vangloriassem.

O dom-fafe teve o maior sucesso. Em vez de uma saudação, recitou um folhetim satírico de conteúdo tão superficial que até a águia julgou ter compreendido. O dom-fafe declarou que se devia viver bem e a águia confirmou: <<Exaltamente!>> Disse que só lhe interessava que as suas vendas a retalho corressem de feição, e quanto ao resto pouco lhe importava, e a águia confirmou: <<Exaltamente!>> Acrescentou ainda que os criados vivem melhor do que o proprietário, porque o proprietário tem de pensar em tudo, enquanto os criados não têm nenhuma preocupação com o seu amo, e a águia confirmou: <<Exaltamente!>> Disse que, antigamente, quando tinha vergonha, o dinheiro não lhe chegava para comprar calças, e agora que não lhe sobra um pingo de vergonha, anda com dois pares de calças ao mesmo tempo, e a águia confirmou: <<Exaltamente!>> Por fim, o dom-fafe tornou-se enfadonho. (...)"

A águia-mecenas
Mikhaíl Saltykóv-Shchedrín (1884)
Antologia de contos satíricos e humorísticos russos
Colecção de Ricardo Araújo Pereira
Tinta da China (2025)

quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Vai um, chega outro

Como sempre - já lá vão tantos que se tornou rotina - está a chegar ao fim mais um ano que, como todos os outros, teve 52 semanas, doze meses e "só" 365 dias. 

Comidas as doze passas, surgirá o neófito, de imediato laureado com taças, vivas, tampas a bater, abraços, beijinhos, votos exacerbados, foguetes e fogo de artifício, rogos de melhores dias, apelos sentidos para a vinda da paz em todo o mundo.

Apesar de tudo ser efémero, vale a pena manter não só as tradições como os votos que sempre nos alertam para a necessária melhoria que, muitas vezes, parece tão distante ...

domingo, 28 de dezembro de 2025

Coisas da idade

Com menos frio, céu quase azul e sem vento, o último domingo de 2025 prepara-se para encerrar a semana natalícia, sem alterações à rotineira, cíclica e repetitiva jornada dos dias que se sucedem, como sempre.

A evidência do parágrafo anterior é tal que será muito difícil encontrar um único ser humano neste mundo globalizado que a não pudesse ter escrito, registando a patente nos anais das máximas de "encher chouriços". E por lá ficaria muito bem, fazendo parelha com as muitas que, todos os dias, os nossos ouvidos apanham, mesmo não o querendo e muito menos desejando.

Vem a propósito, ou talvez não, essa moda nova de atender e falar ao telemóvel em alta voz, divulgando aos quatro ventos conversas que, em princípio, pareceriam merecedoras de alguma reserva ou, até, de conteúdo altamente privado.

Não bastava ouvir, em qualquer lado, o "nosso" companheiro de caminho, de sala de espera, de restaurante ou, por vezes, até de sala de espectáculo, quanto mais agora ter passado a ser chiquérrimo gramar o seu interlocutor, respondendo ou questionando, num diálogo aberto, barulhento, incomodativo e, sempre, sem qualquer interesse para quem nem sequer foi ouvido sobre a participação no acto em si.

- Ouve-se bem melhor assim!

Pois ... não seria melhor comprarem o aparelhinho do Goucha?